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vou estar verificando

Não seja injusto! O erro chamado de GERUNDISMO não é culpa do pobre gerúndio.

Numa coluna muito bem-humorada, ao falar dos operadores de telemarketing ― uma praga que faltou no Egito ―, Mário Corso apontava, com ironia, um peculiar emprego do gerúndio que eles propagaram país afora: “Não foi Machado, nem Pessoa, nem ao menos um criador de palavras como Guimarães Rosa quem nos trouxe o encontro triverbal. Nunca antes usamos três verbos juntos como nesse exemplo prosaico: vou estar verificando… Como chamar isso? Talvez o professor Cláudio Moreno possa nos dizer: seria promessa de gerúndio, ou presente gerundiado, ou ainda gerúndio do gerúndio?”. Ora, amigo Mário, nestas questões de Português sofro a mesma sina que o gênio de Aladim, pois não posso deixar de atender a quem fricciona a lâmpada da dúvida.

Embora esse tipo de erro seja chamado de “gerundismo”, ele não se origina no pobre gerúndio, mas sim em um dos vários recursos que a língua oferece para expressarmos a ideia de futuro. No Português atual (falo do Brasil, apenas), é mais usada a construção [ir +qualquer verbono infinitivo]: “Amanhã vou sair bem cedo”; “Desse jeito, vais perder o marido”. Em segundo lugar, a preferência fica simplesmente com o presente do indicativo do verbo: “Amanhã eu saio bem cedo”; “Desse jeito, perdes o marido”. Nossa terceira e derradeira escolha passou a ser, há muito tempo, o futuro do presente, quase extinto no uso comum: “Amanhã sairei bem cedo”; “Desse jeito, perderás o marido” (aliás, deve ter sido a raridade de seu emprego que levou o Pinheiro Machado, nosso Anonymus Gourmet, a escolher “Voltaremos!” como bordão de seu programa).

O outro ingrediente desta complexa mistura é a sequência [estar+gerúndio], usada para expressar uma ação continuada, seja no presente, no passado ou no futuro: “Estou tentando ligar”; “Ele estava pintando o muro”; “Quando chegares, estarei dormindo“. Pois aqui está: quando o auxiliar estiver no futuro, a tendência natural, como vimos acima, é substituí-lo pela locução formada de [ir+infinitivo]: “Quando chegares, vou estar dormindo“, “Na hora do jogo, vou estar dando aula” ― frases corretas, “corretíssimas”, como diria o José Dias de Machado.

Ora, o que nos faz rejeitar frases do tipo “vou estar verificando”? Há algo nela de esquisito, mas, como vimos, não é a sequência  [ir+estar+gerúndio], pois este “encontro triverbal” é construção prevista na estrutura da língua, empregada por vários autores que escrevem bem melhor do que nós. O problema, na verdade, é a incompatibilidade do verbo verificar com o verbo estar, já que não tem caráter durativo, mas pontual (“vou estar verificando” significa, no fundo, “vou verificar”). É o mesmo motivo que nos faz rejeitar “vou estar chamando um táxi” ou “vou estar enviando o relatório”, mas aceitar “venha, que vou estar esperando na porta” ou “quando você defender a tese, vou estar torcendo aqui em casa”.

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Lições de gramática Verbos - conjugação

vou ir

Caro Professor Moreno: a minha dúvida é quanto ao uso da expressão vou ir. O senhor escreveu, em uma resposta a outro internauta, que esta locução verbal seria condenada por gramáticos tradicionais. Gostaria de compreender melhor a razão para tal condenação. Há quem tente explicar dizendo que não se pode usar o mesmo verbo como verbo auxiliar e verbo principal. Contudo, sempre achei que a locução tenho tido, por exemplo, não ferisse as regras da gramática. Obrigada. [Andréa L. — Rio de Janeiro]

Prezado Prof. Moreno, estamos com uma dúvida, eu e um amigo: afinal de contas, a expressão vou ir — muito utilizada no Rio Grande do Sul — está correta ou não? Eu penso que não; ele acha que sim. Podemos dizer vou fazer, vou trabalhar, etc., mas vou ir? Obrigado e novamente parabéns pelo trabalho!      [Rodrigo L.]

