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Não compre o novo VOLP! – 2ª parte

[publicado em 31/05/2009]

O assunto da coluna anterior foi a estranhíssima pressa com que nossa Academia lançou o seu Vocabulário Ortográfico, elaborado por uma comissão que, além de não ter representatividade alguma no meio cultural e acadêmico, não inclui — afora seu presidente, Evanildo Bechara — nenhuma reconhecida autoridade em nosso idioma. Estranhíssima, por quê? — há de perguntar o leitor que está chegando agora ao baile;  estranhíssima, digo eu, porque esta desastrada publicação veio implodir a própria essência do Acordo, que era (alguém ainda se lembra desta peta?) a unificação da Língua Portuguesa, aquele sonho celestial que atraiu muita gente de boa fé, tanto aqui quanto além-mar! Ébrios de tanta utopia, os neoconvertidos já enxergavam, ao longe, a luz celestial do futuro prometido: o Português seria finalmente unificado em todos os países lusófonos, aumentando assim o seu poder político e conquistando o direito de ingressar no elenco das línguas oficiais da ONU; os livros editados aqui seriam vendidos na África, os livros editados na África seriam vendidos aqui, e em Portugal, e em qualquer outro rincão debaixo do sol em que se fale o idioma de Camões. Os que se opunham ao Acordo e o chamavam de inútil e fantasioso eram apedrejados pela multidão, acusados de “retrógrados”, “conservadores” e “colonialistas”, entre outras pérolas. Era inútil; repetia-se, com a devida alteração, o maroto dito popular: água morro abaixo, fogo morro acima e tolo que quer se iludir, ninguém há de segurar…

Pois não é que a Academia Brasileira de Letras, sem tir-te nem guar-te, decidiu publicar um Vocabulário Ortográfico sem consultar ou ouvir os demais países interessados? Mas como? Não deveria ser um esforço comum? Não íamos todos dar as mãos para um mundo melhor, como recomendam as redações escolares? Pois não foi o que se viu. As autoridades brasileiras que se manifestaram quando o Vocabulário foi concluído quase não podiam conter o seu ufanismo: nada mais natural que tivéssemos saído na frente! Afinal, mais de 80% dos 230 milhões de falantes do Português vivem aqui na Pindorama, o que autoriza o Brasil a ser o puxador da escola de samba, a locomotiva do comboio, a São Paulo do mundo lusófono; non ducor, duco (“não sou conduzido, conduzo”), dizia, em Latim, o lema fascista cunhado por D’Annunzio. (Ao que eu, com meu habitual espírito de porco, poderia redarguir: mas a levar adiante esse raciocínio de brucutu — manda quem tiver o porrete maior —, por que não obrigamos, simplesmente, os demais países a escrever como nós temos feito desde 1943? Seria bem mais simples e mais barato — para nós!).

Quando um jornalista perguntou se este VOLP isolado não se chocava frontalmente contra o espírito do Acordo, o professor Bechara simplesmente respondeu que os demais países deviam fazer o mesmo e lançar cada um o seu — o que resultaria, se chegasse a ser feito, em sete vocabulários ortográficos diferentes. Ou seja, não só deixaria de haver a propalada unificação (era só uma bravata de campanha, não vêem?), como ficaria ainda muito pior do que estávamos até o ano passado; haveria sete maneiras diferentes de grafar nossas palavras! E o Brasil todo — as universidades, os especialistas e, principalmente, a imprensa — aceitou que lhe enfiassem goela abaixo (ou por outra via…) este absurdo quase sem gemer! Aqui e ali alguma voz isolada denunciou o disparate cometido, mas, com um fatalismo bocó, a maioria dos brasileiros deu o fato como consumado e passou a se preocupar apenas em aprender a escrever novamente. Surgiram livrinhos oportunistas explicando o novo sistema, os jornais publicaram guias práticos e resumidos, organizaram-se cursos-relâmpago sobre o tema — tudo para permitir que nosso falante pudesse experimentar o prazer da nova ortografia sem sentir muita dor. Vários pontos do Acordo ainda estavam obscuros, mas os seus sacerdotes insistiam no mesmo mantra: o VOLP virá; ELE deixará tudo mais claro.

Pois ELE veio. Nova e desagradável surpresa: o VOLP, a bíblia da ortografia vigente no País, não é oferecido on-line, como deveria, para consulta de todos os fiéis. Mas o que você queria, ingênuo leitor? Acesso gratuito? Está pensando que isso é obra de benemerência? Afinal, o senhor é contra o empreendedorismo? Quer arruinar os que investiram tanto tempo e esforço para montar este esquema? O senhor tem alguma coisa contra o lucro? É anarquista? É bolchevique? Quer que Moisés mostre as Tábuas da Lei sem ganhar algum? Ledo engano, caro amigo. Vá preparando a carteira, que você vai gastar R$ 120,00 (fica por cem, com chorinho) para ingressar neste recinto — e muito mais nos calmantes que vai ter de tomar quando perceber que comprou fruta bichada. Mas isso eu explico depois.

