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Formação de palavras Lições de gramática

litigância ou litigação

Prezado Professor: trabalho na área jurídica e tenho uma dúvida cuja resposta não encontrei em dicionários ou gramáticas; qual das formações é a correta para o verbo litigar: litigação de má-fé  ou litigância de má-fé? Ficaria muito grato pela resposta.

Roney S. A. — Uberaba (MG) 

Meu caro Roney: nosso idioma dispõe de vários sufixos para obter o mesmo resultado. Na formação de substantivos abstratos de ação (aqueles que derivam de verbos), o Português, entre outros, pode usar –mento (tratamento, abalroamento), –dura (andadura, moedura),  -ção (descrição, provocação),  –ância (tolerância, vigilância). Não raro coexistem formas concorrentes para o mesmo abstrato; por exemplo, para dobrar o Aurélio XXI registra dobradura, dobramento e dobração. Os sufixos –ção e –ância concorrem em vários vocábulos: numa rápida examinada no dicionário encontrei alternação e alternância, aspiração e aspirância, claudicação e claudicância, culminação e culminância. O uso vai preferir uma ou outra forma, por caminhos imponderáveis. 

Em alguns casos, no entanto — concordância e preponderância são bons exemplos —, sequer conseguimos imaginar uma variante terminada em -ção. No caso específico de litigar, eu cresci acostumado ao substantivo litigância. Viste, pelo que expus, que a forma litigação não seria impossível, já que esta hipótese também está prevista em nosso sistema morfológico, como se verifica facilmente em Portugal; contudo, ao que me parece, o plebiscito de séculos de uso, no Brasil, consagrou apenas a forma em -ância. É melhor respeitá-lo. Abraço. Prof. Moreno

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Flexão nominal Lições de gramática

aluguéis ou alugueres?

Professor, qual é o plural correto de ALUGUEL? ALUGUÉIS ou ALUGUERES?

Rafael S.  — Curitiba

 

Prezado Rafael: o substantivo aluguel forma o plural esperado para os vocábulos que têm essa terminação: pastel, pastéis; papel, papéis; aluguel, aluguéis. Acontece que podemos (eu acho horrível!) usar também a forma clássica aluguer, que é a preferida no Português Europeu; aqui no Brasil, muitos advogados o fazem, ou porque são lusófilos, ou porque isso lhes dá a esperança de aparentar a erudição que não têm. Nesse caso, o plural é obviamente alugueres (como mulher, mulheres; clister, clisteres). A escolha é livre; o importante é não misturar uma forma com a outra: ou aluguel, aluguéis, ou aluguer, alugueres. Abraço. Moreno

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Etimologia e curiosidades Isso e aquilo

locativo ou locatício?

Prof. Moreno, em quase todos os livros de Direito, sentenças judiciais, etc., encontra-se a palavra locatício. Raramente se usa locativo. Consultando o dicionário Aurélio há alguns anos, a informação sobre locatício era de verbete inexistente, sendo o correto locativo. Eu, particularmente, prefiro usar locativo. Assim, indago: qual a forma correta ? Muito obrigada.

Maria Luísa L. — São Paulo

Prezada Maria Luísa: tua pergunta já começou com a resposta, quando dizes “Em quase todos os livros de Direito, sentenças judiciais, etc.”. Não consigo entender como o Houaiss (e o Aurélio) foram ignorar locatício, se a maior parte dos juristas prefere esse adjetivo! É evidente que locativo também está correto, mas a língua produziu a variante em -ício; a raiz pegou, a árvore botou galho e hoje está bem frondosa (uma rápida pesquisa no Google aponta mihares de ocorrências para locatício e flexões). Em linguagem, um resultado desses não pode ser ignorado, principalmente porque os votantes, na sua esmagadora maioria, não são pessoas sem instrução… 

Acho que essa popularidade se deve a dois motivos básicos: primeiro, porque locatício vem fazer companhia a tantos outros termos similares que o profissional da área jurídica usa diariamente (advocatício, pignoratício, empregatício, creditício, etc.); segundo (e talvez o mais importante), porque locativo também é muito usado como um adjetivo relativo a “lugar” — e a funcionalidade do idioma está tratando de especializar o significado das duas formas.

