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Acordo ortográfico Casos Decididos

pôr (verbo)

Caro Prof. Moreno, li recentemente um de seus livros e hoje fui conferir o seu site. Gostei muito de ambos! Tenho uma dúvida quanto à grafia de por no sentido de “colocar”. Este verbo leva acento circunflexo (“pôr“) ou não? Já li frases como “Fulano vai pôr fim às tentativas de roubo…”. Está certo assim, ou deveria seria sem acento, como ocorre com coco, sede, gelo, etc., desde a pequena reforma ortográfica de 1971?

Rosalvo M. Júnior

Meu caro Rosalvo, toda vez que fores escrever o verbo pôr, deves usar o acento circunflexo. Este vocábulo só não vai receber acento quando for preposição: “Ela fez isso por você”. Pôr, pára (do verbo parar) e pôde estão entre os raros acentos diferenciais que são realmente úteis, e por isso sobreviveram, em 1971, àquela reformazinha que eliminou os acentos diferenciais — gelo, coco, almoço, medo e muitos outros. A atual reforma eliminou, incompreensivelmente (por sua utilidade), o acento de pára, mas conservou, num rasgo de sensatez, o circunflexo do verbo pôr. Ele foi mantido, aliás, porque é muito útil para orientar a leitura correta da frase. Comparando, por exemplo, “Vou por aqui” com “Vou pôr (colocar) aqui”, vais perceber a sua utilidade. Abraço. Prof. Moreno

Veja a regra aqui.

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Como se diz Como se escreve

Para tem duas sílabas?

 

Olá, Doutor. Tudo bem? Falando sobre a palavra para, o senhor afirmou: “Só se ouve para, completinho, com as duas sílabas, em leitura de criança recém-alfabetizada ou na fala de estrangeiro que está aprendendo Português”. Mas quando uso a combinação para com, por exemplo (“Isso não é honesto para com você”), eu digo para com duas sílabas mesmo, como uma criança ou como um estrangeiro… Como o sr. diz? Pra com ou ? Ou evita esse modo de falar? 

Anselmo Maruyama — Japão

Prezado Anselmo, ensinamos, no Curso de Letras, que uma coisa é o que a gente diz, outra o que a gente pensa que diz. Há uma série de exercícios que são feitos com os alunos-mestres, gravando, por exemplo, o que eles dizem em situações descontraídas, e depois confrontando a gravação com o que eles juravam costumar fazer. O para preposição é um dos raros vocábulos átonos que é dissílabo na escrita, mas, como é óbvio, monossílabo na fala: /pra/. Evidente que, na fala escandida, posso pronunciá-lo com duas sílabas cheias — quando eu dito, por exemplo, ou quando quero ser enfático, ou quando foco na preposição (focar, em linguagem, é destacar um determinado segmento da fala através de uma peculiar alteração na sua pronúncia: “Ela tinha dito que ia AO Rio, não PARA o Rio”). 

O exemplo que tu mandaste é significativo: para com é uma construção erudita, exclusiva do Português Escrito Formal (no Falado, só aparece em discurso escrito ou semi-escrito, como a fala de desembargadores em sala de sessão, por exemplo); aposto um boi gordo que tu, quando o escolheste como exemplo, estavas mais lendo mentalmente do que usando-o espontaneamente — daí te parecer quase impossível aparecer aqui o /pra/. Não é impossível, não; só que, como expliquei, o momento em que normalmente se usa para com é aquilo que chamamos fala tensa, em que o falante está aplicando conscientemente o sistema de regras da escrita. Eu, em aula, falo de uma forma que seria inadmissível na minha vida normal: pronuncio os erres finais dos verbos no infinitivo, digo /fêcho/, etc. Se um estudioso estrangeiro gravasse minhas aulas, não poderia, com esse material, descrever nossa Língua Portuguesa, pois se trata apenas de um uso muito particular dela. Abraço. Moreno

 

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Etimologia e curiosidades Origem das palavras

As lições da paranóia/paranoia

Uma leitora de São Paulo, psicanalista, está escrevendo um livro sobre paranóia e pede que eu comente a etimologia desta palavra. Solicita, ainda, a etimologia de para e de noia, separadamente. Mesmo não sabendo o que a doutora pretende com essa informação, vou acrescentar à minha explicação um caveat que ela não pediu (e talvez, para ela, perfeitamente dispensável): esta espécie de arqueologia dos significados esbarra numa limitação intrínseca do próprio material lingüístico, que deverá ser levada em conta por todos os que recorrem a esse tipo de análise.

