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A logomarca e o ornitorrinco – conclusão

Além de ter pêlo de castor e bico de pato, o ornitorrinco põe ovos mas amamenta seus filhotes. Este estranho animal, que parece uma delirante colagem cubista ou, melhor ainda, um rascunho que a Natureza esqueceu de jogar na cesta de lixo, vive nadando alegremente nos rios da Oceania. E a LOGOMARCA com isso?

3 — Como vimos nas duas colunas anteriores, a palavra logomarca chegou para ficar, invadindo o campo semântico em que logotipo reinava sozinho. Se vamos incluí-la em nossa dieta ou classificá-la como erva daninha, isso é do gosto pessoal e não cabe discutir — afinal, tenho um amigo que come jiló com quiabo e outro, para minha incredulidade, que distingue o sabor de vários tipos de chuchu… Entre um sábado e outro, porém, um leitor que ainda não está bem convencido perguntou quem deteria este poder quase divino de inventar vocábulos novos; em suma, quem teria competência para conceder (ou negar) a logomarca o direito de existir — a Academia? O sindicato dos gramáticos? Alguma comissão de lexicógrafos? A pergunta que está por trás disso tudo — como nasce uma palavra? — é assaz oportuna, e tenho certeza de que a resposta vai trazer mais um pouco de luz à discussão. Lembro, apenas, que o processo que vou descrever vale para qualquer vocábulo, inclusive para os “antigos”, os confirmados há muitos séculos, que um dia, como todos nós, também foram recém-nascidos.

A fórmula que Epicuro usava para descrever nossa curta passagem por esta existência — “Eu não era; fui; não sou mais” — pode ser aplicada integralmente às palavras. Até um determinado momento, o léxico de nossa língua não incluía em suas listas o item logomarca. É praticamente impossível determinar este “quando”, já que só em textos escritos podemos fazer uma datação razoavelmente confiável; o que sabemos é que, num belo dia (pode parecer um tanto metafísico, mas não é), ela começou a ser usada, tendo saído, obrigatoriamente, de uma das duas fontes vivas do léxico: ou foi criada aqui dentro, ou veio de fora, importada de uma língua estrangeira. Como vimos no artigo anterior, há controvérsias sobre qual desses processos nos trouxe esta palavra; enquanto alguns a consideram uma criação “tupiniquim”, prefiro ver nela um decalque do Inglês logomark — que tem a estrutura semelhante à de trademark, hallmark, wordmark, postmark, etc., em que mark é o núcleo e o elemento à esquerda é o especificador, como sói acontecer naquele idioma. Mas vamos adiante.

Nessa fase, em vez de dizer que “nasce o vocábulo”, acho mais adequado dizer que acabou de nascer “um broto vocabular”, o qual, à semelhança dos brotos vegetais, poderá ou não encontrar terreno fértil para vingar. O estranho verbo desaplaudir, por exemplo, também veio à luz (até hoje, só o encontrei em Mário de Andrade: “Não fazem mais do que se escravizar a um vício reinol e europeu, que já levava Bougainville a desaplaudir as representações de brancaranas nos teatros do Rio de Janeiro”), mas me parece um broto mirrado, inviável, fadado a secar e desaparecer, como ocorreu, aliás, com milhares de “promessas” desse tipo, que deixam aqui e ali, em textos dispersos, os vestígios de sua efêmera existência. Nesse sentido, é indiscutível a vitalidade de logomarca, que conquistou verbete em nossos melhores dicionários e está batendo, como qualquer um pode constatar, uma marca de sete dígitos no Google.

Ninguém a autorizou a existir; ela existe simplesmente porque foi “criada” (prefiro esse termo a “inventada”), e os falantes do Português gostaram dela e a adotaram para sempre (ou até o dia em que entre em desuso). Foi só isso — aliás, exatamente o que ocorreu, há algumas décadas, com logotipo, que também não existia e foi criada e consagrada pelo uso. Agora logotipo coexiste com a recém-chegada, o que nos obrigará a reacomodar, ao menos na terminologia técnica, a divisão de territórios entre esses dois vocábulos. Como sempre acontece nesses casos, só há dois desfechos possíveis para disputas assim: ou uma das formas sufoca a outra e a força a se aposentar, ou elas dividem o patrimônio semântico e passam a ter significados bem específicos. No presente caso, acho que por muito tempo teremos o convívio das duas palavras; cabe, portanto, aos especialistas em design e publicidade (e não aos dicionaristas ou professores de Português) a tarefa de traçar o limite mais claro possível entre elas, a fim de que a imprecisão  dos conceitos não as torne completamente inúteis.

