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Como se escreve Emprego das letras

Gay ou Guei?

Caríssimo Professor, sou um grande admirador de seu trabalho na internet. Existe um sítio brasileiro sobre a homossexualidade que insiste em usar o termo guei e não gay. Eu acho isso um puritanismo lingüístico bastante nacionalista, bem extremista. Eu prefiro usar o termo reconhecido internacionalmente, e defendo o seu uso, pois acho que a palavra homossexual carrega um certo tom clínico nem sempre apropriado em meios sociais. Ademais, não sei de nenhuma palavra para gay em português que seja positiva, ou mesmo neutra — tudo me parece muito pejorativo. Seria um grande prazer receber um resposta sua. 

Paul B.  — Seattle, WA – USA

Meu caro Paul: gay é a forma internacional (acho melhor, porque é instantaneamente reconhecida), guei é uma forma que acrescenta ao significado já tradicional um nítido posicionamento nacionalista, como bem percebeste. Cada um se alinha entre as hostes que prefere, e a escolha das palavras ou da forma de grafá-las expressa também uma tomada de posição. Intitular-se gay é aderir a uma comunidade sem fronteiras; intular-se guei é, além disso, reforçar uma identidade nacional e, o que pode ser o caso, assumir uma postura politizada. Quanto à escolha entre gay (ou guei) e homossexual, não há dúvida de que são conotativamente diferentes (embora denotativamente idênticas); a segunda é a única forma aceitável, a meu ver, em textos filosóficos ou psicanalíticos, enquanto a primeira, além de ser a única cabível no discurso do quotidiano, é mais coloquial e descontraída. Nos guias de viagens vais encontrar a rubrica “hotel gay“, “boate gay“, mas seria impensável “hotel homossexual”, “boate homossexual”. Quanto ao léxico do Português, parece que realmente ainda não temos nenhuma designação para gay que não tenha coloração pejorativa — nem mesmo no vocabulário da comunidade GLS. Sabes muito bem, Paul, que a linguagem apenas espelha a cultura que lhe corresponde; se um dia ela mudar, o vocábulo aparecerá.  Abraço. Prof. Moreno

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Etimologia e curiosidades Faits divers

O Almirante Nelson e a sílaba tônica

Como tive a oportunidade de mostrar no artigo Malan e a tônica, as palavras são percebidas com clareza só até a sílaba tônica: o que vier depois vai-se diluindo, perdendo a nitidez e a definição. Este fenômeno, velho conhecido dos lingüistas, provocou a infindável polêmica que envolve até hoje a romântica morte de Lord Nelson, o herói máximo da marinha inglesa: quais teriam sido as últimas palavras do Almirante?

No finzinho da batalha de Trafalgar, quando a esquadra inglesa já vencia a esquadra francesa e a espanhola juntas, em 1805, um atirador de elite francês, do alto do mastro do Redoutable, a menos de 20 metros, reconheceu a figura inconfundível de Nelson no convés do HMS Victory e fez fogo sobre ele: a pesada bala do mosquete francês atingiu-o no ombro esquerdo, atravessou completamente seu peito e prostrou-o agonizante no tombadilho. Era uma e meia da tarde; levado para o convés inferior, o herói inglês morreu três horas depois, cercado por seus oficiais, que vinham trazer notícias do sucesso da batalha. Dirigindo-se a seu subcomandante, o capitão Sir Thomas Hardy, Nelson pediu-lhe que não o jogassem no mar, como era o costume, mas que o enterrassem junto a seu pai e a sua mãe, no solo inglês. Em seguida, teria dito “Kiss me, Hardy” (“Beije-me, Hardy”); o capitão ajoelhou-se a seu lado e beijou-o na face. Muitos contemporâneos, no entanto, entenderam que ele teria dito, na verdade, “Kismet, Hardy” (“Foi o destino, Hardy”), e que o beijo do capitão seria um gesto espontâneo de respeito pelo herói moribundo. 

Kismet, ligado a um radical do Árabe com o significado de “quinhão”, é um conceito islâmico que traduziríamos como “destino, fatalidade”. Uma enciclopédia do Islã define o termo como “a força que ordena os acontecimentos de acordo com a vontade de Alá. O destino de cada um é inevitável; é a maneira como reagimos ao kismet que vai determinar nossa estatura moral”. Ora, é exatamente por esse caráter fatalista que muitos negam que tenha sido essa a palavra dita por Nelson, porque ele, sendo um admirável homem de ação, não poderia acatar a idéia de um destino imutável. Por outro lado, a versão de que ele teria dito “Kiss me” também não é fácil de engolir, pois implica admitir que poderia haver mais do que uma simples relação de comando entre ele e o Capitão Hardy (o que levou, como era de esperar, muitos movimentos gays a contabilizarem Lord Nelson entre os famosos homossexuais enrustidos da História). Jamais saberemos a verdade, porque a sílaba tônica dos dois vocábulos é idêntica. Cada um interprete como quiser; fica a lição, no entanto, de que devemos cuidar melhor de nossas últimas palavras. Eu pretendo fazer rascunho das minhas e submetê-las ao exame de alguns amigos de confiança. 

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