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Destaque Formação de palavras Lições de gramática

Janta

Injustamente condenada por velhos gramáticos, a palavra JANTA é filha legítima do verbo JANTAR, da mesma forma que VISITA e DESOVA nasceram de  VISITAR e DESOVAR.

 

Em algum desvão esquecido do meu computador, reencontro uma pergunta que me fez, há tempos, a talentosa Haydée Porto, caríssima amiga, figura imprescindível do nosso teatro: “Uma conhecida me criticou bastante por causa de uma palavra que usei: janta. Na verdade, nunca tinha me dado conta disso. Nós, gaúchos, estamos errados ao falar assim?  Ela é portuguesa, dona de uma escola famosa em SP, e se orgulha de não cometer erros de Português ― mas diz “meia cansada”! Quando chamei sua atenção para isso, quase morreu de susto! Mas e nós, hein, Moreno, como ficamos com a nossa janta?”.

Ficamos muito bem, minha cara Haydée. Janta é um substantivo formado por derivação regressiva do verbo jantar, criado à semelhança de dezenas de outros que extraímos de verbos (chamados, por isso mesmo, de deverbais): por exemplo, suplicar deu súplica, alcançar deu alcance, baixar deu baixa e almoçar deu almoço. Por que, então, jantar não poderia dar janta? Na fronteira com os países do Prata já ouvi muita gente dizer suba (“Vou comprar o carro antes da suba do dólar”), como substantivo para subir. Eu acho estranho esta suba (que Houaiss registra como variante do Rio Grande do Sul), assim como tua amiga deve ter achado estranho a nossa janta ― e  assim como nós, os brasileiros, não estamos habituados ao termo apanha, muito usado em Portugal (“No Alentejo, a apanha da azeitona começa em outubro”). E daí? É natural que, de uma região para outra, haja preferências distintas em tudo ― na maneira de fazer churrasco, na música que toca no rádio e, mais do que em todas as demais áreas reunidas, nos vocábulos que empregamos.

Uma passada no Google (em setembro de 2015) deu mais de 13 milhões de ocorrências para janta; mesmo que isso não possa ser considerado argumento “científico”, é, no entanto, uma evidência amazônica da vitalidade desta variante. Todos os bons dicionários a registram, embora a assinalem com o rótulo de “popular” ou “familiar” ― uma forma prudente de alertar o usuário para o fato de que ela pode ser considerado inadequada em registros mais formais, o que está de acordo, a meu ver, com a nossa realidade. Eu, por exemplo, reservo jantar para uma refeição especial, geralmente comemorativa e com mais formalidade: jantar de formatura, jantar dançante, jantar de encerramento. Janta, para mim, designa a nossa refeição usual da noite (às vezes carinhosamente chamada de jantinha), seja na família, seja entre amigos ―  como, aliás, aparece em todos os autores modernos: “Finda a janta, o primeiro arroto real ecoa” (Monteiro Lobato); “A mulher mandará a empregada pôr a janta, e perguntará se ele quer tomar banho” (Rubem Braga); “resto de janta abaianada” (João Cabral de Melo Neto); “A janta posta” (Vinícius de Morais); “Devia ser hora de se comer a janta” (Guimarães Rosa). Diz para tua amiga que, ao usarmos janta, estamos em excelente companhia… E diz para ela, também, que os deuses da gramática há muito estabeleceram uma lei inexorável: quem se mete a corrigir os outros, logo, logo acaba sendo corrigido.

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Como se escreve Emprego das letras

úmido, umedecido

Caro professor: como é, mesmo? Se algo se molha, fica ÚMIDO, e se eu o molho, fica UMEDECIDO (e não umidecido)? Grato.

Rebelo

Meu caro Rebelo: não é bem assim. Se algo se molha, fica úmido ou umedecido; se eu o molho, fica também úmido ou umedecido. O problema não é estar no pólo passivo ou ativo da situação; acontece que o adjetivo úmido, que produz derivados como umidade e umidificar, corresponde ao verbo umedecer, que tem essa sílaba /me/ em todas as formas flexionadas, inclusive no particípio umedecido), irmão de umectar, umectante. Não é novidade ocorrer variação no radical de uma família vocabular: a lágrima sai pelo canal lacrimal, o movimento da roda é rotativo, a higiene da boca é bucal, e assim por diante. Não esqueças que, na maior parte das vezes, essas aparentes “incongruências” de nossa ortografia correspondem, na verdade, a vestígios de diferentes momentos na história de nosso léxico. Abraço. Prof. Moreno.

