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Suje-se gordo!


Recebo duas interessantes consultas sobre pontuação, ambas sobre o emprego da vírgula. A primeira vem dos Estados Unidos: um de nossos leitores, que está para concluir seu curso de pós-graduação na Universidade de Chicago, ficou surpreso quando seu orientador exigiu que ele colocasse uma vírgula antes do E que antecede o último elemento das enumerações. Diz ele: “Eu pensava que as regras de pontuação do Inglês fossem similares às nossas, mas começo a mudar de idéia. O Manual de Estilo aqui da casa é taxativo: quando os dois últimos elementos de uma série são ligados por E, a vírgula antes da conjunção é obrigatória. Por que essa diferença do Português?”.

Ora, meu caro leitor, parece que o destino o levou a esbarrar numa das raríssimas diferenças entre a pontuação do Inglês e a nossa. Essa curiosa vírgula, conhecida como “Oxford comma” (“vírgula de Oxford”, porque se tornou uma exigência tradicional dos editores e revisores da famosa Oxford University Press), tem uma certa razão de existir para os falantes do Inglês. Como você deve saber muito bem, naquela língua os adjetivos ficam à esquerda do substantivo que modificam, o que acaba criando um problema que o Português desconhece. Numa frase como “Ele recortava todas as matérias que saíam no jornal sobre cinema, política internacional E negócios”, a posição do adjetivo internacional não deixa dúvida de que ele se refere a política, não a negócios. Em Inglês, no entanto, como o adjetivo fica do lado esquerdo e simplesmente nunca se flexiona, cria-se uma estrutura ambígua; “international politics and business” pode ser lido como “política internacional e negócios” ou como “política e negócios internacionais”. É onde entra em ação a vírgula de Oxford, desfazendo a má leitura: “international politics, and business“.

Embora algumas instituições (a Universidade de Chicago é justamente uma delas) recomendem o uso automático desta vírgula, muitas outras preferem aplicá-la apenas aos casos em que realmente existe o perigo de ambigüidade. Esta postura, que me parece muito mais sensata, não é nada diferente do que fazemos aqui quando surge o mesmo problema: “Os convidados eram João e Maria, Paulo e Virgínia, E eu” (eu estava desacompanhado); “As almofadas podem ser feitas em branco e preto, vermelho e branco, E azul” (ou vermelho e branco, ou azul). O bem-humorado Quinion, no seu incomparável www.worldwidewords.org, brinca com a hipótese de alguém dedicar seu livro “To my parents, Mary and God“, (“Para meus pais, Maria E Deus”). Tanto lá quanto aqui devemos usar uma vírgula antes do “E” para evitar que os leitores tomem Maria e Deus como aposto de meus pais e nos mandem internar no hospício por absoluto delírio de grandeza: “Para meus pais, Maria, E Deus”.

A segunda consulta vem de Campos, no Rio de Janeiro. Uma leitora quer saber se alguma regra proíbe a vírgula em títulos: “Aprendi que o vocativo — Fica quieto, menino! — sempre deve vir separado por vírgula; por que, então, o nome do conto Suje-se gordo!, de Machado de Assis, não vem pontuado?”.

Não se preocupe, prezada leitora, que não se trata de um cochilo de Machado de Assis, nem existe qualquer regra contra o uso de pontuação nos títulos. Um romance de José Cândido de Carvalho se intitula Olha para o céu, Frederico; Camilo Castelo Branco escreveu Coração, cabeça e estômago; o próprio Machado nos deu os contos “Vênus! Divina Vênus!”, “Vinte anos! Vinte anos!“, “O Cônego, ou Metafísica do estilo” e “Casa, não casa“. Acho que você ainda não leu o conto inteiro, e daí sua pergunta. Não há um vocativo aqui; “Suje-se gordo!” não é uma ordem para que um gordinho se suje (aí seria “Suje-se, gordo!” – o que corresponderia a “Gordo, suje-se!”), mas um estranho princípio moral defendido pelo personagem, que acha que não vale a pena transgredir a lei por ninharias: “Vi que não era um ladrão reles, um ladrão de nada, sim de grande valor. O verbo é que definia duramente a ação. ‘Suje-se gordo!’. Queria dizer que o homem não se devia levar a um ato daquela espécie sem a grossura da soma. A ninguém cabia sujar-se por quatro patacas. Quer sujar-se? Suje-se gordo!”.

