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Concordância em concurso

A questão pedia para assinalar a alternativa com erro de concordância. Segundo a banca, a frase com erro seria “Tanto aos capitalistas mais liberais quanto aos socialistas mais ortodoxos parecem de pouca importância o que não diz respeito ao campo estrito da economia”, mas não entendi por quê. Sujeitos ligados por “tanto.. quanto…” não levam o verbo para o plural?

A frase que marquei como errada foi  “Superaram-se, sim, no campo da técnica todas as expectivas, mas também se registre que todas as desigualdades sociais se agravaram”, porque acho que o pronome indefinido “todas” pediria o verbo no plural.

Patricia F. — Osasco, SP

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Cara Patrícia: sinto muito, mas a frase apontada pela banca realmente está errada. O verbo parecer deveria estar no singular, já que o sujeito é “o que não diz respeito ao campo estrito da economia“. Na ordem direta, fica “O que não diz respeito ao campo estrito da economia parece de pouca importância tanto aos capitalistas mais liberais quanto aos socialistas mais ortodoxos”.

O tanto e o quanto, aqui, não têm a menor importância para a concordância, simplesmente porque introduzem objetos indiretos (“tanto aos capitalistas“, “quanto aos socialistas“) — e não sujeitos.

Sinto dizer-te, também, que está corretíssima a concordância dos dois verbos da frase que assinalaste como incorreta: “Superaram-se, sim, no campo da técnica, todas as expectivas, mas também se registre que as desigualdades sociais se agravaram”. São dois casos de voz passiva sintética; o sujeito de “superaram-se” é “todas as expectativas”, e por isso ele está no plural; o de “se registre” é a oração seguinte (“que as desigualdades sociais se agravaram”) — e, como em qualquer caso de sujeito oracional, o verbo fica no singular.

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Testes sobre a passiva sintética – Respostas comentadas

[Testes sobre a concordância com a passiva sintética]

Respostas comentadas

Questão 1 – Na primeira lacuna, viver fica no plural para concordar com o sujeito, “as civilizações modernas”. O verbo cancelar, que é transitivo direto, está numa construção de passiva sintética; vai para o plural, pois o sujeito é “todas as restrições” (equivale, na passiva analítica, a “todas as restrições SÃO ACEITAS”). Na terceira lacuna, não se trata de passiva sintética, porque o verbo obedecer é  transitivo indireto (notem a presença da preposição A); fica no singular, portanto, pois é um simples caso de sujeito indeterminado. A resposta é  A.

Questão 2 –  Na primeira lacuna, expor é transitivo direto; temos aqui um caso de passiva sintética. O sujeito, “os assuntos”, faz o verbo ficar no plural. Cuidado: atrair, na segunda lacuna, fica no singular, porque o sujeito é “a maneira”, e não “assuntos”. O pronome relativo “que”, sujeito da última oração, representa o antecedente “alunos”, levando queixar-se para o plural. A resposta é B.

Questão 3 – Esta é uma excelente questão para mostrar  a diferença entre as duas principais construções em que aparece o SE em nosso idioma: (1) a voz passiva sintética, com verbos transitivos diretos, e (2) o sujeito indeterminado, com intransitivos e transitivos indiretos. Na frase apresentada no cabeçalho, tínhamos “que se LEVANTEM  os problemas” (pas. sintética), “que se REFLITA sobre os assuntos (sujeito indeterminado – o verbo é t. indireto) e “não se TOMEM medidas (pas. sintética). Na substituição proposta, falar, na primeira lacuna, fica no singular, pois é suj. indeterminado; avaliar é transitivo direto, e vai para o plural (pas. sintética); pensar fica no singular, porque seu sujeito também é indeterminado. A resposta é A.

Questão 4 – As duas primeiras lacunas completam estruturas de passiva sintética: “que se READMITAM todos os desempregados” (igual a “que todos os desempregados SEJAM READMITIDOS”) e “que se ESQUEÇAM todos esses desentendimentos” (igual a “que todos esses desentendimentos SEJAM ESQUECIDOS”). A última oração é a mais perigosa, pois está presente o verbo desejar; ora, como vimos, os verbos que exprimem vontade ou intenção bloqueiam a voz passiva (os chamados “auxiliares volitivos”); o verbo fica no singular. A resposta é D.