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Acentuação Como se escreve

Guiana

Professor, eu me interesso bastante pela nossa língua e tenho uma dúvida sobre o nome dos países Guiana e Guiana Francesa. O U é pronunciado? Já ouvi gente pronunciando e não pronunciando. Pelo que conheço, deveria ser um U mudo, mas como é nome de país, fico na dúvida. E se for pronunciado mesmo, não fica estranho demais? Mas, por outro lado, me parece impossível indicar que ele não é mudo usando as regras comuns de ortografia.Obrigado.

Marcus Aurelius F.  — Santa Maria (RS)

Meu caro Marcus: talvez não tenhas percebido, mas o raciocínio (absolutamente correto) que desenvolveste desvela um problema de que pouca gente tem consciência: nosso sistema ortográfico foi minuciosamente construído para representar, por escrito, os vocábulos do Português, mas não os de outras línguas. Quem se queixa da arbitrariedade de nossa ortografia não entende muito do que está falando: cada língua tem um sistema ortográfico que atende a suas necessidades particulares. É evidente que um construto dessa magnitude, que vai sendo aprimorado e modificado ao longo dos séculos, precisa estar intimamente relacionado com a realidade fonológica de cada idioma. A ortografia inglesa não tem como representar os nossos ditongos nasais /õy/  /ãw/ (como em põe e mão) simplesmente porque eles inexistem na realidade fonológica do Inglês. Por sua vez, a ortografia do Português não tem como representar o “L molhado” ou o “U com biquinho” do Francês; e assim por diante. Quando entra em nosso sistema um desses vocábulos estrangeiros, somos obrigados, inapelavelmente, a adaptar sua grafia (e a sua pronúncia, também): maquillage vira maquiagem ou maquilagem; purée vira purê (ou pirê, como querem os meus filhos); bureau vira birô; groseille vira groselha; e assim por diante (já escrevi sobre isso, quando discuti o plural de gol).

Alguns desses vocábulos exóticos, entretanto, JAMAIS serão grafados satisfatoriamente em nosso sistema. Todas as tentativas de adaptar pizza foram infrutíferas, e ela ficou assim mesmo. O fato de hesitarmos entre cãibra ou câimbra (com este acento sobrenatural!) revela que não estamos ainda bem convencidos; quem sabe cãimbra? Ou cambra, como era no séc. XV? Pois Guiana é outro desses enguiços. Primeiro, vamos à PRONÚNCIA: não esqueças que a fala vem acima de tudo; a escrita é algo posterior, acessório, uma tentativa de representar a realidade fonológica. A pronúncia é /gúyana/ — o que constitui, como percebeste, uma seqüência sonora que ultrapassa a capacidade de nosso sistema gráfico. Mesmo se continuássemos a usar o trema, recentemente abolido, e escrevêssemos *Güiana, estaríamos indicando a pronúncia /gwíana/, proparoxítona, com o I tônico. Se usássemos o acento (*Gúiana), pior ainda seria a emenda, porque estaríamos alterando a vogal tônica do vocábulo. A única maneira literal — mas absolutamente intragável — de representar essa seqüência de fonemas seria *Gui-Ana, uma aberração morfológica, porque estaríamos transformando em composto o que sempre foi um vocábulo simples. É por essa razão que nós, sabiamente, escrevemos Guiana, mas pronunciamos /guyAna/, escrevemos pizza, mas pronunciamos /pitça/, freezer, mas pronunciamos /frízer/, blazer, mas pronunciamos /blêizer/ — como todos os vocábulos estrangeiros que precisamos usar mas ainda não foram (e talvez nunca venham a ser) aportuguesados. Abraço. Prof. Moreno

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Como se escreve Destaque Emprego das letras

talibã, talebã, taliban ou taleban

O recentíssimo carro-bomba encontrado na Times Square e o vídeo que apareceu na internet com declarações dos possíveis responsáveis trouxeram de novo à baila um problema que tinha ficado esquecido: como se deve escrever o nome do grupo islâmico que reivindica a paternidade do diabólico engenho? A grafia correta seria talibã, talebã, taliban ou taleban? A dúvida se justifica: quem acompanha os últimos acontecimentos encontra todas essas formas empregadas nos jornais, nas revistas e nos sítios de notícias mais importantes, numa dança enlouquecida de grafias alternativas. Dois leitores já escreveram, querendo saber — assim, pão, pão; queijo, queijo qual é o correto. Para quem só quer a respostinha seca, já vou dizendo: escrevo talibã, talibãs. Para quem não se contenta com isso, vou apresentar minhas razões.

