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O ponto-e-vírgula vive! — (segunda parte)

Já que estou em plena campanha para tirar o ponto-e-vírgula do ostracismo em que se encontra, volto a exaltar suas virtudes, na esperança de revigorar seus aficionados e, quem sabe, conquistar novos adeptos. Ora, sendo esta uma coluna dedicada, como diz seu nome, ao prazer de falar sobre linguagem, acho que não caberiam aqui recomendações detalhadas sobre o emprego deste sinal — que virão bem explicadas no Guia Prático do Português Correto-Pontuação, a ser lançado em breve pela L&PM. Em vez disso, resolvi apresentar algumas situações em que o ponto-e-vírgula mostra, com galhardia, o que veio fazer neste mundo.

Para começar, ele é indispensável para deixar clara uma frase que enumera uma série de elementos que já contenham vírgulas: “A ordem do cortejo era uma verdadeira aula de sociologia: o rei, isolado e autoritário, vinha na frente; o clero e a nobreza, na direita; os indecisos, alguns burgueses e alguns mercadores, no centro; os camponeses, trabalhadores e pobres, na esquerda”. Qualquer que seja sua ideologia pontuacional, o prezado amigo vai ter de concordar que este trecho ficaria um verdadeiro labirinto se trocássemos os ponto-e-vírgulas por vírgulas; os sinais, em vez de orientar o leitor, exigiriam dele um trabalho extra de interpretação, perdendo assim a sua única razão de existir. Se os trocássemos por pontos, o efeito seria igualmente danoso: além de destruirmos a enumeração anunciada pelo dois-pontos, teríamos criado uma frase ridícula e desagradável, vazada naquele horrendo estilo saltitante, de passinho curto, que eu costumo chamar de “estilo tico-tico”.

O ponto-e-vírgula também serve para avisar o leitor de que a sequência vai continuar, o que ressalta a ligação entre as partes e estabelece uma relação semântica entre elas. Num conto de Machado, a personagem principal, Dona Benedita, convida para jantar um jovem oficial da Marinha que, sem que ela saiba, está enamorado de sua filha Eulália: “Olhe, disse D. Benedita, vá amanhã. Mascarenhas foi, e foi mais cedo. D. Benedita falou-lhe da vida do mar; ele pediu-lhe a filha em casamento “. Como fica fácil de ver, o ponto-e-vírgula não separa as partes de uma frase; bem pelo contrário: ao usá-lo, Machado encontrou uma maneira genial de reunir duas idéias que, a rigor, não poderiam ser ligadas pelas fórmulas costumeiras de coordenação ou subordinação.

Outras vezes, é graças a este sinal que o leitor pode enxergar o tronco e os ramos da argumentação:

Os americanos viam o escravo negro como um ser inferior, a meio caminho entre o homem e o animal; muitos anos se passaram, depois da abolição, até que a lei tolerasse os primeiros casamentos interraciais nos EUA. Os portugueses já traziam sangue africano nas veias, herança de muitos séculos da presença árabe na Península; entre nós, que descendemos deles, a miscigenação nunca foi proibida ou hostilizada.

Aqui, é o ponto-e-vírgula que sustenta a arquitetura do contraste entre os EUA e o Brasil. Se nós o substituíssemos pelo ponto, teríamos quatro frases estanques, enfiadas como as contas de um rosário, que caberia ao leitor ligar à sua maneira:

Os americanos viam o escravo negro como um ser inferior, a meio caminho entre o homem e o animal. Muitos anos se passaram, depois da abolição, até que a lei tolerasse os primeiros casamentos interraciais nos EUA. Os portugueses já traziam sangue africano nas veias, herança de muitos séculos da presença árabe na Península. Entre nós, que descendemos deles, a miscigenação nunca foi proibida ou hostilizada.

De qualquer forma, é um sinal que desperta paixões violentas, seja a seu favor, seja contra. Escritores como Proust e Machado não podiam viver sem ele; os franceses usam-no com naturalidade e elegância; George Orwell tentou abandoná-lo, mas acabou tendo uma recaída; Hemingway, como a maior parte dos americanos modernos, evitou-o deliberadamente em toda sua obra. O ataque mais violento veio de Kurt Vonnegut, escritor americano que já foi importante; não sei que planta ele andou mastigando (talvez o cacto amargo do ressentimento) para dizer, numa famosa conferência sobre a arte de escrever:

“Regra nº 1: não use ponto-e-vírgulas. Eles são hermafroditas travestidos que não representam coisíssima nenhuma. Só servem para mostrar que você fez faculdade”.

Que não se use, nada mais natural: a pontuação, afinal, admite uma série de escolhas pessoais; que não se entenda a razão dele existir, é aceitável — principalmente vindo de quem não tem muita leitura; que se combata o ponto-e-vírgula, no entanto, é, como diria o velho Camilo, coisa de maluco sem intervalos.