Se lhe falta a tolerância necessária para aceitar essa e outras criações que a língua haverá de fazer, caro leitor, lembre que a Natureza plantou na Oceania a figura improvável do ornitorrinco, animalzinho esdrúxulo que tem pelo de castor e bico de pato, põe ovos, amamenta seus filhotes e tem um ferrão venenosíssimo nas patas traseiras. No início, os naturalistas suspeitaram que um animal tão incoerente fosse uma grande fraude científica, mas a grande quantidade que nada nos rios da Austrália logo os convenceu do contrário. Hoje, segundo Umberto Eco, o ornitorrinco serve para nos alertar para o fato de que sempre vai haver, bem perto de nós, alguma coisa que, embora não se enquadre nos padrões a que estamos habituados, tem todo o direito de existir.

Depois do Acordo: pêlo > pelo

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a logomarca e o ornitorrinco


Ninguém pode ser tão cego a ponto de negar a existência de um vocábulo como LOGOMARCA, que alcança 2.500.000 de ocorrências no Google e está presente em todos os dicionários importantes do idioma. E seria adequado empregá-lo? O Doutor discute o problema.

1 — Um levantamento feito nos dois últimos anos mostra que um número expressivo das colunas que escrevi foi dedicado a combater o preconceito contra determinados vocábulos que, por diferentes motivos — todos eles contestáveis —, sofrem verdadeiras campanhas de difamação na internet. Aqui um vocábulo é condenado porque é “feio”; ali, porque é “estrangeiro”; acolá, porque é “malformado”; ainda não ouvi, mas não vou me surpreender se a turba começar a jogar à fogueira da intolerância palavras por serem “gordas”, “vesgas”, “socialistas” ou “neoliberais”. A mais frequente — e mais curiosa — acusação utilizada nesse tribunal é a de “novidade”. O brasileiro médio tem demonstrado uma notória desconfiança por tudo que ele suspeite ser uma novidade lexical — e faço questão de frisar o “suspeite”, porque, muitas vezes, palavras mais velhas que a Sé de Braga passam por “novas” só por causa da incultura de seus acusadores.

Para início de conversa, o amigo leitor deve lembrar que ninguém conhece a totalidade do léxico de seu idioma, tornando-se impossível, portanto, distinguir-se o que é novo e o que não é. Entre os milhares de palavras que empregamos num simples dia, haverá talvez algumas novas, novíssimas até, mas que, por não chamarem a atenção do falante, terminam se misturando às outras como se já fossem de casa. Os dicionários até que ajudam, mas numa única direção: como sempre apresentam, por razões editoriais, uma lista incompleta e limitada de nosso vocabulário, servem ao menos para nos dizer o que não é mais novidade; quando registram uma palavra, é sinal de que ela passou a integrar definitivamente a lista das veteranas. Embora o inverso não seja verdadeiro — pois nunca poderemos determinar se a ausência de uma palavra no dicionário não se deve, muito simplesmente, a uma decisão tomada pelo sr. Houaiss ou pelo sr. Aurélio, que resolveram não incluí-la na lista por mera falta de espaço —, podemos ter certeza de uma coisa: palavra registrada não é palavra nova.

Por tudo isso, fiquei surpreso quando um leitor de Londrina escreveu para saber se a palavra logomarca existe ou não. Confesso que desconhecia essa má-vontade contra logomarca, palavra veterana no meu vocabulário, madura freqüentadora dos dicionários. Segundo ele, porém, a palavra tem inimigos figadais e “suscita querelas sem fim” (leitor qualificado é isso aí!) nos fóruns de discussão da área de design e publicidade; alguns, mais extremados, chegam a negar sua existência, acusando-a de ser um neologismo, “uma invenção de publicitários brasileiros” (acusação, eu diria, bastante singular nos tempos atuais…). Sua pergunta final — “Em suma, professor, o que faz com que uma palavra passe a existir? Uma palavra que é usada e entendida pela grande maioria e consta nos dicionários pode, ainda assim, ser considerada inapropriada?” — encerra duas questões diferentes: uma coisa é existir, a outra é ser apropriada. Vamos ver como logomarca se sai em ambos os quesitos.