Já vimos, no artigo Atravessando o Canal da Manga, como a origem das palavras tem interessado às ciências Psi, que vêem aí uma possibilidade de enxergar os fios quase invisíveis da trama de nosso mundo interior. Raro é o estudioso desta área que deixa de incluir em seu artigo ou conferência um momento dedicado ao exame etimológico das palavras-chave de seu tema. Ora, em todas as línguas importantes do Ocidente esta busca pela origem vai nos levar ao Latim, e dele, quase sempre, ao Grego. Não me refiro às palavras concretas, que guardam muitas vezes o seu cunho nacional, mas sim às abstratas: as palavras que nomeiam nossos sentimentos, sensações, pensamentos, o aparato do raciocínio, nossas capacidades cerebrais, virtudes, vícios, valores — tudo veio dessas duas línguas que nos engendraram. Uma exceção especialmente notável é o Alemão, que se fechou para esse sotaque greco-latino e usa palavras próprias para tudo. Para uns, o fato de ser exatamente essa a língua que a Psicanálise escolheu para se anunciar ao mundo, através da boca de Freud, é uma suprema ironia; para outros, encerra alguma verdade essencial.

Acontece que voltar ao Latim e ao Grego não é simples como voltar a Roma e à Grécia. Não é simples como descobrir as ruínas de Tróia, ou reconstruir virtualmente o Coliseu, ou restaurar um utensílio desconhecido encontrado no fundo do Mediterrâneo, ou reencenar a batalha de Maratona; aqui, saímos do mundo concreto e ingressamos no espaço imensurável que é uma língua humana, um construto de tal riqueza e complexidade que por si já justificaria (se isso fosse necessário) nossa presença neste Universo. Se tivermos debaixo dos olhos um utensílio dos tempos de Homero, por mais estranho que ele nos pareça, perceberemos as suas partes e seu funcionamento e, a partir daí, sua utilidade. Podemos até usá-lo como seu dono longínquo o usou. Se ainda restarem dúvidas, as imagens guardadas nos museus, ou a Literatura, a História e a Filosofia da Grécia (todas com sua merecida maiúscula) hão de conter referências a ele, confirmando ou não nossas conjecturas.

Quando fazemos a mesma inquirição sobre uma palavra, contudo, perdemos todas essas certezas. Ela não é a ferramenta de bronze ou a estatueta de terracota, mas um verdadeiro fogo-fátuo, que nos foge o tempo todo. As partes que a compõem, diferentemente das partes do objeto, já trazem em si a complexidade inerente a seu próprio material. Recorrer aos autores da época para confirmar nossas intuições também não muda muita coisa, pois agora estamos procurando palavras que nos esclareçam sobre palavras — e é próprio dos falantes de qualquer língua, em qualquer momento de sua evolução, discordarem dos limites e abrangências dos vocábulos que utilizam. Um etimologista do ano 3000 que pesquisasse o significado do vocábulo pós-moderno, em nossos textos atuais, chegaria a um resultado definitivo? Estão brincando? Só um estudo detalhado e especializado dos autores de nosso século que desperdiçaram seu tempo falando nesse conceito poderá revelar, a nossos descendentes do Quarto Milênio, quantas compreensões diferentes tínhamos para este termo — mas isso implica fazer uma análise histórica, antropológica, filosófica, psicológica, sociológica (e mais algumas), e não o simples exame do vocábulo e de seus elementos formadores.

Esses elementos formadores (morfemas) são o que temos de concreto. As palavras, assim como nós, precisam de um corpo para transportar o espírito. Procurando o espírito, deparamos com o corpo — os prefixos, os sufixos e os radicais, cada um deles dotado desta teimosa propriedade de não ser unívoco. Os prefixos e sufixos, principalmente, por existirem em número reduzido em qualquer língua, tornam-se portadores de muitos significados diferentes (ou, como se diz em linguagem técnica, são polissêmicos). Um bom exemplo, em Português, é nosso muito usado –eiro, que pode indicar, entre outros significados, (1) profissão ou ocupação — porteiro, jornaleiro, carvoeiro; (2) noção coletiva – braseiro, mosqueiro, berreiro; (3) árvore – pessegueiro, abacateiro, cajueiro; (4) lugar onde se guarda — paliteiro, açucareiro, tinteiro; (5) objeto de uso — pulseira, coleira, caneleira. Além disso, pode simplesmente formar adjetivos — rotineiro, verdadeiro, certeiro. Não admira que tenhamos vários vocábulos em que se observam valores diferentes para este sufixo, o que ocasiona, ipso facto, uma múltipla significação para o todo. Caseiro é o que cuida da casa (“Peça a chave a meu caseiro“), o que gosta de ficar em casa (“Ele anda muito caseiro“) ou o que se relaciona com a casa (“Comida caseira“)? Roupeiro, além de designar o lugar onde se guardam as roupas, também nomeia o profissional que, nos clubes esportivos, cuida do fardamento dos atletas. No mesmo sentido, chaveiro, sapateiro, costureiro, calceiro e camiseiro podem indicar tanto o lugar onde se guardam chaves, sapatos, costuras, calças e camisas, como o profissional especializado nessas coisas todas.

