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o rei do roque

Se, como vimos, “crack” pode ser nacionalizado como CRAQUE, o que impedirá que “rock” se transforme em ROQUE? Nada — nem mesmo o fantasma de Elvis, nosso rei eterno e incontestável. Tudo vai depender da preferência dos fãs deste tipo de música.

O fato de eu ter afirmado, na coluna anterior, que convivemos atualmente com duas propostas ortográficas para o nome da droga mais mortífera — ou escrevemos crack, na sua forma de origem, ou escrevemos craque, já com roupagem nacional — desagradou a um leitor de Caxias que assina com o sugestivo pseudônimo de “Crazy Metal”. Ao que parece, a capa vermelha que deixou esse tourinho assanhado foi a ideia de que todas as palavras estrangeiras — excetuando-se os casos extremos, como vimos — todas elas, repito, vão terminar passando pelo processo de aportuguesamento. Como eu já disse antes, esta tendência inexorável à padronização é extremamente benéfica para o idioma, pois ajuda, e muito, a evitar a desestabilização de nossa ortografia. No entanto, por várias coisas que nosso Crazy escreveu em seu e-mail, logo deu para perceber que esta nacionalização das palavras estrangeiras choca muito seu senso estético: “Quem decide como vai ficar? Babacas como você?”; “O nome correto da pedra é crack; craque é coisa de chinelão, e eu sei do que estou falando!”; “Só falta querer dizer que rock pode ser escrito roque” — e por aí afora ele ia, o jovem e rabugento metaleiro.

Relevando o “babaca” — ando na minha fase de máxima tolerância, lembram? —, admito que às vezes essas adaptações também me parecem desenxabidas; bulevar não tem o charme de boulevard, copirraite parece um copyright de quem não foi ao colégio, uísque não soa tão sofisticado quando whisky — mas é pura cisma da minha parte: a forma aportuguesada está nos dicionários desde o final da 2ª Grande Guerra! Quer eu goste, quer não, nosso sistema engoliu e digeriu essas palavras, descomendo-as depois já com sua nova feição. Quem decide que vai ser assim? Ora, caro Crazy Metal, claro que não sou eu, nem ninguém especificamente, mas sim as forças internas do próprio sistema, que sempre atuam a favor do falante. Tornando mais concreto o que pode parecer abstrato, vou explicar melhor: pensa numa pedra irregular que seja jogada no leito de um rio: aos poucos, independentemente de nossa vontade, ela naturalmente gastará suas pontas e suas arestas, tornando-se mais lisa e polida. Pois o mesmo acontece com a palavra: jogada na correnteza do uso, vai assumir uma forma cada vez mais arredondada, até que deixe de ser um cascalho incômodo na boca de quem a pronuncia.

No caso do craque, atua uma força tão irresistível quanto a gravidade: excetuados uns poucos casos, nossa língua não admite aquelas sílabas terminadas em consoante que são tão frequentes, por exemplo, no Inglês. Por isso, sempre que um desses vocábulos é importado, damos um jeito na sílaba desengonçada, acrescentando-lhe um E: club, turf, surf, clip, lord viram clube, turfe, surfe, clipe e lorde. Isso vale para importados de qualquer língua: crack, cognac, frac, chic e bolchevik (e pensar que esta rima já esteve na moda…) viram craque, conhaque, fraque, chique e bolchevique. E o rock? Ora, más (ou boas?) notícias: se o rack de som já está se metamorfoseando em raque (300.000 ocorrências no Google — o que não é pouco), não seria de espantar que o rock um dia venha a virar roque. É claro que, neste caso, o processo vai ser muito retardado pelo prestígio da forma globalizada, mas já se pode encontrar aqui e ali quem prefira roque, variante já dicionarizada — aliás, o único radical utilizado para formar derivados como roqueiro.