Aqui você tem um bom exemplo desses adjetivos transformados em advérbio de modo, fenômeno tão comum no Português Brasileiro: “Eles comiam rápido“, “Ela falava baixo“, “A cerveja desce redondo“. “Suje-se gordo“, portanto, aqui significa “Suje-se para valer“. Machado deve ter previsto a possível confusão de gordo com um vocativo, pois fez questão de incluir a expressão numa seqüência definitivamente esclarecedora: “Suje-se gordo! Suje-se magro! Suje-se como lhe parecer!”. Se serve como consolo, fique sabendo que você não é a única a ter esta dúvida; muitas editoras continuam a grafar este título com aquela vírgula equivocada.

Depois do Acordo:

idéia>ideia

ambigüidade>ambiguidade

seqüência >sequência

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Quem sabe, sabe

Como pedrada em abelheiro, as recentes colunas sobre o ponto-e-vírgula levantaram uma revoada de perguntas sobre pontuação. Um leitor muito qualificado (já explico o epíteto) quer saber se a regra que proíbe a vírgula entre sujeito e predicado não pode ter exceções, pois na peça “A vida é sonho”, de Calderón de la Barca, vem “La vida es sueño, y sueños, sueños son” — o que, em vernáculo, daria “A vida é sonho, e sonhos, sonhos são”. O exemplo, além de cultíssimo — afinal, por estas plagas, quem anda lendo Calderón no original? —, é excelente, pois nos obriga a trazer para a luz alguns princípios fundamentais.

Antes de mais nada, é preciso deixar  bem claro que  não existe uma regra que proíba a vírgula entre o sujeito e o predicado, mas sim a recomendação veemente, por parte dos professores e gramáticos de todo o país, para não fazê-lo. No entanto, como já frisei várias vezes, esta regra de pontuação é mais um conselho do que uma regra propriamente dita. Ela não tem, como as regras de acentuação, aquela obrigatoriedade que não admite divergências, e haverá casos, como este, em que é necessário (ou aconselhável) contrariá-la deliberadamente, a fim de tornar a leitura mais fluente.

O princípio geral é muito simples: como devemos reservar a vírgula para assinalar tudo aquilo que foge à normalidade sintática, é evidente que não há razão para separar o sujeito do verbo, nem o verbo de seu complemento, já que esta é a ordem canônica da frase no Português. Todavia, quando o sujeito for oracional (representado por uma oração subordinada substantiva), os bons escritores empregam, muitas vezes, uma vírgula para assinalar com maior clareza o fim do bloco do sujeito. Em Machado de Assis encontramos tanto exemplos sem vírgula (“Quem não viu aquilo não viu nada”; “Quem for mãe que lhe atire a primeira pedra”) quanto com vírgula (“Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência”; “Quem viesse pelo lado do mar, veria as costas do palácio, os jardins e os lagos…”; “Quem morreu, morreu”). Um excelente exemplo pode ser encontrado em Vieira: “…ninguém se atreva a negar que tudo quanto houve, passou, e tudo quanto é, passa”. Não podemos negar que a vírgula empregada nos exemplos acima apenas veio facilitar o trabalho de processamento da frase; se ela fosse inadequada, ocorreria o efeito oposto. Foi certamente por isso que os nossos estudiosos sempre consideraram facultativa a vírgula nesta posição.

Num breve passeio pelo mundo dos provérbios portugueses, há muitos exemplos em que esta vírgula, embora possível, pode ser dispensada: “Quem avisa amigo é”; “Quem bate no cão bate no dono”; “Quem dá o mal dá o remédio”; “Quem quer o fim quer os meios”, “Quem não deve não teme”. Ela passa a ser muito útil, no entanto, nos casos de construção paralela, em que o verbo da oração substantiva é seguido imediatamente pelo verbo da oração principal: “Quem quer, faz; quem não quer, manda”. “Quem sabe, faz; quem não sabe, ensina”. “Quem procura, acha; quem guarda, sempre tem”. “Quem não faz, leva”. Agora, se o verbo for idêntico nas duas orações, esta vírgula passa a ser indispensável: “Quem deu, dará; quem pediu, pedirá”. “Quem vai, vai; quem fica, fica”. “Quem sabe, sabe”. “Quem pode, pode” – isso sem falar naqueles casos em que a forma verbal pode se confundir com um substantivo homógrafo, criando-se uma ambiguidade que a vírgula desmancha imediatamente: “Quem quiser, peça“; “Quem ama, cobra“; “Quem teme, ameaça“; “Quem deseja, casa” (não se trata de alguém que “quer peça”, ou “ama cobra”, ou “teme ameaça”, ou “deseja casa”).