O primeiro problema é saber se a danada existe. Dei uma passeada pelas páginas da internet indicadas pelo leitor e fiquei abismado de ver tantos designers e professores discutindo — vou ser franco, como sempre fui — um assunto em que não têm a menor competência. No que se refere a “neologismos”, “criação lexical”, “existe ou não existe tal vocábulo”, etc. — no que se refere a esses assuntos, repito, a comunidade dos designers, publicitários e similares pode ter, no máximo, opiniões. Nada mais do que isso. Este seu criado pode achar Walter Gropius um gênio e Niemeyer um arquiteto cujo fama está muito acima do valor que tem, pode achar os sapatos dinamarqueses mais bonitos e confortáveis do que os italianos, pode preferir os caças americanos aos caças franceses — pode, aliás, ter opinião sobre tudo, ou quase tudo, mas não passarão de opiniões do cidadão que digita estas palavaras. É preciso muito desconhecimento de como funciona uma língua para afirmar que uma palavra como logomarca — agora, janeiro de 2011, batendo mais de dois milhões e meio de ocorrências no Google — não existe ou não deveria existir! Nossos melhores dicionários — Aurélio, Houaiss e Aulete — já registram o termo há vários anos, e alguns teimosos amadores vêm dizer que o termo não existe? Isso parece a mesma atitude paroquialista dos habitantes de certos municípios que teimam em escrever à sua maneira o nome da cidade em que moram, como se o fato de viver lá lhes desse uma autoridade em ortografia maior do que a dos filólogos e gramáticos…

Alguns alegam que o termo teria sido criado por nossos publicitários. E daí? Qual é o problema? As palavras são criadas por pescadores, advogados, leiteiros, apontadores de jogo do bicho, jornalistas, prostitutas, etc. — todos criam, e só os publicitários e designers iam ficar de fora?


2 — Dois leitores especializados (C. Maciel, de Londrina, e M. Verdi, de Porto Alegre), inconformados com a perseguição movida ao vocábulo logomarca, vieram bater à minha porta em busca de munição para enfrentar as vozes — algumas delas, pasme o leitor, ainda poderosas — que se opõem ao emprego desta palavra. Para organizar a discussão, dividi o problema em dois quesitos: (1) existe o substantivo logomarca? e (2) é adequado empregá-lo? Como vimos na coluna anterior, negar sua existência é algo assim como negar a existência dos Andes (é o mínimo que posso dizer de uma palavra que tem verbete próprio em todos os bons dicionários do idioma e que, no Google, ultrapassa a marca de dois milhões de ocorrência nas páginas escritas em Português). Ora, já que existe, vamos hoje falar sobre a adequação — ou não — de empregá-la.

O maior foco de resistência a seu uso é uma obra isolada, mas importante em seu ramo — O Efeito Multiplicador do Design —, em que a autora, Ana Luiza Escorel, designer de reconhecido valor, condena logomarca com um misto de fúria e desprezo, num tom tão taxativo que fez vibrar a corda fundamentalista que muitos profissionais desta área trazem escondida no peito. Ora, não deu outra: o efeito multiplicador da internet (esse sim, esse é x.p.t.o.) difundiu por toda parte os argumentos da professora, que passaram a ser reaproveitados, ou melhor, reproduzidos, letra por letra, em vários saites e fóruns que se dedicam ao assunto. Infelizmente, como vamos ver, a autora (e seus seguidores), ao se apoiarem mais na indignação e na veemência do que propriamente na pesquisa, vêem toda sua argumentação escoar como areia entre os dedos.

