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Concordância Destaque Emprego dos pronomes Lições de gramática Sintaxe das classes gramaticais

“você” é 2ª ou 3ª pessoa?

Prezado professor Moreno: tenho uma dúvida quanto ao uso dos possessivos. Aqui em Minas Gerais usamos sempre o você em lugar do tu, fato que gera várias confusões e ambigüidades com o uso simultâneo da 2ª e da 3ª pessoa. Eu tento manter a uniformidade pronominal, mas há uma situação em que ainda fico em dúvida: quando estou me dirigindo a dois interlocutores e quero me referir a um objeto que pertence a ambos, que pronome possessivo devo usar? Já ouvi dizerem “O carro de vocês está com o pneu furado”; na fala popular, ouvi “Seus carro está com o pneu furado” (ai, que dor no ouvido!); sei também que se pode empregar o pronome da 2ª pessoa do plural (nunca usado por aqui): “Vosso carro está com o pneu furado”. Este “de vocês” pode ser considerado correto segundo a norma culta? Ou só se admitiria o “vosso carro”?

Juarez A. –  Pedro Leopoldo  (MG)

Meu caro Juarez, acho indispensável começar por uma importante distinção: as pessoas do discurso não são as mesmas pessoas gramaticais. As pessoas do discurso se definem por sua posição no ato comunicativo: a 1ª pessoa é a que fala (eu, nós); a 2ª, com quem eu falo (tu, vós, você, vocês, o senhor, etc.); a 3ª é de quem eu falo (ele, eles). Nota que, por esta classificação, você é uma das opções que nosso idioma oferece para designar a pessoa com quem estamos falando – a 2ª pessoa do discurso, portanto. Como tu mesmo observaste, uns tratam seu interlocutor de tu, outro preferem usar você. A escolha é livre.

As pessoas gramaticais, por sua vez, é que nos dizem qual a flexão verbal que vamos usar, que pronome oblíquo vamos selecionar, e assim por diante. Se compararmos “Tu te arrependeste de tua escolha” com “Você se arrependeu de sua escolha”, veremos que o tu é acompanhado de formas da pessoa gramatical (te, arrependeste e tua), enquanto o você corresponde a formas da pessoa gramatical (se, arrependeu e sua). Aqui se encontra a fonte das confusões que descreveste: você é um  pronome da 2ª pessoa do discurso, mas usa (como todos os pronomes de tratamento) as formas da 3ª pessoa gramatical: “Você deve se orgulhar de seu filho” (assim como “Vossa Majestade pode se orgulhar de seu filho”). Só utilizaremos o possessivo vosso, portanto, quando a forma de tratamento escolhida for vós, cujo emprego (atualmente) ficou restrito a textos religiosos (“Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres, bendito é o fruto em vosso ventre, Jesus”).

Vamos, agora, ao teu problema específico –  como se referir a um só objeto que pertence a vários interlocutores. Não esqueças que o pronome possessivo do Português sempre concorda com o substantivo que representa a coisa possuída (diferentemente do Inglês, em que concorda com a pessoa do possuidor). João tem um carro; ele guardou seu carro. João tem dois carros; ele guardou seus carros. João e Maria têm um carro; eles guardaram seu carro. João e Maria têm dois carros; eles guardaram seus carros. Vocês têm um carro; vocês guardaram seu carro. (Falando com dois irmãos): “Vocês devem agora falar com seu pai“. “Vocês deveriam passar mais tempo com sua família“. Como podes ver, não interessa se o possuidor é singular ou plural, mas sim o número da coisa possuída. Para você e os demais pronomes de tratamento, o possessivo correspondente é seu, sua, seus, suas; a forma a ser usada dependerá do substantivo que eles acompanham. No exemplo que enviaste, portanto, o uso culto oferece duas opções: “Seu carro está com o pneu furado” ou “O carro de vocês está com o pneu furado”. Abraço. Prof. Moreno

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Lições de gramática Verbos - conjugação

tu x você

Caro professor: a respeito de verbos na forma imperativa, tenho visto muitos deles usados de forma diferente da que eu aprendi na escola. Por exemplo: olhar, OLHE; escrever, ESCREVA; ligar, LIGUE. Pois bem… frequentemente em rádios e televisões, ouço “LIGA agora pra nossa central”, “ESCREVE aqui pra rádio”. Há um comercial de celular no qual o verbo, que está no imperativo, é usado como LIGA, e até mesmo em uma capa de revista apareceu “OLHA a postura!”. Puxa, vendo isto em uma revista tão atual, só me resta pensar que esses verbos estão se incorporando ou se tornando aceitáveis. Espero que o senhor resolva de vez essa minha dúvida, que pode ser a de muitos e que me deixa espantada, ao ouvir e ler esses verbos desse jeito. Abraços. [Audrey C. — São Paulo]

