Categorias
Concordância Lições de gramática

concordância do verbo ser

Prezado professor, sempre me confundo com o verbo ser: “As lembranças É tudo o que fica na memória” ou “As lembranças SÃO tudo o que fica na memória”? Quando eu uso É ou SÃO? Tenho de concordar com o que vem antes ou com o que vem depois do verbo? Para mim é a maior confusão; já tentaram me explicar, mas nunca entendi. Rubem Paes

Meu caro Rubem, se te serve de consolo, fica sabendo que determinar o sujeito do verbo ser não é fácil para ninguém. Numa frase como “O pinheiro é muito alto”, não há dúvida alguma quanto às funções sintáticas: o pinheiro é o sujeito e muito alto é o predicativo. No entanto, numa frase como “A responsável é ela“, já não temos certeza de qual dos dois termos em destaque funciona como sujeito (e, portanto, comanda a concordância do verbo).

Se nos apegarmos à idéia de que o sujeito é o que fica à esquerda do verbo, diremos que o sujeito é A RESPONSÁVEL — o que se revela um palpite infeliz assim que fazemos uma simples alteração na frase: “*A RESPONSÁVEL é tu”. Essa frase é inaceitável. No Português culto, o verbo ser deve concordar com tu; a forma correta será “A responsável és TU”.

Alguns autores afirmam que, aqui, “o verbo está concordando com o predicativo”! — o que faria do verbo ser uma verdadeira atração de circo: “Vejam! Vejam! O único verbo que consegue concordar com outra coisa que não o sujeito da frase!”. Pelo tom que adotei, percebes que não julgo ser essa uma boa interpretação do fenômeno. Acho que é muito mais adequado dizer que o sujeito do verbo ser ora pode vir antes, ora depois do verbo; em cada frase específica, tu deverás, então, para fazer a concordância, decidir qual é o sujeito, qual é o predicativo. Para tanto, nota que as pessoas que escrevem bem em nossa língua seguem, geralmente, uma ordem de precedência que vai depender dos elementos que estiverem de um lado e do outro do verbo ser — mais ou menos similar àquele código de boa conduta que todo jovem devia seguir, nos anos 70, ao embarcar num ônibus ou qualquer transporte coletivo. Vamos recordar a cena: todos os assentos do ônibus estão tomados, exceto um. Sobem dois passageiros, uma velhinha coroca e um jovem atleta. A quem pertence o assento vago, no código da etiqueta e da educação? É claro que à velhinha. E se os dois novos passageiros  fosse uma jovem de perna quebrada e uma velhinha de cabelo grisalho? Eu diria que à jovem de perna quebrada, que tem mais dificuldade de se manter de pé (embora, no meu tempo de faculdade, quatro ou cinco dos passageiros que estavam sentados levantariam e começariam a brigar pelo privilégio de ceder o seu lugar à vovozinha; hoje…). E se fosse uma jovem de perna quebrada e uma jovem grávida de oito meses? E se fosse uma velhinha de perna quebrada e uma velhinha grávida? E assim por diante, dois a dois, os passageiros iriam subindo neste nosso ônibus virtual, e nós iríamos decidindo de acordo com os códigos não-escritos da grande tribo em que vivemos. Assim é com o nosso verbo ser: para decidir quem vai ocupar o lugar do sujeito, temos de comparar os dois candidatos ao cobiçado assento:

(1) substantivo humano + SER + substantivo não-humano — O sujeito será o substantivo com traço humano, qualquer que seja sua posição na frase: “O pior são os vizinhos“; “O inferno são os outros“; “Minha filha é meus cuidados”.

(2) substantivo (qualquer) + SER + pronome pessoal reto — O sujeito será o pronome reto, que, como você já viu, sempre exerce a função de sujeito: “A responsável és tu”; “O responsável sou eu“; “Os interessados somos nós“.

(3) substantivo no singular + SER + substantivo no plural — A preferência é normalmente dada ao substantivo com o traço plural: “Meu problema são os dentes“; “Os tijolos são um material barato”.

