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o terceiro balaio de plurais

software/hardware

Estamos finalizando um folheto publicitário e deparamos com uma dúvida atroz: na frase “O Governo Federal adota vários softwares produzidos por esta empresa”, aquele plural está correto? Meu chefe disse que não existe o plural de software, assim como também não existe o de hardware. ciO cliente está correto?

Luciana G. São Paulo

 

RESPOSTA Prezada Luciana, o Inglês já tem o plural softwares; embora os puristas da Informática defendam a existência apenas do singular, este plural passou a ser empregado largamente a partir do momento em que o vocábulo passou a ser usado como sinônimo de “programa de computador” (como mostra muito bem o teu exemplo). Só para teres uma idéia, hoje (maio de 2010) hardwares cravou mais de dois milhões ocorrências no Google, enquanto softwares abre bem os olhos! bateu bem mais de cem milhões de ocorrências. O teu chefe disse que “não existe”? Ele não entende nada de linguagem. Ele poderia alegar, isso sim, que o uso técnico recomenda o singular — mas até isso, como podemos ver por estes números astronômicos, já está ficando discutível.

 

correios?

A EBCT usa, até no seu símbolo, o nome correios, mas o Aurélio não apresenta essa palavra. Aliás, define correio como sendo a repartição pública que recebe e expede correspondência. Perguntando à empresa, ela respondeu que o correto é mesmo correios. Afinal, qual é o certo?

Pedro B. – Natal

RESPOSTA – Ô, Pedro, o Aurélio registra o singular o que não significa que o vocábulo não possa ter plural! O nome da empresa, se notaste, usa o plural em correios e em telégrafos desde a proclamação da República, o que parece indicar que desde aquela época o conceito engloba vários tipos de correio talvez correio aéreo, correio terrestre, correio militar, assim como hoje falamos de correio-papel, de correio-eletrônico, etc. Se a empresa diz que é assim, assim é; o que o dicionário registra vale para a palavra, não para a pessoa jurídica. Da mesmas forma, temos as Lojas Americanas, as Casas Pernambucanas, e por aí vai a valsa.

 

histórico-geográfico

Eu gostaria de saber se está correto o plural de histórico-geográfico na frase “O geógrafo pediu vários levantamentos histórico-geográficos da região”.

Elianai C.

RESPOSTA – Prezado Elianai, qualquer adjetivo composto de dois outros adjetivos só pode flexionar no seu segundo elemento: clínicas médico-cirúrgicas, levantamentos histórico-geográficos, etc.

 

microempresa

Professor, aqui no trabalho estamos com uma dúvida cruel. Meu chefe insiste em colocar no site da empresa o termo micros empresas. Aprendi que não usamos prefixos no plural. E agora?

Keli O.

RESPOSTA Keli, o vocábulo é microempresa – tudo junto, sem hífen e sem espaço. Como é que vamos enfiar um S de plural ali no meio? Impossível. O plural é microempresas; agora, ninguém é obrigado a escrever as palavras da maneira correta, especialmente os chefes…

 

dias da semana

Gostaria de tirar uma grande dúvida com relação ao plural dos dias da semana. O correto é segundas-feira ou segundas-feiras?

Sônia A.

RESPOSTA – Prezada Sônia: todos os sábados, domingos, todas as segundas-feiras, terças-feiras — e assim por diante.

 

4ª-feira

Gostaria de saber se, quando escrevo “todas as 4ªs feiras”, devo passar tanto o numeral quanto feira para o plural.

Irma M. Lins (SP)

RESPOSTA – Cara Irma, tua dificuldade nasce do fato de usares essa bizarra combinação de abreviatura numérica com a flexão natural do vocábulo por extenso. Por que não quartas-feiras? Quando o ordinal for um dos elementos constitutivos de substantivo composto, não deve receber a abreviação de simples numeral. Vais escrever primeiro-ministro, mas nunca 1º-ministro; vais escrever “Tenho ensaio todas as quartas“, mas nunca “Ensaio todas as 4ªs“.

 

plural no adjunto adnominal

Caro professor Moreno, meu filho pediu-me que passasse a frase “Não havia água mais fresca e gelada que água de cacimba” para o plural. Respondi que devia ser “Não havia águas mais frescas e geladas que águas de cacimbas” — e o danado disse que errei, pois cacimba não deve ir para o plural. Ele está certo?

Sandro

RESPOSTA – Um dia, Sandro, isso começa a acontecer conosco e não pára mais: os filhos começam a saber mais do que a gente. Ele tem razão; muito, mas muito raramente se justifica a pluralização do adjunto adnominal ligado por preposição: casa de sapê, casas de sapê; floco de neve, flocos de neve; pastel de forno, pastéis de forno; água de cacimba, águas de cacimba.

 

ponte-rolante

Surgiu uma dúvida, aqui na empresa, sobre o plural de uma palavra composta, ponte-rolante. Eu flexionei como pontes-rolantes porque a regra diz que substantivo e adjetivo variam em gênero e número. Mas a maioria concordou que o plural seria pontes-rolante. Quem tem razão?

Cláudio R. S.

RESPOSTA É uma triste constatação, Cláudio, mas geralmente a maioria não tem razão. O raciocínio correto é o teu: compostos de substantivo+adjetivo flexionam em ambos os elementos: ponteslevadiças, onçaspintadas, pontesrolantes.

 

mercado-nicho

Professor, aprendi que, num composto de substantivo+substantivo, só o primeiro irá para o plural quando o segundo servir apenas para indicar a finalidade do primeiro: navio-escola, navios-escola. E quando eu escrevo, por exemplo, “o valor das ações nos mercados-nicho“, trata-se do mesmo caso? E precisa deste hífen?

Maristela M.

RESPOSTA – Prezada Maristela, mencionaste corretamente a regra que se aplica neste caso: quando o segundo elemento de um composto substantivo+substantivo indicar finalidade, só o primeiro vai flexionar. Além disso, embora se trate de um mostrengo vocabular, deves usar o hífen: palavra-chave, palavras-chave; mercado-nicho, mercados-nicho. É bom que saibas, no entanto, que não existe regra para isso. O uso do hífen com prefixos foi regulamentado, mas o resto como o presente caso ainda é uma Terra de Ninguém. Basta ver as grafias ponto e vírgula e ponto-e-vírgula, entre as quais se dividem até hoje os gramáticos e dicionaristas (gente que, como era de se esperar, deveriam ter mais certeza ao escrever).