Aproveito agora o espaço para mandar recado para um grande amigo meu, que ouvi no rádio, esta semana. Ele falava em lactantes e lactentes: para ele, a distinção é claríssima: lactante é quem está amamentando, lactente é quem está sendo amamentado. No animal humano, portanto, lactante é a mãe, lactente é o bebê. O que parece simples para o doutor, contudo, pode não sê-lo para seus ouvintes. Dos vários pares de vocábulos que se confundem, este é talvez o mais perigoso que conheço. Em primeiro lugar, porque não é comum, na estrutura do Português, pares que se distingam por uma oposição entre ANTE x ENTE (no vocabulário de uso geral, na verdade, este é o único que conheço). Depois — e aí a coisa fica preta —, como ambos aparecem no mesmo contexto da amamentação, a pessoa que recebe recomendações médicas pode trocar um pelo outro, com as sérias conseqüências  imagináveis. Quem emprega esses vocábulos deve estar consciente de que a maioria das pessoas não sabe sequer da existência dos dois termos; ipso facto, deve tomar todas as precauções para evitar mal-entendidos. Médico que fala em programa de rádio, então, nem pensar: deixe os dois vocábulos para quando estiver entre seus pares.

Após o Acordo: conseqüências > consequências

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Pedra de craque

Comparada ao Chinês ou ao Hebraico, nossa língua é uma jovem senhora de 900 anos, mas já tem seus hábitos e suas manias. Uma delas é impor o seu próprio sistema ortográfico aos vocábulos estrangeiros que aparecem por aqui — medida das mais saudáveis, como veremos.

Na minha caixa de correspondência (não a virtual, mas a verdadeira, daquelas que têm portinha e tudo), apareceu uma folha de papel dobrada contendo uma pergunta irritada, quase uma reclamação: “Ô, Moreno, que aporrinhação é essa agora?  Abro o jornal e só vejo gente discutindo se a pedra fumada é de crack ou de craque!  Isso é coisa do Novo Acordo? Para mim tem o dedo desses carinhas que escondem o rosto nas manifestações! Contestam tudo! E daí? Escrito de um jeito ou de outro, esses viciados vão acabar é morrendo na sarjeta…”. Não tinha assinatura, mas o fato de não estar num envelope me faz supor que se trate de algum morador deste prédio — alguém que reúne algum interesse pela nossa língua a uma rabugenta intolerância com seus semelhantes…

A verdade, anônimo vizinho, é que ambas as formas podem ser usadas. Antes de entrar em detalhes, vamos a algumas verdades básicas: dissipada toda aquela fumaceira que a discussão sobre estrangeirismos levantou, o bom senso deixou em pé um princípio com que todos parecem concordar: só devemos buscar uma palavra em outro idioma se ela não estiver à nossa disposição no Português. É uma importação estratégica: se houver similar nacional, não tem sentido algum deixar a forma vernácula mofando na gaveta para trocá-la pela forma estrangeira — a não ser, é claro, por vaidade, futilidade ou simples semostração.

Ora, ao contrário do que muitos pensam, dos vocábulos estrangeiros que andam por aí pouquíssimos podem ser classificados como desnecessários. Acredita no que digo: palavra supérflua não dura muito. Antes da 1ª Grande Guerra, os elegantes brasileiros usavam palavras como adresse (“endereço”), étagères (“prateleiras”), flâner (“passear”); robe de chambre (“roupão”), rendez-vous (“local de encontro”), réclame (“anúncio”), chalet (“casa rústica”), début (“estreia”), enveloppe (“sobrecarta”), toilette (“traje; quarto de vestir”). O que aconteceu com elas, quando submetidas à implacável peneira do tempo? Agora, no início do séc. 21, vemos que várias delas sumiram, enquanto outras — como toalete, envelope e chalé — continuam por aí, muito pimponas. O chambre já não tem a popularidade de antanho, mas respira. Randevu está nas últimas, rebaixado ao último nível moral e social. Début continua sendo usado, mas será eternamente uma estrangeira, tanto na escrita quanto na fala (não é para menos: sua pronúncia exige o temível “U” com biquinho, que pouca gente consegue reproduzir); em compensação, terminou nos dando debutar, um verbo de razoável utilidade, pelo qual lhe somos gratos. Quem sabe como elas estarão no início do séc. 22?