Questão 5 – Muito semelhante à anterior: as duas primeiras construções são de passiva sintética – “quando se ESGOTAM as possibilidades, BUSCAM-se os pais do casal”. Há uma dificuldade adicional, contudo:  a banca intercalou, entre o verbo e o seu sujeito, expressões no singular (“meu amigo” e “em última instância”), que podem ter levado muitos candidatos a deixar o verbo no singular. A terceira lacuna envolve pretender, outro auxiliar que exprime vontade, o que explica o verbo principal no singular. A resposta é C.

Questão 6 – Da mesma forma que o verbo haver, a construção “tratar-se de” é impessoal (ou seja, não tem sujeito algum), ficando sempre no singular. Resolver está numa estrutura de passiva sintética e, portanto, vai concordar com  coisas (“coisas simples que se RESOLVEM facilmente” = “coisas simples que SÃO RESOLVIDAS facilmente”). A última oração também apresenta a passiva: “EVITEM-se discussões”. A resposta é E.

Questão 7 – A primeira oração é uma passiva sintética: “ali onde se VÊEM as cruzes” = ali onde “as cruzes SÃO VISTAS”. Já na segunda o verbo fica no singular: é um simples caso de sujeito indeterminado, uma vez que assistir, no sentido empregado, é transitivo indireto. A resposta é A.

Questão 8 – No primeiro verbo, temos um caso simples de sujeito posposto (“dúvidas”). O sujeito do segundo está também posposto: “as críticas”. A terceira oração tem uma passiva sintética: “as críticas que SE FIZERAM ao projeto” (na analítica, seria “as críticas que FORAM FEITAS ao projeto”).  A resposta é D.

Questão 9 – Na segunda lacuna, o verbo haver, que é impessoal, faz com que o seu auxiliar estar também se impessoalize: “ESTÁ havendo”. A terceira lacuna recebe o verbo no plural, porque se trata de uma voz passiva sintética, cujo sujeito é “irregularidades”. O sujeito de afirmar, na primeira lacuna, é a oração subjetiva “que está havendo irregularidades”; o verbo ficará, portanto, no singular. A resposta é C.

Questão 10 – A primeira lacuna envolve uma passiva sintética: “que SE FAÇAM todas as recomendações”. Na segunda, aparece o verbo fazer impessoal (indicando tempo decorrido); fica no singular, portanto. Na terceira, temos nova passiva: “que SE COMETEM os mesmos erros” (igual a “que SÃO COMETIDOS os mesmos erros”). A resposta é D.

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Testes – concordância com a passiva sintética

Dez testes selecionados (e comentados) pelo Doutor; avalie o quanto você sabe sobre esse pesadelo de nossa concordância verbal.

 

Prezado leitor: estes testes se referem ao conteúdo explanado em Concordância com a passiva sintética.


1 – A crise no emprego da língua materna insere-se no contexto mais amplo das circunstâncias culturais em que ……… as civilizações modernas. Numa época em que se ……… todas as restrições e em que se ………. a todas as normas estabelecidas, não há, seguramente, maior zelo pela linguagem.

a) vivem              cancelaram          desobedece
b) vive                 cancelaram          desobedece
c) vive                 cancelou             desobedece
d) vive                 cancelaram          desobedecem
e) vivem              cancelaram          desobedecem

 

2 – A maneira como se ……… os assuntos não ……… os alunos, que disso se ……… .

a) expõe              atraem         queixa
b) expõem           atrai             queixam
c) expõem           atraem         queixam
d) expõem           atrai             queixa
e) expõe              atraem         queixam

 

3 – (PUC) “Convém que se LEVANTEM os problemas, que se REFLITA sobre os assuntos e não se TOMEM medidas apressadas.”

Substituindo-se os verbos sublinhados respectivamente por FALAR, AVALIAR e PENSAR, obtém-se a construção correta

a) Convém que se fale dos problemas, que se avaliem os assuntos e não se pense em medidas apressadas.
b) Convém que se falem dos problemas, que se avaliem os assuntos e não se pensem em medidas apressadas.
c) Convém que se fale dos problemas, que se avalie os assuntos e não se pense em medidas apressadas.
d) Convém que se falem dos problemas, que se avalie os assuntos e não se pensem em medidas apressadas.
e) Convém que se fale dos problemas, que se avalie os assuntos e não se pensem em medidas apressadas.