Ela acusa: “Logomarca é uma dessas criações tipicamente brasileiras” (eis um jeito realmente esquisito de criticar!). Pois não é, professora; se fosse criação tupiniquim, como a jabuticaba ou o cheque pré-datado, teríamos de convir que nossos inventores de palavras acertaram em cheio desta vez, pois o vocábulo vai se tornando sucesso internacional e já figura em milhares de saites da Austrália, do Japão, do Reino Unido e mesmo dos EUA, onde aparece como logomark, logo mark ou logomarque… Isso faria logomarca ingressar naquele grupo de vocábulos especialíssimos como negro, tanque, albino, casta, cobra ou marmelada, modesta contribuição de nosso idioma para o léxico do Inglês, mas, infelizmente para mim e para a senhora (por motivos diferentes, é claro), o caminho foi o inverso: fomos nós que o importamos de lá.

E continua: “Logomarca quer dizer absolutamente nada”. (Parêntese indispensável: em algum lugar, decerto por culpa de um vil revisor, perdeu-se a negativa que sempre deve anteceder a presença de “nada”: eu não comprei nada, ninguém viu nada, logomarca não quer dizer nada. A construção *”logomarca quer dizer nada” é, em vernáculo, tão absurda quanto *”eu comprei nada” ou *”encontrei nada na gaveta”). Pois, a depender do autor, quer dizer, sim, professora. Uns chamam de logotipo o conjunto formado pela representação gráfica do nome + o símbolo visual que o acompanha; outros, porém — e Houaiss é um deles — chamam de logotipo apenas as letras do nome, em sua configuração especial, e reservam logomarca para designar o conjunto formado pelo logotipo + o sinal gráfico. No Inglês, também campeia aqui uma verdadeira dança das cadeiras, atribuindo-se, dependendo do autor e da teoria, valores diferentes a logo, logotype, logomark, wordmark, etc. Essas tempestades terminológicas são corriqueiras em qualquer área do conhecimento humano; não é por acaso que todas as teses e artigos especializados gastem boa parte da introdução para definir os limites de cada termo empregado pelo autor. Um grande escritório de propriedade industrial da Califórnia cobra bem menos para registrar uma wordmark do que uma logomark, “cuja pesquisa é mais demorada” — o que sugere que tanto os que cobram quanto os que pagam enxergam nelas coisas diferentes…

Mas voltemos ao artigo: “É espantosa a desenvoltura com que cerca de dois terços da população ligada à comunicação gráfica no Brasil usa e veicula essa coisa nenhuma [a logomarca…], com a segurança de estar brandindo um termo de alto teor técnico e expressivo”. Dois terços, professora? E senhora acha espantoso? Ora, em termos lingüísticos, a realidade está claríssima: se não se usava logomarca, agora se usa. É assim que funciona. Logotipo perdeu a parada. E não se trata daquele demagógico (e equivocado) bordão de que “é o povo que faz a língua”: foi a “a população ligada à comunicação gráfica no Brasil” (uso suas próprias palavras) que realizou o plebiscito que deu legitimidade ao termo. Mas o alcance dele ainda não está bem definido? Ora, o de logotipo tampouco, como pudemos ver.  (continua)

 

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tuitar

Antes que o estimado leitor desista de ler esta coluna, apresso-me em esclarecer que, apesar do título [alguns moderninhos escreveriam “de o título”, mas eu, para honrar os bons professores que tive, não posso cair nessa armadilha; a explicação está aqui] — apesar do título, repito, referir-se a um fenômeno da internet, pretendo tratar exclusivamente de assuntos de nosso idioma — aliás, como vem acontecendo aqui nesta coluna, sábado sim, sábado não, há quase oito anos. Marta de tal, revisora de texto (“mas de primeira viagem”, acrescenta ela, simpaticamente), quer saber como ficaria em Português o verbo relativo ao Twitter, atualmente uma das formas mais populares de relacionamento na internet. “Minha colega, também revisora, aportuguesou para tuitar, mas eu defendo twittar, respeitando a origem da palavra. Qual das duas o senhor prefere?”.

Nossa revisora — que, ao contrário de muitos de seus colegas, tem a rara virtude de confessar que está em dúvida sobre alguma coisa — acrescenta, na sua mensagem, que um professor de Pernambuco defende a mesma forma que ela, alegando que, sendo Twitter um nome estrangeiro, teríamos de aplicar aqui a “regra da nova ortografia que manda escrever com K, W e Y as palavras derivadas de um nome próprio estrangeiro escrito com essas letras”, como darwinismo (de Darwin) ou kardecista (de Kardec). Pois eu, prezada Marta, vou discordar de ti e do insigne professor, baseado em alguns princípios fundamentais que regulam o processo de aportuguesamento de um vocábulo estrangeiro.

