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Emprego dos pronomes Lições de gramática

Pai Nosso que estais no céu

Katia B. escreve de Bauru (SP):

“Quem não sabe deve perguntar, sempre. Acho que aprendi errado a conjugação do verbo estar; no presente do indicativo, aprendi que é eu estou, tu estás. Então, por que a gente reza “Pai Nosso que ESTAIS”, com o verbo no plural? Se ainda fossem vários PAIS … Explique para mim, por favor. Muito obrigada”. 

Prezada Katia: até o séc. XIX, era uma forte tradição usar o pronome vós também para o singular, quando nos dirigíamos a uma pessoa socialmente ou psicologicamente muito superior. Se leres romances em que aparece um rei ou uma rainha, verás que as pessoas só se dirigiam a elas assim: “O que pensais?”, “Espero que façais”, etc. Ora, em muitos textos religiosos — e o Pai Nosso é um deles — aparece esse tratamento de vós dado ao Senhor: “Pai Nosso que estais no céu, santificado seja vosso nome, seja feita a vossa vontade…”. Na Ave-Maria é a mesma coisa: “Ave Maria, cheia de graça, bendita sois vós entre as mulheres, bendito é o fruto de vosso ventre…”. Abraço. Prof. Cláudio Moreno

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Lições de gramática Verbos - conjugação

tu x você

Caro professor: a respeito de verbos na forma imperativa, tenho visto muitos deles usados de forma diferente da que eu aprendi na escola. Por exemplo: olhar, OLHE; escrever, ESCREVA; ligar, LIGUE. Pois bem… frequentemente em rádios e televisões, ouço “LIGA agora pra nossa central”, “ESCREVE aqui pra rádio”. Há um comercial de celular no qual o verbo, que está no imperativo, é usado como LIGA, e até mesmo em uma capa de revista apareceu “OLHA a postura!”. Puxa, vendo isto em uma revista tão atual, só me resta pensar que esses verbos estão se incorporando ou se tornando aceitáveis. Espero que o senhor resolva de vez essa minha dúvida, que pode ser a de muitos e que me deixa espantada, ao ouvir e ler esses verbos desse jeito. Abraços. [Audrey C. — São Paulo]

Prezado Prof. Moreno: em primeiro lugar, parabéns por seu trabalho brilhante (e muitas vezes paciente…) no ensino de nosso tão atropelado idioma. Aprendi, ainda quando pequena, esta oração ao Anjo da Guarda, mas penso estar errada a conjugação dos verbos no imperativo. A oração é a seguinte:

Santo Anjo do Senhor,

Meu zeloso guardador,

Se a ti me confiou a piedade divina,

Sempre me REGE, GUARDE, GOVERNE, ILUMINE.

Como seria a forma correta? Desde já agradeço. Um abraço,

Angela S. — Porto Alegre (RS)

Prezadas leitoras, o que está incomodando vocês é o cruzamento das regras de conjugação do imperativo com a forma de tratamento que está sendo empregada (TU ou VOCÊ) — uma das misturas mais indigestas para quem hoje ainda tenta escrever corretamente o nosso idioma. Essas duas áreas já são problemáticas de per si; quando se juntam, é natural que o cenário fique ainda mais confuso. Vou esclarecer por partes.

O TRATAMENTO — Quando nos dirigimos a alguém, o Português moderno permite que escolhamos livremente entre tratá-lo por TU ou por VOCÊ; embora haja certas preferências regionais (já falei sobre isso em lê ou leia), qualquer brasileiro, em qualquer parte do país, é livre para usar a forma de tratamento que lhe aprouver. Quando comecei a construir este sítio, optei pelo TU, e assim eu uso até hoje. No jargão das gramáticas tradicionais, portanto, TU e VOCÊ são duas formas igualmente corretas para tratar a segunda PESSOA DO DISCURSO (definida como aquela a quem se fala). É importante frisar que, apesar de ambos se referirem à segunda pessoa (do discurso), tu pertence à segunda e você pertence à terceira PESSOA gramatical, exigindo as formas verbais e os pronomes respectivos. Comparem a frase “Se você não trouxe seu livro, vai se arrepender” com a frase “Se tu não trouxeste teu livro, vais te arrepender” — ambas corretas. 

Numa espécie de darwinismo lingüístico, as duas formas passaram a disputar a preferência dos falantes. Ambas estão ainda em uso, mas a direção de tendência — ou seja, o rumo inexorável para onde os dados lingüísticos apontam — parece ser a supremacia absoluta do você e a retirada de cena do tu, assim como já aconteceu com o vós (lembro apenas que essa disputa vai durar alguns séculos, ao longo dos quais as hesitações vão naturalmente continuar ocorrendo). Nosso quadro verbal, então, vai reduzir-se a quatro pessoas (eu; ele,você; nós; eles, vocês). 