Faço questão de frisar, indignado leitor, que muitas vezes a caça aos vocábulos estrangeiros é motivada por falta de informação (ou cultura) do caçador, que pensa, erroneamente, ter encontrado um sinônimo idêntico no Português. Não faz muito um jornalista vociferava, no rádio: “Parem com essa mania de usar nome importado para fingir que a coisa é fina! Mas quando se ouviu falar em iogurte? Parem com isso! Iogurte é a nossa velha coalhada!” — e dê-lhe ponto de exclamação! Confesso que fiquei impressionado com a veemência de seu discurso; no entanto, como sempre desconfio daquilo que vem gritado, seja na fala ou na escrita, fui consultar um queijeiro amigo, que me aconselhou a não levar a sério o jornalista, já que os dois — o iogurte e a coalhada — são tão parecidos quanto um porco e uma ovelha…

Portanto, quando encontramos uma palavra realmente intraduzível, devemos convidá-la a morar entre nós, deixando assim nosso léxico mais rico. Ao recebê-la, podemos tratá-la de duas maneiras: a mais comum — e mais desejável — consiste em limpá-la das peculiaridades ortográficas da língua de que proveio e adaptá-la ao nosso próprio sistema, mantendo o máximo possível de sua pronúncia original. Foi o que aconteceu com chalé e randevu, nos exemplos acima, ou com nhoque (gnocchi), blecaute (blackout) ou saite (site). Se esta hipótese for inviável (o produto da adaptação pode ficar tão esquisito que iniba sua adoção pelos usuários), ela então entrará na forma com que nasceu, escrita em grifo ou entre aspas: marketing, pizza, software, freezer. Na linguagem esportiva, o inglês crack, significando o jogador de exceção, há muito foi nacionalizado para craque; quando a mesma palavra passou a designar, no Inglês, a nova droga mortífera, é natural que se abrisse aqui também a possibilidade de designá-la por sua versão aportuguesada (o dicionário Aulete já registra esta variante). As duas formas agora vão disputar nossa preferência. No momento, dá crack de vareio; daqui a cem anos, escrevo outra coluna sobre o assunto.        

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Conceitos lingüísticos Destaque Questões de estilo

Se sim

“Você vai ao cinema hoje? SE SIM, deixe a chave com o vizinho”Você estranha esta construção, caro leitor? SE SIM, tem todo o direito de não empregá-la, embora ela esteja correta e, para o meu gosto, soe melhor do que muitos de seus possíveis substitutos.

Um leitor que mantém na internet um serviço de relacionamento entre solteiros de vida alegre vem pedir que eu o ajude a polir uma frase que aparece bem na entrada de seu saite (os portugueses, mais elegantes, chamariam de sítio; outros preferem site, à inglesa): “Você faz parte deste grupo? Se sim, digite o seu número de inscrição; se não, preencha o formulário de registro”. Ele próprio é o autor da frase, mas, como honestamente me informa, ela tem arranhado seu ouvido desde o dia em que a concebeu. “Professor, tem alguma coisa aí que não me cai muito bem. Usar as expressões se sim ou se não como resposta a uma pergunta não é considerado mau Português? Por exemplo: ‘Você vai sair hoje? Se sim, não esqueça o guarda-chuva’. Não sei justificar, mas a expressão soa esquisito, e as alternativas que me ocorrem — “em caso afirmativo”, “em caso negativo”, etc. — parecem um pouco pernósticas para um saite descontraído como o meu”.

Ora, ora, quem diria! Um internauta preocupado com sutilezas da linguagem! É ave rara? Claro que não; conheço centenas deles. Aqueles profetas do apocalipse que vivem dizendo que a internet será o túmulo da boa linguagem esquecem que a rede — assim como o tinteiro, a pena de ganso ou a máquina de escrever — é apenas um meio de trocar e estocar informações, e que as pessoas articuladas vão sempre escrever melhor que as outras, mesmo que utilizem sinais de fumaça.

Como podes ver, meu amigo, “mau Português” nunca poderá ser, já que Machado, Camilo, Miguel Torga e Saramago, entre outros, usaram e usam o se sim (o se não dispensa maiores cuidados, de tão corriqueiro que é). Dois excelentes exemplos nos vêm de Machado (em Dom Camurro e em Memorial de Aires, respectivamente): “Não sei se alguma vez tiveste dezessete anos. Se sim, deves saber que é a idade em que a metade do homem e a metade do menino formam um só curioso”; “A idéia é saber se Fidélia terá voltado ao cemitério depois de casada. Possivelmente, sim; possivelmente não. Não a censurarei, se não: a alma de uma pessoa pode ser estreita para duas afeições grandes. Se sim, não lhe ficarei querendo mal, ao contrário”.