Para os que não pertencem à tribo dos cibernautas, explico que o Twitter é uma rede social que nos permite enviar e receber mensagens curtas (apenas 140 toques — o que corresponde ao texto que escrevi do início deste parágrafo até o parêntese de abrir). Como essas curtíssimas mensagens podem ser comparadas a um breve pio, seus idealizadores batizaram a rede de Twitter, verbo do Inglês que, segundo o Oxford English Dictionary, é uma onomatopéia para designar exatamente a voz dos passarinhos. Pois aí já começa a inana: nos países de língua inglesa existe, para este verbo, a variante to tweet. Se simplesmente importássemos (meio à moda galega…) um desses verbos do Inglês, teríamos aqui uma escolha ingrata entre tweetar e twittar (não sei qual dos dois é mais horrendo). No entanto, se fizermos com eles — nota que não importa qual deles — a nacionalização que nossa língua costuma fazer com todos os vocábulos importados, ele vai ingressar aqui necessariamente como tuitar, significando “postar uma mensagem no tuíter“. Esta é a forma que recomendo, assim como recomendo tuíter também para o aportuguesamento do substantivo tweeter, nome dado ao alto-falante para sons agudos, vocábulo corriqueiro para quem trabalha no campo da sonorização de carros e de ambientes.

Outra coisa: aquele professor se refere a uma regra “da nova ortografia” que manda grafar com W os vocábulos derivados de nomes próprios estrangeiros. Para começar, essa regra é velha como a serpente. Sempre foi assim, desde o Acordo de 1943. O Novo Acordo, na sua desonestidade implícita, anunciou como novidade o que já era velho; sempre se escreveu shakespeariano, kleiniano, wagneriano, etc., seguindo o princípio absolutamente sensato de preservar a forma original dos grandes nomes das ciências e das artes que servem para batizar movimentos, teorias, correntes filosóficas e artísticas, incluindo aí vários epônimos médicos e técnicos que derivam do nome de seus inventores e pesquisadores. Se aportuguesássemos keynesiano para queinesiano — como costumamos fazer com os vocábulos comuns — seria muito difícil reconhecer, neste mostrengo, o nome de Lord Keynes, um dos mais importantes teóricos da história da Economia.

Não me parece, no entanto, que o twitter tenha esse perfil. Ele é apenas uma marca registrada estrangeira que, por sua popularidade, acabou se tornando um vocábulo comum em dezenas de idiomas (e por isso, a meu ver, já merece minúscula). Fenômeno similar ocorreu com Jeep, Teletype, Yo-yo ou Bakelite — que figuram alegremente em nossos dicionários como jipe, ioiô, teletipo e baquelite. Até mesmo nome de gente, quando não se enquadrar entre os nomes da ciência e do mundo da cultura a que nos referimos no parágrafo anterior, passa pelas devidas adaptações ortográficas ao ingressar em nosso léxico: por exemplo, de Lynch extraímos linchar, linchamento, etc.; de Boycott, boicote e boicotar. E assim por diante. Por tudo isso, acho que deverias ficar com tuitar, conjugando-o como um bom e pacato verbo regular: eu tuíto, tu tuítas, ele tuíta — ou, quem sabe, ele não tuíta, não tem vontade de tuitar e tem raiva de quem anda tuitando. A propósito: quanto a mim, eu tuíto, sim, com o codinome de @moreno_ — o que se lê, em bom vernáculo, “moreno anderlaine”.

Depois do Acordo: onomatopéia > onomatopeia

[da coluna O PRAZER DAS PALAVRAS – CADERNO DE CULTURA – ZH – 24/4/2010]

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Como se diz Como se escreve

nokia, nókia

Gostaria de saber a pronúncia correta da marca de telefone Nokia. Liguei para a Telecom e a atendente insistiu que o correto é /nókia/, enquanto defendi que fosse /nokía/. Ela informou que esta foi a instrução que recebeu no treinamento. Vem ainda a marca de camionete Hilux. Em revendas de autopeças a briga é grande; na concessionária Toyota o pessoal pronuncia /railux/, enquanto outros dizem simplesmente /rilux/. Sem mais, agradeço.

