Categorias
Destaque Etimologia e curiosidades Faits divers Fonologia

xibolete


Mário Quintana tentou ensinar o Papa a pronunciar o nosso ÃO como se fosse um brasileiro — sem saber que, assim como as impressões digitais identificam o indivíduo, a pronúncia deste ditongo distingue quem é e quem não é falante nativo do Português.

Uma amável leitora de Pelotas manda uma cartinha à moda antiga, em papel de seda, com envelope e tudo, em que pergunta o que eu sei sobre a correspondência trocada entre Mário Quintana e o Papa João Paulo II. “Lembro que o senhor um dia escreveu sobre isso, mas esqueci de recortar e agora estou aflita”. Olha, prezada leitora, eu não sei se eles chegaram a se cartear; o que mencionei, certa feita, foram as instruções que o Mário escreveu (não sei se chegou a enviar…) para que o Papa pronunciasse corretamente o nosso ditongo “ão“. Reproduzo, com prazer: “Sendo Vossa Santidade um poliglota notável, vejo que não consegue pronunciar o famoso ão da Língua Portuguesa. E tomo a liberdade de esclarecê-lo sobre esta pronúncia. Considere o ão como dois monossílabos, “ã” mais “o“, e tente pronunciá-los cada vez mais rapidamente. Assim obterá o nosso ão. Esperando a sua benção, respeitosamente”.

Como eu disse na ocasião, é comovente ler essa ingênua sugestão que o Poeta fez a Sua Santidade. Entretanto, se a intenção era boa, a teoria era falha: com ou sem ajuda, o bom Papa poliglota jamais conseguiria pronunciar o nosso ão. Cada língua tem sons que só seus falantes nativos são capazes de distinguir e, por isso mesmo, de reproduzir. Por mais perfeita que seja nossa pronúncia de um idioma alheio, sempre haverá algum fonema que irá  trair o fato de que somos estrangeiros;  é o que se chama, lingüisticamente, de xibolete, uma peculiaridade de pronúncia que atesta se fazemos parte (ou não) de um determinado grupo lingüístico.

No seu sentido primitivo, portanto, um xibolete é um tipo de senha lingüística que identifica os componentes de uma comunidade, assim como a impressão digital identifica o indivíduo. Este estranho (mas útil) vocábulo é a transliteração de um vocábulo hebraico que alguns traduzem por “espiga de grãos”, outros por “corrente de água”. Segundo o Velho Testamento (Juízes, 12: 1-15), esta palavra foi usada para distinguir entre duas tribos semitas, os gileaditas e os efraimitas, que travaram uma grande batalha. Os gileaditas, vencedores, bloquearam as passagens do Jordão para evitar que os efraimitas sobreviventes pudessem escapar. Os sentinelas exigiam que todo o passante dissesse /shibboleth/; como os efraimitas não tinham o fonema /x/ em seu dialeto, só conseguiam pronunciar /sibboleth/ (com /si/ na primeira sílaba), sendo assim reconhecidos e executados.

Há vários exemplos conhecidos desse uso hostil da linguagem para diferenciar grupos humanos. No massacre das Vésperas Sicilianas, no séc. XIV, os odiados franceses eram reconhecidos pela maneira como pronunciavam ciceri (uma espécie de ervilha seca). Nas revoluções de 1893 e de 1923, no Sul do Brasil, quando foi amplamente empregada a execução por degola, os mercenários castelhanos eram identificados fazendo-os pronunciarem palavras que contivessem algum desses fonemas exclusivos; exemplos conhecidos são o jota (o nome da letra) e doispauzinhos. Em qualquer um dos casos, o estrangeiro estava perdido, porque teria de produzir sons que o falante nativo do Espanhol não conhece: a resposta, com suas fatais conseqüências, era sempre algo como /rôta/ ou /paucinhos/.

Ora, talvez o xibolete mais evidente do Português seja exatamente o ditongo ão, como já tinha notado Monteiro Lobato no seu Emília no País da Gramática (aliás, não por acaso, foi exatamente esse o ditonguinho que o Visconde de Sabugosa seqüestrou e que acabou sendo salvo por artes  da astuciosa boneca). As instruções do Mário eram inúteis, mesmo para um poliglota do quilate de João Paulo II: por mais que o falante estrangeiro se esmere em pronunciar este ditongo, sempre vai persistir um traço de estranheza que o ouvido nativo não deixará de captar. Vários autores afirmam, inclusive, que foi essa dificuldade que transformou a ilha de Coração, como chamavam os portugueses, na ilha de Curaçau, nas Antilhas Holandesas.