Depois do Acordo: vêem > veem

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Não compre o novo VOLP! — 1ª parte

[publicado em 16/05/2009]

Plutarco nos conta, em suas Vidas Paralelas, que Catão fazia uma campanha cerrada para que Roma destruísse de uma vez por todas os cartagineses, e para isso sempre encerrava seus discursos com uma frase que ficou famosa: ceterum censeo Carthaginem esse delendam (algo como “além disso, acho que Cartago deve ser destruída”). Como não consigo me conformar com a passividade ovina com que a nova ortografia vem sendo recebida no Brasil, pensei em imitar o venerável senador romano e concluir todos os meus artigos com uma frase que levasse meus leitores a perceber o oportunismo e a incompetência do Acordo. Eu já estava me ensaiando nesta cruzada quando, sem dizer água-vai, a Academia literalmente nos atropelou com a publicação do seu Vocabulário Ortográfico, cujos responsáveis um dia serão castigados por infligir ao nosso pobre idioma um dano ainda maior que os prejuízos causados por esta reforma infeliz. Em outras palavras, o Acordo foi a queda, o VOLP foi o coice.

Não vou tentar fazer uma lista completa de todos os problemas que ali existem; a experiência me ensinou que essa é uma estratégia ruim, pois o número excessivo de detalhes técnicos termina anestesiando o leitor, impedindo que ele distinga, no meio de todas as mudanças propostas, aquelas que realmente vieram atrapalhar sua vida. Por isso mesmo, vou me limitar a poucas (mas graves) denúncias.

1 — A grande justificativa dada pelos defensores do Acordo sempre foi a unificação da Português (não vou discutir se é possível ou não, desejável ou não, importante ou não; estou aqui para falar do VOLP). Foi em torno deste nobre objetivo que os países lusófonos se reuniram, dispostos a investir muito tempo (e muito dinheiro) para alcançá-lo; nada mais natural, portanto, que o Acordo, já no seu Artigo 2º, declare expressamente que todos os países signatários tomarão as providências necessárias para elaborar “um vocabulário ortográfico comum da Língua Portuguesa, tão completo quanto desejável”. É justo, dirá o meu leitor; afinal, quem quer os fins dá os meios, e a existência desse núcleo duro, comum a todos os países que falam a língua de Eça e de Machado, servirá de base para os dicionários, gramáticas e corretores de texto que vão nascer com a Nova Ordem.

Foi imbuída desse puro espírito fraternal que a simpática Academia Galega, ainda esta semana, entregou à Academia de Ciências de Lisboa uma relação do léxico comum aos portugueses e galegos; ao receber o vocabulário, o responsável pelo Instituto de Lexicografia ressaltou a importância desse tipo de contribuição para a elaboração de um documento de base, que se enriquecerá ainda mais quando todas as regiões lusófonas, de Cabo Verde a Timor-Leste, fizerem o mesmo. Perfeito! Se você aguçar bem o ouvido, prezado leitor, não deixará de ouvir, ao fundo, o som das harpas e o cantar dos anjos.

2 — Ora, aqueles portugueses que defendiam o sonho da unificação não perceberam com quem andavam a fazer acordos e caíram na esparrela. Não tinham a menor idéia da perversa arrogância do brasileiro de hoje, metido a malandro, matreiro, astucioso (o velho complexo de inferioridade invertido), que se acha mais esperto que qualquer estrangeiro, mais sabido que qualquer professor (“Meu mulato inzoneiro“, como diz Ary Barroso, na Aquarela do Brasil — leia-se, “que é sonso, manhoso, enredador”). Quando Portugal abriu os olhos, já estávamos com o nosso Vocabulário Ortográfico pronto, publicado e à venda por módicos R$120,00 (mais sobre isso, depois). O ingênuo europeu ainda perguntou, timidamente: “E o vocabulário comum, como fica?”. Nossa Academia, ou por estultice ou por esperteza (tanto faz, pois a vergonha que sinto é a mesma!), respondeu candidamente que o vocabulário comum estava pronto, só faltava agora o vocabulário ortográfico de nomes próprios — ou seja, fingiu não entender que, neste caso, o adjetivo comum significa “compartilhado, pertencente a todos”. A esta altura, caro leitor, você está olhando incrédulo para estas linhas. “Ah, essa não! Não acredito! Nossa Academia não faria isso!”. Pois fez. E pior: como a pergunta continuasse no ar, o responsável pela elaboração do VOLP, nosso bom Evanildo Bechara (que era considerado, até então, o gramático de referência do Brasil atual), teve a coragem de declarar, em entrevista à Folha de São Paulo, que os especialistas portugueses não foram consultados porque “em nenhum momento o Acordo fala em vocabulário comum. O VOLP, portanto, é brasileiro, e os outros países de Língua Portuguesa poderão criar os seus” — o que levou D’Silvas Filho, um dos ardorosos defensores do Acordo lá na terra de nossos avós, confessar, há poucas semanas: “Agora sinto-me perplexo, com o receio de que, efectivamente, esteja à vista uma mudança com perda da nossa identidade nacional na língua”. Só agora, digníssimo? Boneca Teresa! (a novela continua)

Depois do Acordo: idéia > ideia

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Mudanças na ortografia [6° de 10]

A base de nossa ortografia atual é o Acordo de 1943, implantado por Getúlio Vargas como parte de seu plano de modernizar o país. Antes dele, o brasileiro podia escolher entre diversas maneiras de representar por escrito as palavras do idioma, numa verdadeira babel ortográfica. Hoje é difícil imaginar como seria viver assim, com diferentes sistemas convivendo anarquicamente nas páginas dos jornais, nos livros, nos dicionários e, o que era pior, nos bancos escolares. Foi o Acordo de 1943 que trouxe ao país a unidade que hoje conhecemos, criando um modelo estável que sofreu, em 1971, apenas um pequeno retoque (friso que foi a única modificação ocorrida de 1943 até hoje):

(1) foi suprimido o raríssimo trema que indicava hiato (escrevendo gaüchismo, assinalaríamos que a pronúncia desejada era /ga-u-chis-mo/ e não /gau-chis-mo/, além de evitar que algum leitor tomasse o vocábulo como um derivado de gauche —”esquerda”, em Francês — e lesse /gochismo/;

(2) foi suprimido o acento subtônico dos derivados em –mente e em –zinho (escrevia-se gêniozinho, sòmente, cafèzinho, espontâneamente);

(3) foi suprimido o acento circunflexo diferencial dos pares com E ou O aberto e fechado (gêlo:gelo, almôço:almoço; tôda:toda; mêdo:medo).