 

gaze

Trabalho na área da saúde como intrumentadora cirúrgica em um hospital; um dia desses surgiu uma dúvida, e meus colegas me encarregaram de encontrar resposta… Qual é o plural de gaze? Alguns dizem que não existe, outros que seria gazes; outros simplesmente contornam o problema e dizem compressas de gaze e ninguém quer cometer um erro, já que os cirurgiões adoram corrigir as pessoas “inferiores”.

Luciana V. – Sorocaba

RESPOSTA – Minha cara Luciana, o plural de gaze (registrado, inclusive, no Houaiss) segue a norma de qualquer substantivo terminado em “E”: gazes. O que talvez os médicos estranhem é o uso do plural em um substantivo que é geralmente “de massa”, não-contável como algodão. Este também tem plural, mas raramente temos a oportunidade de empregar algodões (como arrozes, açúcares, méis, etc.), a não ser quando nos referimos a vários tipos da mesma substância (“Os algodões da Ásia são diferentes dos algodões do Brasil”). No teu trabalho, no entanto (principalmente se a gaze e o algodão presentes na sala de cirurgia obedecerem a dimensões padronizadas), acho perfeitamente adequado utilizar esses vocábulos de maneira individualizada: “Preciso de uma gaze“, “Um algodão só não vai ser suficiente”, “O doutor esqueceu duas gazes e três algodões dentro do paciente”.

 

viés

Professor Moreno: por gentileza, estimaria saber o plural de viés. Fica assim mesmo, ou recebe alguma terminação?

Alice Rosa

RESPOSTA Minha cara Alice, o plural é vieses como revés, reveses ou convés, conveses.

 

o quadrado dos catetos

Deixando de lado a matemática e pensando friamente nas concordâncias de nosso Português, qual a forma correta? Espero que Pitágoras não revire em seu túmulo, mas a hipotenusa é igual à raiz quadrada da soma do quadrado dos catetos ou da soma dos quadrados dos catetos.

Emerson O.

RESPOSTA Meu caro Emerson: nada impede que se use o plural, como se vê bastante nos livros de Matemática (“a soma dos quadrados dos catetos”). Parece-me, no entanto, que nossa língua prefere usar simplesmente o singular, quando se refere a vários possuidores do mesmo item. “O nariz dos indianos é afilado”, “A boca das espanholas é mais vermelha”, “Isso ficou para sempre no coração dos brasileiros“. Da mesma forma, “a área dos triângulos”, “o quadrado dos catetos”, “a base dos cilindros”. É uma questão que hoje ainda divide os falantes em dois grupos quase iguais, mas acho que pouco a pouco começa a prevalecer o singular.

 

terra natal

Oi, professor! Qual seria o plural correto da frase “No inverno a pessoa volta para sua terra natal”? Seria “as pessoas voltam para sua terra natal” ou “para suas terras natais”?

Camilla

RESPOSTA Ora, Camilla, a tua pergunta, na verdade, não é sobre o plural, mas sim sobre a necessidade de flexionar a expressão que se refere a muitas pessoas. “Os esquimós coçam o nariz“, “os torcedores do Flamengo saíram com a alma lavada notaste como usamos o singular? Portanto, “Os dois amigos vão voltar para sua terra natal mesmo que um volte para a Inglaterra e o outro para a França

 

baleia-franca

1) Tenho uma dúvida que não quer calar! O plural de baleia franca é baleias franca, certo?

Jaqueline – Imbituba (SC)

RESPOSTA O plural de baleia-franca (tem hífen!) é baleias-francas, Jaqueline; franca é, aqui, um adjetivo, e deve portanto flexionar normalmente.

2) Porém franca não é um adjetivo e sim o nome vulgar de uma espécie animal. Não quero dizer que as baleias são francas mas sim que tenho duas ou três baleias de determinado nome, entende?

Jaqueline – Imbituba (SC)

RESPOSTA Jaqueline, franca é um adjetivo, sim, assim como azul, bicuda e branca. Por isso, no plural, ambos os elementos flexionam: baleias-francas, baleias-azuis, baleias-bicudas e baleias-brancas assim dizem o dicionário do Houaiss e o do Aurélio. Diferente seria se o segundo elemento do composto fosse um substantivo: baleias-piloto, baleias-pamonha nesse caso, só o primeiro elemento flexionaria. Sinto muito, mas não tens razão.

 

câncer

Professor Moreno, o plural de câncer é cânceres ou câncers?

Mozara T. – Porto Alegre

RESPOSTA Prezada Mozara: não temos finais em “RS” em nosso idioma. Revólver, revólveres; mártir, mártires; câncer, cânceres.

 

box

Uma amiga me pede ajuda na difícil tarefa de pluralizar uma palavra estrangeira. Qual é o plural de box (local de estacionamento): boxes ou boxs? No google, eu encontrei ambas, portanto permaneço na dúvida. Desde já lhe agradeço.

Luís Augusto L.

RESPOSTA – Meu caro Luís: o ponto de partida já está equivocado. O espaço de estacionamento (assim como o “quartinho” onde fica o chuveiro) é boxe (com “E” no fim), plural boxes. Se a tua amiga insistir em escrever o vocábulo na sua grafia original (box, no Inglês), o plural estrangeiro ainda assim seria boxes. “*Boxs” não existe nem aqui, nem na Inglaterra.

 

meio-fio

Como é o plural de meio-fio (cordão da calçada)?

Isabel – Porto Alegre

RESPOSTA – Prezada Isabel: meio é um numeral fracionário e concorda em gênero e número com o substantivo que acompanha: meios-fios, como meias-entradas, meias-solas, meias-garrafas, é meio-dia e meia [hora].

 

café

Estamos diante de um impasse: os cultos dizem que o certo é cafezes. Já os leigos discordam e preferem cafés. E aí, quem ganha esta peleja? Eu fico no time dos leigos…

Amigo

RESPOSTA Desculpa, amigo, mas jamais ouvi alguém “culto” dizer cafezes. Isso não existe, que eu saiba. Todos os cultos e os incultos dizem cafés, que sempre foi o plural.

tricô

Professor, qual seria o plural de tricot? Sempre ouvi falar em tricots, com “S” no final, mas será que tricotes também nao estaria certo?