4) substantivo + SER + pronomes não-pessoais (quem, que, isto, aquilo, tudo, nada) — Neste caso, o mais aconselhável é considerar sujeito o substantivo: “Tudo são mentiras“; “Aquilo são invenções“. Isso esclarece a forma correta da frase que você menciona: “As lembranças são tudo o que fica na memória”.

Quando se trata de concordar com quantias, distâncias, horas, etc., o verbo ser deverá concordar com a expressão numérica: se ela for igual ou maior do que 2, usa o plural: “São quase duas horas“; “É uma e meia“; “Daqui ao centro são três quilômetros“; “Aqui está a conta: são dois mil reais“.

Com datas, alguns autores querem que se mantenha essa concordância com o numeral: “Eram dez de setembro”; “São dois de julho”. O uso moderno, no entanto, não aceita essa forma, preferindo “Era [o dia] dez de setembro”; “É [o dia] dois de julho”. No caso de prestar um concurso público, cabe a ti, com um pouco de discernimento, distinguir a qual das duas correntes se filia a banca examinadora. Em caso de dúvida, faz a concordância são, eram, etc., pois esta é uma posição que encontra muitos adeptos entre os gramáticos conservadores, os quais, por uma ironia do destino (ou não?) constituem a bibliografia básica da maioria das bancas. Abraço. Prof. Moreno

Depois do Acordo: idéia > ideia

Categorias
Análise sintática Lições de gramática

VIVER como verbo de ligação?

Caro Professor Moreno: na oração “Mário VIVE cansado”, o verbo viver — como ensinado nas escolas — é intransitivo. Porém, um aluno perguntou sobre a eventual possibilidade do mesmo ser verbo de ligação, como é o caso de andar na oração “Mário ANDA cansado”. Estaria correta a posição dele? Agradecida.

Teresinha M. — São José dos Campos

Minha cara Teresinha, acho que o teu aluno tem toda a razão. O verbo VIVER, no exemplo que deste, não é o VIVER intransitivo; aqui ele é classificado como uma espécie de verbo de ligação — um tanto especial, porque não é tão-somente relacional, mas “traduz uma noção além do estado (predicado verbo-nominal). Ex.: “Eles viviam escondidos no mato”. Há aqui noção de vida + estado oculto do sujeito”, diz Celso Pedro Luft, em sua Moderna Gramática Brasileira (aviso a meus leitores: esta gramática só deve ser utilizada por professores ou estudantes de Letras; para o usuário comum, ela é técnica e inovadora demais). O mesmo Luft, no seu utilíssimo Dicionário Prático de Regência Verbal, vai mais longe: já classifica VIVER, nesta acepção, como verbo de ligação, com o significado de estar sempre (aspecto durativo, continuativo ou permansivo): “Ele vive gripado”; “Vive com dores de cabeça”.

Nota que aqui está uma boa oportunidade de reformular a maneira de ensinar os verbos de ligação: em vez de fornecer aos alunos uma lista fechada (eu próprio aprendi, no meu tempo, a desfiar, de cor, aquela ladainha do “ser, estar, ficar, permanecer, etc.”), é muito melhor ensiná-los a raciocinar. Podemos, por exemplo, levantar a seguinte hipótese: se viver for um verbo de ligação, ele estará ligando o sujeito a seu predicativo; ora, os predicativos têm a propriedade sintática de concordar, em gênero e número, com o sujeito (ELA está NERVOSA, ELE está NERVOSO, ELES estão NERVOSOS, ELAS estão NERVOSAS). Se na tua frase — “Mário vive cansado” — trocarmos Mário por Maria, vamos ter “Maria vive cansada“: a flexão nos assegura que estamos diante de um predicativo. O mesmo vale para frases como “Ele virou delegado”, “O menino saiu vencedor”, “Ela acabou ferida”, em que os verbos virar, sair e acabar funcionam como verbos de ligação, e delegado, vencedor e ferida são predicativos.

Quanto a teu aluno curioso, fica de olho nele; ele parece ter uma boa sensibilidade lingüística, como podes ver. Quem sabe não temos aí um futuro colega nosso? Abraço. Prof. Moreno

Depois  do Acordo: lingüística > linguística