Sucinto como deve ser, o texto desta minirreforma gastou apenas um parágrafo para definir os três acentos que deviam ser suprimidos do sistema de 1943 — e pronto.  Em vez de seguir a mesma prática de indicar apenas as supressões, o Acordo assinado este ano é um amontoado de regras desordenadas, mal concebidas e redigidas de maneira pedestre. Os participantes desta amaldiçoada comissão dedicaram-se à tarefa completamente redundante de dizer, de novo, tudo o que 1943 já tinha conseguido dizer de forma mais clara e organizada. A conseqüência é a falsa aparência de complexidade que o texto assume para o leitor não-especializado, que não percebe, por trás desse palavreado cheio de farofa, que a montanha está parindo um esquálido ratinho. Pois esta é a razão de ser da coluna de hoje: definir, com clareza, o que mudará — para o Brasil, para nós, para mim e para você, meu caro leitor — o que mudará, repito, se a comunidade aceitar este novo modelo e consagrá-lo pelo uso.

Para nós, brasileiros, é importante esclarecer que este Acordo só inova, com relação ao modelo de 1943, na acentuação e no emprego do hífen; o emprego das letras fica exatamente como sempre foi. Na acentuação, ocorre a supressão de algumas regras hoje vigentes — e só; no uso do hífen, a comissão propõe mudanças cujas conseqüências ela própria desconhece. Faço questão de assinalar que este artigo seria totalmente diferente se fosse destinado ao leitores portugueses, pois as mudanças que eles vão ter de engolir são de outra ordem e calibre.

Mudanças na acentuação — As regras que vão ser alteradas são poucas e de escassa importância:

1 — Hoje se acentuam os hiatos tônicos ÊE, ÔO: vôo, abençôo, relêem, dêem, etc. O Acordo suprime esta regra: voo, abençoo, releem, deem.

2 — Hoje se acentuam os ditongos abertos éi, éu, ói, onde quer que eles estejam: jibóia, heróico, paranóia, geléia, idéia; réu, herói, dói, réis. O Acordo só mantém esse acento nas oxítonas: réu, herói, dói, réis, troféu, mas jiboia, heroico, paranoia, geleia, ideia, assembleia, apoiam, etc.

3 — Tendo em vista que a letra U — quando colocada entre Q e E, Q e I, G e E, G e I — pode ter três valores diferentes, utilizamos hoje um sistema tripartite que indica claramente quando ela é muda, tônica ou átona: (1) se é muda, fica sem marca (quilo, guerra); (2) se é tônica, leva acento (argúi, argúem); (3) se é átona, leva trema (pingüim, agüenta). O Acordo pretende eliminar esta regra inteirinha, escrevendo tudo sem acento ou trema: quilo, guerra, argui, arguem, pinguim, aguenta. O leitor certamente entenderá que estamos falando de grafia; a pronúncia das palavras não muda, nem pode mudar. Por isso, mesmo que um dia se escreva linguiça (assim, sem trema), o U continuará a ser pronunciado obrigatoriamente.

4 — Hoje se acentuam o I e o U tônicos quando vierem depois de vogal ou ditongo e estiverem sozinhos ou formando sílaba com S: juízes, gaúcho, saíste, reúno, feiúra, baiúca. O Acordo apenas suprime o acento quando a vogal vier depois de ditongo decrescente: continuamos a escrever juízes, gaúcho, saíste e reúno, mas passamos a escrever feiura, baiuca, gaiuta, bocaiuva, reiuno.

5 — Caem os acentos diferenciais de pélo(s), péla(s), côa(s), pólo(s), pêra e (não consigo entender por quê!) o de pára. Continua o de pôr e pôde, e torna-se facultativo o de fôrma, antiga reivindicação de mestre Aurélio Buarque de Holanda. 

Mudanças no hífen com prefixos — Aqui as mudanças propostas atingem um número muito maior de palavras e parecem obedecer a um princípio mais racional. Os futuros desdobramentos que essas regras terão, contudo, não podem ser avaliados enquanto a Academia não editar o novo Vocabulário Ortográfico. As alterações mais importantes são as seguintes:

1 — Usaremos hífen quando o prefixo terminar por vogal idêntica à que inicia o segundo elemento: anti-inflamatório, micro-onda, micro-organismo, neo-ortodoxo. Se as vogais forem diferentes, contudo, não há hífen: antiestático, microindústria, neoexpressionismo, infraestrutura, autoestrada.

2 — Usaremos hífen sempre que o segundo elemento começar por H: geo-história, mini-hospital, sub-habitação, co-herdeiro.

3 — Não há hífen quando o prefixo terminar em vogal e o segundo elemento iniciar por R ou S; como sempre fizemos em casos semelhantes, o R ou o S serão duplicados: contrarregra, autosserviço, contrassenha, neorrealismo, ultrassom, antissemita.