Não se costuma condenar uma construção aprovada por autores da primeira água. Agora, usá-la, isso quem vai decidir és tu, porque ninguém é obrigado a seguir o gosto deste ou daquele escritor. Sempre existem outras formas também corretas de dizer a mesma coisa — basta queimar um pouquinho as pestanas. No exemplo apresentado — “Você faz parte deste grupo? Se sim, digite o seu número de inscrição” —, aquele “se sim”, que te soa tão mal (mas que a mim não desagrada), pode ser trocado por “se fizer, digite…”, “caso faça, digite…”, “se a resposta for sim, digite…”, “em caso afirmativo, digite…”, e mais outras, certamente, que não me ocorrem no momento. Não te esqueças: o idioma nos oferece centenas de recursos possíveis, e entre eles vamos escolhendo aqueles que mais nos agradam. A soma de nossas escolhas é, no fundo, aquilo que chamamos de “estilo”.

E já que estamos falando de escolhas, aproveito para dar uma satisfação aos leitores que estranharam uma construção que utilizei numa coluna da série Homens e Mulheres, publicada no Segundo Caderno há pouco mais de um mês. Falando das Musas, escrevi que “as roupas diáfanas e esvoaçantes que usavam mal e mal ocultavam o seu corpo escultural“; três leitores, o que não é pouco, escreveram no dia seguinte para sugerir, cada um à sua maneira, que deveria teria havido aqui um erro de revisão do jornal (forma diplomática de perguntar se eu não tinha cometido um erro de concordância): se tudo está no plural — as Musas e todo o resto —, a forma correta não deveria ser “as roupas diáfanas e esvoaçantes que usavam mal e mal ocultavam os seus corpos esculturais“?

Não, meus amigos, não deveria — poderia, mas não deveria. Em casos como este, embora também esteja correto o plural, o mais elegante, para mim, é usar o singular, como fazem dezenas de escritores que respeito e admiro. Em outras palavras, apesar de me referir a um conjunto de pessoas, posso deixar no singular esses vocábulos que se trazem implícita a ideia de “cada um com o seu”: “Os professores torceram o nariz diante da proposta” (os narizes?); “Ali eles perderam a vida” (as vidas?); “Dê o nome dos rios navegáveis da Amazônia” (os nomes?); “Aqui vai a lista com o endereço dos participantes” (os endereços?); “Os alunos escreviam com a cabeça baixa” (as cabeças baixas?). Repito: o plural, aqui, embora correto, parece-me desajeitado e desnecessário, o que me levou a falar no “corpo escultural das Musas”. Eu estava apenas exercendo o direito de escolher, entre duas formas corretas, aquela que mais me agrada — o mesmo direito, aliás, exercido pelos três leitores que preferiram o plural.

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NOTA: aproveito para informar aos amigos que inicio, neste janeiro, um curso de verão de Português, na Casa de Ideias, no Shopping Total. Mais detalhes no telefone 30187740 ou em www.casadeideias.com.

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Acordo ortográfico Como se escreve Destaque Questões do momento

Bom dia!

“Bom dia!”, “Boa tarde!”, “Boas festas!”, “Bom jogo!”, “Bom almoço!”, “Boa aula!” ou “Bom enterro!”,  tudo isso se escreve SEM hífen. O “bom-dia” que está no dicionário é vinho de outra pipa.

Bom dia, amigos. Todo professor de Português sabe, por experiência, que aquilo que é dúvida para um geralmente é dúvida também para muitos. Pois ao longo deste ano, três diferentes leitores — Edmilson (de São Carlos), Lúcia (de Curitiba) e Deborah (de São Paulo) — trocaram correspondência comigo sobre a necessidade ou não de usar hífen em bom dia ou boa noite, problema que, acredito, já aflige muitos de meus leitores — ou vai terminar afligindo, porque, como se sabe, o hífen sempre vai ser a pulga da nossa camisola. Para pôr ordem na minha explicação, vou aproveitar a formulação das perguntas que recebi sem fazer a devida identificação de seu autor. Como veremos, ambas as formas — bom-dia ou bom dia — existem, mas correspondem a duas situações completamente diferentes.