Alex M. – Rio de Janeiro

RESPOSTA – Meu caro Alex, a palavra é tricô, plural tricôs. Tricot é Francês, plural tricots.

extraclasse

Professor, discutimos muito na escola e temos várias dúvidas, entre elas qual seria o plural de extraclasse. Qual o uso correto? Extraclasses? Ou a palavra fica invariável?

Luciana S. – Gravataí (RS)

RESPOSTA Prezada Luciana: a meu ver, extraclasse fica invariável; os vocábulos com “extra” costumam flexionar porque quase sempre o elemento à direita é um adjetivo (extraconjugais, extracurriculares, extraoficiais, etc.) o que não é o caso, aqui, em que classe é um substantivo. Portanto, se o considerarmos análogo àqueles adjetivos compostos em que um dos elementos é um substantivo (casas verde-mar, raios ultravioleta, etc.), ele não vai flexionar.

 

blitz

Outro dia o jornal local estampou a manchete de que a polícia havia efetuado “várias blitze“. Eu conhecia só blitz. Se já temos “ZZ” (em pizza), “TCH”, “PS”, “PN”, que mal há em ter uma palavra terminada em “TZ”? Aquele “E” foi para aportuguesar? E por que faltou o “S” do plural?

Marcus F.

RESPOSTA Puxa, Marcus, que confusão eles fizeram! Que eu saiba, o vocábulo alemão blitz faz o plural blitzen. No entanto, o aportuguesamento (sempre benéfico) deste vocábulo dá blitze no singular, blitzes no plural. A manchete quis ficar em cima do muro e errou; que escrevessem, então, “várias blitzen” (o que 90% dos leitores estranhariam), ou “várias blitzes“.

 

quaisqueres?

Olá, prof. Moreno: ainda hoje estava jogando War com meus amigos e num dos cartões do jogo estava escrito: “Escolha dois territórios quaisquer“. Um de meus colegas disse que está errado e que o plural de qualquer é quaisqueres. Confesso que fiquei na dúvida apesar de nunca ter ouvido tal termo. Qual é o certo, afinal?

Felipe P. – São João da Boa Vista (SP)

RESPOSTA Meu caro Felipe, qualquer é um pronome que tem a estrutura (particularíssima) de um vocábulo composto. O singular é formado de qual+quer; quais+quer formam o plural, que é interno. Não existem *qualqueres ou *quaisqueres.

 

quaisquer

Ellen, leitora de Cuiabá, tem dúvida quanto à diferença entre qualquer e quaisquer. “Possuem o mesmo significado? Como devem ser empregadas?”

RESPOSTA Minha cara Ellen: quaisquer é o plural de qualquer. Compara “eu não tenho qualquer dúvida” com “eu não tenho quaisquer dúvidas“. Dois exemplos do Machado de Assis: “Quaisquer que fossem as cores…”; “o casamento, quaisquer que sejam as condições, é um antegosto do paraíso”.

 

os guarani?

José Ricardo B. Almeida, de São Paulo, diz ter lido num livro escolar uma frase que começava assim: “Os jesuítas entraram em contato com os Guarani“. Isto está certo?

RESPOSTA – Não, meu caro José ao menos em livros escolares. Isso aí foi uma moda inventada pelos antropólogos: há uma convenção de uso, entre eles, de sempre deixar o nome das tribos indígenas no singular: “os bororo“, “os guarani“. Isso não vale, no entanto, para a linguagem das pessoas normais (como, aliás, convenções específicas usadas entre matemáticos ou químicos também não valem). Vamos escrever “os guaranis“, “os tupis“, “os tupinambás“, “os timbiras“, como sempre escreveram os nossos melhores autores (basta ler Vieira, Alencar e Gonçalves Dias, por exemplo).

Depois do Acordo: pára > para (equivocadamente, aliás)

 

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mais um balaio de plurais

arrozes

Hamilton C., de Porto Alegre, não sabe se arroz tem plural. “Podemos usar arrozes, professor?”

RESPOSTA — Meu caro Hamilton: o plural é arrozes, registrado em todos os bons dicionários. Claro que pode ser usado, dependendo do contexto. Esses substantivos não-contáveis (os “mass nouns” do Inglês) como açúcar, mel, farinha, feijão podem ter plural normal, se os usarmos para designar diferentes “tipos”: “Na segunda metade do séc. XX, foram introduzidos vários arrozes italianos na orizicultura gaúcha”; “distinguimos os méis silvestres dos méis de áreas reflorestadas”; “ele deve evitar todos os açúcares“. E assim por diante.

 

mel

Poderia me esclarecer uma dúvida; há um estabelecimento próximo a minha residência que colocou uma placa informando que são especialistas em todos os tipos de méis do Brasil. Estaria correto este plural?

Ricardo M. –  Itapecerica da Serra (SP)

RESPOSTA — Sim, Ricardo. O plural de mel pode ser méis ou meles assim como o de fel pode ser féis ou feles. Eu prefiro, nos dois casos, a primeira hipótese, porque o plural regular dos nomes terminados em –el é –éis.

 

três Pálios

Thásia, de Belo Horizonte, gostaria muito de saber qual a forma correta: “três carros Pálio” ou “três carros Pálios“?

RESPOSTA — Minha cara Thásia: podes escolher entre “são três Pálios” ou “são três carros Pálio“; neste segundo caso, temos a estrutura elíptica [carros + da marca + Pálio]. No entanto, não é aceitável “*Três carros Pálios“, com ambos os substantivos flexionados.

 

pai-nosso

Não concordo com a professora de meu filho quando afirma que o plural de pai-nosso é pai-nossos. Pesquisamos no Aurélio e lá consta pais-nossos; a professora, contudo, alega que para esse termo vale a mesma regra de ave-maria (palavra invariável+substantivo). Quem está com a razão – o Aurélio ou a professora?

Gilmar F. – Porto Alegre

RESPOSTA — Meu caro Gilmar: quem está correto é o Houaiss, que registra ambos: pai-nossos e pais-nossos. Embora os princípios de flexão dos compostos me façam preferir o segundo, o uso também consagrou o primeiro. Agora, nada tem a ver com ave-maria (plural ave-marias), em que o primeiro elemento não flexiona por ser um imperativo latino (Ave queria dizer “salve”).