Em princípio, caro leitor, é isso aí. A partir de 2009, os documentos oficiais vão ter de se submeter bovinamente ao novo estilo; nós, os outros, ainda teremos ainda três anos de carência, durante os quais — como ardentemente espero — a sociedade civil do Brasil e de Portugal vai acabar rejeitando essas alterações insensatas. Os editores ingênuos, que hoje ainda alimentam a fantasia de que a unificação trará a abertura de novos mercados, virão juntar-se a este coro de descontentes no momento em que perceberem que um original brasileiro, para ser publicado em Portugal ou na África, continuará a exigir uma trabalhosa adaptação ortográfica, já que Acordo, ao admitir demagogicamente dezenas de regras “facultativas”, não unifica coisíssima nenhuma. Vocês vão ver.

Depois do Acordo: conseqüência > consequência

[artigo publicado em 25/10/2008. O lançamento do VOLP pela Academia Brasileira de Letras, em março de 2009, não altera em nada o teor do que aqui foi escrito]

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O que muda na ortografia? [5° de 10]

Depois de demonstrar, com uma mancheia de exemplos, que a tão propalada unificação da grafia é um mero delírio de amadores, que vai terminar como a famosa Batalha de Itararé — “a que não houve” —, vamos ao que interessa: o que vai mudar em nossa ortografia, se o Acordo entrar em vigor? Para mim, para meu leitor, para nós, os aflitos, que mudanças a reforma trará? Pouca coisa, eu diria — mas o suficiente para perturbar a quem está quieto em seu cantinho e para inutilizar todas as bibliotecas escolares de que dispomos. O fato do texto — nota para os zoilos de plantão: não acredito que alguém aí fora ainda pense que é de bom-tom escrever “o fato de o texto“! Cruz, credo! Gramática neles! — o fato do texto do Acordo, repito, ser extenso deve-se mais à prolixidade e ao estilo pedestre de quem o redigiu do que propriamente ao número de mudanças introduzidas. A nós, brasileiros, caberiam as seguintes novidades:

(1) o desaparecimento do trema e do acento agudo no U, nos ambientes “G_E”, “G_I”, “Q_E” e “Q_I”; hoje escrevemos pingüim, argúi, averigúem, seqüestro, que passariam a pinguim, argui, averiguem, sequestro, como em Portugal.

(2) O desaparecimento do circunflexo nos hiatos EE e OO; zôo, vôo, abençôo, lêem passariam a zoo, voo, abençoo, leem, como em Portugal.

(3) O desaparecimento, nas paroxítonas, do acento nos ditongos abertos EI e OI. Heróico, lambisgóia, diarréia, geléia passariam a heroico, lambisgoia, diarreia, geleia — mas continuaríamos a acentuar as oxítonas: céu, réu, dói, herói, papéis — tudo exatamente como é lá na pátria do mestre Álvaro Siza (o qual, como era de esperar de sumidade tamanha, também gostaria de mandar às urtigas este Acordo chinfrim).

(4) O desaparecimento do acento no U tônico, depois de ditongo: em vez de baiúca, gaiúta e bocaiúva, passaríamos a escrever baiuca, gaiuta e bocaiuva — como é na terra de Camões e do bacalhau à Gomes de Sá.

(5) A eliminação dos acentos diferenciais de pélo, pélas, péla (v. pelar); pêlo(s); pólo(s), que passariam a pelo, pelas, pela; pelo(s); polo(s). Aqui, absurdamente, o acento de pára (v. parar), sempre útil, também seria condenado.

Além disso, haverá também movimentações no misterioso pântano do hífen; várias das regras atuais, incompreensíveis e contraditórias, serão substituídas por outras tantas, da mesma laia. Neste passo, o Acordo acrescenta esta obra-prima de imprecisão: “Certos compostos, em relação aos quais se perdeu, em certa medida, a noção de composição”, grafam-se sem hífen, entre eles mandachuva, paraquedas, paraquedista, etc. — deixando-nos a matutar sobre quem serão as certas pessoas que vão determinar os certos casos em que se perdeu, em certa medida, a noção de composição… Esse nó Górdio só vai ser cortado quando — e se — for publicado um Vocabulário Ortográfico oficial (só o Português tem essa aberração jurídico-lingüística…), que aponte para o brasileiro comum o que é pão e o que é queijo.

Enquanto isso, lá do outro lado do Atlântico, os nossos irmãos portugueses estarão enfrentando as suas mudanças — sim, mudanças que valem só para eles, mas que para nós não trazem novidade alguma. Por exemplo, eles vão deixar de escrever aquelas consoantes que escrevem, mas não pronunciam: Egipto, acção, afectivo, colecção, exacto, adoptar passarão a ser escritos de acordo com a pronúncia culta do Português Europeu: Egito, ação, afetivo, coleção, exato e adotar. Herva e húmido passarão a erva e úmido (como já é aqui). E assim por diante.