Hoje, o termo teve seu significado ampliado, podendo indicar, também, um hábito ou uma característica que sejam distintivos. Um oportuno artigo sobre etiqueta à mesa me ensinou, por exemplo,  que “a maneira como se usam os talheres para comer a fruta é o xibolete que distingue quem é quem”. Já no pólo mais sério, Freud, ao censurar a posição de Jung de diminuir deliberadamente o valor e a importância do fator sexual na Psicanálise, afirmava, em 1919: “O fator da sexualidade é o nosso xibolete“. Eu confesso que preferiria escrever xibolé ou xibolê, mas como Aurélio, Houaiss e Luft registram xibolete, eu baixo as minhas orelhas e vou puxar minha carrocinha.

Depois do Acordo:

lingüístico > linguístico
conseqüência > consequência
seqüestrou > sequestrou
pólo > polo

 

Categorias
Como se diz Como se escreve

pronúncia do X

Marcelo R., de Passo Fundo (RS), gostaria de saber se há regras gramaticais e de fonética para determinar pronúncia correta do X. “Eu sempre pronunciei, por exemplo, esdrúxulo como /esdrúcsulo/ e não /esdrúchulo/, tóxico como /tócsico/ e não /tóchico/ — o que gerou uma aposta entre amigos, após algumas garrafas de vinho (a dúvida persistiu no dia seguinte, junto com a dor de cabeça)”.

Prezado Marcelo: não pode haver regras para a pronúncia do X, já que ele pode aparecer com diferentes valores no mesmo ambiente fonológico. Entre vogais, por exemplo, ora ele tem o valor de /ch/ (abacaxi), ora de /z/ (exato), ora de /ks/ (fixo), ora de /s/ (máximo). É o uso e a tradição que foi fixando o seu valor em cada palavra. Em tóxico, a única pronúncia aceitável é /ks/; /ch/, aqui, é visto como marca de fala inculta — “Meu filho se /intochicou/”. Agora, em esdrúxulo, só se aceita o /ch/; aliás, nunca ouvi alguém tentando dizer esse X como /ks/. Tu és o primeiro; parabéns pelo vanguardismo… Abraço. Prof. Moreno

Categorias
Como se diz Como se escreve

inox

Prezado Prof. Moreno: recentemente descobri teu sítio na Internet, e como sou apaixonado por curiosidades lingüísticas, volta e meia dou uma olhada nele. No ponto xerox ou xérox, citas diversas palavras que entraram no Português, como durex, inox, etc. A mim me parece que a palavra inox nao é um estrangeirismo (o que talvez pudesse justificar uma possível confusão na sua pronúncia), mas sim uma corruptela de inoxidável, do Português mesmo. Provavelmente não venha do idioma inglês, pois aço inoxidável em Inglês é stainless steel. Tampouco é uma marca registrada, pois há inox da Acesita, Usiminas e assim por diante. Alguma idéia? Duas observações: (1) sou engenheiro metalúrgico, daí a curiosidade; (2) desculpa a falta de acentos circunflexos, cedilhas e tils (til tem plural?). Estou na Alemanha e o teclado que estou usando não possui a configuração para o Português… Grande abraco e parabéns pelo excelente trabalho.” 

Rodrigo Villanova

Meu caro Rodrigo: muito me alegra ter um leitor atento aí nessa lonjura; obrigado pelos cumprimentos. Quanto ao inox, uma pequenina retificação: eu não disse (ou escrevi) que é vocábulo estrangeiro, mas sim que é um “vocábulo que entrou no nosso idioma depois da Segunda Guerra”. Atualmente, em Lingüística, tentamos definir as leis do comportamento das palavras de uma língua e descrever os modelos que estão operantes. Antes da Grande Guerra, os vocábulos terminados em X que “entravam” no Português eram marcados com a tônica na penúltima. Certamente aqui está o meu erro de expressão: usei entrar com o sentido de “passar a fazer parte”, o que engloba os vocábulos formados internamente, importados de outras línguas ou simplesmente inventados — e não apenas os estrangeirismos (não gosto desta palavra xenófoba). 