 

nomes em -ão

A leitora Marina B., com 9 anos de idade, aluna da 3ª série do Ensino Fundamental, gostaria de saber o plural das palavras aviação e escorregão

RESPOSTA — Prezada Marina: o plural de aviação é aviações; o de escorregão é escorregões. Acho que a professora não escolheu esses dois exemplos por acaso; primeiro, porque o plural dos substantivos terminados em -ção é sempre -ções; segundo, porque o plural dos aumentativos em -ão também é sempre -ões: facões, cabeções, casarões, etc. São duas regras muito amplas, que deves guardar para sempre na memória.

 

sala de aula

Querido professor Moreno! Qual é o plural de sala de aula? Já pesquisei em várias gramáticas, dicionários e até no Google, mas não encontrei. Vera K.

RESPOSTA — Vera, o elemento que fica à direita do núcleo do sintagma não muda quando o núcleo flexiona: uma sala de aula, duas salas de aula; uma sala de ginástica, duas salas de ginástica mas uma sala de reuniões, duas salas de reuniões.

 

mandado de prisão

Por favor, esclareça minha dúvida: qual é o plural de mandado de prisão? Já vi mandados de prisões, mas mandados de PRISÃO me parece mais lógico.

Luiz A. Nascimento

RESPOSTA — Tu já deste a resposta correta, Luiz: um mandado de prisão, dois mandados de prisão; um mandado de busca, dois mandados de busca só flexiona o núcleo do sintagma.

 

pode ficar invariável?

Trabalho com revisão de textos e gostaria da sua ajuda. Estou com algumas dúvidas na frase “Carros com cara de avião e motos com cara de navio”. Gostaria de saber se avião e navio vão para o plural (“Carros com cara de aviões e motos com cara de navios“), ou ficam no singular como advérbio. Qual a maneira correta de escrever? E “caras” também vai para o plural?

Jaqueline T. Florianópolis

RESPOSTA – Jaqueline, fica tudo no singular e isso nada tem a ver com advérbio. Esse é apenas um velho costume do nosso idioma: “manifestantes com nariz de palhaço“, “deputados com cara de tacho“, “boxeadores com queixo de vidro“, “crianças com testa de artista como podes ver, apenas o núcleo (manifestantes, deputados, boxeadores e crianças) flexionou.

 

corpus

Sempre escrevi corpus/corpi, mas tenho uma colega bem douta que me diz que o plural de corpus é corpora. Qual das duas está certa?

Zenaide  A. – Araguaína (TO)

RESPOSTA — Olha, Zenaide, tens duas formas diferentes a teu dispor, ambas corretas. A primeira, clássica, é usar corpus no singular e corpora no plural palavras latinas, escritas, portanto, em itálico e sem acento. A outra, que eu defendo também para câmpus, é considerar o vocábulo já aportuguesado, como ônus ou bônus, e escrever córpus (tanto para o singular, quanto para o plural). Eu só emprego esta última. Se deres uma olhada no Google (tens de digitar “+córpus”, para que ele enxergue o acento), vais encontrar mais de 12.000 ocorrências (fiz a pesquisa em março de 2010).

 

home cinema

Prof. Moreno, gostaria de obter uma ajuda que não encontrei em lugar algum:  como se forma o plural de home cinema?

Cristiane G. B. – São Paulo

RESPOSTA — Prezada Cristiane: como deves saber, isso é Inglês e, como tal, deve ser pluralizado pelas regras daquela idioma: o home cinema, os home cinemas. O primeiro elemento, que funciona como adjetivo, fica invariável, como em happy hour, happy hours; happy end, happy ends; pen drive, pen drives; air bag, air bags – e por aí vai a valsa.

samba-enredo

Caríssimo professor! Socorro! Estamos correndo aqui na agência e preciso saber qual é o plural de samba-enredo! O senhor me ajuda?

Maira F. – Santa Rosa (RS)

RESPOSTA — Prezada Maíra: se não fosses preguiçosa, terias visto que Houaiss aceita dois plurais diferentes para samba-enredo: sambas-enredos e sambas-enredo. Eu prefiro a segunda (sambas-enredo), em coerência com o princípio de só pluralizar o primeiro elemento de compostos de dois substantivos como faço em sambas-canção, palavras-chave ou horas-aula.

 

erro-padrão

Professor, trabalho na editoria de uma revista agronômica e tenho dúvida sobre o plural de erro-padrão. Seria erros-padrão, como eu costumava usar, ou erros-padrões, como exigiu o autor de um de nossos artigos?

Maria A. – Campinas

RESPOSTA – Prezada Maria, o princípio é muito simples: quando o segundo substantivo de um composto servir para restringir o primeiro, deveria ficar sempre no singular: horas-aula, folhas-padrão, salários-família, erros-padrão. Por pressão estrutural, o povo começa a flexionar ambos os elementos (folhas-padrões, horas-aulas, etc.), mas a norma culta ainda prefere a primeira forma. Nas editoras que conheço, os autores devem se submeter às normas determinadas pela casa. Se aí é ao contrário, vocês estão bem arranjados!

 

norma-padrão

Gostaria de saber se o plural de norma-padrão é normas-padrões ou normas-padrão, professor. Não seria o mesmo caso de palavras-chave, que tanta gente anda escrevendo palavras-chaves?

Marlon P. – Vila Velha (ES)

RESPOSTA — Meu caro Marlon, tua pergunta já continha a resposta. Quando o segundo substantivo de um composto serve para restringir o primeiro, ele fica invariável: operários-padrão, palavras-chave, horas-aula. Essa é a forma preferível; é claro que, no uso, muita gente está flexionando também o segundo (palavras-chaves, funcionários-fantasmas, horas-aulas), mas isso é ainda visto com maus olhos por quem escreve bem. Eu usaria, sem hesitar, normas-padrão.

 

gravidez

Professor, minha dúvida é muito simples: gravidez tem tem plural?

Mahira I.

RESPOSTA — Sim, Mahira, tem. É gravidezes. Não temos, no quotidiano, muitas ocasiões de usá-lo, mas médicos, enfermeiros, parteiras, etc. estão acostumados a ele: “A alimentação entre as gravidezes“, “A paciente já teve duas gravidezes complicadas”, “É perigoso engordar entre gravidezes“, etc.

 

xadrez

Professor, o plural de xadrez é xadrezes? Ou xadrez é alguma exceção e não muda nada no plural?

Maria Teresa G.