Como o leitor deverá ter percebido, o Acordo realmente trabalha em nome de uma aproximação recíproca: as concessões que o Brasil e Portugal farão, embora sejam diversas de um país para o outro, tendem a eliminar as diferenças entre os dois sistemas, diferenças, aliás, que têm raízes históricas: Portugal adota o modelo de 1945, que foi formalmente assinado e ratificado pelo Brasil, mas rejeitado pelos brasileiros, que voltaram ao Acordo de 1943, ainda vigente por estas bandas. Na óptica dos burocratas que defendem a Reforma, será dado mais um passo (um pequeno passo que leva a uma longa marcha, diria o presidente Mao…) para a unificação, mas é muito pouco — e muito caro. A montanha vai parir um mísero ratinho, num parto caríssimo que vai sobrecarregar, em nome de uma utopia irresponsável, o nosso raquítico sistema educacional e acarretar uma renovação obrigatória de todas as bibliotecas escolares. Nos governos corruptos do passado, poderíamos até supor que os verdadeiros beneficiados com a reforma fossem as grandes editoras, de olho nessas reedições milionárias, e os funcionários do MEC encarregados das licitações. Felizmente tudo mudou, e o atual governo é austero e incorruptível como nunca Dantas, digo, dantes “nesse” país… 

Depois do Acordo: lingüística > linguística

[artigo publicado em 19/07/2008, muitos meses antes do lançamento do VOLP pela Academia Brasileira de Letras. Tudo o que foi escrito neste artigo continua valendo — inclusive as críticas]

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O pesadelo de Cassandra continua [4° de 10]

Assim como Cassandra previa as desgraças, mas ninguém acreditava nela, assim eu berro o quanto posso contra o descabido Acordo Ortográfico. Muita gente deve ter saído do capítulo anterior desta novela com o olho arregalado ao perceber que o Acordo, anunciado como o paladino da unificação ortográfica entre o Novo e o Velho Mundo, não passa de um inofensivo tigre de papel. Peço permissão para repetir aqui os trechos que apresentei como exemplo da falta de unidade que existe hoje entre os dois países:

“Como noticiámos ontem, o facto mais pitoresco da semana foi o bebé raptado pela hospedeira da Air France. Depois da descolagem, a torre de controlo, avisada por telefonema anónimo, obrigou o piloto a fazer uma aterragem forçada” (Portugal);

“Como noticiamos ontem, o fato mais pitoresco da semana foi o bebê raptado pela aeromoça da Air France. Depois da decolagem, a torre de controle, avisada por telefonema anônimo, obrigou o piloto a fazer uma aterrissagem forçada” (Brasil).

São oito divergências em tão poucas linhas! É a deixa para os defensores do acordo: “Basta! Se usamos o mesmo idioma, vamos escrevê-lo da mesma forma! Que venha a reforma — e já!”. Ora, é importante que meu bom leitor fique sabendo que as oito diferenças apontadas acima vão permanecer, mesmo que nos empurrem a “nova ortografia” goela abaixo. Vou dividir essas diferenças em três grupos, para maior comodidade de explanação.

Em primeiro lugar vêm as diferenças morfológicas: descolagem (decolagem), controlo (controle) e aterragem (aterrissagem) são variantes permitidas na estrutura do nosso léxico, da mesma forma que, entre muitos outros, patinagem (patinação), equipa (equipe), camião (caminhão), chuto (chute), aguarela (aquarela), altifalante (alto-falante), canadiano (canadense), bolseiro (bolsista), transplantação (transplante), fumar (defumar; um brasileiro ficaria perplexo se ouvisse que “Os índios costumavam fumar o peixe que pescavam”…). As escolhas feitas por Portugal já estão consolidadas, da mesma forma que as nossas, que coloquei entre parênteses — e não serão alcançadas por uma simples reforma ortográfica, a qual, como muita gente esquece, só pode regular o emprego das letras, dos acentos e dos sinais.

Em segundo lugar, vêm as diferenças lexicais. Assim como hospedeira de bordo e aeromoça, existem centenas de outros casos em que os dois países adotaram palavras diferentes para denominar a mesma coisa. Exemplos bem significativos, porque extraídos do quotidiano, são talho (açougue), claque (torcida), jante (aro de roda), travão (freio), biberão (mamadeira), tablier (painel do automóvel), mãos-livres (viva-voz), barbatana (pé-de-pato), berma (acostamento), penso higiénico (absorvente íntimo) penso rápido (bandeide), ecrã (tela de TV ou de cinema), agrafador (grampeador). Nossos irmãos do outro lado do Atlântico afagam o cimento do piso (alisam, nivelam) e assistem a retrospectivas de filmes dos impagáveis Bucha e Estica — para nós, o Gordo e o Magro.

Em terceiro lugar — e já não era sem tempo! — vêm as diferenças ortográficas: noticiámos (noticiamos), facto (fato), bebé (bebê) e anónimo (anônimo). Os burocratas dos dois países esfregam as mãos, exultantes: “Agora sim! Aqui, entramos nós! Agora vocês vão conhecer a força do carvão de pedra!” — mas nada acontece, pois, com uma espantosa e inexplicável atitude salomônica, o texto do Acordo permite que cada país conserve muitos de seus hábitos particulares, sem mudar um níquel! Portugal continuará a marcar com acento a 1ª pessoa do plural do pretérito perfeito (noticiámos, amámos, encontrámos), como sempre fez. O timbre do “e” e do “o” tônico das oxítonas fica a critério do falante: bebé (bebê), bidé (bidê), caraté (caratê), guiché (guichê), cocó (cocô — os portuguesinhos fazem cocó na fralda). O “c” de facto vai continuar ali onde está, pois o léxico dos portugueses distingue entre o facto (fato, acontecimento) e o fato, que significa “traje” (na verdade, o pai da nossa fatiota). Lembre, caro leitor, que lá na terra de Eça um fato-macaco é o que chamamos aqui de macacão — e se alguém pode rir, não somos nós, pode ter certeza; experimente declarar, numa roda de amigos portugueses, algo como “Por sorte eu sempre levo um macacão velho na mala do carro” ou “Minha filha passou todo o fim de semana com aquele macacão sujo”…

Por fim, o timbre das vogais tônicas “e” “o” (sempre elas!) das proparoxítonas também fica à vontade do freguês: anónimo (anônimo), efémero (efêmero), António (Antônio), fenómeno (fenômeno). Cá para nós: podemos acusar de tudo este Acordo, mas que ele é democrático, ah, isso ele é! E as mudanças, caro leitor? Onde estão elas? Veremos na próxima coluna.

