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A palavra, sombra da voz, cadáver da locução

A PALAVRA, segundo Rafael Bluteau

O Padre Rafael Bluteau (1638-1734) foi uma das grandes figuras do Iluminismo português, membro da Academia dos Generosos e autor do primeiro bom dicionário de nossa língua, o famoso Vocabulário Português e Latino, agora disponível on-line. Esse dicionário, em 8 volumes (mais 2 de Suplemento), publicado de 1712 a 1728, já no final de sua longa e laboriosa vida de intelectual e pesquisador, traz em sua portada uma impressionante relação de 57 títulos, em sua grande maioria proparoxítonos: Vocabulário Português e Latino, áulico, anatômico, arquitetônico, bélico, botânico, brasílico, cômico… — e assim vai até zoológico!

Embora alguns de seus detratores o acusem de ser um exagerado, tanto nas palavras do título, quanto nos anos em que decidiu viver com lucidez (quase um século!), sua obra serviu de base para Morais, que viria a se tornar o verdadeiro pai de nossa lexicografia. Sua linguagem é excelente exemplo do pitoresco estilo da época, quando floresciam as Academias científicas e poéticas; no seu Suplemento, por exemplo, ao relacionar sinônimos poéticos para falar da abelha, sugere “Artífice do mel. Arquiteta dos favos. Do Monte Hybla industrioso inseto [o Hybla era um monte da Sicília, famoso no Mundo Antigo pelo perfume de suas flores e a excelência de seu mel]. Fabricadora de cera. Freguesa dos jardins. Sequiosa dos orvalhos. Gulosa das flores”. No admirável trecho abaixo, ele descreve a palavra fazendo uso da terminologia anatômica de seu tempo, numa fascinante comparação onde nunca sabemos o que é simples metáfora e o que pretende ser uma descrição científica da linguagem: 

“À palavra deu a natureza por origem a cabeça da áspera artéria, o ar por corpo, a língua por mãe, e a boca por berço, mas com tão instantâneo descanso que apenas nascida voa, e com tão breve vida, que logo nos ouvidos dos circunstantes se sepulta. Porém não acaba a palavra quando morre, porque ainda que metida na tortuosa sepultura do ouvido, com o osso petroso por campa, e com várias membranas por mortalhas, e quase perdida nos ocultos meatos da parte que os Anatomistas chamam de Labirinto, alentada com o impulso e comoção do ar implantado, acha a palavra abertas as válvulas, ou pequenas portas, por onde passam as espécies de som para o nervo auditório, e dele para os ventrículos do cérebro, onde estão depositados os tesouros da memória; e por este modo fica a palavra na impressão da sua própria espécie, epitáfio de si mesma, sombra da voz e cadáver da locução, até que chegue a lograr outra vida, quando, suscitada da reminiscência, torna a sair da boca ou da pena dos Escritores, e sucessivamente atada a outras com o fio do discurso, participa, com a doutrina dos sábios, nas obras da eloqüência.”

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