RESPOSTA — Minha cara Maria Teresa, é xadrezes (está no Houaiss), assim como gravidezes, surdezes, etc.

 

porto

Sou estudante do curso de Letras (7º semestre) e gostaria de saber qual a pronúncia correta do plural da palavra porto: é /pórtos/ ou /pôrtos/? Já ouvi a expressão capitania dos /pórtos/, os /mórtos/ foram sepultados/, mas nunca ouvi pronunciarem  /cachórros/  ou dizerem que a polícia ocupou dois /mórros/.

Wolneir A. –  Salvador

RESPOSTA — Meu caro Wolneir, este realmente é um fato curioso, que acompanha nosso idioma desde sua origem: alguns plurais (não são muitos) sofrem essa metafonia (do O fechado para o O aberto). Em fogo, fogos; porto, portos; tijolo, tijolos, o O do plural soa como /ó/ mas em cachorro, cachorros; morro, morros, o O do plural soa como /ô/. Quando o substantivo tiver feminino, fica mais fácil, pois o timbre da vogal do feminino vai ser mantido ao formarmos o plural: ou o O é aberto no feminino e no plural (porco, /pórca/, /pórcos/; torto, /tórta/, /tórtos/), ou é fechado em ambos (cachorro, /cachôrra/, /cachôrros/; raposo, /rapôsa/, /rapôsos/; tolo, /tôla/, /tôlos/). Agora, quando for palavra de um só gênero como socorros, tijolos, caroços,  vais ter de consultar, numa boa gramática, a lista dos plurais metafônicos

 

folder

Professor: a palavra folder, que preciso usar profissionalmente, me deixa intrigado por diversas coisas: (a) o dicionário Aurélio a considera uma palavra estrangeira; (b) o dicionário Michaellissubstantivo; (c) já encontrei a grafia fôlder em vários artigos; (d) no plural, percebe-se uma anarquia de formas, oscilando entre folders, folderes e fôlderes. O senhor poderia pôr ordem neste barraco? a considera um

José Édison C. –  Campinas (SP)

RESPOSTA — Meu caro José, fôlder realmente é um vocábulo de origem estrangeira, e é um substantivo, também ou seja, dizendo melhor, é um substantivo de origem estrangeira. O seu processo de aportuguesamento é irreversível; o Houaiss (o melhor dicionário nacional, de longe!) só registra a forma fôlder (já aportuguesada, como se pode ver pelo acento), com o plural obrigatório fôlderes. Processo análogo aconteceu com revólver, revólveres; hambúrguer, hambúrgueres; e muitas outras terminadas em -R, vindas do Inglês.

 

rol

Professor, gostaria muito de saber qual é o plural de rol se é que uma palavrinha pequenina como essa pode ter plural.

Rosana S.

RESPOSTA — Minha cara Rosana: não vejo problema algum no fato dos monossílabos (nota que não escrevi “de os”, como andam fazendo por aí…) flexionarem no plural: , pés; ar, ares; um, uns; etc. Sol tem o mesmo plural de qualquer outro vocábulo terminado em -ol: sóis, urinóis, paióis, róis é simples assim.

 

artesão

Professor, tenho um site na internet e nele escrevi a palavra artesões. Uma professora de Português me disse que esta flexão estava errada, mas uma prima de São Paulo, também professora, afirmou que assim está correto. Agora fiquei confusa.

Nilceia G. – Assis (SP)

RESPOSTA — Prezada Nilcéia, sinto dizer-te que o plural consagrado para esta palavra é artesãos. O plural artesões existe, é verdade, mas é usado exclusivamente no vocabulário da Arquitetura (artesão, aqui, seria um enfeite que se coloca nas abóbadas, palavra derivada do Espanhol artesón). Nossos substantivos têm três plurais (leões, alemães e irmãos) para o mesmo singular em –ão; nossos irmãos ibéricos, no entanto, têm três singulares para três plurais:

león, leones – corresponde ao nosso -ões;

alemán, alemanes – corresponde ao nosso -ães;

hermano, hermanos – corresponde ao nosso -ãos.

Fico feliz em ver como funciona bem esta correspondência: nosso primeiro artesão (o que faz artesanato) é artesano em Espanhol; nosso plural é artesãos, o deles, como era de esperar, é artesanos. Nosso segundo artesão (enfeite arquitetônico) é artesón em Espanhol; nosso plural é artesões, o deles é artesones.

[leia o primeiro artigo desta série: Um balaio de plurais]

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interpretação dos vocábulos compostos

Professor Moreno: li sua explicação sobre o plural dos compostos. Concordo que, em vale-compras,  a palavra vale seja substantivo. Mas acho que ela também pode ser interpretada com verbo (isso vale uma compra). Dessa forma, as duas formas (vales-compra e vale-compras) não deveriam estar corretas?

Ademar Q. – Goiânia

Meu caro Ademar, a tua pergunta bate exatamente no prego: é tão fluida a natureza de nossos vocábulos compostos que são poucas as afirmações definitivas que podemos fazer sobre eles – ao contrário dos vocábulos simples, muito mais fáceis de sistematizar, cujo comportamento segue princípios que o falante termina “adivinhando”. Nos substantivos do Português, por exemplo, é bem definida a oposição entre o plural, marcado pelo “S”, e o singular, reconhecido exatamente pela ausência dele. Não nos incomodamos com os raríssimos substantivos que têm o “S” mesmo no singular (como pires ou lápis), embora falantes mais simples, sem instrução, muitas vezes interpretem essas formas como pertencentes ao plural e criem aqueles ingênuos singulares que nos fazem sorrir: “*quebrei um pir“, “*perdi meu lápi” (análogo a faquir, faquires e táxi, táxis). Deves perceber que esses erros não se devem ao desconhecimento da regra do plural, mas sim à interpretação errônea dos fatos lingüísticos.