Depois que Hitler deu seu último suspiro em algum bunker perdido aí por onde tu andas, parece que o paradigma começou a trocar: todos os novos vocábulos com esta terminação passaram a um modelo com a tônica final. Isso inclui importações (durex, pirex), reduções (inox, redox) e até mesmo marcas comerciais (que, como hoje sabemos, também são inventadas dentro do “molde” prosódico que está vigendo no momento em que são criadas): Gumex, Mentex, Jontex, Giroflex. É por isso que xerox (importada) entrou aqui já dentro desse novo esquema prosódico. Vou ter que refrasear aquele artigo, para ficar mais claro. Estás a ver que Drummond tem toda a razão: “lutar com as palavras é a luta mais vã”! Não tinha me ocorrido que eu estivesse escrevendo de uma forma a deixar espaço para duas leituras. Um abraço. Prof. Moreno

P.S.: na medida em que til é um vocábulo de nossa língua, tem, como seus demais colegas de idioma, o direito a um plural; por que não? Cantil, cantis; funil, funis; til, tis.

Depois do Acordo: lingüística > linguística

Categorias
Como se diz Como se escreve

pronúncia de Roraima

Caríssimo Doutor, sou um apaixonado pela língua portuguesa e, de fato, sempre fui um ótimo aluno na disciplina. Porém, reconheço que praticamente nada sei e que muito tenho a aprender. Gostaria de saber se existe uma forma correta de pronunciar nomes como Jaime  ou Roraima — isto é, se a primeira sílaba deve soar como /ja/ ou como /jã/. 

Pedro G. Porto Alegre

Meu caro Pedro: NÃO existe regra sobre a pronúncia do Português, o que, aliás, facilmente se explica: na evolução da espécie humana, a fala precede, em centenas de milhares de anos, a escrita. Esta sim, por ser uma simples convenção entre as pessoas que a utilizam, pode ser objeto de um sistema de regras (o qual, no Brasil, já foi modificado várias vezes). A Fonologia e a Fonética estudam “como” as pessoas falam, descrevendo os fenômenos com a mesma imparcialidade que a Biologia tenta descrever as formas de vida. Por isso, assim como não se pode falar de certo e errado na Natureza, não existe uma forma de determinar o que é certo ou errado na pronúncia (como algumas sumidades andam fazendo por aí, exatamente por lhes faltar um maior embasamento lingüístico). Posso, isso sim, apontar diferenças regionais de pronúncia (um bom exemplo é o /s/ final no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro, completamente diferentes), ou comparar pronúncias que são sociolingüisticamente condicionadas (fala popular x fala culta, fala infantil x fala adulta, etc.).

No caso específico da tua pergunta, Pedro, há duas maneiras de pronunciar aquele /a/ antes de nasal: eu digo /câma/, /jâime/ e /rorâima/, mas /jánaína/ e /bánana/. Caetano Velloso diz /bânana/, e não sei como pronuncia Roraima ou Jaime. O pessoal da Rede Globo gosta muito de /roráima/ e de /jáime/. Lembro-te que essa variação é muito mais comum do que se pensa; um leitor  sergipano escreveu para dizer que se espantou quando leu, aqui no Sua Língua, que o O, apesar de ser aberto em porta, fechava nos seus derivados (porteiro, portaria, portal, etc.): para ele e seus amigos, a prática é dizer /pôrteiro/, mas /pórtal/ e /pórtaria/! 

Por isso, cada um de nós escolhe a maneira de falar; isso vai nos identificar tanto quanto roupa que preferimos vestir ou a comida com que procuramos nos alimentar. Eu sou gaúcho, e tento falar, vestir e comer como gaúcho — mas é apenas uma questão de escolha pessoal. Abraço. Prof. Moreno

Depois  do Acordo:  lingüística> linguística 

sociolingüisticamente> sociolingüisticamente

Categorias
Como se diz Como se escreve

pronúncia de óbvio

Prezado Doutor: uma de minhas professora pronunciou a palavra óbvio sem o B (/óvio/). Olhou para a turma esperando um comentário e foi logo dizendo que essa era a pronúncia correta, o contrário era inadmissível. Disse desafiar qualquer um a esse respeito e que aprendeu a “pronúncia correta” com professor de Lingüística da Faculdade. Achei horrível mas não tive como argumentar. Será que você poderia me ajudar quanto à pronúncia correta? Ainda, será que a pronúncia em Portugal é /óvio/? Espero que possa me ajudar. De qualquer maneira, muito obrigada.”

