Categorias
Destaque Destaquinho Flexão verbal Lições de gramática Questões do momento

Chico também escorrega no Imperativo

As regras de formação do IMPERATIVO são tão artificiais que raríssimos são os brasileiros que conseguem navegar por essas águas turvas sem naufragar. Como veremos, nem Chico escapou dessa armadilha.

Prezado Doutor,  gostaria de parabenizá-lo por sua página na Internet.  Minha dúvida encontra-se na letra de uma música de Chico Buarque, compositor pelo qual tenho uma grande admiração. A referida música intitula-se Fado Tropical.  Sua primeira estrofe nos diz:

“Ó, musa do meu fado
Ó, minha mãe gentil,
Te deixo, consternado,
No primeiro abril.
Mas não sê tão ingrata,
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

 Não deveria o ilustre compositor ter utilizado o imperativo negativo na forma mas não sejas tão ingrata? Ou será que a língua escrita em Portugal, notoriamente presente na letra da música, permite aquela outra construção? Agradeço sua atenção.”

João Marcelo ― Fortaleza

RESPOSTA ― Meu caro João Marcelo: o Chico — quem diria! — também tropeçou no imperativo, como seus colegas Gil e Mílton Nascimento (dá uma olhada em lê ou leia).  Na verdade, errou duas vezes: deveria ter escrito não sejas e não esqueças ( e esquece, como está na canção, são formas do imperativo afirmativo, não do negativo). Para tua informação, o imperativo em Portugal é igualzinho ao nosso, e os dois versos estão errados deste e daquele lado do Atlântico.

Agora, esse erro, vindo de quem vem ― o melhor letrista de nosso cancioneiro popular ― serve para confirmar duas teses (que eu defendo, aliás):

(1) o Imperativo negativo da 2a pessoa passou a ser, para a maioria dos falantes, idêntico ao afirmativo (volta, não volta; fica, não fica, etc.). Só não concordam com isso os gramáticos tradicionais ― e, por consequência, as bancas de concurso.

(2) não é qualquer um que pode encarar o tu e sair ileso. Vê só: nesse torvelinho, caíram três dos nossos maiores compositores da MPB!

_________________________________

Junte-se ao grupo Sua Língua no Facebook! Clique AQUI 

 

Categorias
Lições de gramática Verbos - conjugação

polir

Estimado Professor, estava pesquisando sobre verbos defectivos e adorei aquela carta em que o senhor explica a conjugação do verbo polir. Entendi perfeitamente. No entanto, o livro intitulado Tudo Sobre o Verbo diz que ele é defectivo; ali ele aparece sem a conjugação completa no presente do indicativo. Estou um pouco confusa, pois preciso dar uma aula sobre este tema. Pode me ajudar? Só preciso saber se é possível que haja teorias diferentes sobre o assunto; talvez até seja normal essa diferença de opiniões. Desde já, agradeço sua preciosa atenção.

Antonia M. — Professora

Minha cara Antônia: a lista dos verbos que são defectivos para um gramático jamais será igual à lista de outro; na verdade, não há verdadeiros defectivos além de reaver e precaver. Os demais — isto é, os que assim são chamados por alguns autores — são apenas verbos que têm, na sua conjugação, formas consideradas estranhas ou ridículas, o que é um critério absolutamente impreciso, pois vai variar de indivíduo para indivíduo, de época para época. Basta ver como uns incluem competir na lista, enquanto outros o consideram um verbo absolutamente corriqueiro, com conjugação completa, inclusive com direito a um eu compito, em tudo semelhante a eu repito (lê o que escrevi em eu compito?). 

Não conheço o autor deste livro Tudo Sobre o Verbo, de título tão otimista; asseguro-te, apenas, que ele não é autoridade reconhecida no mundo acadêmico. Para a conjugação do polir, eu prefiro ficar com a minha intuição, confirmada pelo dicionário do Houaiss e pelo Aurélio, que o apresentam como um verbo normal, de conjugação completíssima: eu pulo, tu pules, ele/você pule, nós polimos, vós polis, eles/vocês pulem. Não importa que pulo também seja a 1ª pessoa do verbo pular; afinal, há centenas de formas verbais homógrafas… Queres um conselho? Fica com estes dois mestres, porque, para ir contra esses pesos-pesados (o que é possível, em alguns casos), é preciso bem mais do que um simples manual sobre verbos. Abraço. Prof. Moreno

P.S.: Essa é uma das grandes vantagens da edição eletrônica desses dois dicionários: ambos trazem uma ferramenta que fornece o quadro completo da conjugação de qualquer verbo que esteja ali relacionado.