A importância dessa interpretação, por parte do falante, é decuplicada no caso dos compostos. Como eu fiz questão de frisar no artigo que mencionas, os compostos não são carne, nem peixe: eles ficam num limbo intermediário entre um vocábulo simples e unitário (como cadeira, palha) e um elemento da estrutura sintática, formado por vários vocábulos (como “cadeira de palha“). Graficamente, um composto atua como um vocábulo uno, pois fica isolado entre dois espaços em branco; ora, por que não acrescentamos, simplesmente, um “S” no final de guarda-noturno, pé-de-moleque, horaaula, formando *guarda-noturnos, *pé-de-moleques e *hora-aulas? Exatamente porque sentimos a presença da estrutura sintática que lhe deu origem. Fazemos guardas-noturnos porque temos aí uma banal seqüência de um substantivo acompanhado de seu adjetivo modificador; fazemos pés-de-moleque porque estamos flexionando o núcleo de um antigo sintagma nominal (como cartas de baralho, flores de papel, etc.); fazemos horas-aula pela mesma razão, já que a presença do substantivo à direita, agindo como especificador (“aula”), é explicada pela estrutura subjacente “horas de aula”.

Quando vamos operar com um vocábulo composto, essa “desmontagem” mental pode variar de um falante para o outro, criando-se assim diferentes conseqüências flexionais. Se eu decompuser vale-refeição como “vale uma refeição”, terei enxergado aqui uma estrutura [verbo + substantivo] — análoga a tira-gosto, quebra-pedra, porta-estandarte —, que só poderá ser flexionada no substantivo: vale-refeições. Se, no entanto, eu interpretá-lo como “um vale destinado à refeição”, ele terá a estrutura [substantivo+ especificador] – análogo a operário-padrão, hora-aula -, que só deve ser flexionada no primeiro elemento: vales-refeição.

No caso particular de vale-compra, vale-refeição, etc., repito que opto sempre pela interpretação [substantivo + especificador], com o conseqüente plural vales-compra, vales-refeição. A meu ver, este vale que aqui é uma substantivação formada a partir do verbo valer: o papel onde se escrevia (e ainda se escreve) “vale um refrigerante”, “vale cem reais”, “vale uma entrada para o domingo”, etc. passou a ter esse nome, assim como aconteceu com o habite-se ou o atenda-se.

Além disso, quando um composto é formado de [verbo + substantivo], sempre pressupomos um sujeito que complete essa estrutura: porta-estandarte é, no fundo, “alguém que porta o estandarte”; bate-estaca é “um aparelho que bate a estaca”. Isso impede que façamos uma referência abreviada ao composto, usando apenas o seu primeiro elemento (“*lá vem o porta“, “*ouça o bate“), o que pode, no entanto, ocorrer em compostos cujo núcleo é um substantivo: o guarda-civil, o guarda; o mestre-escola, o mestre; o vale-transporte, o vale; e assim por diante.

Sempre que encontrares dúvida ou hesitação na flexão de um composto, podes ter certeza de que isso foi motivado pela possibilidade, naquele determinado caso, de uma dupla interpretação sintática de seus elementos constituintes. Abraço. Prof. Moreno

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Como se escreve Emprego das letras

alto-falante ou auto-falante?

Prezado Doutor: vejo muitas vezes escrito autofalante e auto-falante, mas creio que a forma correta é alto-falante, pois vem de alto e não de auto. Ou seja, acho que não quer dizer que “fala sozinho” mas sim que “fala alto”. Poderia me esclarecer? Grato.

Juan G. — São Paulo

Meu caro Juan: realmente, um alto-falante é um dispositivo que “fala alto”. É composto do advérbio alto (invariável) mais o antigo particípio presente falante (como o Burro Falante, do Monteiro Lobato). No plural, portanto, só pode formar alto-falantes. O problema deste vocábulo já começa no nível fonológico. Já deves ter percebido que, em nosso idioma, o L em final de sílaba é normalmente realizado como um /u/: mel soa /méu/, animal soa /animau/ e o Ed Motta pode cantar tranqüilamente “Manuel foi pro céu” sem assassinar a rima. Esse fenômeno, embora perfeitamente inofensivo na esmagadora maioria dos casos, vai tornar indistinguíveis, na fala, pares como mau e mal, alto e auto. Está aberta a porta para a confusão.

Como os alto-falantes fazem parte do equipamento de som do automóvel, eu também já vi, em muitas lojas especializadas, a grafia auto-falante. É claro que isso está errado, Juan, mas não se trata aqui do uso indevido do prefixo auto com o sentido de “a si mesmo” — como no fogão de forno autolimpante, que, segundo a lenda, teria a capacidade de limpar a si mesmo! Parece-me, antes, a crença errônea de que os alto-falantes sejam parte do automóvel; por isso, usam auto pensando tratar-se algo assim como autopeças, autódromo, automecânica, auto-escola.

Minha convicção de que essa foi a origem do erro ficou ainda mais reforçada quando percebi que muitos técnicos de sonorização para ambientes, para espetáculos, etc., utilizam apenas falantes, como se estivessem preocupados em frisar que não se trata de som de carro: “Aqui vamos instalar 12 falantes“. Essa forma, por ser mais curta e por evitar a velha dificuldade do plural dos compostos, talvez até venha, no futuro, a substituir alto-falante — na mesma direção seguida pelo Inglês, que de loud speaker está passando a usar apenas speaker. Abraço. Prof. Moreno

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Flexão nominal Lições de gramática

plural dos compostos

Ilustre professor, venho indagar-lhe sobre o plural de certas palavras compostas, cujo primeiro termo são verbos, v.g. bate-bola, come-quieto, vale-transporte, esta última especialmente. Discutindo o problema com meus colegas, defendi a posição que me parece a mais simples de todas: bater bola, valer passagem são AÇÕES, logo, uma pessoa pode bater bola, mas mil também podem praticar a mesma ação, bater bola (até mesmo na frase que acabo de escrever se nota o caráter neutro de uma ação qualquer). Ansioso por seus esclarecimentos, reitero que a dúvida dos compostos é dirigida especialmente às palavras iniciadas por VALE. Mário V. —   Rio de Janeiro

Meu caro Mário: infelizmente, as coisas não são tão simples assim. Aliás, quando se trata de compostos, nunca são simples. Os compostos do Português são sintáticos, isto é, mantêm entre seus componentes as mesmas relações que os sintagmas da frase mantêm entre si. Uma das formas mais comuns de composição é [verbo transitivo + objeto direto]: porta-bandeira, guarda-roupa, saca-rolha (bandeira, roupa e rolha são os objetos diretos dos verbos portar, guardar e sacar). A leitura que deles se faz é a de “alguém ou alguma coisa que porta a bandeira, que guarda a roupa, que saca a rolha”. Este tipo de composto só flexiona no segundo elemento: porta-bandeiras, guarda-roupas, saca-rolhas.