Lembro-te de que não se pode discutir aqui qual seria a forma “correta”, já que ambas existem. O fato de uma delas não estar dicionarizada não quer dizer nada; temos perto de 600.000 vocábulos, e o Houaiss registra apenas 240.000. Aliás, é curioso que no verbete “loc(o)-“, em que Houaiss registra as derivações feitas a partir deste radical, ele inclui “locatício”, sem abrir verbete específico para ele (o que, repito, foi erro técnico; o volume em que esta forma é empregada por pessoas cultas torna obrigatória a sua inclusão nas próximas edições). Além disso, no verbete “locativo”, deixa estranhamente de explicar, na parte referente à Etimologia (geralmente tão consistente), a dupla origem deste vocábulo (local e locar).

A convivência de variantes concorrentes é um dos fatos mais corriqueiros do idioma; só como início de exemplificação, envio-te os seguintes pares que estão por aí, nos dicionários: advocatício e advocatório; castrício e castrense; dotalício e dotal; edilício e edílico; gentilício e gentílico; laudatício e laudatório; pactício e pactual; supositício e supositivo; e assim por diante. Podes, portanto, continuar a usar a forma de tua preferência, mas deves aceitar que outros falantes façam uma escolha diferente. Não te esqueças de que nosso estilo é a soma de nossas escolhas — e não falamos de escolher entre uma forma correta e uma forma errada, mas entre duas ou mais formas igualmente aceitáveis. Abraço. Prof. Moreno

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Através dos dicionários Etimologia e curiosidades

sugerimento

Numa entrevista, ao falar da roupa que vestia, Dunga disse que seguia os sugerimentos de sua filha, que é estilista de moda. Ouvindo aquilo, o Brasil inteiro correu para o dicionário e, ao constatar que o termo não estava lá, extraiu do fato duas desastradas conclusões: primo, o tal vocábulo não existe; secundo, o Dunga fala tão errado quanto algumas importantes figuras desta Pindorama… Como era de esperar, alguns leitores escreveram perguntando o que eu achava disso tudo. Bem, em princípio eu sempre fico satisfeito com qualquer episódio que faça as pessoas se reencontrarem com o velho “amansa” que estava esquecido na estante, mas sou obrigado a meter a minha colher torta nesta tigela.

Em primeiro lugar, por trás da primeira conclusão está a ngênua de que o dicionário seja o repositório de todas as palavras existentes de nossa língua, uma espécie de cartório de registro de nascimentos onde os falantes podem conferir a existência ou não de um vocábulo. Nada mais falso; um dicionário é apenas uma seleção dos vocábulos que o seu autor considera mais importantes neste momento. Por exemplo, para que o Aurélio e o Houaiss pudessem ser editados como um volume único, os autores tiveram de fazer uma pesada seleção dos vocábulos que deveriam entrar — uma verdadeira lista de Schindler, onde nem sempre foram incluídas as palavras que mereciam. O Aurélio traz as palavras que Aurélio Buarque de Holanda escolheu; o Houaiss traz as palavras que Antônio Houaiss escolheu — e pronto! 

Quem vai ao Houaiss encontra várias palavras que não aparecem no Aurélio: agronegócio, apagão, auditar, autolimpante, biopirataria, carteirada, cartelização, cartolagem, conspiratório, emancipacionista, fitossanitário, hidroginástica,mexível, meritocracia, parquímetro ou soropositivo. Essa diferença pode nos dizer alguma coisa sobre o tamanho e a cobertura dos dois dicionários, mas nada sobre as próprias palavras em si — assim como o fato de não encontrarmos bivolt, bloqueto, cadeirante, degravação, drogadição, drogadito, intensivista, fumódromo, mecatrônica ou rinsagem em nenhum dos dois não nos autoriza a concluir que esses vocábulos, vivíssimos em nosso idioma, não existam… 