[publicado em 05/07/2008 — A Reforma entrou em vigor em 2009 e veio confirmar tudo o que está escrito neste artigo, inclusive as críticas]

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O pesadelo de Cassandra[3° de 10]

Falávamos da nova ortografia; lembrei-me dos gregos. Eles acreditavam que os deuses haviam criado o homem para fugir ao tédio de sua vida infinita, pois lá de cima, do alto do Olimpo, eles observavam os mortais com o mesmo interesse e o mesmo deleite de uma criança diante da jaula dos macacos. Quando lhes dava na divina telha, distribuíam cá embaixo presentes e benesses; quando, no entanto, desaprovavam a conduta de alguém, condenavam o infeliz a castigos horríveis, porque absurdos. Sísifo é condenado a rolar, para sempre, uma pedra morro acima, sabendo — e aí bate o ponto! — que suas forças vão faltar um pouco antes de chegar ao topo; as Danaides vão carregar eternamente os seus cântaros com água, tentando encher um tonel que não tem o fundo; Ocno segue tecendo sua corda de junco, enquanto um asno obstinado vai devorando a outra ponta. São penas duríssimas, mas infernalmente criativas!

A famigerada reforma, no entanto, me lembrou Cassandra, a filha de Príamo, o derradeiro rei de Tróia. Com o poder de persuasão que têm as mulheres bonitas, ela insinuou a Apolo, o deus dos oráculos, que ele a teria em seu leito se lhe concedesse o dom de profetizar o futuro — o que ele se apressou em fazer, com a afobação ingênua que domina as mentes masculinas numa hora como essa. Quando Cassandra, em vez dos beijos e carícias esperados, despediu-se com um simples “obrigado”, o deus percebeu — mas que cena mais antiga! — que ela o tinha feito de bobo. Como não podia retirar-lhe o dom concedido, condenou-a, então, a um suplício terrivelmente original: embora ela pudesse prever os acontecimentos futuros, ninguém, absolutamente ninguém iria acreditar nela. Esse foi o seu inferno em vida. Ela podia ver que o horror se aproximava para tragar todos os seus, mas eles se mantinham indiferentes aos seus avisos. Quando Páris, seu irmão, partiu em busca de Helena, Cassandra avisou que a estrangeira traria a ruína de Tróia — mas apenas riram dela e a trataram como louca. Quando os gregos fingiram ter desistido da guerra e deixaram, na planície deserta, o famoso cavalo de madeira, foi em vão que ela alertou os troianos para o perigo que representava levá-lo para dentro dos muros da cidade. Como num pesadelo, ela passava o tempo todo lutando inutilmente para que ouvissem os seus gritos de alerta — tortura ainda mais desesperadora porque ela sabia que este era um sonho no qual ela jamais iria acordar. Apolo estava vingado.

Pois agora, lendo o que vem sendo publicado sobre a reforma ortográfica, acho que entendi todo o drama de Cassandra. Como num pesadelo, vejo brasileiros e portugueses falarem sobre ela com aquela mesma lógica absurda que preside os sonhos. É de enlouquecer! Alguns portugueses se queixam de que, com a reforma, o modo de escrever brasileiro vai prevalecer sobre o lusitano! Uns dizem que os possíveis incômodos são um preço pequeno para as vantagens que ela trará! Outros prevêem um maior poder político para nosso idioma, depois da “unificação”! — eu devo estar ficando louco! O Ministro da Cultura português, José António Pinto Ribeiro, defende as alterações para que possamos ter “uma política internacional comum para a língua” — o que quer que isso signifique! A presidenta da Câmara Brasileira do Livro, Rosely Boschini, acredita que o Acordo deve abrir fronteiras para as editoras nacionais no mercado africano, até agora submetido a Portugal! Carlos Alberto Ribeiro De Xavier (economista e ecólogo, apesar da partícula aristocrática de seu nome) é o funcionário do MEC que fala em nome de nosso governo; segundo ele, não procedem os boatos de que o Acordo acarretará a obsolescência dos livros já editados! — e eu devo estar delirando! O mesmo cidadão (gravem bem o seu nome!) sugere, ainda, talvez com um sorriso irônico, que os que se opõem à reforma talvez queiram perpetuar privilégios políticos… É de fazer bacalhau chorar em porta de venda! [meus leitores sabem quão comedido eu sou no emprego dos pontos de exclamação; é que sinto falta, aqui, daquele ponto de indignação proposto por Hervé Bazin]

Mas do que estão falando todas essas vozes? Discutem as vantagens, ou as desvantagens, da unificação? Mas que unificação, tia Chica? Hoje, em Portugal, escreve-se assim: “Como noticiámos ontem, o facto mais pitoresco da semana foi o bebé raptado pela hospedeira da Air France. Depois da descolagem, a torre de controlo, avisada por telefonema anónimo, obrigou o piloto a fazer uma aterragem forçada”. No Brasil, fica “Como noticiamos ontem, o fato mais pitoresco da semana foi o bebê raptado pela aeromoça da Air France. Depois da decolagem, a torre de controle, avisada por telefonema anônimo, obrigou o piloto a fazer uma aterrissagem forçada”. E depois do Acordo, como fica? Pasmem, leitores, mas nada será alterado nessas duas versões — elas serão mantidas assim como estão, tintim por tintim. Ué, e a prometida unificação, onde está? Aguardem, que o assunto dá tanto pano para manga que vamos ter de continuar na próxima coluna.

