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Lições de gramática Semântica

solução de continuidade

Prezado Prof. Moreno: seguindo sua orientação, serei breve: qual o significado e como empregar a expressão solução de continuidade? O Aurélio fala em separação, mas não exemplifica! Desde já agradeço a atenção dispensada.

Tatiana M. — Blumenau (SC)

Minha cara Tatiana: solução de continuidade significa “interrupção”, isto é, a continuidade foi “dissolvida”. Este é o sentido aqui de solução, o mesmo que temos em solução aquosa; não se trata da solução que vem do verbo resolver, que vais encontrar na “solução de um problema”. Por exemplo, é indispensável criar escolas de emergência na região assolada pelas enchentes, para que a educação das crianças não sofra solução de continuidade, isto é, não seja interrompida. Esta é uma daquelas expressões que, a meu ver, tornou-se completamente inútil, na medida em que as pessoas a entendem das mais diferentes maneiras. Abraço. Prof. Moreno

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Etimologia e curiosidades Origem das palavras

as palavras e as cores

Diz o velho provérbio que cores e gostos não se discutem: enquanto no Ocidente a cor do luto é o preto ou o roxo, em muitos países do Oriente é o branco que tem este valor. Nossas noivas ainda se vestem de branco, mas na Índia elas preferem o vermelho, na Noruega elas casam de verde. No que se refere ao mundo das cores, cada povo difere dos demais nas suas preferências, nas combinações que valoriza e no simbolismo que a elas atribui; é natural, portanto, que as expressões que usam os nomes das cores não possam ser traduzidas literalmente de uma língua para outra. Vemos, abaixo, as principais expressões “coloridas” empregadas no nosso idioma.

branco — Na nossa cultura, associamos ao branco a pureza e a inocência (o vestido de noiva, a roupa do nenê no batizado, etc.), a higiene, a saúde e a limpeza (ambulâncias, hospitais), a sabedoria (os sábios da lenda sempre têm roupas e barbas brancas, os cientistas sempre usam guarda-pós); por causa do preto no branco da imprensa, esta cor também designa o que está sem marca alguma (livro em branco, cheque em branco). 

expressões com branco: a bandeira branca indica trégua; as armas brancas incluem facas, espadas e lâminas de toda espécie; se autorizo alguém a fazer tudo o que for necessário, dou-lhe carta branca; quem pratica magia branca só admite fazer o bem; na greve branca, os empregados se declaram em greve, mas continuam trabalhando; versos brancos são os que não têm rima; se não saiu premiado, é um bilhete branco; se nenhum dos candidatos da cédula foi assinalado, temos um voto em branco; posso ficar branco de medo ou de susto.

verde — O verde é a cor da esperança e, naturalmente, da natureza e da ecologia; por analogia com o crescimento dos vegetais, também simboliza a juventude. Em certos casos, contudo, pode sinalizar algo demoníaco (o monstro verde do ciúme, de Shakespeare) ou estranho (os homenzinhos que pilotam os discos-voadores são, no imaginário popular, sempre verdes, assim como os duendes). 

Expressões com verde: quem recebe sinal verde tem autorização para prosseguir; a adolescência são os saudosos verdes anos; chamamos de fruta verde toda fruta que não está madura, independentemente de sua cor verdadeira; a Amazônia foi apelidada de inferno verde pelos viajantes europeus do séc. XIX; fica-se verde de inveja (embora alguns também fiquem roxos); as verdinhas são as notas de dólares, que têm a mesma cor em todos os valores, e o pano verde designa as mesas de jogos de azar.

amarelo — É a cor, por excelência, do que precisa ser chamativo (as bolas de tênis, os botes salva-vidas, as capas de chuva de quem trabalha na estrada); está associada à luz e ao sol, ao fogo e à energia — mas também à palidez do medo e da doença. 

Expressões com amarelo: A imprensa amarela (também chamada de imprensa marrom) explora o sensacionalismo; perigo amarelo era como a contrapropaganda chamava os asiáticos (especialmente chineses e japoneses); um sorriso forçado, contrafeito, é o famoso sorriso amarelo, enquanto amarelar é se acovardar.

azul — É a cor do infinito e de tudo o que está distante (o azul do horizonte, o mar azul); por sua presença no céu, ficou associada à paz e à tranqüilidade (o azul da ONU, da Comunidade Européia; os capacetes azuis da Força de Paz). Hoje está muito ligada à água, como se vê na embalagem de qualquer água mineral. 

Expressões com azul: quem pertence à nobreza tem sangue azul; receber o bilhete azul é ser demitido; pescar na água azul é pescar fora da plataforma continental, no mar profundo; quando tudo corre bem, está tudo azul; quem se deixa seduzir pela ambição foi mordido pela mosca azul.

negro — No Ocidente, sempre foi a cor da noite, da morte e da tristeza; por ser austera, associou-se também à autoridade (basta ver as vestes dos padres e dos magistrados; até bem pouco tempo atrás, o juiz de futebol usava sempre fardamento preto). Modernamente, traz também um aspecto de elegância: os homens usam smoking e black-tie, enquanto as mulheres portam o seu “pretinho básico”. 