Luciana V. Sorocaba (SP)

Minha cara Luciana: não posso imaginar de onde tua professora foi tirar essa preciosidade; cá entre nós, aquela alegação de que tinha aprendido essa pronúncia com “um professor de Lingüística” só pode ser fantasia, porque nenhum profissional dessa área, em seu são juízo, iria defender uma coisa dessas. Vamos conceder à tua mestra, no entanto, o benefício da dúvida, e imaginar que tenha ocorrido uma pequena confusão de conceitos, como passo a explicar. 

Já tive ocasião de escrever sobre os encontros consonantais imperfeitos (como, por exemplo, FT, TM, GN, DM, BT, etc., em afta, istmo, indigno, admirar, obturar). Como esse tipo de encontro não se enquadra nos padrões silábicos que existem na fonologia do Português, o falante automaticamente intercala a vogal /i/ entre as duas consoantes, desmanchando assim o encontro e formando duas sílabas com o padrão normal: pronunciamos afta como /á-fi-ta/; istmo vira /ís-ti-mo/; admirar vira /a-di-mi-rar/; e assim por diante (dá uma lida em encontros consonantais e em optar e indignar). Nota que isso acontece na fala de todos nós, sem exceção; alguns juram que não ocorre com eles, mas sabemos que a crença dos falantes sobre a sua própria linguagem é geralmente idealizada. Mesmo assim, recomenda-se que as pessoas instruídas, ao usarem uma fala mais cuidada, tratem de manter o mais discreta possível essa pequena vogal. Na minha pronúncia do verbo obturar (/o-bi-tu-rar/), aquele /i/ fica muito reduzido, a custo perceptível; no entanto, conheço pessoas que o pronunciam com tal entusiasmo que o verbo fica parecendo um derivado de óbito

E aqui vem a minha hipótese: a recomendação que a tua professora recebeu do lingüista, a observação que ela pretendia fazer na tua sala de aula era “não carreguem nesse /i/ epentético, mantenham-no reduzida ao mínimo”. Contudo, deve ter havido uma pequena confusão, e ela terminou falando em eliminar o /b/! Se procurares no Houaiss ou no Aurélio, não vais encontrar indicação sobre pronúncia desse adjetivo (imagino que os dois autores não julgassem necessário…). Indo, no entanto, ao Dicionário da Língua Portuguesa, de Antenor Nascentes, que indica a pronúncia de todos os vocábulos, vais ver que o /b/ continua a ser ouvido. Perguntas sobre Portugal? Para nossa felicidade, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, publicado pela Academia de Ciências de Lisboa, resolveu incluir, para cada palavra, a transcrição fonética da pronúncia lusitana — e lá o /b/ também é pronunciado! O mais perto que vais chegar de /óvio/ (credo!) é o Espanhol, em que formas como obvio e obscuro podem também aparecer em variantes (menos usadas) ovio e oscuro. Confesso-te que já ouvi óbvio sem o /b/, mas sempre em tom de brincadeira (“é óvio, né?”); em cartas e e-mails particulares, inclusive, as pessoas escrevem óvio, de pura galhofa, mas sempre entre aspas — exatamente porque estão transgredindo conscientemente a norma, para obter um efeito humorístico. Até acho possível que possamos encontrar, no nosso imenso Brasil, alguma comunidade específica que elimine esse /b/ na sua fala espontânea — mas isso não serviria de base para uma afirmação tão dogmática a respeito de como essa palavra deve ser pronunciada no Português usual. Nessa história toda, alguém se equivocou: ou tu mesma, ou a professora, ou o lingüista. Abraço. Prof. Moreno

P.S.: uma característica notável da nossa ortografia (no Brasil) ganhou notoriedade, na discussão das bases do novo Acordo: aqui, desde 1943, não escrevemos nenhuma consoante que não seja pronunciada. Em outras palavras, o sistema usado no Brasil, ao contrário do sistema português, tinha eliminado as consoantes mudas desde 1943 (e por isso o Novo Acordo está trazendo tantos incômodos para nosso país irmão, maiores ainda do que os que nos couberam!). Ora, se sempre escrevemos óbvio com B, é porque aquele B deve ser pronunciado. 

