Categorias
Lições de gramática Sintaxe de colocação

colocação do pronome

Sandra, de São Paulo, precisa saber se as seguintes frases estão corretas: “Lhe manteremos informado sobre o progresso de nossos trabalhos”, “Lhe informamos sobre o progresso” e “Lhe notificamos sobre o progresso”.

Minha cara Sandra: em Português culto formal escrito, essas frases são inaceitáveis por duas razões: primeiro, não podemos começar uma frase pelo pronome oblíquo (lhe); segundo, o pronome oblíquo adequado, neste caso (seja com manter, com informar ou notificar), seria O, já que o lhe só é usado para objetos indiretos. Em suma, o correto seria informamo-lo, notificamo-lo ou mantê-loemos informado sobre o progresso — todas corretas, mas cada uma mais horrenda do que a outra.

Por isso tudo, o melhor seria mudar o início da frase, para não começar nem pelo pronome oblíquo (o que seria errado), nem pelo verbo (correto, mas pouco eufônico). Poderias escolher entre “Nós o manteremos informado”, “Manteremos o senhor informado…” , “O senhor será informado”, e assim por diante. Abraço. Prof. Moreno

Categorias
Lições de gramática Sintaxe das classes gramaticais

O ou LHE

Doutor Moreno, meu nome é Irene; eu sou professora de alemão e estou com uma enorme dúvida na gramática portuguesa, com relação ao verbo conhecer. Quando eu converso com uma pessoa e quero dizer que a conheço, qual é a forma correta? “Eu LHE conheço” ou “Eu A conheço”? Existe uma variação do pronome em relação ao tratamento mais formal? Muito obrigada!

Irene Schwarz

Minha cara Irene: a tua “enorme” dúvida é bem pequenina… O verbo conhecer é um transitivo direto, e, portanto, recebe o pronome oblíquo O (feminino, A): “Eu O conheço” (homem), “Eu A conheço” (mulher). É claro que estamos falando do registro culto, onde O representa especificamente objetos diretos, enquanto LHE representa objetos indiretos.

No registro popular, no entanto, onde não existe essa consciência da sintaxe (quem sabe o que é objeto direto ou indireto?), é natural que o uso desses pronomes tenha sofrido uma enorme alteração. Em primeiro lugar, o Português falado no Brasil simplesmente eliminou o pronome O, passando-se a usar ELE como complemento de verbos transitivos diretos: “Eu vi ele“, “Encontrei ela“, etc., prática ainda inaceitável na linguagem culta. Em segundo lugar, o LHE desvinculou-se totalmente de sua função sintática original e passou a ser empregado apenas como forma respeitosa de tratamento. Enquanto se usa “eu TE conheço”, “eu TE vi” para uma pessoa íntima, prefere-se “eu LHE conheço”, “eu LHE vi” para uma pessoa de maior hierarquia ou cerimônia — outra prática ainda considerada inaceitável no registro culto, que aqui exigiria “eu O conheço”, “eu O vi”, etc.

 Se eu estivesse ensinando um estrangeiro a escrever Português, eu insistiria na distinção sintática entre O e LHE; no entanto, se eu o estivesse ensinando a falar, com certeza eu o acostumaria a alternar entre o TE (para os mais próximos) e o LHE (para os de maior cerimônia), de acordo com a menor ou maior formalidade da situação, porque assim ele estaria perfeitamente integrado com a fala do Português Brasileiro. Abraço. Prof. Moreno

Categorias
Lições de gramática Sintaxe das classes gramaticais

emprego do lhe

Caro professor, minha dúvida é a respeito do uso do pronome oblíquo LHE com determinados verbos. Consultei várias gramáticas e todas afirmam que os verbos assistir, visar e aspirar, quando transitivos indiretos, não aceitam o pronome oblíquo LHE, mas sim os complementos a ele, a ela, a eles, a elas. Sinceramente não compreendo o motivo de tal regra, já que com a maioria dos verbos transitivos indiretos se usa normalmente o pronome LHE. Gostaria de esclarecimentos a esse respeito. 

Marcelo Esteves M. —  São Paulo

Meu caro Marcelo: acontece que acabas de esbarrar em mais um daqueles recifes em que os gramáticos tradicionais costumam naufragar: eles apenas relacionam os fatos (“o pronome LHE não pode ser usado com os verbos assistir, visar e aspirar” — o que é verdade) sem explicar por que é assim. Essa deficiência dos gramáticos que se formaram antes dos anos 60 é a maior responsável pela opinião, infelizmente generalizada, de que o Português é uma língua complicada, “cheia de regrinhas”, “repleta de exceções”. Eles até hoje dominam o mundo editorial (principalmente dos livros didáticos), e o nosso pobre país sofre com isso.

No entanto, a explicação é simplíssima: o LHE (representante do objeto indireto) não é um pronome de uso universal, como é o caso do seu parceiro O (representante do objeto direto). Ele tem uma importantíssima restrição de seleção: só pode ser usado com referência a pessoas (em linguagem mais técnica, diríamos “com substantivos +humanos”) — da mesma forma que o pronome relativo quem. Se o antecedente destes dois pronomes não tiver o traço “humano”, seu emprego fica bloqueado. Ora, esses três verbos que mencionaste (assistir, visar e aspirar) nunca têm objeto indireto de pessoa: eu aspiro ao cargo, aspiro à vaga, aspiro ao posto, mas não posso *aspirar a alguém — o que elimina, aqui, o uso do LHE.

Nesses casos, o objeto indireto é representado pelo pronome oblíquo tônico (acompanhado de sua respectiva preposição): a ele, a ela, etc. Para deixar mais claro o que estou tentando explicar, peço-te que compares as seis frases abaixo:

1. Obedeço ao professor

2. Obedeço a ele

3. Obedeço-LHE

4. Obedeço ao governo.

5. Obedeço a ele.

*6. Obedeço-LHE

Pois a (2) e a (3) são frases sinônimas, e o falante pode decidir livremente se quer substituir o objeto indireto ao professor pelo oblíquo tônico (a ele) ou pelo átono (lhe). A frase (6), contudo, é considerada agramatical, embora pareça idêntica à (3): é que o objeto indireto, aqui, não é uma pessoa, e o falante só pode substituir ao governo por a ele. Como vês, é o sistema do nosso idioma funcionando como um reloginho, e não, como nos fazem crer, muitas vezes, um punhado de “casos especiais”. Abraço. Prof. Moreno