André C. P.- Cuiabá – MT

Meu caro André: deves perceber que tua dúvida é sobre a pronúncia de nomes estrangeiros, o que vai muito além do alcance da minha página (ela trata da sua, da nossa língua, lembra?). No entanto, acho que posso fornecer alguns dados para meditação. Os nomes comerciais de outros países devem, em princípio, ser pronunciados ao jeito deles, não ao jeito dos vocábulos nacionais. Sei que os finlandeses dizem /nókia/, e assim eu pronuncio. No entanto, é normal que um leitor brasileiro aí tente aplicar o padrão fonológico habitual para vocábulos com essa grafia, que leva à leitura instintiva /nokía/(rimando com folia e mania). O jeito é esperar, para ver qual delas será a preferida. No caso da Texaco, por exemplo, venceu no Brasil a pronúncia /techaco/, bem diferente da /teksakou/ dos americanos. Já nos produtos Cashemere Bouquet, patrocinadores das antigas novelas de rádio, a pronúncia vitoriosa foi a mesma proposta pelos fabricantes; apesar de exigir uma leitura à francesa, a divulgação via rádio do nome tornou fácil sua aceitação por todos: /caximir buquê/.

 Claro que está fora de questão aplicar a esses nomes as nossas exigências de acentuação gráfica ou de emprego das letras. Com são marcas estrangeiras, cada falante lê como sabe (ou acha que sabe); não é, portanto, de espantar que haja divergências na pronúncia da nova Hylux da Toyota. Por falar nisso, como é que tu pronuncias Renault? E American Airlines? E o air de Air France? E Goodyear? E quando dizes Volkswagen, o primeiro fonema que pronuncias é /f/ ou /v/? Pensa sobre isso, e entenderás a minha mensagem. Abraço. Prof. Moreno

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Como se escreve Destaque Emprego das letras

talibã, talebã, taliban ou taleban

O recentíssimo carro-bomba encontrado na Times Square e o vídeo que apareceu na internet com declarações dos possíveis responsáveis trouxeram de novo à baila um problema que tinha ficado esquecido: como se deve escrever o nome do grupo islâmico que reivindica a paternidade do diabólico engenho? A grafia correta seria talibã, talebã, taliban ou taleban? A dúvida se justifica: quem acompanha os últimos acontecimentos encontra todas essas formas empregadas nos jornais, nas revistas e nos sítios de notícias mais importantes, numa dança enlouquecida de grafias alternativas. Dois leitores já escreveram, querendo saber — assim, pão, pão; queijo, queijo qual é o correto. Para quem só quer a respostinha seca, já vou dizendo: escrevo talibã, talibãs. Para quem não se contenta com isso, vou apresentar minhas razões.

Em primeiro lugar, preciso lembrar que em nomes como esse não existe a forma correta, mas sim a mais recomendável. Isso acontece, aliás, com todos os nomes provenientes de línguas que não usam o alfabeto romano (o que aparece no teclado de nosso computador) e que precisam, portanto, ser transliterados, o que vem a ser bem diferente de traduzido. Ao traduzirmos, vamos buscar no estoque da nossa língua uma palavra que tenha um significado equivalente à palavra estrangeira. Ao fazermos a transliteração de um nome, por outro lado, tentamos reproduzir o som que ele tem na sua língua original usando o nosso próprio alfabeto o que sempre vai produzir, é lógico um resultado meramente aproximado, pois tentamos representar fonemas que nossa língua desconhece usando um sistema gráfico elaborado para dar conta da fonologia do Português. Lembro as diferentes propostas de transliteração para Kruschev (ou Khruschev, ou Khruschov, ou Kruchev, etc.), ou para o falecido camarada Mao, que eu cresci chamando de Tse Tung, e hoje aparece como Dze Dong (ou coisa assim). Quem já leu diferentes edições de Dostoiévski (ou Dostoievsky?) está acostumado a mudanças na grafia dos nomes dos personagens.