(1) “Professor, não entendi exatamente o que os dicionários e o Novo Acordo estabelecem quanto à hifenização de bom dia. Quando se trata de um substantivo, não tenho dúvida em usar o hífen (Ele deu um bom-dia e saiu). Mas, e quando estou simplesmente cumprimentando alguém? Acho que o hífen não é necessário (Bom dia, papai!), mas muita gente defende o contrário, com base no que aparece nos dicionários. O dicionário Houaiss, por exemplo, hifeniza”.

(2) “Caro Professor, em uma mensagem eletrônica ou em uma carta, o cumprimento bom-dia deve ser hifenizado, não é? De acordo com o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, esta habitual saudação é vocábulo grafado com hífen. O Houaiss ratifica tal ponto de vista. Afinal, ao iniciar o dia, o bom-dia é um cumprimento, pois não? Posso pensar assim?”.

(3) “Professor, o Vocabulário Ortográfico registra o vocábulo bom-dia com hífen; achei estranho e escrevi para a Academia Brasileira de Letras, que agora mantém um serviço denominado ABL Responde, para perguntar se haveria alguma outra situação em que se pudesse usá-lo sem hífen. Sabe o que eles me responderam? Que bom-dia cumprimento sempre tem hífen, mas pode ficar separado em casos especiais — como passei um bom dia na casa de veraneio de meu irmão. Não é de amargar?”.

Em primeiro lugar, vamos deixar bem claro que a grafia deste vocábulo não sofre alteração alguma com o Novo Acordo, que não tocou neste assunto. Em segundo lugar, é fundamental que se leiam os dicionários tecnicamente, prestando-se atenção aos mínimos detalhes registrados no verbete. Tanto no Houaiss quanto no Vocabulário Ortográfico o bom-dia hifenizado vem seguido pela abreviatura “s.m.”, que indica tratar-se de um substantivo: “Ele me deu um bom-dia seco e mal-humorado”, ou “Deu um alegre bom-dia e foi sentar em seu lugar”. Neste caso, como bom substantivo que é, pode vir acompanhado dos acessórios de sempre (artigos, possessivos e adjetivos): “Já estou farto desses teus bons-dias cheios de segundas intenções”.

É evidente que isso nada tem a ver com o outro “Bom dia!”, aquele segmento de frase que dizemos quando encontramos alguém ou dele nos despedimos; como num iceberg, só lhe vemos a pontinha,  porque o resto da frase está elíptico: [Desejo que você tenha um] “bom dia!” — o mesmo fenômeno que ocorre com fórmulas de agradecimento como grato ou obrigado, que nada mais são que o final de sequências subentendidas: [fico-lhe] obrigado, [fico-lhe] grato.

Portanto, amigos, seja qual for a circunstância — carta, bilhete, e-mail, etc. — a saudação vai ser escrita sem hífen. É uma locução, ou seja, é uma sequência de vocábulos autônomos; ela pertence ao mundo da sintaxe, o que a  deixa fora da área de alcance do emprego do hífen, sinal que está restrito ao interior de um vocábulo composto. O “Bom dia!” com que abro a coluna de hoje é uma saudação da mesma tribo de “Boas festas!”, “Bons ventos!”, “Bom Carnaval!”, “Boa viagem”, “Bom almoço!”, “Boa hora” (que se diz para as gestantes), e assim por diante.

A diferença entre as duas situações fica ainda mais evidente se compararmos a concordância de gênero que ocorre em “Tenha uma boa tarde” (é uma locução; poderíamos inverter para “Tenha uma tarde boa“) com “Deixo aos ouvintes o meu boa-tarde” (neste caso, um substantivo composto masculino).

 

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Ainda as paraolimpíadas (conclusão)

Veja por que os esquisitíssimos *paralimpíada e *paralímpico jamais poderão conviver pacificamente com os demais vocábulos que compõem o nosso léxico.

Como deixei bem claro na coluna anterior, é impossível conviver com uma formação tão esdrúxula quanto a famigerada “paralimpíada”, que não só contraria o que já foi consagrado pelo uso e pelos dicionários (Houaiss, Aulete e o próprio VOLP só registram paraolimpíada), como também viola princípios básicos do funcionamento da língua portuguesa. A criação lexical não vai parar nunca, enquanto o Português for uma língua viva, mas os vocábulos — tanto os que já existem como os que haverão de ser criados — nascem seguindo determinados parâmetros imutáveis, gravados, digamos assim, no DNA do idioma.