4. Espero que se ………. todos os desempregados e que se …….. todos esses desentendimentos que não se …….. causar.

a) readmitam          esqueçam      desejavam
b) readmitam          esqueça         desejavam
c) readmita             esqueça         desejava
d) readmitam          esqueçam      desejava
e) readmitam          esqueça         desejava

 

5 –  Quando se ………, meu amigo, todas as possibilidades de conciliação, ………., em última instância, os pais do casal. Desta forma, obtemos, muitas vezes, as soluções que se …….. atingir.

a) esgota             busca-se             pretendiam
b) esgota             buscam-se          pretendia
c) esgotam          buscam-se          pretendia
d) esgotam          busca-se             pretendia
e) esgotam          buscam-se          pretendiam

 

6 – ……….-se de coisas simples que se……… facilmente;……..-se, portanto, discussões paralelas.

a) Trata         resolverá      evite
b) Tratam      resolverá      evitem
c) Tratam       resolverão    evite
d) Tratam       resolverão    evite
e) Trata           resolverão    evitem

 

7 – Ali onde se ……… aquelas cruzes ………. cenas de selvageria, durante os combates.

a) vêem               assistiu-se a
b) vêem              assistiram-se a
c) vê                   assistiram-se a
d) vê                   assistiu-se
e) vê                  assistiu-se a

 

8 – Não …….. dúvidas de que ……….de razão as críticas que se ………. ao projeto.

a) resta                carecem     fez
b) resta                carece        fizeram
c) resta                carece        fez
d) restam             carecem     fizeram
e) restam             carecem     fez


9 – ………, em todos os cantos da cidade, que ………. havendo irregularidades nas eleições que se ………. no município.

a) Afirma-se               estão          organizaram
b) Afirma-se               estão          organizou
c) Afirma-se               está            organizaram
d) Afirmam-se            está            organizou
e) Afirmam-se            estão           organizou

 

10 – Urge que se ……… todas as recomendações, pois já ………. meses que se ……… os mesmos erros.

a) façam      fazem         cometem
b) façam      faz              comete
c) faça         fazem         comete
d) façam      faz              cometem
e) faça         faz              comete

 

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concordância com a passiva sintética

As leitoras Diva Lea, de Assis (SP), e Maria Angélica, de Porto Velho (RO), estranham que ainda seja considerado erro deixar no singular o verbo  de vende-se casas. Elas — como todo falante brasileiro não sentem casas como o sujeito dessa construção, nem vêem aí uma equivalência com casas são vendidas. Em qualquer cidade do Brasil, em qualquer estrada, nas páginas dos classificados, nos anúncios da lista telefônica para onde quer que você olhe, vai enxergar exemplos do famigerado “erro” da passiva sintética. Sem dar a mínima para o  que dizem os gramáticos mais tradicionais, as pessoas povoam a paisagem brasileira de grandes cartazes e belos letreiros com aluga-se casas, conserta-se fogões, faz-se carretos, aceita-se encomendas, traçados em todas as cores e tamanhos. Por alguma misteriosa razão, os vendedores de terrenos  recusam-se a fazer o verbo vender concordar com os  terrenos que eles vendem; em vez de vendem-se, teimam em escrever “vende-se terrenos“, assim mesmo, com o verbo no singular.  Alguns começam a se perguntar se a  voz passiva sintética está ameaçada; eu vejo, simplesmente, que a questão já foi decidida há muito tempo: a passiva sintética deixou de ser uma estrutura viva de nossa língua. Ficou apenas a lenda, contada ainda respeitosamente junto ao fogo dos acampamentos gramaticais mais conservadores. E por que morreu? Porque o que ela teria a oferecer não interessa mais aos falantes, que vêem a voz passiva analítica a verdadeira atingir as mesmas finalidades, com muito mais vantagem.

Vamos ser sinceros: quando eu escrevo vende-se este terreno, pretendo significar que “este terreno é vendido” (ou “está sendo vendido”)?  Claro que não.  É  o interesse de não ser identificado (ou, às vezes, um simples pudor) que me leva a não escrever vendo este terreno (o que seria claro, direto e honesto). Ao optar pelo vende-se, quero anunciar algo assim como “alguém vende este terreno”. Em outras palavras, estou tentando usar, com um verbo transitivo direto, aquela mesma  construção que empregamos com os verbos transitivos indiretos quando queremos indeterminar o sujeito (“precisa-se de operários”, “necessita-se de costureiras”). Como explicava Celso Pedro Luft, usamos o SE sempre que não nos interessa especificar o agente. Em “aluga-se uma casa” e “vende-se este terreno” não interessa saber quem vende ou aluga; interessa a ação e seu objeto. Por isso mesmo, quando o próprio objeto está diante dos olhos do leitor, basta pregar nele uma tabuleta com o verbo, e pronto: aluga-se, vende-se.   Essa é a realidade; nossa insistência em manter o verbo no singular, a despeito do plural que vem depois, comprova que ninguém sente casas ou terrenos como sujeito dessas frases.