A forma talibã também é uma transliteração e, portanto, também aproximativa; de todas as outras, contudo, é a que está mais de acordo com a tradição e a que melhor se enquadra em nossos padrões fonológicos:

(1) Por que “I“e não “E” na segunda sílaba? Embora na pronúncia local, dependendo da região, registre-se um som intermediário entre o /i/ e o /e/, nas línguas ocidentais mais importantes vem prevalecendo, como no Português, a forma grafada com “I“, e não com “E“: para o Inglês, é the Taliban; para o Francês, le taliban; para o Espanhol, nosso irmão mais próximo, el talibán.

(2) Por que o final em ? Há muitos nomes asiáticos terminados em /a/ seguido de consoante nasal. Enquanto o Inglês registra tudo como –an (Afghanistan, Pakistan, Jordan; Iran, Teheran, Oman, Ramadan), nós aportuguesamos essa terminação de duas maneiras diferentes: ora como –ão (Afeganistão, Paquistão, Jordão), ora (o que é mais frequente) como (Irã, Teerã, Omã, Ramadã). Como Said Ali muito bem observa em seu Dificuldades da Língua Portuguesa, contudo, os terminados em –ão são casos excepcionais, diante da esmagadora preferência pelo final –ã. Por isso, entre talibão (nossa!) e talibã, a escolha é óbvia. O que nós não temos é o final –an, como o Inglês; é impossível, portanto, em nosso sistema, uma forma como *taliban.

Outro problema que ainda não apareceu por aqui, mas que já vou matando, já que estou com o porrete no ar, é o do plural. Acontece que, no dialeto persa falado pelos talibãs, o vocábulo é uma variante plural do vocábulo árabe talib, que significa “estudante; aquele que procura o conhecimento”; na verdade, “estudante da teologia islâmica” – o que espelha historicamente a origem do movimento, cujos líderes são filhos diretos das movimentações estudantis dos anos 60 (leia-se “anos sessenta”; há por aí os que defendem o indefensável “*anos sessentas”. Credo!). Por esse motivo, a maior parte da imprensa européia usa o vocábulo como se já fosse um plural (“the Taliban are“; “les taliban“; “los talibán“. Julgo, entretanto, que imitar essa prática no Português seria criar uma injustificável exceção ao paradigma (imaginem “os talibã“!) e ignorar a extraordinária capacidade que nosso idioma tem de deglutir os vocábulos estrangeiros e nacionalizá-los fonológica, ortográfica e morfologicamente. Já escrevi várias vezes sobre isso: para entrar no Português, o vocábulo estrangeiro tem de aprender a dançar miudinho, tratando de comportar-se como seus colegas nativos. Um talismã, dois talismãs; um talibã, dois talibãs.

 

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Flexão nominal Lições de gramática

softwares

O Doutor adverte: as palavras estrangeiras que ingressam em nosso idioma devem receber tratamento idêntico às nacionais.

Olá, Professor! Trabalho em uma agência de publicidade, e um cliente de tecnologia disse que não existe o plural da palavra software. Consultei o Houaiss e ele não diz nada sobre isso. O cliente está correto?

Carolina G. — São Paulo

Prezada Carolina: no Inglês culto formal, hardware e software ainda são considerados substantivos não-contáveis (mass nouns), o que faz com que o emprego do plural seja desaconselhado pela maioria dos gramáticos daquele idioma. Para o resto das línguas do planeta, contudo, a opinião dos gramáticos do Inglês vale menos que um tostão furado, e os dois vocábulos, que entraram no vocabulário tecnológico de dezenas de países, passaram por uma evidente evolução. Inicialmente, quando software designava a parte não-física da máquina (como na velha piada: “Software é o que a gente xinga, hardware é o que a gente chuta”), era comum usar-se este vocábulo apenas no singular; no entanto, no momento em que ele passou também a significar “programa de computador”, o plural passou a ser empregado largamente. Só para teres uma idéia, a forma pluralizada softwares bateu mais de 20.000.000 ocorrências no Google; quase todas essas páginas são escritas em países cuja língua nativa usa o S como marca do plural (Português, Francês, Espanhol, por exemplo) ou em países cuja língua, apesar de marcar seus plurais de outra forma, usa o S para os plurais estrangeiros (como o Alemão e o Italiano). É natural que assim aconteça, porque os falantes de todos esses idiomas tratam software como um substantivo normal, desconsiderando a classificação de “não-contáveis” que a gramática do Inglês atribui a ele.

