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Etimologia e curiosidades Isso e aquilo

tráfego ou tráfico

Em uma das reportagens do canal de notícias do Terra, encontrei a seguinte frase: “Os protestos também atingiram portos da costa do Atlântico e o porto de Marselha, no Mediterrâneo, bloqueando o TRÁFICO para a Córsega e o norte da África”. O vocábulo mais correto para essa situação seria tráfego, não seria?”

Guilherme Nedel

Prezado Guilherme: no Português atual, damos a tráfego o sentido de “fluxo, trânsito”; a tráfico, o de “comércio ilícito”. Do que está falando a reportagem que citas? Pode ser que tenha sido bloqueado o tráfego; seria o mais comum. Contudo, tratando-se da ligação entre Marselha e a Córsega, pode ser que tenha sido bloqueado o tráfico, mesmo, já que esta sempre foi uma das rotas preferidas pelos traficantes de todas as épocas.

Entretanto, é bom registrar que essa cômoda e funcional distinção entre os dois vocábulos é mais ou menos recente em nosso idioma. Traficar era usado para designar as atividades normais de comércio, sem a noção pejorativa que foi adquirindo. Com o tempo, no entanto, assumiu o caráter de “ilicitude” que hoje tem. Morais, no século passado, já aponta essa tendência: define o traficante como aquele “que trata em comércios, e vive de indústria”, mas acrescenta: “de ordinário se diz à má parte”. Para ele, traficar é “negociar com gírias, ardis, não lisamente; por exemplo, o que contrai dívidas e vai sucessivamente pedindo dinheiro a uns para pagar aos outros, e faz semelhantes obras”.             

Quanto a trafegar, o Aurélio e o Houaiss dão como uma variante de traficar, enquanto Morais diz que é outra forma de trasfegar, vocábulo hoje praticamente desconhecido, que significa “transfundir, passar”: “trasfegar o vinho de uns vasos para outros”. Essa me parece a hipótese mais provável, já que o Catalão, língua irmã do Português, tem trafegar para “decantar o vinho”.

O curioso é que o Inglês traffic e o Francês trafic acumulam numa só forma os sentidos de “tráfego” e de “tráfico” — pior para eles. Com certeza a notícia sobre a paralisação dos portos deve ter sido colhida em alguma agência de notícias estrangeira — daí o equívoco do redator brasileiro. Abraço. Moreno

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