No belíssimo exemplo do Calderón que deu origem a esta coluna, basta comparar a versão com vírgula — “E sonhos, sonhos são” — com a versão que seria, segundo alguns, a “correta” — “E sonhos sonhos são” — para ver que aquela vírgula é decisiva para a imediata compreensão do verso por parte do leitor. Aqueles que protestam contra essa flexibilidade demonstram que não compreenderam que a razão de ser da pontuação é o leitor. Não se trata, aqui, de voltar àquela antiga visão de pontuação subjetiva, submetida ao simples capricho de quem escreve; bem pelo contrário: a finalidade exclusiva dos sinais de pontuação é orientar o leitor no trabalho de decodificar as frases que escrevemos. Tudo que contribuir para isso será bem-vindo (e vice-versa).

Ah, e já que estamos falando nisso, informo aos amigos que acabo de entregar à L&PM os originais do meu livro sobre pontuação. A ver…

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espaço antes da vírgula?

Professor Moreno, gostaria saber se existe alguma regra formal que obrigue a pontuação a ficar “encostada” à palavra da esquerda. Um colega de trabalho costuma colocar um espaço entre a última palavra escrita (ou digitada) e o sinal de pontuação, seja vírgula, dois-pontos, ponto final, ponto de interrogação ou de exclamação. Argumentei que esse não era o costume, mas me desafiou a apresentar a norma que proíbe que isso seja feito. Pesquisei exaustivamente e consultei alguns professores, mas não achei o que procurava, pois a maioria das pessoas acha que é só um costume estético. Há algum fundamento gramatical?

José Francisco C.  — Sorocaba (SP)

Prezado José, este é um daqueles casos em que o costume acaba se tornando lei. As vírgulas, os pontos, etc. realmente costumam ficar encostados na palavra anterior, não por força de alguma regra gramatical, mas sim por herança da forte tradição tipográfica que antecedeu o nosso mundo de textos digitais. Eu pensava que, com o tempo, este detalhe acabaria se tornando irrelevante, já que um processador de texto como o Word, ao justificar as linhas, às vezes produz um efeito visual em que o espaço entre as palavras, ou entre elas e os sinais de pontuação, parece consideravelmente aumentado

Acontece que eu não estava enxergando o óbvio, e foi necessário que um leitor de Porto Alegre, Alfredo Kauer, me chamasse a atenção para um princípio fundamental de digitação que, embora não seja uma regra gramatical, encerra definitivamente a questão: ao teclarmos um texto no computador, o processador de texto interpreta cada toque de espaço como o aviso de que uma palavra terminou e que vai começar outra; por isso, nunca devemos inserir um espaço antes do sinal (seja vírgula, ponto, ponto-e-vírgula, parênteses, aspas, etc.), mas sim depois, para que o sinal se torne, aos olhos do processador, parte integrante da palavra anterior. Como a mudança automática de linhas sempre se dá depois de uma palavra completa, a vírgula, estando “encostada”, não vai passar para a linha seguinte.

Aposto que os textos digitados pelo teu colega de trabalho apresentam, às vezes, algum sinal de pontuação isolado no início de certas linhas — o que, além de esquisito, torna muito penoso o trabalho do leitor, obrigando-o a voltar à linha que já tinha lido. Se essa observação é notícia antiga para os usuários mais experientes dos processadores de texto, muito poderá esclarecer os novatos, que às vezes ficam olhando intrigados para aquele sinal solitário no começo da linha, atribuindo-o a alguma daquelas entidades misteriosas que volta e meia se manifestam no nosso monitor, como a desanimadora tela azul ou aquela mensagem, tão antipática quanto apocalítica, que nos informa que acabamos de cometer um “erro fatal”. Abraço. Prof. Moreno

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vírgula depois de sujeito oracional

Um livro muito conhecido traz o título de “Quem ama, educa”. Podemos considerar correta essa vírgula, embora ela esteja separando o sujeito oracional do resto da frase? O Doutor mostra que sim.

Existe algum caso na língua portuguesa em que se separa o sujeito do predicado por vírgula? Vejo esse erro com freqüência, até mesmo em veículos da grande imprensa; sempre achei que se tratava de um equívoco, mas fiquei em dúvida quando li a seguinte frase no seu artigo  os nomes do peru: “Só sei que naquela época esta era a regra do jogo – quem domina e coloniza, dá o nome”. “Quem domina e coloniza” e “dá o nome” não são, respectivamente, sujeito e predicado da frase?