Em segundo lugar, não podemos afirmar que sugerimento esteja errado; acho horrível o termo, mas, como vamos ver, ele está rigorosamente dentro das formações possíveis por derivação, que é, quero frisar, a mais poderosa máquina de criar palavras do Português. O princípio é muito simples: de uma mesma base existente, formam-se novos substantivos, adjetivos ou verbos, pelo acréscimo de prefixos ou sufixos. Às vezes, temos à nossa disposição vários elementos para a mesma finalidade; por exemplo, para formar substantivos abstratos a partir de verbos, podemos escolher o sufixo -ura (feitura, leitura), ou –ção (realização, repetição), ou –mento (nascimento, recrutamento), ou –agem (regulagem, filtragem), entre outros. Saber uma língua, muito mais do que dominar uma lista de palavras, é conhecer esses elementos formadores e o conjunto de regras que nos permite combiná-los. É importante ressaltar o caráter aleatório dessas combinações; nada nos diz qual desses sufixos será usado para uma determinada base. Aqui ocorre uma escolha em que parecem intervir critérios que ainda não foram bem estudados. Por que recrutamento e não recrutação ou recrutagem? Por que filtragem e não filtramento ou filtração? Quantos verbos formados pelo sufixo –izar estão lá, no estoque virtual de nosso idioma, que ainda não vieram à luz? Quantos substantivos abstratos em –mento

Em muitos casos, diferentes sufixos combinam com uma mesma base para formar vocábulos concorrentes, que passam a disputar a preferência dos falantes. No dicionário, encontramos, lado a lado, lavagem, lavação, lavamento e lavadura; sedução e seduzimento; desflorestamento e desflorestação; concluimento e conclusão. Submetidas ao invisível plebiscito popular, aquelas que parecem soar melhor vão conquistar mais falantes, mas isso não significa que as derrotadas vão desaparecer. Uns se dirigem ao bufê das palavras e compõem um prato com alface, palmito, tomate e salada de batatas (é uma combinação consagrada, assim como feijão, arroz e bife ou, na sobremesa, morango com chantili); outros vão lá e misturam no mesmo prato o feijão com a salada de batata, tudo isso com um pouco de sorvete por cima. Fazer mal não faz; é tudo uma questão de gosto. Os do primeiro tipo preferem escolha, conclusão, incômodo e sugestão; os do segundo, escolhimento, concluimento, descômodo e sugerimento. Depois, cada um com seu prato, voltam todos para a mesma mesa, para compartilhar a refeição do idioma — de preferência, em paz. 

(da coluna O PRAZER DAS PALAVRAS– Jornal Zero Hora – 25/11/2006)

 

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Através dos dicionários Etimologia e curiosidades

dicionário não é lei

Um atônito leitor escreve para compartilhar o espanto que sentiu ao ver que os nossos dois mais importantes dicionários divergem quanto ao adjetivo referente aos EUA: o Aurélio registra só estadunidense, enquanto o Houaiss prefere estado-unidense. Ora, se a essência do dicionário é descrever o atual estágio de nosso idioma, como é que a descrição desses dois autores não é idêntica, neste caso? A resposta, meu caro, aponta para um princípio fundamental da lexicografia, desconhecido de muitos, e que poderá causar surpresa, desânimo ou até indignação entre os leitores menos informados: por mais que o dicionário se esforce por fazer uma descrição objetiva e imparcial da língua, suas páginas estão repletas de julgamentos, crenças e preconceitos do seu autor.

