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Por que fomos pedir emprestado ao japonês o vocábulo TSUNAMI? Nossa língua não tem palavra própria para designar um vagalhão desse tamanho?

Por que fomos pedir emprestado ao japonês o vocábulo TSUNAMI? Nossa língua não tem palavra própria para designar um vagalhão desse tamanho?

 

Raros serão os leitores desta coluna que já ouviram falar no dr. Castro Lopes, homem de letras que chegou a gozar de certa notoriedade no final do século XIX. Defensor fanático de uma causa equivocada — ele se opunha à “invasão” de vocábulos estrangeiros —, este filólogo diletante acabou se tornando um personagem cômico, que muito fez rir Machado de Assis e seus contemporâneos com sua indignação de opereta contra os estrangeirismos e com as soluções estapafúrdias que propunha para substituí-los. Seu livro mais conhecido é de 1889, Neologismos indispensáveis e barbarismos dispensáveis (“barbarismos” seriam os vocábulos provenientes de outros idiomas), obra em que relaciona cinqüenta palavras estrangeiras muito em voga por aqui, na época, condena-as sem piedade e, sem muito estudo ou modéstia, propõe trocá-las por vocábulos que ele próprio ia criando com retalhos do Grego e do Latim. Como a Igreja faz com seus dogmas, diz Machado, o Dr. Castro Lopes compõe palavras novas “com os elementos que tira da sua erudição, dá-lhes a bênção e manda-as por esse mundo”…

Ora, a julgar pela boa saúde de que até hoje desfrutam palavras que ele condenou (e pelo riso que despertam suas sugestões, que coloquei entre os parênteses), pode-se dizer que ele tinha razão quando se queixava aos amigos de ser tratado como Cassandra, a princesa de Troia a que ninguém dava ouvidos. Estavam na sua lista negra: abajur (lucivelo), piquenique (convescote), turista (ludâmbulo), engrenagem (entrosagem), feérico (fádico, de “fada”), drenar (haurinxugar), massagem (premagem), engomar (telisar, de “tela” + “alisar”), golpe de Estado (legicídio social), greve (operinsurreição, “insurreição de operários”), chalé (castelete). Castro Lopes também cismou com avalanche, sem se dar conta de que era natural que não tivéssemos um vocábulo para designar um fenômeno como esse, tão raro em Portugal e completamente desconhecido na geografia do Brasil. Sua sugestão foi nada menos que runimol, um pequeno frankenstein formado de ru (do Lat. ruere, “correr precipitadamente”) + ni (de nix, nivis, “neve”) + mol (de moles, “massa”): “uma massa de neve que se precipita”. Prevendo o fiasco, apontou a possibilidade de usarmos, para o mesmo fim, a palavra alude, a qual, embora não tivesse a sonoridade de runimol (segundo ele), tinha ao menos a virtude de ser muito nossa — no que também se equivocava nosso bom doutor, pois esta é uma velha importação do Espanhol…

Além disso, ele não poderia perceber que estava em andamento, aos poucos, um movimento de globalização linguística, especialmente na área científica, que veio a se consolidar com o rádio, o cinema e, mais tarde, a TV e a internet. Começava a surgir um elenco de “palavras internacionais”, sem pátria e sem fronteira, adotadas por quase todas as línguas modernas do mundo (respeitadas as evidentes peculiaridades ortográficas de cada uma). Palavras como álcool, banana, canguru, chocolate, elefante, fax, futebol, gay, hotel, jazz, jeans, microfone, ninja, planeta, rádio, sauna, táxi, teatro, telefone, tigre, vídeo, violino, xerox, ioga, zoom foram se separando gradativamente de suas línguas originais, passando a integrar um fundo lexical comum, cada vez mais numeroso. Avalanche (ou avalancha, como preferem alguns) hoje está presente em dezenas de idiomas, muito usado também pelo sentido figurado de “quantidade avassaladora” (“uma avalanche de protestos”, “uma avalanche de pedidos”).

Isso também ocorre com outros vocábulos que designam fenômenos naturais específicos de determinadas regiões. Falamos de fiordes em várias partes do mundo — inclusive no Chile e na Argentina —, embora o original venha da Noruega (fjord). Gêiser vem do Inglês geyser, que veio, por sua vez, do Islandês Geysir, nome de uma fonte de água quente no sul da Islândia, mas existem gêiseres nos EUA, na Rússia, na Guatemala, na Indonésia, na Islândia, no Japão, etc. O iceberg (já existe a grafia semiaportuguesada icebergue) vem do Noruguês is (“gelo”) + berg (“montanha”), mas está presente em dezenas de idiomas. É aqui que entra tsunami, palavra vinda do Japonês, pronunciada até a náusea nos últimos dias. Para alguns cientistas, não precisamos dela, pois designaria a onda gigantesca que também chamamos de maremoto, produzida por um terremoto oceânico; para outros, porém, maremoto designa o sismo ocorrido no mar, e tsunami seria apenas a onda por ele produzida. Seja como for (os geólogos e sismólogos que decidam), já é uma palavra do nosso léxico, que o adotou como substantivo masculino, passível de flexionar também em número: o tsunami, os tsunamis.

Depois do Acordo:
cinqüenta > cinquenta
lingüística > linguística

 

 

Sobre o GÊNERO de tsunami

Alvaro S., de Criciúma (SC), quer saber qual é o gênero dessa onda gigante que afetou a Ásia e trouxe confusão à vida de milhões. “Eu aprendi que, nas palavras novas, o uso é que vai determinar o gênero. Por ser uma onda, seria feminino. O raciocínio está correto?”

Meu caro Alvaro: tsunami já está dicionarizado, registrado como masculino tanto no Houaiss quanto no Aulete. Agora que a palavra entrou no vocabulário do falante comum, vamos ver se esse gênero se confirma, ou se a preferência vai para o feminino. Agora, não me venhas com essa de subentender onda; os técnicos vão te redarguir que eles subentendem vagalhão (eta, palavrinha feia essa!). Já fiz minhas pesquisas com algumas cobaias que estão mais perto de mim, perguntando o que eles pensam quando ouvem tsunami; a resposta deles (pode não ser correta, geograficamente, mas é o que lhes veio à cabeça) é que tsunami é um maremoto. Estás a ver como são as coisas? Por isso é que a prudência recomenda: vamos esperar, para ver como a sensibilidade dos brasileiros vai receber o termo. Abraço. Prof. Moreno



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