Guilherme Netto  – Paris, França

Sim, Guilherme, está correta sua análise da frase que escrevi, assim como também é verdade que não se deve colocar, na pontuação moderna, uma vírgula entre o sujeito e o predicado. No entanto, como já frisei várias vezes, esta regra de pontuação é mais um conselho do que uma regra propriamente dita. Ela não tem, como as regras de acentuação, aquela obrigatoriedade que não admite divergências, e haverá casos, como este, em que é necessário (ou aconselhável) contrariá-la deliberadamente, a fim de tornar a leitura mais fluente.

O princípio geral é muito simples: como devemos reservar a vírgula para assinalar tudo aquilo que foge à normalidade sintática, é evidente que não há razão para separar o sujeito do verbo, nem o verbo de seu complemento, já que esta é a ordem canônica da frase no Português. Todavia, quando o sujeito for oracional (representado por uma oração subordinada substantiva), os bons escritores empregam, muitas vezes, uma vírgula para assinalar com maior clareza o fim do bloco do sujeito. Em Machado encontramos tanto exemplos sem vírgula (“Quem não viu aquilo não viu nada”; “Quem for mãe que lhe atire a primeira pedra”) quanto com vírgula (“Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência”; “Quem viesse pelo lado do mar, veria as costas do palácio, os jardins e os lagos…”; “Quem morreu, morreu”). Um excelente exemplo pode ser encontrado em Vieira: “…ninguém se atreva a negar que tudo quanto houve, passou, e tudo quanto é, passa”. Não podemos negar que a vírgula que foi empregada nos exemplos acima apenas veio facilitar o trabalho de processamento da frase; se ela fosse inadequada, ocorreria o efeito oposto. Foi certamente por isso que os nossos literatos sempre consideraram facultativa a vírgula nesta posição.

Num breve passeio pelo mundo dos provérbios portugueses, há muitos exemplos em que esta vírgula, embora possível, pode ser dispensada: “Quem avisa amigo é”; “Quem bate no cão bate no dono”; “Quem dá o mal dá o remédio”; “Quem quer o fim quer os meios”, “Quem não deve não teme”. Ela passa a ser muito útil, no entanto, nos casos de construção paralela, em que o verbo da oração substantiva é seguido imediatamente pelo verbo da oração principal: “Quem quer, faz; quem não quer, manda”. “Quem sabe, faz; quem não sabe, ensina”. “Quem procura, acha; quem guarda, sempre tem”. “Quem não faz, leva”. Agora, se o verbo for idêntico nas duas orações, esta vírgula passa a ser indispensável: “Quem deu, dará; quem pediu, pedirá”. “Quem vai, vai; quem fica, fica”. “Quem sabe, sabe”. “Quem pode, pode” — isso sem falar naqueles casos em que a forma verbal pode se confundir com um substantivo homógrafo, criando-se uma ambigüidade que a vírgula desmancha imediatamente: “Quem quiser, peça“; “Quem ama, cobra“; “Quem teme, ameaça“; “Quem deseja, casa” (não se trata de alguém que quer peça, ou ama cobra, ou teme ameaça, ou deseja casa).

Aqueles que protestam contra essa flexibilidade demonstram que não compreenderam que a razão de ser da pontuação é o leitor. Não se trata, aqui, de voltar àquela antiga visão de pontuação subjetiva, submetida ao simples capricho de quem escreve; bem pelo contrário: a finalidade exclusiva dos sinais de pontuação é orientar o leitor no trabalho de decodificar as frases que escrevemos. Tudo que contribuir para isso será bem-vindo (e vice-versa). 

Depois do Acordo:  freqüência > frequência           ambigüidade> ambiguidade

leia também:  Quem sabe, sabe 

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Etimologia e curiosidades Origem das palavras

Antigos diminutivos

Nosso idioma usa as terminações –inho ou –zinho para formar seus diminutivos, enquanto o latim, nossa língua mãe, usava o sufixo –ulus, que chegou até nós em muitos vocábulos de uso científico. Falamos em pelezinha e película, em globinho e glóbulo, em rodinha e rótula, em corpinho e corpúsculo. Em cada par, qual é a diferença? Ambos os vocábulo são diminutivos, mas o primeiro é de emprego corrente, enquanto o segundo é mais erudito. O coelho da Páscoa traz ovinhos; no entanto, quando falamos da reprodução humana, só aceitamos a forma óvulo. Nossa garganta tem uma úvula, mas não uma uvinha, e os frutos não têm pezinhos, mas pedúnculos. Os falantes reconhecem a maioria desses diminutivos latinos, mas alguns certamente vão ser surpresa para meus leitores. 