O IMPERATIVO — Para fazer um convite, uma exortação, ou dar uma ordem — aquilo que a mitologia gramatical denominou de imperativo —, deveríamos usar formas verbais muito diferentes para o tu e para o você — eu disse “deveríamos”, porque na prática quase nunca isso acontece (leiam, por exemplo, vem pra Caixa você também). A forma que corresponde ao você é idêntica ao presente do subjuntivo, enquanto a que corresponde ao tu é uma forma própria, exclusiva, obtida a partir do presente do indicativo, com a perda do S característico:

COLABORE você COLABORA tu

DEVOLVA você DEVOLVE tu

INSISTA você INSISTE tu

FIQUE você FICA tu

Pois as formas com que cismaste, minha cara Audrey, são as que correspondem ao tu: “LIGA agora pra nossa central”, “ESCREVE aqui pra rádio”, “OLHA a postura!”. Pelo que dizes, presumo que preferirias ligue, escreva e olhe, correspondentes ao você. Elas não estão erradas; o que fez acender a tua luz de alerta, ao ver aqueles comerciais, foi simplesmente o fato de empregarem o tu acompanhado de suas respectivas formas verbais, que já soam estranhas para grande parte dos brasileiros. 

Quanto a ti, minha prezada Ângela, estás certa em desconfiar do texto da oração, porque ele realmente está errado. Se a prece se dirige ao Anjo tratando-o por tu (como podemos ver na frase “se a TI me confiou…”), as formas do imperativo devem ser da segunda pessoa: “… me rege, guarda, governa e ilumina“. Acho que o E de REGE (que está correto) terminou influenciando na conjugação errônea dos três outros. Abraço. Prof. Moreno

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Lições de gramática Verbos - conjugação

lê ou leia

Professor, qual a forma correta: ouve o que eu falo ou ouça o que eu falo; olhe esta flor ou olha esta flor; cheire este perfume ou cheira este perfume? Abraço. Lucilia  L.

Minha cara Lucília, todo brasileiro tem o direito de escolher entre tu ou você como forma de tratar seu interlocutor. Geralmente, a turma aqui do Sul prefere o tu, enquanto o pessoal de Santa Catarina para cima prefere o você. De qualquer forma, a escolha é livre. Acontece que, feita a escolha, as conseqüências gramaticais (verbos, pronomes, etc.) devem estar de acordo com a opção, já que o tu é um pronome de pessoa, enquanto você é de . Por isso, eu, que sempre uso o tu, vou dizer: “LÊ isto aqui, OUVE bem o que te digo, FICA quieta, PRESTA atenção”. Alguém que use o você vai dizer: “LEIA isto aqui, OUÇA bem, FIQUE quieta, PRESTE atenção”. 

Um aviso, no entanto, minha cara leitora: o uso do tu é para quem está acostumado. Essa forma, que está sendo progressivamente abandonada pelo Português do Brasil, pode tornar-se uma armadilha fatal para recém-chegados. Dá uma ouvida no último CD do Milton Nascimento e do Gilberto Gil, e vais entender o que digo. Na faixa Dinamarca, os dois (que usam você desde pequeninos) resolveram dirigir-se a um homem do mar tratando-o por tu — e não deu outra: escorregaram duas vezes na flexão verbal. A primeira, no imperativo: “Capitão do mar… lembres que o mar também tem coração” — usassem ou lembra (tu), ou lembre (você). A segunda, no pretérito perfeito: “Depois do dia em que tu partistes“. Eles misturaram o tu com o vós; a segunda pessoa do singular  partiste. Para um especialista, esses são claros sinais de que o tu” está desparecendo como pessoa gramatical, sendo preservado apenas como uma forma de tratamento. Mas isso vai ser assunto de outra Lição de Gramática. Abraço. Prof. Moreno.

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Lições de gramática Sintaxe das classes gramaticais

Vossa Meritíssima?

Professor Moreno, alguns gramáticos afirmam que Vossa Meritíssima deve ser grafado apenas por extenso; todavia, já vi a forma MM. como referência ao pronome de tratamento em questão. Há ainda gramáticos que insistem em dizer que o vossa não deve ser usado quando associado ao termo meritíssima. A quem devo seguir? O que devo fazer?”

Petrucio

Meu caro Petrucio, acho que há um engano aqui, pois *Vossa Meritíssima é uma seqüência impossível na estrutura do Português. Os nossos pronomes de tratamento sempre têm a estrutura [vossa+substantivo feminino]: Vossa Majestade, Vossa Alteza, Vossa Santidade, Vossa Eminência, Vossa Excelência, Vossa Senhoria — e Meritíssima, como sabes, é um adjetivo

Outra coisa são os adjetivos superlativos que usamos para qualificar certas autoridades — neste caso, sempre antes de um substantivo: Digníssimo Senhor, Ilustríssimo Diretor, Excelentíssimo Presidente — e por aí vai a valsa. Acho que podes distinguir muito bem entre as duas situações: Vossa Excelência e Vossa Magnificência, de um lado, e Excelentíssimo e Magnificentíssimo, de outro.

Como podes ver, não cabe um *Vossa Meritíssima, assim como não cabe um *Vossa Excelentíssima (como alguns parlamentares andam usando por aí), pois se criaria uma exótica e inaceitável seqüência [vossa+adjetivo], que o nosso idioma desconhece. No mundo jurídico, é muito comum (e adequado) usar-se Meritíssimo como adjetivo de tratamento para magistrados. Ao nos dirigirmos diretamente a um juiz, podemos simplesmente utilizar Merítissimo — ou Meritíssima, caso se trate de uma juíza. Abraço. Prof. Moreno

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