Acontece que em vale-transporte não há verbo: vale aqui é um substantivo, que também pode ser usado independentemente (“Preciso de um vale“, “Já tirei dois vales este mês”). Este vocábulo pertence a outra estrutura de composição, já menos freqüente, [substantivo+substantivo], presente também em hora-aula, salário-família, operário-padrão. A leitura desses compostos seria, a rigor, “hora de aula”, “salário para a família”, “operário que serve como padrão”, “vale para o transporte”. O plural, portanto, sintaticamente condicionado, é horas-aula (horas de aula), salários-família (salários para a família), vales-transporte (vales para o transporte). Assim se escreve na norma culta — hoje. No entanto, como a língua é História, a percepção que os falantes têm dos vocábulos muda com o passar do tempo: à medida que o vocábulo composto vai deixando de ser percebido como estrutura sintática e começa a ser considerado um vocábulo uno, sente-se uma fortíssima pressão estrutural da língua no sentido de colocar também uma marca de plural no final do composto. Daí o uso cada vez mais generalizado de horas-aulas, salários-famílias, vales-transportes, variantes que eu jamais usaria, mas que despontam como a interpretação mais moderna desse tipo de composto.

No mesmo caso estão vale-brinde, vale-refeição, vale-pedágio. Bem diferente (o que ajuda a entender o que estou dizendo) é vale-tudo; aqui sim temos o verbo valer (“luta onde vale tudo“). A formação é análoga à de porta-bandeira; deveria flexionar apenas o segundo elemento. Neste caso específico, todavia, como tudo é uma palavra invariável, o composto fica sem flexão: os vale-tudo. Consegui ser claro? Abraço. Prof. Moreno

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Flexão nominal Lições de gramática

surdo-mudo

 

Prezado Doutor: há um vocábulo composto que é apontado como exceção por um grande número de gramáticas. Refiro-me a surdo-mudo, que pode flexionar-se ora como surdo-mudos, ora como surdos-mudos; ora como surdo-muda, ora como surda-muda. Sou leitora assídua de sua página e me lembro de ter visto, em algum lugar, o senhor dizer que não há exceções em nossa língua. Afinal, surdo-mudo é ou não é exceção?”

A. Paula — Anta Gorda (RS)  

Minha cara Ana Paula: apesar de muitos gramáticos darem este vocábulo como exceção, ele é um composto como qualquer outro. Sua flexão é absolutamente regular e previsível, como vais ver em seguida; o problema da maioria desses gramáticos é sua falta, tantas vezes mencionada neste sítio, de uma formação científica adequada. Alguns têm sensibilidade aguçada para os fatos da língua, mas não conseguem enquadrar os fatos que observam na moldura da teoria. Vejamos.

Como já deves ter percebido, os vocábulos compostos do Português podem ser substantivos ou adjetivos. Na flexão dos SUBSTANTIVOS COMPOSTOS, aplica-se, basicamente, o princípio de flexionar todos os componentes flexionáveis do vocábulo. Observa couve-flor, couves-flores; obra-prima, obras-primas; onça-pintada, onças-pintadas; segunda-feira, segundas-feiras — todos os componentes (os substantivos couve, flor, obra e feira; os adjetivos prima e pintada; o numeral segunda) fizeram o que habitualmente fazem, quando são vocábulos isolados: formaram alegremente o seu plural. Compara com guarda-chuva, guarda-chuvas; abaixo-assinado, abaixo-assinados; o vale-tudo, os vale-tudo — os componentes com flexão nominal flexionaram-se (o substantivo chuva e o particípio assinado), enquanto os demais fizeram o que costumam fazer: ficaram invariáveis (os verbos guarda e vale; o advérbio abaixo; o indefinido tudo). Na frase “o surdo-mudo voltou”, o sujeito é um SUBSTANTIVO composto, formado de um substantivo (surdo) mais um adjetivo (mudo); consequentemente, vamos variar os dois componentes do vocábulo: o surdo-mudo, a surda-muda, os surdos-mudos, as surdas-mudas

Diferente, contudo, é a formação dos ADJETIVOS COMPOSTOS: ou eles estão constituídos de [adjetivo+adjetivo], ou de [substantivo+adjetivo]. No primeiro caso (que é o que nos interessa aqui), só flexionamos o segundo componente: parecer técnico-científico, pareceres técnico-científicos, assessoria técnico-científica, assessorias técnico-científicas. Nota como só sofreu variação de gênero e número o adjetivo científico. Ora, na frase “o menino surdo-mudo voltou”, o composto é agora interpretado como um ADJETIVO composto do primeiro tipo; sua flexão, portanto, será “o menino surdo-mudo“, “os meninos surdo-mudos”, “a menina surdo-muda“, “as meninas surdo-mudas“. Podemos até fazer uma frasezinha mnemônica (boa para lembrar): “No ensino dos SURDOS-MUDOS [substantivo] é importante que haja professores SURDO-MUDOS” [adjetivo]. Queres mais? “A SURDA-MUDA [substantivo] tinha receio de gerar uma filha SURDO-MUDA [adjetivo]”. Percebes a confusão daqueles gramáticos? Não se deram conta de que o vocábulo, ao mudar de classe, ficou submetido a outro sistema de regras. Espero ter sido claro, que o assunto é meio enroscado. Abraço. Prof. Moreno

 

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Flexão nominal Lições de gramática

plural dos compostos: Estados-Nação

Caro Prof. Moreno, eu tenho dúvidas sobre a expressão Estado-nação. A primeira é a própria grafia — se Estado-nação, Estado-Nação ou qualquer uma destas duas formas, sem o hífen. A segunda diz respeito ao uso do plural. Eu estive lendo a sua esclarecedora explicação do plural de compostos e percebo que a expressão estaria entre aquelas formadas por [substantivo+substantivo]; parece-me, ademais, que o sentido é “Estado que é nação” (mas isto é um pouco complicado; afinal, a expressão foi cunhada pela História para se referir à unificação da Itália e da Alemanha, pelo que sei). O plural então ficaria Estados-nação? Sempre grata pela sua atenção.

Dea L.