Quando os vocábulo migram, eles terminam, assim como as pessoas, submetendo-se às leis do seu novo país. Não importa que gramáticos ingleses considerem e-mail como um não-contável, porque o mundo inteiro envia e recebe e-mails (no plural); não importa que, em Inglês, o plural de mouse seja mice; para nós, é mouses mesmo. E tem mais: como a internet é uma estrada que vai e vem, os próprios falantes do Inglês começam a aceitar esses plurais — a julgar pelo considerável número de artigos americanos, ingleses e canadenses que condenam a sua adoção (e que não seriam escritos se não houvesse simpatia pelas novas formas). A forma mouses, aliás, vem recebendo a preferência dos usuários técnicos e já está registrada num dicionário importante como é o American Heritage.

Prezada Carolina: o teu cliente disse que esse plural “não existe”? Ele não entende nada de linguagem. Ele poderia alegar, isso sim, que o singular é a forma recomendada no Inglês culto, ou também no uso técnico, quando estiver em jogo a oposição conceptual hardware x software. Aqui, no entanto, é diferente. Abraço. Prof. Moreno

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Etimologia e curiosidades Origem das palavras

tablóide/tabloide

Prezado Doutor: li, num artigo sobre a imprensa brasileira, que o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, é o único tablóide de grande circulação no Brasil. Como eu sei que aquele é um jornal sério, fiquei confuso: os tablóides não são aqueles jornais ingleses que vivem publicando escândalos sexuais da família real britânica?”

Roberto S. A. — Salvador

Meu caro Roberto, temos aqui duas verdades que não são incompatíveis: a primeira é que o jornal Zero Hora tem mesmo o formato tablóide; a segunda é que tens razão em pensar que se trata de um jornal sério — basta dizer que este Doutor, com toda a seriedade que o caracteriza, faz parte do rol de seus colunistas regulares… Todavia, posso entender muito bem a tua hesitação, pois a maioria das pessoas associa os tablóides à imprensa sensacionalista. Explico por quê.

Como tablóide é um termo que nos veio do Inglês, fui buscar informações no meu sítio favorito, o inimitável World Wide Words , mantido por Michael Quinion: o nome tabloid nasceu como uma marca que a indústria farmacêutica registrou, em 1884, para batizar um tipo de comprimido produzido pela associação dos laboratórios Wellcome, da Inglaterra, e Burroughs, dos EUA. Como tablet já era de uso generalizado, criaram o tabloid, formado a partir de tablet mais o elemento oid (correspondente ao nosso –óide — “que tem a forma de”). Com o tempo, o termo tabloid passou a ser usado para tudo o que tivesse a forma compacta; Quinion cita expressões como “conhecimento em tablóides”, “cartas tablóides”, “ópera em tablóide”, até chegar ao “jornal em tablóide”, expressão que ficou consagrada para designar jornais cujo formato tem a metade do tamanho dos jornais considerados “normais”, como o Jornal do Brasil, o Globo ou a Folha de São Paulo. 

ara nós, no Brasil, o termo designa apenas um formato diferente, mais compacto e, no meu entender, bem mais manejável (friso que o espaço impresso é praticamente o mesmo, aumentando apenas o número de folhas); quem já teve a experiência de ler uma Zero Hora (ou o Pasquim) na beira da praia saberá avaliar a extraordinária vantagem que ele leva sobre os jornalões tradicionais. No Reino Unido, entretanto, ele terminou designando também um estilo diferente de jornal, destinado a pessoas de pouca cultura, que só consomem notícias de sexo, violência e fofocas de celebridades (para quem tem aquela família real, é um prato cheio…). Isso vem dando um nó na cabeça dos ingleses, porque ultimamente os grandes jornais tradicionais — o Times e o Independent são bons exemplos, que podem vir a ser imitados pelo Telegraph e pelo Guardian — começaram a testar o formato menor, sem perder a sua secular seriedade; o problema vai ser como chamá-los. Abraço. Prof. Moreno

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