Em primeiro lugar, preciso lembrar que em nomes como esse não existe a forma correta, mas sim a mais recomendável. Isso acontece, aliás, com todos os nomes provenientes de línguas que não usam o alfabeto romano (o que aparece no teclado de nosso computador) e que precisam, portanto, ser transliterados, o que vem a ser bem diferente de traduzido. Ao traduzirmos, vamos buscar no estoque da nossa língua uma palavra que tenha um significado equivalente à palavra estrangeira. Ao fazermos a transliteração de um nome, por outro lado, tentamos reproduzir o som que ele tem na sua língua original usando o nosso próprio alfabeto o que sempre vai produzir, é lógico um resultado meramente aproximado, pois tentamos representar fonemas que nossa língua desconhece usando um sistema gráfico elaborado para dar conta da fonologia do Português. Lembro as diferentes propostas de transliteração para Kruschev (ou Khruschev, ou Khruschov, ou Kruchev, etc.), ou para o falecido camarada Mao, que eu cresci chamando de Tse Tung, e hoje aparece como Dze Dong (ou coisa assim). Quem já leu diferentes edições de Dostoiévski (ou Dostoievsky?) está acostumado a mudanças na grafia dos nomes dos personagens.

A forma talibã também é uma transliteração e, portanto, também aproximativa; de todas as outras, contudo, é a que está mais de acordo com a tradição e a que melhor se enquadra em nossos padrões fonológicos:

(1) Por que “I“e não “E” na segunda sílaba? Embora na pronúncia local, dependendo da região, registre-se um som intermediário entre o /i/ e o /e/, nas línguas ocidentais mais importantes vem prevalecendo, como no Português, a forma grafada com “I“, e não com “E“: para o Inglês, é the Taliban; para o Francês, le taliban; para o Espanhol, nosso irmão mais próximo, el talibán.

(2) Por que o final em ? Há muitos nomes asiáticos terminados em /a/ seguido de consoante nasal. Enquanto o Inglês registra tudo como –an (Afghanistan, Pakistan, Jordan; Iran, Teheran, Oman, Ramadan), nós aportuguesamos essa terminação de duas maneiras diferentes: ora como –ão (Afeganistão, Paquistão, Jordão), ora (o que é mais frequente) como (Irã, Teerã, Omã, Ramadã). Como Said Ali muito bem observa em seu Dificuldades da Língua Portuguesa, contudo, os terminados em –ão são casos excepcionais, diante da esmagadora preferência pelo final –ã. Por isso, entre talibão (nossa!) e talibã, a escolha é óbvia. O que nós não temos é o final –an, como o Inglês; é impossível, portanto, em nosso sistema, uma forma como *taliban.

Outro problema que ainda não apareceu por aqui, mas que já vou matando, já que estou com o porrete no ar, é o do plural. Acontece que, no dialeto persa falado pelos talibãs, o vocábulo é uma variante plural do vocábulo árabe talib, que significa “estudante; aquele que procura o conhecimento”; na verdade, “estudante da teologia islâmica” – o que espelha historicamente a origem do movimento, cujos líderes são filhos diretos das movimentações estudantis dos anos 60 (leia-se “anos sessenta”; há por aí os que defendem o indefensável “*anos sessentas”. Credo!). Por esse motivo, a maior parte da imprensa européia usa o vocábulo como se já fosse um plural (“the Taliban are“; “les taliban“; “los talibán“. Julgo, entretanto, que imitar essa prática no Português seria criar uma injustificável exceção ao paradigma (imaginem “os talibã“!) e ignorar a extraordinária capacidade que nosso idioma tem de deglutir os vocábulos estrangeiros e nacionalizá-los fonológica, ortográfica e morfologicamente. Já escrevi várias vezes sobre isso: para entrar no Português, o vocábulo estrangeiro tem de aprender a dançar miudinho, tratando de comportar-se como seus colegas nativos. Um talismã, dois talismãs; um talibã, dois talibãs.

 

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Como se escreve Emprego das letras

cenoura ou cenoira

Prezado professor Moreno, gostaria que o senhor me ajudasse, respondendo o que significa a palavra cenoira. Agradeço desde já.

Lydianne — João Pessoa

Minha cara Lydianne: a cenoira é a comida preferida dos coelhos portugueses. Em muitos vocábulos de nosso idioma, o ditongo OU alterna livremente (ou alternou, durante algum tempo) com OI; o Formulário Ortográfico de 1943 considera esse um fato normal e cita, como exemplos, balouçar e baloiçar, calouro e caloiro, dourar e doirar. Embora essa alternância ocorra principalmente antes de R (touro, toiro; tesoura, tesoira; ouro, oiro; ceroula, ceroila), ela já se manifestou em pares como dois, dous; noite, noute; biscoito, biscouto; coisa, cousa; ouço, oiço. Em todos os pares que mencionei, há uma tendência geral do Português Brasileiro em escolher a primeira variante, enquanto a segunda parece ser mais freqüente no Português Europeu (chamamos assim o Português falado em Portugal). 