Minha cara Dea: que palavrinha feia, essa! Olha, eu não sei exatamente tudo o que está por trás do conceito de Estado-Nação (já que Estado vai com maiúsculas, é melhor fazer o mesmo com Nação), mas eu flexionaria como Estados-Nação. Acontece que nem sempre a minha intuição concorda com a dos especialistas que usam o vocábulo. Para mim, por exemplo, um decreto-lei seria “um decreto que tem a força de lei, que a ela se equipara”; nada mais justo do que fazer o plural decretos-lei —- no que eu sou literalmente atropelado pela grande nação dos juristas, que usam exclusivamente decretos-leis.

Isso se entende facilmente: há uma forte tendência a tratar como formas variáveis ambos os elementos dos composto do tipo [substantivo + substantivo]: em vez de horas-aula, palavras-chave, folhas-padrão, que é a flexão canônica, cada vez mais aparecem formas como “horas-aulas”, “palavras-chaves”, “folhas-padrões”. É tal a incidência dessas últimas (e desengonçadas) flexões que já dá para perceber em que direção o quadro está avançando. Contudo, se mais uma vez temos aquela oportunidade de escolher entre duas formas, continua valendo o princípio fundamental: o estilo é a soma de nossas opções. Quem usa Estados-Nação, horas-aula, palavras-chave revela bom gosto e sensibilidade lingüística; os outros, não. Abraço. Prof. Moreno

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Flexão nominal Lições de gramática

os sem-terra

Prezado Professor: ao responder à minha consulta sobre o plural de sem-terra, o senhor disse que a palavra fica invariável: os sem-terra, do mesmo modo que os sem-vergonha, os fora-da-lei. No entanto, o plural de sem-termo (s. m.) é sem-termos, de sem-razão (s. f.) é sem-razões, de sem-vergonheza (s. f.) é sem-vergonhezas, de sem-segundo (adj.) é sem-segundos. E aí, como fica? Desculpe-nos, mas o Aurélio e outros não querem, nos parece, “comprar a briga”, e não trazem o plural dessas palavras. Aqui no jornal, é uma discussão só. Pode nos esclarecer melhor? Desde já, ficamos muito gratos pela atenção.

Carlos  — Vitória (ES)

Meu prezado Carlos (e colegas de redação): este vocábulo fica mesmo invariável; o plural é “os sem-terra“. Não podes fazer uma analogia com sem-razão ou sem-vergonheza porque estes dois funcionam como legítimos substantivos. Já sem-terra tem a posição e a função de um verdadeiro adjetivo, já que ele sempre tem um referente externo a ele (expresso ou elíptico); em outras palavras, este composto sempre estará numa posição sintática que pode ser descrita como [alguém sem–terra]: [o camponês sem-terra], [os camponeses sem-terra]; [o sem-terra], [os sem-terra]. Algo idêntico acontece com o homem fora-da-lei, os homens fora-da-lei; o fora-da-lei, os fora-da-lei. Aliás, tem um filme por aí, nas locadoras, que tem o vistoso título de “Os foras-da-lei” (eta, ferro! Conseguiram pôr o plural na preposição!). Também podes comparar com sem-sal: [mulher sem-sal], [mulheres sem-sal]. Acho que o pessoal aí do teu jornal não ia aceitar um “mulheres sem-sais” — ou ia? Abraço. Prof. Moreno

P.S.: o mesmo vale para os sem-teto, os sem-dinheiro, os sem-família, os sem-pão, os sem-vergonha, etc. 

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Flexão nominal Lições de gramática

plural de papai-noel

Professor Moreno, qual é o plural de papai noel?

Nara D. — Goiânia

Minha prezada Nara: olha, vamos simplificar: o plural é papais-noéis; o uso do hífen fica à escolha do freguês, já que não existe regra para casos como este. 

Agora, distingo: temos um personagem mágico, que mora em algum lugar do Ártico (eu acho…), que cruza o céu com seu trenó e deveria trazer presentes para as crianças boazinhas: este é o Papai Noel, primeiro e único (ou isso só se diz para o Rei Momo?). No mundo mitológico, ele tem domicílio, tem ocupação, tem empregados (os gnomos), dirige um veículo de tração animal e não me espantaria se tivesse CPF. É, em suma, um cidadão, e as maiúsculas do seu nome são as mesmas do meu ou do teu nome; Noel aqui funciona como um sobrenome de origem francesa. 

Por outro lado, temos milhares de mortais que usam — por prazer, por masoquismo ou por necessidade — as roupas e as barbas tradicionais que atribuímos ao chamado “bom velhinho”. São os papais-noéis. É mais ou menos como, mutatis mutandis, o Diabo (outro cidadão do mundo dos mitos) e os diabos; o Saci e os sacis; o Bicho Papão e os bichos-papões.

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Flexão nominal Lições de gramática

abram alas

Prezado Prof. Moreno: infelizmente passamos por uma situação inusitada na última Quarta-Feira de Cinzas, quando da apuração do Carnaval de rua na cidade de Valinhos (SP). Minha escola foi julgada e teria ganho o título, não fosse por um jurado ter aplicado uma penalidade de 2 pontos na letra do samba. Em determinado momento, há a seguinte frase: “… Ô abram-alas, que a Vila vai passar…”, fazendo uma alusão às pessoas (imperativo — plural), para que abram caminho que a escola vai passar (este “Ô” seria uma interjeição). Nem mesmo o jurado soube explicar o motivo da penalidade (ele escreveu “…acho que ficaria melhor abre-alas…”, o que mudaria completamente o sentido da frase). Minha dúvida é a seguinte: o verbo contido na expressão abre-alas não pode ser conjugado? Agradeceria muito seu retorno. Um grande abraço. 

Luciana C. R. — Campinas

Minha cara Luciana: não, os verbos que estão dentro de um substantivo composto jamais são conjugados. Eles ficam ali como cristalizados: o saca-rolha, os saca-rolhas (e não *sacam-rolhas); o porta-bandeira, os porta-bandeiras (e não *portam-bandeiras). Infelizmente, a letra da tua escola contém um pequeno equívoco, que terminou comprometendo sua classificação: ela confunde o abre-alas (“tabuleta, dístico, ou carro alegórico, que abre o desfile duma entidade carnavalesca”, segundo o Aurélio) com “abram alas“, aí sim o imperativo plural, avisando às pessoas que a Vila vai passar. “Ô, abram alas, que a Vila vai passar” — essa é a forma correta (sem hífen, porque não é um composto). Sinto muito. Abraço. Prof. Moreno