Depois  do Acordo:   lingüística> linguística 

lingüista>linguista

Categorias
Como se diz Como se escreve

Pasárgada

Caro Doutor, venho pedir uma solução para uma velha dúvida: qual a pronúncia da palavra Pasárgada, que aparece no famoso poema de Manuel Bandeira? Gostaria de saber se o S tem som de /z/ ou de /s/, pois nem meus  professores souberam responder. Desde já, agradeço.

Marcelo Nunes, estudante de Letras.

Meu caro Marcelo: a pronúncia é /pazárgada/, ao contrário do que muita gente pensa. Na minha experiência, o fato de ser, no poema, descrita como uma cidade fantástica, com uma sociedade e uma paisagem paradisíacas, favorece a errônea associação com pássaro, o que levaria à pronúncia equivocada /passárgada/.

Deves saber que Manuel Bandeira não inventou a cidade; trata-se da lendária cidade de Ciro, fundada quase quinhentos anos antes de Cristo para ser a capital do Império Persa. Suas ruínas ainda podem ser visitadas, no Irã, a aproximadamente uns 70 quilômetros da não menos famosa Persépolis. A História imortalizou a grandeza de Pasárgada, com seus imensos monumentos espalhados por belos terraços e verdes jardins.

Não raras vezes, fãs deste poema (da poesia moderna brasileira, um de meus preferidos), quando informados por mim da verdadeira origem deste nome, declararam seu mais absoluto desapontamento; um deles, um estrangeiro extremamente culto, chegou a me acusar, amigavelmente, de ter destruído uma linda imagem que o poema lhe evocava, de uma cidade tropical, com palmeiras verdejantes e pássaros em profusão (talvez houvesse aí, sem que ele percebesse, a influência da maravilhosa Canção do Exílio, de Gonçalves Dias…).

De qualquer forma, há um testemunho incontestável: o próprio Manuel Bandeira chegou a gravar em disco o poema, deixando definida, com sua própria voz, a pronúncia /pazárgada/. Se tiveres curiosidade, podes ouvir sua interpretação em www.culturabrasil.pro.br/bandeira.htm, autêntica até nos chiados do velho disco de vinil. Uma última observação: professores do curso de Letras não poderiam desconhecer o que acabo de te explicar. Abraço. Prof. Moreno

Categorias
Como se diz Como se escreve

optar, indignar

Prof. Moreno: primeiramente gostaria de parabenizá-lo pelo maravilhoso trabalho. Sem dúvida, impagável! Tenho uma grande dúvida quanto ao verbo optar. Quando pergunto “Vamos tomar um sorvete? Você opta por morango ou limão?”, qual é a forma correta de pronunciar o verbo? É /ópta/ ou /opíta/? E a resposta seria “Eu /ópito/ ou /opíto/ por limão”? Ficaria muito feliz se você me respondesse. Um grande abraço.

Rose C.

Prezada Rose: quando pronunciamos os encontros consonantais chamados de imperfeitos (D+V, P+T, G+N, T+M, B+T, etc., como em advogado, optar, digno, ritmo, obturar), sempre intercalamos entre as duas consoantes um fonema vocálico (/i/), ficando mais ou menos assim a pronúncia: /adivogado/, /opitar/, /díguino/, /obiturar/ [o acento é só para marcar a vogal tônica]. Quanto mais culta for a pessoa, mais atenuada será a pronúncia desse fonema — mas ele estará sempre lá, ocasionando uma inevitável mudança no número de sílabas. Pneu, por exemplo, é pronunciado obrigatoriamente com duas sílabas (/pi-neu/). Já escrevi sobre isso em pronúncia de encontros consonantais.

