pop

Prezado Doutor, nas últimas décadas temos ouvido e lido o termo pop exaustivamente. Música pop, literatura pop, moda pop, juventude pop… Afinal, o que significa a palavra pop? Seria a abreviatura de “popular”?  

Marco Antonio S. – Mauá (SP).

Como intuíste muito bem, pop é a abreviatura de popular — mas do vocábulo em Inglês! Seguindo um hábito muito presente naquele idioma, o adjetivo foi “compactado” pelo uso corrente (como aconteceu, por exemplo, com fan, de fanatic, que veio dar o nosso ). Já na década de 50 falava-se de pop music; havia um grupo musical americano, inclusive, que se especializava em “pasteurizar” todas as músicas para agradar aos ouvidos mais conservadores, chamado The Boston Pops. Dependendo da tua idade, podes já ter ouvido muita coisa deles no sistema de som de restaurantes e elevadores.

Ao entrar aqui no Brasil, a única modificação que pop sofreu foi a mudança de lugar na frase: passou para depois do substantivo que acompanha, o que é natural, considerando que ele tinha migrado de uma língua que posiciona o adjetivo antes do substantivo (o Inglês) para uma que o posiciona depois do substantivo (nosso rico Português). Fora isso, continua com seu jeitão estrangeiro: (1) termina em uma consoante que nossa língua não admite em final de palavra, e (2) simplesmente ignora o nosso sistema de concordância (dizemos “os cantores pop“, “o CD traz arranjos mais pop“, etc. É um verdadeiro intruso, mas daqueles que não mais poderemos  mandar embora; temos de nos resignar a conviver com ele, pois tem lá sua utilidade. Abraço. Prof. Moreno

Na volta do correio, recebi o seguinte (e merecido!) puxão de orelha:

“Prof. Moreno: primeiramente, parabéns por sua página na Internet! É muito mais que educativa ou meramente utilitária — é possível passar horas lendo seus textos e aprendendo pelo puro prazer de aprender. Mas gostaria de corrigir um erro que não é exatamente lingüístico — é musical. Em um de seus artigos, a respeito do termo pop, o Prof. escreveu: “(…) havia um grupo musical americano, inclusive, que se especializava em ‘pasteurizar’ todas as músicas para agradar aos ouvidos mais conservadores, chamado The Boston Pops. Dependendo da tua idade, podes já ter ouvido muita coisa deles no sistema de som de restaurantes e elevadores.” 

Bem, Boston Pops só é um “grupo musical americano” na acepção restrita da palavra. O termo “grupo musical” dá a impressão de pequena banda. Só que, na verdade, a Boston Pops é a própria Orquestra Sinfônica de Boston. Nas temporadas de férias, a Boston Symphony tem duas atividades principais: o Festival de Tanglewood e os concertos de repertório ligeiro, em que adota o nome de Boston Pops. 

Note bem que “repertório ligeiro” não significa exatamente “pasteurizar” músicas. A Boston Pops apenas deixa de lado as obras mais difíceis do repertório usual de uma orquestra sinfônica e passa a tocar apenas peças mais conhecidas do público em geral. Obras curtas, menos ambiciosas, de compositores do século XIX como Tchaikovsky, Dvorák, Liszt, Brahms e Grieg são as prediletas da orquestra. Não há “pasteurização” porque as obras são interpretadas em suas versões originais. Se as gravações da orquestra são utilizadas em restaurantes ou elevadores, isso se deve única e exclusivamente ao repertório. Você chamaria a Orquestra Sinfônica de Boston de “orquestra de elevador”? Creio que não. Para ver a importância que um nome pode ter… Abraços musicais.” 

Adriano —  Curitiba

Meu caro Adriano: como diz o velho adágio, “morrendo e aprendendo”. Confesso que eu estava tocando “de ouvido” — a música dos Boston Pops era o forte da programação de uma rádio que eu ouvia na minha infância (e detestava, como qualquer guri da época). No caldeirão da memória, terminei transformando essa distante impressão infantil num vago juízo sobre o “grupo” (a Sinfônica de Boston!), o que culminou na minha heresia de chamar de “pasteurizada” a música de  Tchaikovsky, Dvorák, Liszt, Brahms e Grieg. Se não me avisas, eu jamais saberia quem eram os Pops e que eles executavam as versões originais. Essa é a vantagem de ter leitores tão qualificados para meu sítio: além de me fazerem estudar um bocado, muitas vezes ainda me ensinam.

Depois do Acordo: lingüístico> linguístico

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Então ouça o podcast Noites Gregas, do professor Moreno.