Há muito os lingüistas brasileiros já sabem que a passiva sintética é pura ficção, mas este é um daqueles tantos itens em que fica evidenciado o imenso (e estranhíssimo!) fosso que separa,  de um lado, o que hoje conhecemos sobre a nossa língua, e do outro,  o que a disciplina gramatical (sustentada pela maior parte dos livros didáticos) ainda difunde através do ensino. Neste caso, em particular, há um apego ainda mais inexplicável a uma dessas falsas verdades, já que muitos gramáticos “velhos”, dos bons (entre outros, o grande Said Ali em 1908! e João Ribeiro) já expressaram sua convicção  de que esta estrutura estava morta. Acontece que não são  os verdadeiros especialistas quem detém o poder da opinião gramatical no Brasil; este vem sendo exercido, desde o Império, por indivíduos dotados geralmente de pouca cultura lingüística e magros dotes intelectuais, que ocupam as posições de destaque na imprensa e nas editoras, impondo ao sistema escolar uma língua aprisionada numa estreita moldura teórica o que é, paradoxalmente, a verdadeira razão de seu sucesso, pois isso dá ao usuário aquela  sensação de segurança que o espírito redutor sempre oferece. Basta comparar a atitude aberta, indagativa, de velhos sábios como Said Ali ou Mário Barreto, com a posição autoritária e estreita da grande maioria dos autores que escrevem hoje, século XXI, sobre Língua Portuguesa, aqui nesta Pindorama. O próprio Said Ali já definia, curto e seco,  o problema desses bacharéis gramatiqueiros, com sua mirrada análise lingüística: eles “pecam por excesso de raciocínio dentro de limitado círculo de idéias“. Criaram um estreito arcabouço lógico para a língua (que, como sabemos, não é lógica) e nele basearam toda uma “disciplina gramatical” que, como não poderia deixar de ser, não passa de uma entediante arquitetura fantasiosa, sem o imprescindível apoio da realidade.

É só nesse mundo fictício que a passiva sintética sobrevive. É um mecanismo perverso: mesmo aqueles que já estão convencidos de que ela é uma estrutura artificial não ousam ignorá-la, pelo medo de ser avaliados desfavoravelmente por seus leitores, que provavelmente acreditam nessa versão “oficial” do Português. Eu, por exemplo (que não acredito na sintética), vou escrever “vende-se casas”? Pois jacaré escreveu? Nem eu! Esse é um dos maiores fatores dessa sobrevivência virtual desta construção obsoleta: ninguém quer se arriscar a ser o primeiro. Isso é mais que humano (além do fato de que, vamos ser sinceros, não se trata de algo tão importante assim que valha o incômodo…). E ela segue vivendo da ilusão dos concursos, dos vestibulares, das petições, dos textos formais e conservadores. O que apresento a seguir é uma suma da concepção tradicional sobre a voz passiva sintética; embora eu dela discorde, friso que ela deve ser conhecida por quem quer que precise demonstrar domínio da Norma Culta Escrita.

1 – Concordância  com  a passiva sintética (visão tradicional)

Ao lidar com a voz passiva sintética (também chamada de pronominal, por causa do SE, que é um pronome apassivador), nosso maior problema é reconhecer o sujeito da frase.   Em estruturas do tipo aceitam-se cheques ou compram-se garrafas, o elemento que vem posposto ao verbo é considerado o sujeito (o paciente da ação).  Ocorre, no entanto, que a passiva sintética não é sentida como voz passiva pela maioria dos falantes, os quais,  vendo em cheques e garrafas um simples objeto direto, deixam de concordar o verbo com eles. Nasce aqui o que um antigo gramático chamava de “erro da tabuleta”: *aceita-se cheques, *compra-se garrafas, *vende-se terrenos, *aluga-se barcos.

Como já disse acima, não vou discutir, aqui, a real existência da passiva sintética; contento-me em explicar como é que a doutrina gramatical escolar a descreve. Não esqueça de que ela é ainda encarada como um dos traços que caracterizam o uso culto formal, e você pode ter certeza de que ela estará presente nas questões de vestibulares e concursos. É necessário, portanto, que você saiba  identificá-la, fazendo em seguida a competente concordância.