Expressões com negro: a magia negra, ao contrário da branca, quer sempre prejudicar alguém; na lista negra, só entram os nomes que vão ser vetados ou boicotados; a ovelha negra da família destoa do grupo por seu comportamento reprovável; o câmbio negro (assim como o mercado) era clandestino, mas já não é tão combatido, passando a ser chamado de paralelo; o ouro negro é o petróleo, e continente negro era como se chamava a África.

vermelho — Era a cor dos imperadores e da nobreza, do sangue e da paixão; hoje também está associada ao perigo (o alerta vermelho, a bandeira vermelha das praias), ao fogo (os caminhões de bombeiros, os hidrantes, os extintores de incêndio), aos partidos de esquerda e ao que precisa ser assinalado na escrita (as correções feitas pelo professor, os lançamentos negativos na contabilidade). É considerada a cor favorita das crianças, que sempre preferem balas, doces, bebidas e brinquedos nessa cor. 

Expressões com vermelho: Estender o tapete vermelho para alguém é recebê-lo com todas as pompas e honras; Marte é o planeta vermelho; um telefone vermelho é uma ligação direta entre duas autoridades; levar o cartão vermelho é ser expulso, ser mandado embora (até de um namoro); quem tem saldo devedor está no vermelho; fica vermelho quem ainda tem a capacidade de ruborizar-se.

outras cores — É pequena a sua contribuição: vê a vida cor-de-rosa quem olha a realidade com um otimismo ingênuo e exagerado; uns têm muita, outros têm pouca massa cinzenta (o cérebro); podemos ficar roxos de vergonha, de fome ou de frio; ter aquilo roxo é ter coragem para dar e vender. Por último, chamamos de vida incolor ou descolorida aquela que é vivida sem graça e sem entusiasmo. 

Depois do Acordo: tranqüilidade > tranquilidade

européia > europeia

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Etimologia e curiosidades Origem das palavras

via de regra

Caro Professor Cláudio: primeiramente meus parabéns, congratulations, voilá, aleluia! O seu site é magnífico! Por favor, gostaria de ouvir o que o senhor tem a dizer sobre a expressão via de regra. Um colega meu, atualmente em trabalhos finais de doutorado, escreveu: “Via de regra, o executivo profissional trabalha com visão de mais longo prazo…” A expressão é estranha para mim. REGRA TEM VIA? Agradeço antecipadamente sua valiosa cooperação. Você merece o prêmio de iBEST One, two and three. Saudações. 

Juraci P. 

Minha cara Juraci, muito obrigado pelos elogios e pelo entusiamo demonstrado para com o sítio Sua Língua; a gente faz o que pode e o que sabe. Quanto à tua via de regra, é parte da expressão “por via de regra”, já dicionarizada pelo Aurélio, que ameaça substituir o nosso mais conhecido em regra (“em geral”, “normalmente”). Eu não gosto da expressão; não vejo nela nenhum ganho real sobre as que já existem no idioma. Além disso, para muitos leitores ela traz uma inevitável evocação pejorativa. Como és adulta, posso referir um exemplo pouco elegante: não lembro se foi o Nélson Rodrigues ou o Millôr (sei apenas que foi uma dessas cabeças privilegiadas), mas um deles conta o combate furioso e sistemático contra a expressão “via de regra” feito por um importante editor do jornalismo carioca dos bons tempos. Quando alguém ousava empregar esta expressão no texto de alguma matéria, ele ficava apoplético e saía gritando, no meio da redação: “Eu já disse mil vezes que a via de regra é a vagina !!!” (não preciso dizer que não era bem esse o termo com que o desbocado jornalista finalizava sua frase). Por tudo isso, faz com “via de regra” o mesmo que eu: não a uses. Segue a tua intuição inicial, que te fez achar esquisita a expressão, e manda-a às urtigas. Abraço. Prof. Moreno 

P.S.: Recebi, pela volta do correio, uma colaboração oportuníssima de meu amigo Sérgio Mansur, de Belo Horizonte, leitor fiel e crítico incansável, que vem mais uma vez enriquecer o material desta página com suas observações onde jamais faltará uma ponta de ironia. Desta vez, ele nos faz o favor de identificar o jornalista que vetava o via de regra e acrescenta, com a sutileza necessária, outros detalhes picantes: 

“Ora, Moreno, a história do iracundo jornalista corre por aí há anos. Era o Carlos Lacerda. Lenda ou não, contam que ele chamava o foca, logo no primeiro dia de trabalho na Tribuna da Imprensa, e dizia: “Meu filho, neste jornal, é proibido escrever duas expressões: “via de regra” e “por outro lado“. O foca perguntava por quê, e o Lacerda dizia com todas as letras: “via de regra é… [caixinha] e por outro lado é no… [símbolo químico do cobre]”. 