Em certos casos, a hesitação ainda vive entre nós: vais ouvir, aqui mesmo no Brasil, toucinho e toicinho, louro e loiro. Isso é normal; as duas variantes vão conviver por algum tempo, até que uma delas tenha a preferência estabilizada pelo uso. O tempo vai alterando algumas formas e fixando outras; Castro Alves, na 1a. edição de O Navio Negreiro, em 1868, assim escreveu: 

‘Stamos em pleno mar… Doudo no espaço

Brinca o luar — doirada borboleta 

E as vagas após ele correm… cansam

Como turba de infantes inquieta.

Se trocássemos, numa edição moderna, doudo por doido e doirada por dourada, a alteração passaria despercebida pela quase totalidade dos leitores. Aliás, muitas editoras têm feito isso, considerando que essa atualização não desfigura a sonoridade dos versos originais, mas isso é discussão fora da minha horta; deixo-a para os doutores em Literatura. Abraço. Prof. Moreno

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Formação de palavras Lições de gramática

sorvetaria

Caro Prof. Moreno, aprendi que o sufixo -aria designa “lugar”, como em padaria, drogaria e doçaria. Então, por que falamos sorveteria e não sorvetaria? Seria errado ou pedante falar desse modo? Grata.

Maíra F. — São Paulo

Minha cara Maíra: estranho raciocínio esse teu: o fato do sufixo -aria designar “lugar” não impede que -eria (aliás, uma variante do mesmo sufixo) faça o mesmo! Essas duas formas aparecem como opções em dezenas de palavras de nosso idioma: leiteria, leitaria; lavanderia, lavandaria; joalheria, joalharia; etc. A escolha é pessoal (geralmente, determinada também pelos hábitos da região onde vive o falante); no entanto, nota-se, no Brasil, uma acentuada preferência por -eria quando o sufixo se liga a um substantivo que tem E como vogal temática: leiteria, sorveteria, uisqueria, joalheria, engraxateria. Se disseres sorvetaria — mesmo sendo uma forma lícita, registrada nos dicionários —, vais soar como o ET de Varginha. É a velha distinção entre o que é certo e o que é adequado. Abraço. Prof. Moreno

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Conceitos lingüísticos Lições de gramática

programa “legal” ?

Prezado professor: nas frases “aquele passeio foi legal“, “este programa de televisão é legal” ou “que legal!”, podemos usar a palavra “legal” no sentido de “bom, prazeroso“, e não apenas em seu sentido jurídico, como em “o advogado afirmou que tal ação é legal“?  

Milton S. Jr. — Santos (SP)

Meu caro Milton: é claro que podemos usar legal assim — mas no Português mais à vontade. No Português escrito, mais formal — trabalhos acadêmicos, livros didáticos, artigos de divulgação séria, etc. — não seria adequado, porque ainda traz consigo um forte sabor de gíria (daí, aliás, tu teres estranhado o seu emprego). É como jóia: “Está tudo jóia” fica bem falando com a família ou com amigos, mas não em trabalhos formais. O Aurélio XXI registra também este uso mais popular, não-jurídico, do legal

Esse exemplo é bom para lembrar dois princípios importantes sobre a gíria: (1) ela muito raramente cria um vocábulo novo; ela é responsável, isso sim, pela atribuição de novos significados a vocábulos já existentes. (2) Aos poucos, algumas dessas inovações vão saindo do quintal e entrando na casa; quando vemos, já estão sentadas na sala, junto com as outras palavras respeitáveis. Isso é sinal de que foram aceitas na sociedade; nosso idioma, conseqüentemente, ficou um pouquinho mais rico. Abraço. Prof. Moreno

Depois  do Acordo: jóia>joia

conseqüentemente> consequentemente

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Através dos dicionários Etimologia e curiosidades

dicionário não é lei

Um atônito leitor escreve para compartilhar o espanto que sentiu ao ver que os nossos dois mais importantes dicionários divergem quanto ao adjetivo referente aos EUA: o Aurélio registra só estadunidense, enquanto o Houaiss prefere estado-unidense. Ora, se a essência do dicionário é descrever o atual estágio de nosso idioma, como é que a descrição desses dois autores não é idêntica, neste caso? A resposta, meu caro, aponta para um princípio fundamental da lexicografia, desconhecido de muitos, e que poderá causar surpresa, desânimo ou até indignação entre os leitores menos informados: por mais que o dicionário se esforce por fazer uma descrição objetiva e imparcial da língua, suas páginas estão repletas de julgamentos, crenças e preconceitos do seu autor.

