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Férias no dicionário

Edu sáb ago 2015

Veja como um bom dicionário pode transportar seus filhos para um mundo de aventuras e descobertas.

Para aqueles que, como eu, ainda têm criança em casa, a segunda metade de julho é a época ideal para chegar mais perto dos petizes e compartilhar com eles alguns breves mas preciosos momentos culturais (suspeito, às vezes, que o prazer seja bem mais nosso do que deles, mas não faz mal: todos vão sair ganhando). Se não tiver um bom livro ou um bom filme à mão, aconselho a recorrer ao dicionário, que tantas aventuras pode oferecer. Quer ver como é fácil, leitor? Pois há dias se ouve aqui em casa (muito mais vezes, confesso, do que eu gostaria) a música Pomar, do incomparável grupo Palavra Cantada ― uma composição infantil bem ritmada em que desfilam todas as frutas conhecidas e as árvores que as produzem (“mamão, mamoeiro; banana, bananeira; pera, pereira…”). O que dá para tirar daí? Muito mais do que se pensa, como vamos ver.

Primeiro, tenho certeza de que nosso pequeno ouvinte não ficará indiferente ao ser informado de que, em nossa língua, a árvore sempre tem o mesmo gênero que sua fruta: abacate, abacateiro, mas laranja, laranjeira, e que este princípio vale para todas elas ― com a enigmática exceção do figo, que nasce na figueira. Como esse é um caso único entre centenas, temos aí um bom pretexto para voltar ao passado, no período em que a nossa e as demais línguas românicas se formavam ― quando descobriremos que, no Catalão, a fruta também é feminina (una figa). Não fica difícil, assim, defender a ideia de que o Português preferiu dar o gênero masculino à fruta para distinguir da figa, aquela mãozinha sem-vergonha com o polegar enfiado entre o dedo médio e o indicador, gesto usado tanto para afastar o mau-olhado quanto (tirem as crianças da sala!) para sugerir aquilo que Luzia foi fazer na horta.

Em seguida, que tal uma história de sangue e horror, daquelas que sempre agradaram aos pequenos? Que tal contar-lhes a lenda do Papa-Figo, o velho sinistro que raptava meninos para extrair-lhes o fígado, usado na tentativa de cura de um ricaço leproso? E explicar que o tal velho papão devia se chamar, na verdade, Papa-Fígado, mas que esse Papa-Figo popular não é tão errado como parece, porque figo e fígado nasceram juntos, na mesma hora e na mesma maternidade? Basta lembrar que era costume entre os romanos engordar os gansos com figos em passa, a fim de que sua carne ficasse com sabor mais refinado, e que a parte mais requintada era o jecur ficatum  (jecur, “fígado” + ficatum “com sabor de figo”). Com o tempo, o primeiro elemento se apagou e só restou ficatum ― exatamente como aconteceu com uma (linha) diagonal, um (dente) canino, uma (carta) circular, entre tantos outros.

Como um guia na floresta, você continua mostrando os caminhos que ligam pontos que pareciam tão distantes: o sobrenome Figueiredo que aparece na lista de chamada do colégio vem de um bosque de figueiras, assim como de árvore saiu arvoredo e de vinha saiu vinhedo. E mais ainda teria para contar, se não terminassem antes as férias, tão curtas, ou  a paciência dos filhos.

[A ilustração tem a marca registrada do genial Edu Oliveira]

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Etimologia e curiosidades Origem das palavras

Não era nada disso

Os primeiros etimologistas acreditavam que a busca pela origem de uma palavra fatalmente levaria a seu significado mais verdadeiro. Puro engano; muita coisa na linguagem é arbitrário e casual, e há dezenas de palavras cuja formação ocorreu por processos inesperados. Em muitas expressões, os falantes podem desprezar o núcleo e dar preferência a um elemento secundário, agindo como aquelas crianças que deixam de lado o presente e ficam brincando com a caixa. Por exemplo, o vocábulo latino para estrada era via. Algumas eram de simples chão batido, outras eram cobertas de cascalho e as mais importantes eram largas e pavimentadas com pedra, chamadas de via strata, “vias cobertas” (de sterno, “cobrir, pavimentar”). Daí derivou o nosso estrada, que, indiferente ao significado que tinha na origem, hoje pode ser de chão batido… Veja abaixo alguns desses casos em que o nome que sobreviveu não era exatamente o que a lógica escolheria.