No caso do verbo optar, a conjugação é eu opto (/ópito/), tu optas (/ópitas/), etc. Nota que essa vogalzinha de apoio, intrometida, nunca deverá ser pronunciada como se fosse tônica — o que daria /*opíto/. Foi exatamente assim que nasceu outra forma esquisita que, com a vitalidade da erva daninha, está se alastrando entre os falantes mais jovens: o famigerado /*indiguíno/, que já está contaminando /*resiguíno/. Uma pessoa preocupada com sua formação, como tu, deve dizer “eu /ópito/”, “eu me /indíguino/”, “eu me /resíguino/”. Abraço. Prof. Moreno

Categorias
Como se diz Como se escreve

nokia, nókia

Gostaria de saber a pronúncia correta da marca de telefone Nokia. Liguei para a Telecom e a atendente insistiu que o correto é /nókia/, enquanto defendi que fosse /nokía/. Ela informou que esta foi a instrução que recebeu no treinamento. Vem ainda a marca de camionete Hilux. Em revendas de autopeças a briga é grande; na concessionária Toyota o pessoal pronuncia /railux/, enquanto outros dizem simplesmente /rilux/. Sem mais, agradeço.

André C. P.- Cuiabá – MT

Meu caro André: deves perceber que tua dúvida é sobre a pronúncia de nomes estrangeiros, o que vai muito além do alcance da minha página (ela trata da sua, da nossa língua, lembra?). No entanto, acho que posso fornecer alguns dados para meditação. Os nomes comerciais de outros países devem, em princípio, ser pronunciados ao jeito deles, não ao jeito dos vocábulos nacionais. Sei que os finlandeses dizem /nókia/, e assim eu pronuncio. No entanto, é normal que um leitor brasileiro aí tente aplicar o padrão fonológico habitual para vocábulos com essa grafia, que leva à leitura instintiva /nokía/(rimando com folia e mania). O jeito é esperar, para ver qual delas será a preferida. No caso da Texaco, por exemplo, venceu no Brasil a pronúncia /techaco/, bem diferente da /teksakou/ dos americanos. Já nos produtos Cashemere Bouquet, patrocinadores das antigas novelas de rádio, a pronúncia vitoriosa foi a mesma proposta pelos fabricantes; apesar de exigir uma leitura à francesa, a divulgação via rádio do nome tornou fácil sua aceitação por todos: /caximir buquê/.

 Claro que está fora de questão aplicar a esses nomes as nossas exigências de acentuação gráfica ou de emprego das letras. Com são marcas estrangeiras, cada falante lê como sabe (ou acha que sabe); não é, portanto, de espantar que haja divergências na pronúncia da nova Hylux da Toyota. Por falar nisso, como é que tu pronuncias Renault? E American Airlines? E o air de Air France? E Goodyear? E quando dizes Volkswagen, o primeiro fonema que pronuncias é /f/ ou /v/? Pensa sobre isso, e entenderás a minha mensagem. Abraço. Prof. Moreno

Categorias
Como se diz Como se escreve

micrômetro

Caro mestre, sou engenheiro, consultor de pintura industrial e trabalhei durante muito tempo como elaborador de normas técnicas brasileiras. A unidade de medida adotada para espessura de película de tinta é usualmente conhecida, no meio técnico, como micrometro, sem acento, correspondente a milionésima parte do metro, enquanto a palavra micrômetro serve para identificar o aparelho de medida. Pergunto se tudo isso faz sentido, e se existe alguma norma para o caso. Abraços.

Alfredo N.

Meu caro Alfredo: acho que há um equívoco aqui. A milionésima parte do metro é também micrômetro. Não se trata de um “micro metro”, mas de uma unidade com a mesma prosódia (leia-se: posição da sílaba tônica) das outras unidades da mesma espécie: centímetro, decímetro, milímetro, etc. O aparelho usado para medir também é micrômetro, da mesma forma que seus companheiros de função: paquímetro, telêmetro, hodômetro. Os dois vocábulos coincidiram; isso acontece. Agora, se no uso do pessoal técnico está começando a se criar uma diferença, então vamos esperar para ver. Se for funcional (minha intuição diz que não o é), o sistema da língua vai incorporar a distinção. Abraço. Prof. Moreno

Categorias
Acentuação Como se escreve

clítoris ou clitóris

Caro Professor: desde já quero agradecer-lhe pela oportunidade de consultar este interessante e tão útil sítio. Meus parabéns! Sou brasileira e moro em Coimbra há cerca de 10 anos. Gostaria de perguntar-lhe qual a maneira correcta de escrever (e pronunciar) a palavra clitóris. Será CLÍtoris ou cliris? Muito grata.” Sandra L. — Portugal

Minha cara Sandra: nem sempre temos certeza quanto à correta localização da sílaba tônica de um determinado vocábulo científico. Enquanto os vocábulos usuais são pronunciados sem a menor hesitação, os de uso mais restrito podem representar dificuldades embaraçosas. Como se deve pronunciar Nobel? É hieroglifo ou hieróglifo? É lípase ou lipase? Como determinar a sílaba que deve receber o acento tônico nesses vocábulos? Em suma, como definir a prosódia dessas palavras de pronúncia hesitante?