Depois do Acordo:

seqüência > sequência

idéias> ideias

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o ponto-e-vírgula vive!

Na hora do cafezinho, numa das pontas da mesa, brotou uma daquelas bem-humoradas discussões que coroam todo jantar em que bons amigos se reúnem em torno da boa comida. Falavam, não sei por quê, em espécies em extinção; citaram o panda-gigante, a ararinha-azul, o mico-leão-dourado e o ex-cantor Sting. “E o ponto-e-vírgula?”, perguntei, em tom de brincadeira — “Quando vão formar uma ONG para defender este pobre bichinho?”. Para minha surpresa, um dos presentes, grande admirador da belíssima primeira-dama da França, informou que o presidente Sarkozy, faz alguns meses, havia instruído todo o seu ministério a reabilitar o uso deste sinal nos documentos administrativos, tendo fixado, por página, o mínimo de três ponto-e-vírgulas (mas cá para nós, que plural mais “singular”!). Tal medida teria como objetivo combater a tirania da frase curta, curtíssima verdadeira praga que assola o estilo moderno , fazendo voltar os elegantes e articulados períodos que sempre caracterizaram a sintaxe da língua em que brilharam Bossuet, Voltaire e Flaubert.

Embora desconfiado com a veracidade da informação, declarei, na hora, que morria de inveja dos franceses, pois o máximo que nossos políticos sabiam propor, em termos de idioma, eram asneiras como proibir estrangeirismos ou juro que não estou fazendo troça abolir a crase! É claro que, chegando em casa, fui correndo à internet para conferir o ato de Sarcozy e, como eu já suspeitava, era apenas uma brincadeira. Inteligente, sim, mas brincadeira, a começar pela falsa “portaria” governamental, datada de 1/4/2008, ou seja, bem no primeiro de abril, dia internacional dos crédulos e dos tolos… Alguns jornalistas perceberam imediatamente o logro, outros demoraram um pouco mais, mas o que realmente importa os autores conseguiram, com seu trote bem-intencionado, despertar uma ampla discussão sobre a utilidade do ponto-e-vírgula e as perspectivas de sua sobrevivência.

O que realmente me deu inveja, admito, foi ver que lá, entre os franceses, ainda perdura um certo respeito por este sinal, mesmo por aqueles que confessam não usá-lo há muitos anos. O depoimento das novas gerações, infelizmente, deixa entrever que o ponto-e-vírgula vai se tornar cada vez mais raro na França, como já o é na maioria dos países ocidentais, incluindo o nosso a menos que se desenvolva uma campanha permanente para esclarecer os efeitos que ele traz para uma pontuação bem estruturada. O pequeno prestígio de que ele hoje desfruta entre nós como se diz por aqui, ele anda com um “baixíssimo ibope” é devido, imagino, ao velho equívoco teórico, ainda disseminado na maior parte das gramáticas e dos livros escolares, de associar os sinais de pontuação com as pausas que fazemos durante a leitura.

O que vou dizer é óbvio, mas deve ser dito: faz muito tempo que as pausas deixaram de ser o motivo para pontuar um texto. Esse era o modelo antigo, que imperou, absoluto, da Antiguidade Clássica até a Idade Média, quando o Ocidente ainda não havia introjetado o hábito da leitura silenciosa. Até o Renascimento, a maioria dos leitores liam em voz alta; os sinais de pontuação serviam, portanto, para marcar as pausas e as entonações. À medida que a leitura passou a ser silenciosa (e, por esse motivo, muito mais rápida), deixou de ser necessário fazer a marcação das pausas, liberando a pontuação para outra finalidade muito mais importante: facilitar ao leitor o reconhecimento instantâneo da estrutura sintática das frases. Ao pontuarmos um texto, estamos fornecendo indicações que vão permitir a nossos diferentes leitores percorrê-lo sem hesitações ou embaraços.

Apesar do predomínio absoluto da leitura silenciosa, ainda hoje não se consolidou completamente a passagem do antigo sistema de pontuação para o atual, baseado na estrutura sintática. Em 1737, o tratado Bibliotheca Technologica, do erudito inglês Benjamin Martin, tenta ingenuamente fixar a duração dessas pausas: “A pausa da vírgula dura o tempo que você leva para dizer um; a do ponto-e-vírgula dura o tempo de contar até dois; a do dois-pontos, o tempo de contar até três; e a do ponto final, o tempo que você leva para contar até quatro“. Pois não é que, até hoje, nossos melhores dicionários continuam com a mesma lengalenga? O próprio Houaiss, meu preferido, define o ponto-e-vírgula como “sinal de pontuação que indica pausa mais forte que a da vírgula e menos que a do ponto”! Coitadinho! Na divisão das competências, coube-lhe uma função indefinida e subalterna, a meio caminho entre a vírgula e o ponto. Com um valor tão impreciso assim, não espanta que seu emprego tenha se tornado cada vez mais raro.

(Continua)