A variedade de informações é gigantesca: além do simples significado do vocábulo, o dicionário registra também a sua grafia, a sua pronúncia, o gênero a que pertence (masculino ou feminino), a sua flexão, a separação de sílabas, a existência de formas variantes, o nível sócio-cultural em que o vocábulo é empregado, e outras mais. O lexicógrafo procura registrar democraticamente tanto o velho quanto o novo, tanto o solene quanto o coloquial, tanto o geral quanto o regional — mas não consegue ocultar, a cada linha, a cada verbete, a sua posição pessoal sobre aquilo que está descrevendo. Houaiss registra tanto cotidiano quanto quotidiano como formas perfeitamente aceitáveis; ao colocar, porém, a definição do vocábulo junto a cotidiano (enquanto em quotidiano há apenas uma simples remissão à outra forma), ele está declarando sua preferência. Se Aurélio coloca, entre parênteses, a indicação “(é)” junto ao vocábulo grelha, é porque essa é a pronúncia que ele prefere (embora, com imparcialidade, indique, no final do verbete: “É corrente, em boa parte do Sul do Brasil, a pronúncia de grelha com e fechado”). E assim por diante: a cada passo, o autor é obrigado a tomar decisões, o que significa dizer que dicionários como o Houaiss ou o Aurélio não são descrições neutras e objetivas de nossa língua, mas sim o conjunto de preferências lingüísticas do cidadão Houaiss ou do cidadão Aurélio. Portanto, tudo que está no dicionário é opinião — é claro que é uma opinião abalizada, de profissionais que dedicaram sua vida ao estudo das palavras, mas não deixa de ser opinião.

Os lexicógrafos sabem que podem coexistir, num mesmo momento histórico, diferentes comportamentos lingüísticos que os falantes cultos consideram aceitáveis, o que vai dar, para quem deseja escrever corretamente, uma razoável margem de escolha. Essas diferentes soluções convivem umas com as outras e disputam a nossa preferência; são incontáveis as situações em que podemos optar entre duas formas corretas. Um rápido passeio pelo Houaiss e pelo Aurélio nos mostra que é livre a escolha entre abdômen ou abdome, gérmen ou germe, regímen ou regime (as formas sem o n são mais modernas); atenazar ou atazanar, destrinçar ou destrinchar (a primeira forma de cada par é a variante mais culta); amígdala ou amídala, óptico ou ótico, seção ou secção; catorze ou quatorze, quota ou cota; monstrengo ou mostrengo (preferida por Houaiss); taberna ou taverna, assobio ou assovio (as formas com B têm mais prestígio); bêbado ou bêbedo, hemorróida ou hemorróide; cosmos ou cosmo, bílis ou bile, diabete ou diabetes, húmus ou humo. Também podemos escolher entre incontinente (Houaiss), incontinenti (Aurélio 2ª edição, a última em vida do autor) ou incontinênti (Aurélio-XXI); entre álcoois (Aurélio-vivo e Houaiss) ou alcoóis (Aurélio-XXI); entre o clitóris (Aurélio-vivo) ou a clitóride (Aurélio-XXI) — Houaiss fica em cima do muro, dizendo que a clitóride é “a forma mais correta, mas a menos usada”. Aurélio-vivo e Houaiss preferem malformação, Aurélio-XXI enquanto o prefere má-formação. Para minha surpresa, os dois Aurélios dão balde como feminino, enquanto Houaiss dá como masculino. Podemos decidir, ainda, se vamos escrever marcha à ré (Aurélio-vivo) ou marcha a ré (Aurélio-XXI e Houaiss ), pôr-do-sol (ambos os Aurélios) ou pôr do sol (Houaiss) — e por aí vai a valsa.

Usando a conhecida (mas eficiente) analogia entre linguagem e vestimenta, o dicionário é um grande magazine onde estão expostas todas as peças de vestuário existentes; há peças íntimas, peças formais, peças descontraídas, peças exóticas, peças chamativas, peças discretas, peças indecentes — e, assim como as palavras, podemos escolher as que mais nos agradam. A soma de nossas escolhas — seja nas roupas, seja nas palavras — é o que costumamos chamar pelo nome clássico de estilo.

Depois do Acordo:

lingüístico > linguístico

hemorróida > hemorroida