Depois do Acordo:

Tróia > Troia

prevêem > preveem

[publicado em 21/06/2008 — A Reforma, como a destruição de Tróia, acabou acontecendo em 2009. Agora, diante das muralhas destruídas, só nos cabe chorar a paz e a serenidade que perdemos]

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Esqueçam essa reforma! [2° de 10]

Na coluna anterior, já qualifiquei de apressada e desnecessária essa reforma que, se for aprovada, vai fazer com que os brasileiros (mais) e os portugueses (menos) mudem sua maneira de escrever. Antes de prosseguir, contudo, acho melhor mostrar aos meus leitores as modificações anunciadas.

Primeiro, ela propõe que nosso alfabeto passe a incluir também as letras k, w e y. Isso muda alguma coisa? Não, porque seu uso obedecerá às mesmas regras de hoje: só nos símbolos científicos internacionais e nos vocábulos derivados de nomes próprios (shakespeariano, darwinista, keynesiano, etc.). A novidade é que, fazendo parte do alfabeto oficial, a escola deverá ensinar às crianças o lugar que essas três letras ocupam na ordem alfabética.

Outra área em que haverá inovação é a das chamadas consoantes mudas. Quanto a elas, nada vai se alterar para os brasileiros. Elas permanecem nas palavras em que sempre foram pronunciadas, como em compacto, ficção, convicto, adepto, apto, eucalipto, núpcias, etc.; são consideradas facultativas nos vocábulos em que há divergência entre as normas cultas dos dois países (aspecto ou aspeto, dicção ou dição, facto ou fato, sector ou setor, ceptro ou cetro, corrupto ou corruto, recepção ou receção, amígdala ou amídala, amnistia ou anistia, sumptuoso ou suntuoso), aliás, como sempre aconteceu, numa convivência para lá de pacífica; finalmente, desaparecem nas palavras em que são mudas — o que significa que Portugal e os países africanos vão ter de eliminá-las de palavras como acção, afectivo, acto, director, exacto, adoptar, baptizar; no Brasil, elas não são usadas desde 1943.

Na acentuação é que o ônus da mudança é mais pesado para o Brasil, pois deixaremos de aplicar algumas regras que Portugal já não adota há muito:

(1) seriam eliminados os acentos que marcam o ditongo aberto em palavras como jóia, heróico, idéia, assembléia;

(2) desapareceriam o trema e o acento agudo no U, depois de G e de Q, em palavras como sagüi, lingüiça, seqüestro, argúem, averigúem;

(3) seria eliminado o acento circunflexo dos hiatos ÊE, ÔO (vêem, vôo, enjôo, relêem).

Continuam facultativos, como sempre, (1) o acento da 1ª pessoa do plural do pretérito perfeito (na pronúncia lusa, amámos e levámos, para distinguir de amamos e levamos, do presente do indicativo); (2) o acento agudo ou circunflexo sobre o E ou o O, nas palavras em que há divergência quanto ao timbre: acadêmico, académico; Antônio, António; Amazônia, Amazónia; fenômeno, fenómeno; gênio, génio; fênix, fénix; ônix, ónix; fêmur, fémur; sêmen, sémen; tênis, ténis; Vênus, Vénus; bônus, bónus; bebê, bebé; caratê, caraté; guichê, guiché; e muitas mais.

A meta obsessiva é diminuir ao máximo as diferenças entre Portugal e Brasil, cobrando de cada país sua taxa de sacrifício. Considerando a unificação gráfica do Português como um valor supremo — o que é perfeitamente discutível, se considerarmos o preço que se vai pagar por isso —, a reforma não hesita em limar aqui, aparar ali, lixar acolá, numa sucessão de “retoques” que parecem feitos por quem não é do ramo. Isso fica muito claro nas mudanças na acentuação, insignificantes para trazer uma verdadeira melhora no sistema, mas amplas o suficiente para perturbar a vida de todos nós.

Na verdade, deveríamos ou deixar tudo como está, ou eliminar o acento de uma vez por todas. Na primeira hipótese (a mais econômica), daremos ao sistema atual o tempo indispensável para sua maturação; o trabalho que começou em 1971 deve prosseguir por mais cem anos, no mínimo, quando então ele estará consolidado, infiltrado até mesmo no movimento da mão que traça as palavras, perfeitamente assimilado por brasileiros que já terão nascido dentro dele, sem ter conhecido o sistema de 1943 ou anteriores. A segunda hipótese é muito mais radical e trabalhosa, pois exigiria um grande esforço de todos os já alfabetizados, obrigando-os a evitar, no texto escrito, as armadilhas de interpretação que hoje o acento se encarrega de desfazer — mas projetaria um futuro muito mais simples para os netos de nossos netos, pois teriam muito maior facilidade em dominar o sistema ortográfico. Não duvido que custo fabuloso dessa mudança fosse compensado, a médio prazo, pela maior eficiência dos programas de alfabetização.

O que não tem cabimento é continuar usando acentuação mas mudar algumas regras em nome de uma unificação que é utópica e impossível, pois, considerando o grande número de formas facultativas que foram mantidas, os livros do Brasil e de Portugal continuarão a ser diferentes. A unificação ortográfica, que era a razão de ser da reforma, cai como um castelo de cartas — sem falar nas incontornáveis diferenças lexicais entre um país que apregoa “berbequim para betão ao desbarato” de outro que anuncia “furadeira para concreto em oferta” — e estão falando da mesma coisa.