A variedade de informações é gigantesca: além do simples significado do vocábulo, o dicionário registra também a sua grafia, a sua pronúncia, o gênero a que pertence (masculino ou feminino), a sua flexão, a separação de sílabas, a existência de formas variantes, o nível sócio-cultural em que o vocábulo é empregado, e outras mais. O lexicógrafo procura registrar democraticamente tanto o velho quanto o novo, tanto o solene quanto o coloquial, tanto o geral quanto o regional — mas não consegue ocultar, a cada linha, a cada verbete, a sua posição pessoal sobre aquilo que está descrevendo. Houaiss registra tanto cotidiano quanto quotidiano como formas perfeitamente aceitáveis; ao colocar, porém, a definição do vocábulo junto a cotidiano (enquanto em quotidiano há apenas uma simples remissão à outra forma), ele está declarando sua preferência. Se Aurélio coloca, entre parênteses, a indicação “(é)” junto ao vocábulo grelha, é porque essa é a pronúncia que ele prefere (embora, com imparcialidade, indique, no final do verbete: “É corrente, em boa parte do Sul do Brasil, a pronúncia de grelha com e fechado”). E assim por diante: a cada passo, o autor é obrigado a tomar decisões, o que significa dizer que dicionários como o Houaiss ou o Aurélio não são descrições neutras e objetivas de nossa língua, mas sim o conjunto de preferências lingüísticas do cidadão Houaiss ou do cidadão Aurélio. Portanto, tudo que está no dicionário é opinião — é claro que é uma opinião abalizada, de profissionais que dedicaram sua vida ao estudo das palavras, mas não deixa de ser opinião.

Os lexicógrafos sabem que podem coexistir, num mesmo momento histórico, diferentes comportamentos lingüísticos que os falantes cultos consideram aceitáveis, o que vai dar, para quem deseja escrever corretamente, uma razoável margem de escolha. Essas diferentes soluções convivem umas com as outras e disputam a nossa preferência; são incontáveis as situações em que podemos optar entre duas formas corretas. Um rápido passeio pelo Houaiss e pelo Aurélio nos mostra que é livre a escolha entre abdômen ou abdome, gérmen ou germe, regímen ou regime (as formas sem o n são mais modernas); atenazar ou atazanar, destrinçar ou destrinchar (a primeira forma de cada par é a variante mais culta); amígdala ou amídala, óptico ou ótico, seção ou secção; catorze ou quatorze, quota ou cota; monstrengo ou mostrengo (preferida por Houaiss); taberna ou taverna, assobio ou assovio (as formas com B têm mais prestígio); bêbado ou bêbedo, hemorróida ou hemorróide; cosmos ou cosmo, bílis ou bile, diabete ou diabetes, húmus ou humo. Também podemos escolher entre incontinente (Houaiss), incontinenti (Aurélio 2ª edição, a última em vida do autor) ou incontinênti (Aurélio-XXI); entre álcoois (Aurélio-vivo e Houaiss) ou alcoóis (Aurélio-XXI); entre o clitóris (Aurélio-vivo) ou a clitóride (Aurélio-XXI) — Houaiss fica em cima do muro, dizendo que a clitóride é “a forma mais correta, mas a menos usada”. Aurélio-vivo e Houaiss preferem malformação, Aurélio-XXI enquanto o prefere má-formação. Para minha surpresa, os dois Aurélios dão balde como feminino, enquanto Houaiss dá como masculino. Podemos decidir, ainda, se vamos escrever marcha à ré (Aurélio-vivo) ou marcha a ré (Aurélio-XXI e Houaiss ), pôr-do-sol (ambos os Aurélios) ou pôr do sol (Houaiss) — e por aí vai a valsa.

Usando a conhecida (mas eficiente) analogia entre linguagem e vestimenta, o dicionário é um grande magazine onde estão expostas todas as peças de vestuário existentes; há peças íntimas, peças formais, peças descontraídas, peças exóticas, peças chamativas, peças discretas, peças indecentes — e, assim como as palavras, podemos escolher as que mais nos agradam. A soma de nossas escolhas — seja nas roupas, seja nas palavras — é o que costumamos chamar pelo nome clássico de estilo.

Depois do Acordo:

lingüístico > linguístico

hemorróida > hemorroida