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Lições de gramática Regência

faz com que

Caro Prof. Moreno, tenho combatido a expressão “isto faz com que…”, porém vejo “gente grande” empregando esta muleta (?) sem pensar. Proponho sempre a forma “isto faz que…”. Gostaria de conhecer tua opinião. 

Marcos B. — Ourinhos (SP)

Meu caro Marcos: mesmo que sejas professor de Português (não sei qual a tua profissão), não deves andar por aí combatendo palavras ou expressões. Defende as formas que consideras corretas, mas evita atacar as que os outros empregam. Lembra-te das sábias palavras do professor Celso Luft, que abominava, e com razão, o famigerado a nível de: “Eu não uso; mas, e os outros com isso?”.

Só podemos exigir fazer que quando a expressão tiver o conhecido significado de “fingir”: “Na escola moderna, o professor faz que ensina, enquanto o aluno faz que aprende”. No sentido de “causar, ocasionar”, no entanto, a escolha é totalmente livre; tanto se escreve “isso fará que ele aprenda”, quanto “isso fará com que ele aprenda”. Acho precipitado chamares de “muleta” uma prática que vem acompanhando o Português desde que ele começou a ser escrito. Para exemplo (e para nosso divertimento), vou relacionar algumas passagens colhidas na literatura:

Na sua História da Província de Santa Cruz (1576), escreve Pero de Magalhães Gandavo: “Mas porque a mãe sabe o fim que hão de dar a esta criança, muitas vezes, quando se sente prenhe, mata-a dentro da barriga e faz com que não venha à luz”. 

No Tácito Português, de Francisco Manuel de Melo (1608-1666), vais encontrar: “A pouca introdução que nos negócios permitia ao duque de Barcelos o duque seu pai fez com que ambos vivessem desconfiados”. 

Machado de Assis emprega regularmente a preposição: “… o remorso de não haver sufocado aquele grito de seu coração fez com que Estêvão, quase no mesmo instante, murmurasse…” (A Mão e a Luva). “Um anônimo ou anônima que passe na esquina da rua faz com que metamos Sírius dentro de Marte” (D. Casmurro). Ou ainda: “Até aí os conselhos; mas um pouco de glória fez com que Paulo cantarolasse entre os dentes, baixinho, para si, a primeira estrofe da Marselhesa”. Mais adiante: “… a certeza de que podia acender-lhes novamente os ódios fazia com que as opiniões de Pedro e de Paulo ficassem entre os seus amigos pessoais” (Esaú e Jacó). Nos seus contos, aqui e ali encontramos a bendita: “A desgraça porém que o perseguia fez com que o primeiro amigo tivesse de ir no dia seguinte a um casamento e o segundo a um baile”. Outra: “A minha boa fortuna fez com que o senhor me avisasse a tempo…”. E mais outra: “O caiporismo, que o perseguia, fazia com que as dezenove prosperassem, e a vigésima lhe estourasse nas mãos”.

Camilo Castelo Branco usa e abusa: “… esta menina disse que o rapaz talvez se ofendesse, e fez com que ele ficasse sem os doze vinténs” (Novelas do Minho); “porque entendo que é uma imprudência pôr-se em campo o Partido Realista, e isso só fará com que os Cabrais triunfem” (Maria da Fonte); “Disse que não tinha inclinação a viajar, e fez com que o pai inventasse desculpas que dispensassem a filha” (O Romance de um Homem Rico).

Eça de Queirós é outro a quem a expressão não desagrada: “Só a porção de Matéria que há no homem faz com que as mulheres se resignem à incorrigível porção de Ideal”; “Talvez o requinte em retardar, que fazia com que La Fontaine, dirigindo-se mesmo para a felicidade, tomasse sempre o caminho mais longo” (Fradique Mendes). E mais: “aquela alta superioridade que fazia com que madama Recamier se erguesse, ao cumprimentar” (As Farpas). E ainda: “Enfim, a moda é ter só uma mulher — e isto, mais do que tudo, faz com que os haréns do Cairo se vão transformando lentamente no nosso avaro e limitado casamento monógamo” (O Egito). 

Como estás a ver, prezado Marcos, não podemos, eu e tu, comparar-nos aos nomes que citei. Haveria muitos outros, mas achei que Machado e Eça já bastariam para mudar a tua opinião. Continuas tendo o direito de preferir o fazer que, sem o com — acompanhado, aliás, por excelentes escritores —, mas não podes condenar aquilo que a tradição culta aprovou, ao longo dos séculos. Abraço. Prof. Moreno

P.S.: por falar nisso: eu só uso “fazer com que”.