[publicado em 19/05/2007 – A Reforma, como sabem, entrou em vigor em 2009, e todos puderam ver que a alteração introduzida na ortografia foi pequena demais para simplificar nosso sistema, mas grande o suficiente para enriquecer as editoras]

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Deixem a nossa ortografia em paz! [1º de 10]

Neste mar quase infinito em que se transformou a internet, às vezes é quase impossível descobrir a verdadeira origem das informações — e dos boatos — que chegam até nossa casa. Nas últimas semanas, muita gente recebeu um e-mail que anuncia, para o final deste ano, a chegada de uma tal “reforma da Língua Portuguesa”. Uma jovem leitora, naturalmente preocupada com a educação de sua filhinha, que ainda está na pré-escola, pediu que eu comentasse a notícia, porque — diz ela — “eu preciso saber se isso vai ser bom ou ruim para a minha filha”. Pois eu responderia, sem a menor hesitação, que esta catástrofe, se chegar a ocorrer, vai ser ruim para ela e para todos nós. Felizmente, como no caso do aquecimento global, há sempre a esperança de que o bom senso volte a prevalecer e consigamos evitar o desastre anunciado.

Explico. No mundo inteiro, o Português foi um dos poucos idiomas que editaram uma norma “oficial” para regular sua ortografia. A iniciativa é relativamente recente, pois até a 2ª Grande Guerra cada cidadão podia escrever como lhe dava na veneta, usando acentos, agás, ípsilons e letras mudas a seu bel-prazer. Esta situação absurda, impensável nos dias de hoje, felizmente terminou quando o Brasil e Portugal assinaram o Acordo de 1943, incentivado pelo nosso benigno ditador Getúlio Vargas como parte de seu esforço para modernizar o país. É este o texto que serve de base para aquele sistema que o brasileiro médio chama respeitosamente de “ortografia oficial”, atribuindo-lhe uma infalibilidade maior que a do Papa, embora os estudiosos saibam que ele (o acordo, é claro) não é tão oficial nem tão infalível assim.

Em Portugal, discussões posteriores levaram a uma versão ligeiramente modificada desse acordo, transformada em lei por aquele país em 1945; o Brasil, no entanto, não quis acompanhá-lo, ficando mesmo com o texto de 1943 — o que naturalmente gerou algumas diferenças entre o sistema usado aqui e o sistema adotado por Portugal (e pelas colônias que, na época, estavam sob seu domínio). Abrimos um livro editado em Portugal e encontramos colecção, adopção, eléctrico, facto, subtil, sumptuoso; amámos, trabalhámos, fémur, bónus, António, sinónimo — onde, no Brasil, encontramos coleção, adoção, elétrico, fato, sutil, suntuoso; amamos, trabalhamos, fêmur, bônus, Antônio, sinônimo. Se isso nunca dissuadiu os bons leitores portugueses de ler publicações brasileiras (ou vice-versa), não há dúvida, por outro lado, de que essas diferenças constituem um fator perturbador para o leitor mais simples ou para o público infantil.

Talvez por isso (ou sob esse pretexto), surgiu, a partir da década de 80, um movimento messiânico para “unificar a língua portuguesa”, agora incluindo os países lusófonos que haviam conquistado sua soberania, como Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, entre outros. Formaram-se grupos e comissões, redigiram-se propostas e cartas de intenção, fixaram-se projetos e anteprojetos sucessivos, com objeções de todos os lados, tentando chegar-se a essa “unificação”, numa versão singularíssima da Torre de Babel que muito teria agradado a J. L. Borges por sua ironia: agora todos falam a mesma língua, mas defendem projetos completamente diferentes para o edifício que pretendem construir. Como em Babel, não haverá torre.

O produto de todas essas idas e vindas foi uma colcha de retalhos que precisa, para entrar em vigor, da aprovação do Legislativo de todos os países participantes — o que, felizmente, não está sendo fácil de obter. Por um lado, porque alguns desconfiam de que o espírito oculto do Acordo seja apenas o de favorecer grandes grupos editoriais (e alguns acadêmicos espertinhos), que teriam assim um mercado muito maior; por outro, porque uma mudança na ortografia — seja qual for a sua amplitude — traz a imediata necessidade de substituir os livros das bibliotecas escolares de todo o país. A criança que está aprendendo a escrever no novo sistema não pode ficar em contato com publicações que utilizem o sistema antigo; a atualização das bibliotecas representaria um gasto pesado demais para todos, ou quase todos, os países lusófonos, que ainda enfrentam graves problemas estruturais. Além disso, os termos do acordo favoreceriam alguns países e prejudicariam outros — especialmente o Brasil. A meu ver, nós deveríamos ser os maiores interessados em “melar” essa irresponsável aventura, pois — se fosse aprovada a reforma — nós teremos de ceder muito mais que os outros, abandonando hábitos ortográficos já consolidados em nosso meio para contentar a pressão de Portugal e de suas antigas colônias, que, por razões históricas, estão claramente dentro da área de influência cultural lusitana. Mas isso eu explico na próxima coluna.

[publicado em 05/05/2007, quando ainda havia esperanças de que prevalecesse, no Brasil, o mínimo de bom-senso. A Reforma acabou entrando em vigor em 2009, como todos sabem; seus acertos e desacertos são comentados ao longo desta série de artigos]