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Origem das expressões Questões do momento

risco de vida

Um educado leitor escreve para estranhar que esta página utilize a expressão risco de vida, alegando que um professor de renome já corrigiu este equívoco de uma vez por todas: “É risco de morte, pois só pode correr risco de vida um morto que está em condições de ressuscitar”. Sinto dizer-te, meu polido leitor, mas não é bem assim que funciona. A experiência me ensinou a suspeitar, de antemão, de tais “descobertas” adventícias, feitas por essas autoridades que aparecem para me anunciar, com aquele olhar esgazeado do homem que viu a bomba, que eu estive cego e surdo todo esse tempo. Talvez não saibas, mas o Brasil assiste agora a uma nova safra desses Antônios Conselheiros da gramática: volta e meia, aparece um maluco disposto a reinventar a roda e a encontrar “erros” no Português que já era falado pela avó da minha bisavó e pelos demais antepassados — incultos, cultos ou cultíssimos.

O que esses fanáticos não sabem (até porque, em sua grande maioria, pouco estudo têm de Lingüística e de Gramática) é que, mesmo que a forma que eles defendem seja aceitável, a outra, que eles condenam, já existia muito antes do dia em que eles próprios vieram a este mundo para nos incomodar. Os falantes do Português sempre interpretaram esta expressão como a forma elíptica de “risco de perder a vida”. Ao longo dos séculos, todos os que a empregaram e todos os que a ouviram sabiam exatamente do que se tratava: pôr a vida em risco, arriscar a vida. Assim aparece na Corte na Aldeia, de Francisco Rodrigues Lobo; nas Décadas, de João de Barros; em Machado (“Salvar uma criança com risco da própria vida…” — Quincas Borba); em Joaquim Nabuco; em Alencar; em Coelho Neto; em Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós; na Bíblia, traduzida por João Ferreira de Almeida no séc. 17 (“Ainda que cometesse mentira a risco da minha vida, nem por isso coisa nenhuma se esconderia ao rei” – II Samuel 18:13); e assim por diante. Além disso, nossas leis falam em “gratificação por risco de vida“, o Código de Ética Médico fala de “iminente risco de vida” e o dicionário do Houaiss, no verbete “risco”, exemplifica com risco de vida. E agora, meu caro leitor? Achas mesmo que o teu renomado professor, se pudesse entrar em contato com o espírito de Machado ou de Eça, teria a coragem de dizer-lhes nas barbas que eles tinham errado durante toda a sua vida literária — e que ele estava só esperando a oportunidade para dizer o mesmo para Camilo Castelo Branco, Joaquim Nabuco e outros escritores que não tinham tido a sorte de estudar na mesma gramática em que ele estudou?

Nota, porém, que a defesa que faço do risco de vida não implica a condenação do risco de morte, que também tem seus adeptos — entre eles, o padre Manuel Bernardes e o mesmo Camilo Castelo Branco, que, nesta questão, acendia uma vela ao santo e outra ao diabo. Na maioria das vezes, seu emprego parece obedecer a um critério sutilmente diferente, pois esta forma vem freqüentemente adjetivada (risco de morte súbita, de morte precoce, de morte indigna) ou sugere uma estrutura verbal subjacente (risco de morte por afogamento, de morte por parada respiratória, de morte no 1º ano de vida, etc.) — ficando evidente a impossibilidade de optar por risco de vida nessas duas situações. Como se vê, somos obrigados a reconhecer que também é moeda boa, de livre curso no país, a única a ser usada em determinadas construções — mas não é um substituto obrigatório do consagradíssimo risco de vida. Aliás, a disputa entre as duas formas não é privilégio nosso, pois ocorre também no Inglês (risk of life, risk of death), no Espanhol (riesgo de vida, riesgo de muerte) e no Francês (risque de vie, risque de mort). O equívoco da renomada (famigerada?) autoridade que mencionas, prezado leitor, foi acreditar ingenuamente que a nossa língua existe para expressar nosso pensamento, devendo, portanto, obedecer aos critérios da lógica — teoria que andou muito em voga lá pelo final do séc. XVIII e que foi abandonada junto com a tabaqueira de rapé e o chapéu de três bicos. Por este raciocínio, se enterro um prego na madeira e enfio a linha na agulha, não poderia enterrar o chapéu na cabeça e enfiar o sapato no pé (e sim a cabeça no chapéu e o pé no sapato…); um líquido ótimo para baratas deveria deixá-las alegres e robustas, e não matá-las. A língua não pode estar submetida à lógica porque é incomensuravelmente maior do que ela, já que lhe cabe também exprimir as emoções, as fantasias, as incertezas e as ambigüidades que recheiam o animal humano. O Português atual, portanto, é o produto dessa riquíssima mistura, sedimentada ao longo de séculos de uso e aprovada por esse plebiscito gigantesco de novecentos anos, que deve ser ouvido com respeito e não pode ser alterado por deduções arrogantes e superficiais. Abraço. Prof. Moreno

Depois  do Acordo:

Lingüística> Linguística

freqüentemente> frequentemente

ambigüidade> ambiguidade