No uso quotidiano, o contexto geralmente se encarrega de deixar claro qual é o significado do sufixo numa determinada palavra. Contudo, há momentos e situações em que o falante não percebe essas distinções. No Inglês, o prefixo In- indica, na maior parte de suas ocorrências, a idéia de negação. Por causa disso, o vocábulo inflammable (“inflamável”) começou a ser interpretado, de maneira extremamente perigosa, como “algo que não pega fogo” (in, negativa + flame, Inglês para “chama”). Depois da 2ª Guerra, autoridades da área de segurança dos dois lados do Atlântico perceberam que havia uma forte tendência a ler o vocábulo como um sinônimo de fireproof (“à prova de fogo”). Antevendo que isso ia terminar em tragédia, encorajaram a reativação de um vocábulo que havia sido praticamente abandonado, flammable. Seu esforço teve sucesso, pois a forma inflammable foi praticamente deixada de lado, fazendo também com que o antigo non-inflammable (“não-inflamável”) fosse trocado por non-flammable.

O prefixo para- não deixa por menos. Ele aparece em dezenas de palavras eruditas de nossa língua, numa seqüência de metamorfoses de dar inveja a Proteu. (1) Em paracinesia, paracusia, parafrenia, paralalia, significa algo “incorreto, anormal” no movimento, na audição, no cérebro e na fala, respectivamente. (2) Em paracentral, paradáctilo, paratireóide, significa “ao lado, próximo” do centro, do dedo e da tireóide; nesse mesmo sentido, parágrafo (de grafo, “escrito” + para, “ao lado”) era o pequeno sinal que se punha ao lado, para indicar o início de um novo capítulo; paraninfo (de nimphe, “noiva” + para, “ao lado”), o que ficava junto à noiva, um padrinho. (3) Em paratifóide (a febre), o prefixo já significa “similar, parecido”. (4) Em paramédico, paraprofissional, paraestatal, paramilitar, vale por “subsidiário, assistente”. (5) Em parafimose, paraciesia, paranormal, já é “além de”. Que tal? Onde deveria entrar, por exemplo, a parapsicologia? Em (1), seria “psicologia incorreta”; em (2), “psicologia paralela”; em (3), “similar à psicologia”; em (4),”subsidiária à psicologia”; finalmente, em (5), “além da psicologia” (ou, quem sabe, “a psicologia do além”?).

O elemento noia não é menos movediço. Vem de nous, que os dicionários definem como (1) mente, espírito, pensamento; (2) inteligência, sagacidade, sabedoria; (3) intenção, projeto, modo de ver; (4) sentido de um vocábulo, de um discurso. Ou ainda: (5) alma, coração; (6) disposição da alma, sentimento, maneira de pensar; (4) vontade, desejo. Centenas de páginas foram dedicadas à discussão do conceito de nous na Grécia, sem encerrar a questão. Qual dos sentidos de para e qual dos sentidos de nous se encontram em paranóia? Mente anormal? Além da mente? Paralelo à mente? Como o vocábulo paranóia já existia na Grécia (não foi, portanto, criação tardia da Ciência), os dicionários de Grego já o registram. Meu Bailly o traduz como “loucura, delírio”. E o que era loucura, para um grego? O conhecido Os Gregos e o Irracional, de E. Dodds, mostra que eles, como nós, distinguiam várias espécies de loucura — e o nosso pé, que parecia estar tocando em terra firme, volta a se afundar no charco dos conceitos. Retornamos, desta forma, ao exemplo do pós-moderno: a etimologia encontra logo, logo o seu limite. Ela, sozinha, jamais fará o que só um estudo especializado, aprofundado e multidisciplinar pode fazer.

Isso não quer dizer que a etimologia não valha nada; quer dizer apenas que vale bem menos do que se pensava. Eu ainda acho muito estimulante seguir essas intuições, tentar rastrear essas ligações, ainda que muitas delas sejam apenas como as figuras que procuramos ver nas nuvens e que, como dizia Schopenhauer, a gente encontra porque procura. Não faz mal; esta busca traz idéias, agita o pensamento, serve como exercício heurístico. Além disso, é de extrema valia para quem está escrevendo, pois funciona como um tropo, como uma forma de determinar a direção do tema. “A Etimologia nos mostra diversas possibilidades de interpretar o elemento para [segue-se a relação]; dessas, só X vale (ou só X não vale) para entendermos o que é paranóia…”. Ou “Quando os gregos deram o nome de paranóia a um tipo de loucura, teriam percebido, como nós, que ela…”. E assim por diante. Por último, a análise etimológica pode valer também pelo que ela ajuda a negar. Ou, como diz muito melhor Jorge Luis Borges: “Os implacáveis detratores da Etimologia alegam que a origem das palavras não ensina o que elas hoje significam; os defensores podem replicar que ela ensina, sempre, o que as palavras agora já não significam”.

Depois do Acordo:

  • lingüístico > linguístico
  • paranóia > paranoia
  • Tróia > Troia
  • seqüência > sequência
  • idéia > ideia
  • tireóide > tireoide
  • paratireóide > partireoide