cálculo

Vem de calculus — literalmente, “pedrinha”. É o diminutivo de calx (“pedra calcária”), a mesma raiz de onde proveio o nosso cálcio. Como essas pedrinhas eram usadas para computar os pontos de vários tipos de jogos, o termo cálculo adquiriu o sentido atual de “medição, cômputo, avaliação”. Uma lembrança viva do significado primitivo pode ser encontrada no vocabulário médico, onde as pedras que se formam no corpo do homem ou dos animais ainda são chamadas de cálculos.

clavícula

De clavicula — literalmente, “chavezinha”, diminutivo de clavis, “chave”. São aqueles ossos achatados, com o desenho aproximado de um S, que ficam na parte frontal do ombro (as populares “saboneteiras”). Os anatomistas primitivos escolheram este nome porque o formato da nossa clavícula lembra a chave ou o ferrolho usado para trancar as janelas, nas casas romanas. É, portanto, um irmão distante do conclave, reunião de religiosos que é feita a portas fechadas.

escrúpulo

Mais uma pedrinha: no latim, scrupus era aquele tipo de pedra pontuda, cheia de arestas afiadas. Seu diminutivo, scrupulum, era a pedrinha incômoda, que todos nós conhecemos porque que entra em nosso sapato e fica torturando o pobre pé. Numa bela metáfora, o termo passou a expressar o freio moral que a consciência nos traz, ao nos fazer agir com cuidado e meticulosidade, obedecendo a princípios morais. Essa idéia da consciência como um estorvo parece também estar por trás da personagem do Grilo Falante, na história do Pinóquio.

célula

Do latim cellula, diminutivo de cella (“câmara, quarto”). A cela designava, nos mosteiros medievais, o quarto individual dos monges; hoje se refere também à pequena peça onde ficam os prisioneiros ou os internos dos estabelecimentos psiquiátricos. Célula (“quartinho”) foi adotado pela biologia para batizar as unidades básicas dos tecidos vivos. O termo também é usado, metaforicamente, para qualquer unidade fechada e autônoma, como é o caso das células dos partidos de esquerda ou das células fotoelétricas. 

vírgula

Literalmente, “varinha”. É o diminutivo de virga (“vara, bastão”). Os copistas medievais usavam esse nome para designar uma grande variedade de sinais de pontuação e de acentuação, traçados em diferentes alturas com relação à linha. O termo foi se especializando até chegar ao sentido que tem hoje. Embora no inglês a vírgula seja chamada de comma, o termo virgule é usado como sinônimo erudito do slash, a barra diagonal inclinada para a direita, tão utilizada na linguagem dos computadores.

furúnculo

É o diminutivo de fur (“ladrão”), o mesmo radical que nos deu furto e furtivo. Furunculus (literalmente, “ladrãozinho”) era o termo usado para designar o botão que nasce nas videiras, dos quais brotam ramos que acabam roubando a seiva necessária para o bom desenvolvimento dos ramos principais. O nome foi atribuído também à conhecida infecção da pele por causa de sua semelhança com aquele botão vegetal

pílula

De pilula, literalmente, “bolinha”. É o diminutivo de pila, nome dado a uma bola que os romanos usavam para jogar, do tamanho de uma bola de tênis. De pila também veio o nosso péla, sinônimo pouco usado para bola, mas muito conhecido por seu derivado pelada. No Latim Vulgar, outra forma do diminutivo (pilota) deu origem a pelota. Mesmo desconhecendo a etimologia de pílula, a juventude maluca dos anos 60 chamava de “bolinha” os comprimidos de anfetamina.

flâmula

Flammula (literalmente, “chaminha”) é o diminutivo de flamma (“chama”). Esta irmã de inflamável, flambar e flamante foi o nome dado àquelas bandeirolas estreitas e compridas, geralmente triangulares, usada nas lanças dos cavaleiros e nos mastros das embarcações. Quando tremulam ao vento, têm a aparência de uma pequena chama, o que explica o seu nome. No futebol, em jogos festivos, ainda é costume os dois times oponentes trocarem as respectivas flâmulas antes do apito inicial.

Depois do Acordo: idéia > ideia

péla > pela