Para quem tem uma formação mínima em sintaxe, não é tão difícil reconhecê-la: verbos TRANSITIVOS DIRETOS seguidos de SE (não reflexivo) constituem casos inequívocos dessa estrutura. Se ainda assim persistirem dúvidas, lembre que a frase na passiva sintética tem forma equivalente na passiva analítica:

Aceitam-se cheques Cheques são aceitos.

Compram-se garrafas Garrafas são compradas.

Se o verbo for transitivo indireto, é evidente que não pode haver passiva tanto a sintética quanto a analítica.  A construção com VERBO TRANSITIVO INDIRETO+SE é uma das formas do sujeito indeterminado no Português, ficando o verbo sempre na 3ª pessoa do singular:

Precisa-se de serventes.

Falava-se dos últimos acontecimentos.

Como serventes e últimos acontecimentos têm a função de objetos indiretos, o fato de estarem no plural não afeta o verbo, que continua imóvel no singular. Aqui muitas vezes ocorre a hipercorreção, aquele curioso erro invertido: assim como o caipira da anedota, muitas vezes advertido a não dizer fia e paia em vez de filha e palha, termina caprichando num *”as arelhas da pralha”, assim também falantes que se preocupam demais em errar a concordância com a passiva terminam por flexionar erroneamente essas estruturas, apesar do verbo ser transitivo indireto:

*Precisam-se de serventes (em vez de “precisa-se”).

*Falavam-se dos últimos acontecimentos (em vez de “falava-se”).

Para ter certeza de que não vai cometer este erro, você precisa identificar a regência do verbo; se for transitivo indireto, certamente não se tratará de caso de voz passiva. A mensagem por trás disso tudo, porém, é trágica: ninguém será capaz de lidar com essa estrutura se não for capaz de fazer todas as distinções sintáticas necessárias; nada mais natural, portanto, que o uso da sintética tenha ficado reduzido à escrita de usuários cultos e extremamente cautelosos.

2 – Aumenta a preocupação: as locuções verbais

Quando o verbo principal de uma locução verbal é transitivo direto, ocorrerá normalmente a voz passiva, flexionando-se (como é característico das locuções) o verbo auxiliar:

(ativa)         O rei tinha autorizado as núpcias do poeta.

(analít.)       As núpcias do poeta tinham sido autorizadas pelo rei.

(ativa)         A miopia pode estar prejudicando este garoto.

(analít.)        Este garoto pode estar sendo prejudicado pela miopia.

(analít.)        Essas terras tinham sido compradas.

(sintét.)        Tinham-se comprado estas terras.

(analít.)         As condições do tratado devem ser respeitadas.

(sintét.)        Devem-se respeitar as condições do tratado.

Nessas construções de passiva sintética com auxiliar, mais difícil ainda se torna reconhecer o sujeito posposto:

*Tinha-se comprado estas terras (em vez de “tinham-se”).

*Deve-se respeitar as condições do tratado. (em vez de “devem-se”)

Aqui, no entanto, há um caveat: existem vários auxiliares que impedem a transformação passiva (analítica ou sintética). Os gramáticos velhos os denominam de auxiliares volitivos os que indicam vontade ou intenção, como  QUERER, DESEJAR, ODIAR, e os que indicam tentativa ou esforço, como BUSCAR, PRETENDER, OUSAR, etc.

A frase “O homem tenta desvendar os mistérios da Natureza” não admite a passiva *”Os mistérios da Natureza tentam ser desvendados pelo homem”, da mesma forma que “Eu quero convidar Fulana”  não corresponde a “Fulana quer ser convidada por mim”. O mesmo vai acontecer com a passiva sintética: numa frase como “Pretende-se importar os componentes”, o auxiliar volitivo deixa  claro que componentes não pode ser o sujeito de “pretender”. O que temos aqui, na verdade, é um SUJEITO ORACIONAL o sujeito das frases abaixo é a oração subjetiva entre colchetes, e o verbo, conseqüentemente, fica na 3ª pessoa do singular:

Pretende-se  [importar os componentes].

Busca-se   [eliminar as diferenças].

 

Depois do Acordo: vêem, lingüista, lingüística, idéia e conseqüentemente passam a veem, linguista, linguística, ideia e consequentemente.