Minha cara Andrea: tens toda a razão: há vários exemplos de locução verbal, em nossa língua, em que aparece o mesmo verbo, tanto na posição de auxiliar quanto na de principal; os mesmos fariseus que condenam vou ir aceitam há de haver, vinha vindo, tinha tido. É evidente que o verbo só tem o seu significado pleno, originário, quando está na posição de principal; em “HÁ DE HAVER uma solução para este problema”, o auxiliar () exprime a idéia de “desejo” (leia-se: eu gostaria que houvesse) ou de “obrigatoriedade” (leia-se: deve haver), enquanto o principal é que tem o sentido usual de “existir”. Já falei sobre isso quando analisei a locução vinha vindo.

No caso de vou ir, Rodrigo, vem agregar-se um outro fato lingüístico muito importante: a forma preferida de expressar o futuro, no Português moderno, é uma locução verbal com a estrutura [ir no pres. do indicativo + qualquer verbo no infinitivo]. Essa estrutura (vou sair, vou poder, vou ficar, vou ser) concorre com outras possibilidades, também usadas, mas em menor escala: (1) o próprio PRESENTE DO INDICATIVO (“Amanhã eu posso“, “No ano que vem eu saio“); (2) o FUTURO DO PRESENTE (sairei, poderei, ficarei, serei); (3) a locução [haver + infinitivo]: hei de sair, tu hás de entender.

Estudos atualizados mostram que as hipóteses (2) e (3) são, no fundo, no fundo, a mesmíssima coisa. Como herança do Latim tardio, que substituiu a forma única do futuro por uma locução (amare habeo), nosso futuro, que parece ser uma forma una, na verdade é uma locução invertida, com o auxiliar haver à direita. Exemplifico: basta pegar “eu hei de comprar, tu hás de comprar, ele há de comprar” e inverter a ordem dos verbos: “comprar HEI, comprar HÁS, comprar HÁ”; uma pequena adaptação ortográfica, com a óbvia queda do H, e teremos comprarEI, comprarÁS, comprarÁ. Portanto, o que parece ser uma forma verbal simples é, na verdade, uma forma composta (comprar+ei, comprar+ás, etc.). 

Não é por acaso que esse futuro não admite ênclise, segundo as gramáticas tradicionais (que não entenderam ovo do problema, como sempre), mas exigiria (segundo essas mesmas gramáticas…) uma coisa chamada de “mesóclise”, definida sinistramente como “o pronome no meio do verbo”. Na verdade, só existe PRÓCLISE ou ÊNCLISE, mesmo para verbos no futuro: ou usamos o pronome ANTES do verbo, como em “Eu te pagarei”, ou usamos o pronome DEPOIS do verbo, como em “Pagar-te-[ei]”. Quando digo “antes” ou “depois”, estou falando em relação apenas ao verbo pagar. O EI, que alguns confundem com uma terminação verbal, é só o nosso velho amigo, o verbo haver, desfigurado pela ausência do H, e a chamada “mesóclise” é apenas a colocação do pronome ENTRE o verbo principal e o verbo auxiliar. 

O que está acontecendo no Português moderno, ao que parece, é uma troca de auxiliar: em vez de usar o auxiliar HAVER, como nas hipóteses (2) e (3) acima, estamos utilizando cada vez mais o auxiliar IR. Isto é: quando queremos expressar a idéia de futuro, ou empregamos o presente do indicativo (menos usado) ou empregamos a locução [vou + infinitivo]. Como todo e qualquer verbo pode, em tese, ocupar a casa da direita, vão formar-se locuções do tipo vou vir, vou ir. Erradas elas não são; podem soar ainda um pouco estranho para muitos ouvidos, mas muitos outros já se acostumaram a elas, inclusive escritores e compositores de renome. Só para adoçar toda essa explicação, dou um exemplo saudoso, de um escritor de respeito: Vinícius de Moraes, na música Você e Eu, feita em parceria com Carlos Lyra, usou, muito simplesmente (e em dose dupla): 

“Podem preparar 

Milhões de festas ao luar 

Que eu não vou ir 

Melhor nem pedir 

Que eu não vou ir, não quero ir”. 

Abraço para ambos. Prof. Moreno.

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