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É fluido ou fluído ?

Caro Professor: estou navegando há dias pela Internet em busca de auxílio para uma questão e nada tenho encontrado. Como achei o seu site e acredito que seu conhecimento pode em muito me orientar, estou lhe escrevendo pedindo socorro!  Estou tentando abrir uma empresa de cosméticos feitos com essências naturais e pretendo nomeá-la “Fluidos da Natureza”. Seria “Fluidos” ou “Fluídos“? Este é o ponto em questão. Já obtive uma informação de outro site, mas em nada me esclareceu; pelo contrário: fiquei ainda mais confusa sobre qual seria mais adequado ao meu caso. Carla C.

Prezada Carla: Nomezinho bem complicado tu foste escolher para tua empresa! É bonito e sugestivo; digo que é complicado porque nunca será pronunciado corretamente pelos teus clientes (e nem sei se seria desejável). Vou explicar por quê.

Quanto à Gramática, distinguem-se dois vocábulos diferentes:

1 — O primeiro, fluido, tem o “U” tônico e divide-se em duas sílabas: FLUI-DO. Se te lembras de teu tempo de colégio, o UI aqui é um ditongo. Este vocábulo tem o sentido genérico de “líquido”: mecânica dos fluidos, fluido de freio; “a Aids se transmite pela troca de fluidos do corpo”. Modernamente, acho que passou também a significar algo “gasoso”; pelo menos, é o que sugere o uso que dele fazem as pessoas místicas: “Nesta sala há maus fluidos“, “podem-se perceber os bons fluidos“, etc. Em todos os exemplos acima, é classificado como substantivo; às vezes é usado como adjetivo (ainda com o mesmo sentido de “líquido”): “estava muito quente, e o mel ficou mais fluido“; “Ó formas vagas, fluidas, cristalinas” (no antológico poema Antífona, de Cruz e Sousa).

2 — O segundo, fluído, tem o “I” tônico; é uma palavra de três sílabas (FLU-Í-DO). É o que chamamos de hiato, lembras? Aliás, é exatamente por ser um hiato que o I precisa levar esse acento gráfico. Agora estamos diante do particípio do verbo fluir (“correr, transcorrer”), formado da mesma maneira que caído (de cair) e saído (de sair): “As horas tinham fluído sem que nós nos déssemos conta”; “todo o óleo tinha fluído para o chão da garagem”. Nota que os dois vocábulos são diferentes na pronúncia, na grafia e no sentido.

Até aqui, moleza. Agora, o teu problema: para mim, é evidente que o nome da tua empresa deve ser “FLUIDOS da Natureza”. Estamos falando do primeiro sentido; a idéia é a de que forneces essências, líquidos, substâncias que a Natureza produz (ligada, muito bem, a meu ver, com aquela outra conotação moderna do vocábulo fluido, mais mística e, como tal, extremamente vendável). Acontece que nove entre dez brasileiros não distinguem um vocábulo do outro, pronunciando /flu-í-do/ em ambos os casos. Em geral, as pessoas dizem flu-í-do de freio, mecânica dos flu-í-dos, maus flu-í-dos — e vão falar de teus cosméticos como “Flu-í-dos Da Natureza”. Dessa não vais escapar; aliás, qualquer insistência para que eles digam a forma correta, flui-do, pode ser contraproducente para a divulgação da marca. Esse é o dilema em que tu te meteste, ao escolher esse nome. Minha sugestão? Registra e escreve corretamente (fluidos, sem o acento), mas deixa rolar livremente a pronúncia (que, aposto meus diplomas, vai ser flu-í-dos). Abraço. Professor Moreno

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fluido ou fluído — como explicar?

Olá, tudo bem? Adorei sua página. Muito explicativa e didática. Aproveitando essa particularidade, tenho uma dúvida — não do que é certo ou errado, mas de como explicar uma coisa de forma que outras pessoas parem de cometer o mesmo erro. Sou professora de Materiais Dentários em uma Faculdade de Odontologia. Dentro de minha disciplina, trabalhamos muito com propriedades reológicas de Materiais, ou seja com sua viscosidade. E volta e meia, meus alunos, e até mesmo o meu assistente, insistem em dizer que o material é fluído e não o correto, que é fluido, com a tônica no I.  Já fiz de tudo, até parar a aula para explicar que é igual a gratuito, mas não tem jeito. Será que você poderia me ajudar a dar tal explicação de uma forma bem convincente? Assim, pelo menos, eles pensariam antes de dizer. Obrigada e parabéns pela página. Fernanda

Minha cara Fernanda, conheço muito bem a sensação: às vezes parece que nunca chegaremos a dissipar as névoas da ignorância. No entanto, como sabes muito bem, nós professores não desanimamos com pouca coisa; voltamos, e voltamos, e voltamos, até que apareça um caminho que nos leve à mente dos alunos (dito de maneira mais chã: acreditamos, no fundo, que água mole em pedra dura tanto bate até que fura). Por isso, o melhor que posso fazer é trazer-te alguns subsídios teóricos para apoiar a tua justa batalha. Eu já escrevi sobre fluido ou fluído (dá uma olhada), mas vou reforçar alguns pontos e acrescentar outros.

É necessário que teus alunos percebam que não estás insistindo em ninharias, mas que se trata de dois vocábulos diferentes, com prosódia (posição da sílaba tônica) e acentuação distintas. De um lado, temos o vocábulo nominal (pode ser tanto substantivo, como adjetivo) FLUIDO; a pronúncia é FLUI-do, com a primeira sílaba pronunciada como fui ou Rui. Como a vogal tônica é o U, é evidente que não cabe pôr um acento sobre o I. Este é o vocábulo que aparece em “mecânica dos fluidos“, “fluido de freio”, “substância fluida“, “a sala está com maus fluidos” (para quem acredita), ou, finalmente, no início do poema Antífona, de Cruz e Sousa:

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras

De luares, de neves, de neblinas!

Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas…

Incensos dos turíbulos das aras.

Sei que não é muito próprio para uma aula de Materiais Dentários, mas talvez até fosse estratégico mostrar a teus alunos como o terceiro verso ficaria destruído se o adjetivo fluidas fosse pronunciado como eles querem.

Do outro, temos o particípio do verbo fluir, FLUÍDO, à semelhança de caído, saído: “O filme era tão bom que eles não se deram conta que mais de duas horas haviam fluído“; “Havia um vazamento no tambor do freio, e todo o fluido havia fluído para o chão da garagem”. Acho importante ressaltar, na tua argumentação, que este vocábulo leva acento pela regra do hiato.

Acontece que há uma tendência popular a mudar a prosódia de termos como gratuito, circuito, fortuito. Em muitas rádios já se ouve entradas /gratu-í-tas/, /curto-circu-í-to/, com o I tônico — o que é um contra-senso, porque, se fosse tônico, deveria levar o mesmo acento de ruído e caído. Este é o processo que está agindo sobre o fluido, levando as pessoas descuidadas a pronunciá-lo da mesma forma que o particípio fluído. Isso ainda se aceita nos que não tiveram a sorte de ter estudo; agora, vamos combinar: alunos da Odonto, futuros profissionais, não têm desculpa! Eles têm a obrigação de zelar pelo apuro de sua linguagem tanto quanto pelo de seu avental ou seu jaleco — e não estou falando apenas de algum detalhe secundário que eu, reacionariamente, esteja tentando preservar, mas sim da diferença entre dois vocábulos distintos, o que não é pouca coisa. Espero que isso te ajude a domar as feras! Abraço. Prof. Moreno

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