Prezado Prof. Moreno: em primeiro lugar, parabéns por seu trabalho brilhante (e muitas vezes paciente…) no ensino de nosso tão atropelado idioma. Aprendi, ainda quando pequena, esta oração ao Anjo da Guarda, mas penso estar errada a conjugação dos verbos no imperativo. A oração é a seguinte:

Santo Anjo do Senhor,

Meu zeloso guardador,

Se a ti me confiou a piedade divina,

Sempre me REGE, GUARDE, GOVERNE, ILUMINE.

Como seria a forma correta? Desde já agradeço. Um abraço,

Angela S. — Porto Alegre (RS)

Prezadas leitoras, o que está incomodando vocês é o cruzamento das regras de conjugação do imperativo com a forma de tratamento que está sendo empregada (TU ou VOCÊ) — uma das misturas mais indigestas para quem hoje ainda tenta escrever corretamente o nosso idioma. Essas duas áreas já são problemáticas de per si; quando se juntam, é natural que o cenário fique ainda mais confuso. Vou esclarecer por partes.

O TRATAMENTO — Quando nos dirigimos a alguém, o Português moderno permite que escolhamos livremente entre tratá-lo por TU ou por VOCÊ; embora haja certas preferências regionais (já falei sobre isso em lê ou leia), qualquer brasileiro, em qualquer parte do país, é livre para usar a forma de tratamento que lhe aprouver. Quando comecei a construir este sítio, optei pelo TU, e assim eu uso até hoje. No jargão das gramáticas tradicionais, portanto, TU e VOCÊ são duas formas igualmente corretas para tratar a segunda PESSOA DO DISCURSO (definida como aquela a quem se fala). É importante frisar que, apesar de ambos se referirem à segunda pessoa (do discurso), tu pertence à segunda e você pertence à terceira PESSOA gramatical, exigindo as formas verbais e os pronomes respectivos. Comparem a frase “Se você não trouxe seu livro, vai se arrepender” com a frase “Se tu não trouxeste teu livro, vais te arrepender” — ambas corretas. 

Numa espécie de darwinismo lingüístico, as duas formas passaram a disputar a preferência dos falantes. Ambas estão ainda em uso, mas a direção de tendência — ou seja, o rumo inexorável para onde os dados lingüísticos apontam — parece ser a supremacia absoluta do você e a retirada de cena do tu, assim como já aconteceu com o vós (lembro apenas que essa disputa vai durar alguns séculos, ao longo dos quais as hesitações vão naturalmente continuar ocorrendo). Nosso quadro verbal, então, vai reduzir-se a quatro pessoas (eu; ele,você; nós; eles, vocês). 

O IMPERATIVO — Para fazer um convite, uma exortação, ou dar uma ordem — aquilo que a mitologia gramatical denominou de imperativo —, deveríamos usar formas verbais muito diferentes para o tu e para o você — eu disse “deveríamos”, porque na prática quase nunca isso acontece (leiam, por exemplo, vem pra Caixa você também). A forma que corresponde ao você é idêntica ao presente do subjuntivo, enquanto a que corresponde ao tu é uma forma própria, exclusiva, obtida a partir do presente do indicativo, com a perda do S característico:

COLABORE você COLABORA tu

DEVOLVA você DEVOLVE tu

INSISTA você INSISTE tu

FIQUE você FICA tu

Pois as formas com que cismaste, minha cara Audrey, são as que correspondem ao tu: “LIGA agora pra nossa central”, “ESCREVE aqui pra rádio”, “OLHA a postura!”. Pelo que dizes, presumo que preferirias ligue, escreva e olhe, correspondentes ao você. Elas não estão erradas; o que fez acender a tua luz de alerta, ao ver aqueles comerciais, foi simplesmente o fato de empregarem o tu acompanhado de suas respectivas formas verbais, que já soam estranhas para grande parte dos brasileiros. 

Quanto a ti, minha prezada Ângela, estás certa em desconfiar do texto da oração, porque ele realmente está errado. Se a prece se dirige ao Anjo tratando-o por tu (como podemos ver na frase “se a TI me confiou…”), as formas do imperativo devem ser da segunda pessoa: “… me rege, guarda, governa e ilumina“. Acho que o E de REGE (que está correto) terminou influenciando na conjugação errônea dos três outros. Abraço. Prof. Moreno

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