Não é por acaso que estes casos de indecisão são particularmente mais freqüentes em vocábulos eruditos de origem grega e latina. Embora haja certas regras gerais para a passagem do Latim para o Português e para a transliteração do Grego, tantos são os fatores intervenientes (históricos, fonéticos, ortográficos, etc.) que se torna impossível determinar, de antemão, qual a pronúncia a ser adotada em cada caso. Um dos grandes especialistas no ramo, o erudito José Inez Louro, da cidade do Porto, em seu esgotado O Grego Aplicado à Linguagem Científica, chega a dizer que “só por um acaso a sílaba tônica grega continua a ser tônica no Latim ou no Português”. Além disso, a comunidade científica não é uma só, unânime e homogênea. Dentro dela também existe uma rica variedade lingüística, tornando impossível o consenso sobre a forma de pronunciar (ou mesmo grafar) certos vocábulos. Em diversas situações, vais ser forçada a optar por uma das versões de uma determinada palavra, baseando-te, para isso, na tua formação cultural, no teu convencimento íntimo, no exemplo dos especialistas que respeitas.

Queres ter uma visão do inferno? Compara dicionários. Se tomarmos o indispensável Aurélio (2ª edição, é claro), o dicionário de Antenor Nascentes (um dos poucos a registrar a pronúncia em todos os verbetes) e o clássico dicionário de Ramiz Galvão (Vocabulário etymologico, ortographico e prosodico das palavras portuguezas derivadas da Língua Grega), veremos que Aurélio registra acetonúria (com a variante acetonuria), Nascentes indica acetonúria e R. Galvão registra acetonuria. Que tal? Aurélio e Nascentes concordam em esfíncter e eczema, mas R. Galvão finca pé em esfincter (rimando com mulher) e éczema! E clitóris? Como se diz o nome desse ponto ainda tão pouco explorado da anatomia feminina? Apesar de ter sido descoberto no Renascimento por Realdo Colombo (“uma coisinha tão bonita e com tanta utilidade” — De re anatomica, 1559), a sua pronúncia até hoje ainda traz dúvidas para os estudiosos.

A maioria dos falantes diz clitóris, e esta pronúncia é confirmada por toda a tradição de dicionaristas de peso. Assim registram, no século XIX, Morais, Lacerda e Aulete; no século passado, Aurélio, Nascentes e o Dicionário Michaelis. A única voz destoante entre as autoridades é Ramiz Galvão, que argumenta que a quantidade grega mandaria dizer clítoris; nosso sábio da Belle Epoque (seu dicionário é de 1909), contudo, não insiste nessa prosódia, porque ele prefere mesmo é a forma clitóride, que ele classifica como um “substantivo feminino”! “A” clitóride! Assim já é ser extravagante demais …

E aí vem a nota desagradável: eu citei acima o Aurélio da 2ª edição, quando o autor ainda estava vivo. Sua lição é inequívoca: registra apenas clitóris, sem variantes ou hesitações. Qual não é a minha surpresa quando abro o Aurélio XXI (que recebeu vários acréscimos e emendas de uma tal “equipe”… será que ouço o mestre Aurélio rangendo os dentes em seu túmulo?) e me deparo com um verdadeiro qüiproquó: clitóris é dado como mera variante de clítoris, que remete à famigerada clitóride, com direito a verbete e tudo! Esta é mais uma que o Aurélio XXI me apronta; estou colecionando os casos e vou aproveitá-los para mostrar, em um próximo artigo, como uma nova edição de um dicionário não é necessariamente melhor que a anterior. Abraço. Prof. Moreno.

Depois do Acordo: freqüente > consequências

lingüística > linguística

qüiproquó > quiproquó