data Data, no Latim, era simplesmente o particípio do verbo dare (“dar”), que traduzimos literalmente como “dada”. Vem da fórmula usada para iniciar ou encerrar uma carta, informando ao destinatário quando e onde ela tinha sido escrita ou entregue ao mensageiro. Por exemplo, Data Romae Id. Mar. significava “dada em Roma, em 15 de março”. No Latim medieval, começou a indicar-se apenas o dia e o local, como até hoje fazemos — “Roma, 15 de março”. O vocábulo data, a partir de então, transformou-se em substantivo e passou a designar a indicação de um dia específico.

missa — O substantivo missa vem do verbo latino mittere (“enviar, mandar, dispensar”), o mesmo que originou missão e míssil. Nas igrejas primitivas, nos primórdios do Cristianismo, o culto era dividido em duas partes: a primeira, composta de orações, cantos e de um sermão, era aberta a todos; a segunda (a eucaristia) era reservada aos cristãos batizados. Por isso, dizia-se ao final da 1ª parte, a fórmula “Ite, missa est“, que significa, aproximadamente, “Podem ir, [a congregação] está dispensada”. Pouco a pouco, a palavra que assinalava especificamente o momento da dispensa passou a designar toda a cerimônia. 

propaganda — Vem do latim propagare, usado inicialmente em agricultura, para designar a reprodução das mudas das parreiras. Em 1622, o Papa Gregório XV instituiu uma comissão de cardeais para difundir o catolicismo nos países não-católicos — a Congregatio de Propaganda Fide (“Congregação para Propagar a Fé”), referida informalmente como a Propaganda. Logo o termo passou a ser usado para qualquer organização empenhada em difundir doutrinas religiosas ou políticas. Nas guerras do séc. XX, a propaganda foi largamente utilizada para elevar o moral dos soldados e desmoralizar os adversários, ficando claro que, diferentemente da publicidade, que procura divulgar e vender um produto, a propaganda procura influenciar os espíritos. Hoje há propaganda contra e a favor de tudo, chegando a haver propaganda anti-religiosa, o que é uma ironia etimológica.

torrente Designa uma corrente de água muito rápida e impetuosa; é o que temos em mente quando dizemos que caíram chuvas torrenciais. No entanto, paradoxalmente, provém da mesma base latina que produziu torrar e tórrido, vocábulos associados ao fogo, e não à água. Em latim, torrens, torrentis — particípio do verbo torrere, “queimar, torrar, ferver” — foi usado metaforicamente para descrever as águas rápidas e turbulentas que, espumantes e cheias de borbulhas, dão a impressão de estar fervendo.

tênis — O nome do esporte já tem uma origem interessante: vem do francês tenez, imperativo de tenir, expressão pronunciada pelo jogador quando dava o saque, que podemos traduzir livremente como “Toma!”; daí passou para o inglês tennis, nome que se consagrou. No séc. XX, junto com o esporte, chegaram ao Brasil as raquetes e os sapatos de tênis (em inglês, até hoje, tennis shoes), mas logo tênis passou a designar o próprio calçado, permitindo que tenhamos, para espanto dos estrangeiros que passam por aqui, tênis para caminhar, tênis para aeróbica, tênis para futebol de salão e até mesmo tênis para tênis.

Pêssego Os romanos costumavam usar o vocábulo malum (“maçã”) também como um sinônimo genérico para fruto. Assim, o marmelo era o malum cydonium (“fruto de Cidônia”, uma cidade de Creta), a romã era o malum granatum (“fruto com grãos”), a laranja era o malum aurantium (“fruto dourado”). O pêssego era chamado de malum persicum (“fruto da Pérsia”), porque os romanos pensavam que ele tivesse sido trazido de lá pelos soldados de Alexandre Magno. O adjetivo persicum tornou-se pessicum, pessica e mais tarde pesca, produzindo pêssego no português, pêche no francês, peach no inglês e pesca no italiano. Portanto, é, embora não pareça, irmão de persa e persiana

fígado — Os franceses, gulosos incorrigíveis, submetem a um cruel regime de superalimentação os gansos que utilizam no preparo do famoso patê de foie gras (literalmente, “fígado gordo”). Muito antes deles, no entanto, os romanos mais refinados já costumavam engordar os gansos com figos em passa, obtendo assim a requintada iguaria que chamavam de jecur ficatum (jecur é “fígado”; ficatum vem de ficus, “figo”; a tradução seria, portanto, algo assim como “fígado com figos”). Com o tempo, jecur foi abandonado e só restou ficatum, que produziu fígado no português, hígado no espanhol e fegato no italiano. Por isso, quando uma pessoa simples se queixa erroneamente de “dor no figo”, estamos diante de uma curiosa volta ao passado da palavra.