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Através dos dicionários Destaque Formação de palavras Lições de gramática

bonitíssimo

Professor Moreno: tenho um primo na Alemanha que está tentando aprender a nossa língua . Ele tem progredido bastante, mas outro dia, num museu, apontou para um quadro e exclamou: “Olhe! É bonitíssimo!”. Eu lhe disse que não era assim que se falava, mas terminei ficando com dúvida. Essa forma está muito errada mesmo? Todos os adjetivos têm um superlativo? Sei que os dicionários comuns (como o famoso Aurélio) só apresentam os superlativos menos óbvios, como boníssimo, mas não trazem belíssimo, por exemplo, que é óbvio demais. Ora, como sei se o superlativo que estou propondo existe? Bonitíssimo não está lá. O que devo concluir? Bonitíssimo não existe, ou existe e é tão básico que nem se dão ao trabalho de publicar umas letrinhas a mais no dicionário só pra tranqüilizar os menos informados?!

Alline C. R. – Campinas (SP)

Minha cara Alline: é claro que existe bonitíssimo. Os dicionários (de qualquer língua, por sinal) costumam deixar fora de suas listas todas aquelas formações que, de tão produtivas, são facilmente deduzidas pelo falante. Assim, em Português, quase não se registram (1) os diminutivos em –inho e –zinho, (2) os superlativos em –íssimo e (3) os advérbios em –mente. Por exemplo, não há necessidade de incluir pobrezinho, pobríssimo e pobremente, três formações automáticas a partir de pobre. É uma economia considerável de três entradas no dicionário — e não apenas de algumas letrinhas! Multiplica isso pelas dezenas de milhares de substantivos e adjetivos, e vais ver que vale a pena!

Agora, uma coisa é certa: há padrões morfológicos que se aplicam a todos os vocábulos que existem e a todos os que virão a existir em nossa língua. Se um dia, hipoteticamente, for criado um adjetivo calurdo, nascerá com ele a possibilidade de formar calurdozinho, calurdíssimo e calurdamente — porque essa é uma potencialidade de todo e qualquer adjetivo. O teu primo apenas aplicou uma regra poderosíssima de formação de superlativo; se nós não gostamos de usar bonitíssimo, haverá muita gente que goste; esta forma está lá, sempre latente, esperando apenas que alguém precise dela para vir à tona, como foi o caso. Teu primo está realmente começando a dominar o nosso idioma. Abraço. Prof. Moreno

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Flexão nominal

magríssimo, macérrimo e magérrimo

Caro professor Moreno: outro dia, em conversa acontecida no horário do jantar, minha filha de 15 anos, estudante do 2º Grau, aluna premiada no colégio, falou mais ou menos assim: “fulano estava elegantíssimo“; na mesma hora retruquei, dizendo que o correto seria elegantérrimo. Minha filha então argumentou que os dois eram corretos. Na mesma semana, na revista Marie Claire , li alguma coisa que parecia vir em defesa aos meus argumentos, num artigo que colocava a palavra “elegantíssimo” em itálico, como que em tom pejorativo e depois fazia uma referência a outro “elegantérrimo” em tom mais enfático. As duas maneiras estão corretas ? Se estão corretas, existe uma que seria mais elegante utilizar ? Antecipadamente agradeço. 

Paulo P.G.  — Palmas (TO)

Meu caro Paulo: tua filha mereceu o prêmio de melhor estudante: ela é que está com a razão. O superlativo de elegante é elegantíssimo. Nosso idioma forma seus superlativos por meio de uma simples fórmula morfológica: [adjetivo+íssimo]; assim brotam, naturalmente, belíssimo, grandíssimo, duríssimo, caríssimo. Alguns (muito poucos — não chegam a 50, de 50.000) têm também outra forma alternativa, usando a forma latina. É o caso de doce (docíssimo e dulcíssimo), negro (negríssimo e nigérrimo), etc. Podes dar uma olhada em superlativos eruditos. Em alguns dessas formas latinas aparece o sufixo superlativo -érrimo, que também vais encontrar em paupérrimo, macérrimo (incluo, lá no fim, uma discussão sobre esta palavra; não perguntaste, eu sei, mas não pude resistir…), celebérrimo — todos, como podes ver, com um inegável toque erudito. 

Acontece, Paulo, que certos setores da imprensa — principalmente ligados à moda e ao colunismo social — passaram a usar liberalmente este sufixo, criando formas como chiquérrimo, riquérrimo, elegantérrimo; já ouvi boazudérrima (e, para meu espanto, uma forma totalmente inusitada, que não existia nem no Latim: carésima, gostosésima, peruésima!). Não tenho nada contra elas; as palavras, como os seres humanos, têm direito de existir, mesmo que não sejam lá boa coisa. Até gosto de usar algumas, quando quero fazer ironia ou brincadeira; só não vou empregá-las quando estou falando ou escrevendo em tom mais formal ou profissional.

Nesse sentido, a tua pergunta final é extremamente adequada: “se ambas estão corretas, existe uma que seria mais elegante utilizar?”. É isso aí, Paulo! Esse é o verdadeiro segredo de quem usa bem o Português: não se trata apenas de escolher entre uma forma correta e uma errada, mas sim escolher, entre duas formas corretas, a mais adequada para a situação. Elegantíssimo? Podes usar sempre, em qualquer contexto, em qualquer nível de linguagem. Elegantérrimo? Usa só no salão de beleza, na crônica social, na conversa entre amigos. Um abraço, e não deixes de dizer à tua filha que ela é que estava certa. Prof. Moreno

P.S.: Quanto ao macérrimo: eu disse, acima, que a composição vernácula de nossos superlativos é [adjetivo+íssimo] e que alguns apresentam, concomitantemente, uma forma mais erudita, proveniente do Latim. Assim acontece com pobre, que tem pobríssimo (pobre+íssimo) ou paupérrimo (no Latim, “pobre” é pauper, que encontramos também em pauperismo, depauperar, etc.); com doce, que tem docíssimo ou dulcíssimo (no Latim, “doce” é dulcis, radical que encontramos em edulcorante, dulcificar ou no nome Dulce). Pois bem, o adjetivo magro tem o superlativo vernáculo magríssimo ou a forma alatinada macérrimo; no Latim, “magro” é macer, radical que podemos encontrar em emaciar ou macilento. Com a nova “moda” do sufixo –érrimo, no entanto, criou-se também magérrimo, uma combinação popular, meio cruza de jacaré com cobra-d’água, onde se nota talvez uma analogia com negro nigérrimo. “Existe essa forma?” — já me perguntaram várias vezes. A resposta é sim; é claro que existe, se a maioria da população a utiliza diariamente (e os dicionários registram). Agora, quanto a usá-la ou não, vale o que eu sempre digo a respeito dessas variantes: camisa-pólo com bermuda é roupa bonita e decente, mas não serve para todas as ocasiões. Traje de recepção? Macérrimo. Traje de passeio ou esporte? Magríssimo. Camiseta com sandália, ou pijama com chinelo? Magérrimo

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