É possível que surja, de vez em quando, um vocábulo tecnicamente “malformado”, mas ele só vai conviver em nosso meio se os falantes, de alguma maneira, nele enxergarem uma fisionomia conhecida. Um excelente exemplo é vestibulando: de alimentar, graduar, adotar e analisar produzimos substantivos com a noção implícita de “aquele que deve fazer ou ser”: o alimentando, o graduando, o adotando, o analisando. Não seria descabido, portanto, afirmar que este sufixo serve para formar substantivos a partir de verbos da 1ª conjugação. Ora, os falantes aplicaram esta regra ao adjetivo vestibular (para entrar na universidade, prestamos um concurso vestibular — isto é, de ingresso) e geraram vestibulando, que decididamente não é “aquele que vai ou deve se vestibular”. E daí? Por ser fruto de um acidente genético, não tem direito a viver? Quem vai decidir é o plebiscito silencioso do uso: cada vez que alguém o emprega, está votando por sua existência, e hoje, no Google, ele está batendo dois milhões e meio de ocorrências. Como meu mestre Luft dizia, em off (vocábulo tupi-guarani que até hoje conserva grande utilidade): “Palavra nova é como macarrão; atirou na parede e colou? Então essa não morre mais”.

Infelizmente, “paralimpíada” não tem, como tem vestibulando, aquele rosto conhecido que a faria passar despercebida no meio das outras. Sua nota destoante —     o que realmente nos incomoda — é o desfiguramento do radical olímpico com a eliminação do “o” inicial, algo impensável no nosso sistema de formação de palavras. No Português, o radical não costuma perder fonemas, principalmente aqueles que o iniciam. Explico melhor: os radicais são os donos da casa, os prefixos são eventuais visitantes. Se, ao unirmos os dois, for necessário suprimir algum fonema vocálico, quem vai sofrer a amputação será — invariavelmente! — o prefixo. Por exemplo, ao formarmos vocábulos como para+estatal, para+esportista e para+esgrimista (estou usando o símbolo “+” apenas para assinalar o limite entre os dois componentes), o prefixo não perde fonema algum de sua configuração original. Nem sempre, porém, ele vai ter esta sorte: em par+encéfalo, par+estesia, par+odontia, sua vogal final foi suprimida para permitir uma ligação harmoniosa com o radical.  Repito: se alguém tem de ceder, não vai ser o radical, que precisa estar intacto para ser reconhecido.

Em certos casos, até, podem coexistir variantes que se distinguem apenas pelo maior ou menor grau de concatenação dos dois elementos (o que vem a ser, como o leitor já deve ter percebido, a velha diferença que se estabelecia entre a aglutinação e a justaposição): os dicionários nos permitem escolher entre termo+elétrica ou term+elétrica, hidro+avião ou hidr+avião — mas não podemos sequer imaginar formações em que a vogal final do prefixo seja preservada à custa do sacrifício da vogal inicial do radical. Vocábulos como *termo+létrica e *hidro-vião seriam tão absurdos quanto seriam, no parágrafo anterior, *para+ncéfalo, *para+stesia e *para+dontia.  Que se aceitem, ao lado de para+olimpíada e para+olímpico, variantes como par+olímpico e par+olimpíada é perfeitamente defensávelmas jamais abantesmas do calibre de *para+límpico ou de *para+limpíada, como querem nos impingir, que parecem muito mais associadas a limpo e limpar do que a olímpico e olimpíada. Os ingleses não se importam com paralympics e paralympism porque, para eles, os efeitos colaterais são inexistentes; aqui, no entanto, dizer que tal medalhista é o “grande destaque do paralimpismo brasileiro” sugere atividades mais relacionada à limpeza que ao esforço esportivo e permite (não fosse o brasileiro malicioso!) algumas ilações bem escatológicas… 

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Finalizando, aproveito para comunicar aos amigos que em outubro, na segunda quinzena, terá lugar uma nova edição do meu curso de quatro encontros sobre as mudanças que o Acordo Ortográfico introduziu na nossa maneira de escrever. Mais detalhes pelo fone 30187740 ou em  www.casadeideias.com.

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Ainda as paraolimpíadas

 É de amargar! Como num passe de mágica, a maior parte da imprensa brasileira perdeu o seu tradicional espírito crítico (juntamente com o bom-senso) e aderiu cegamente a esta malparida PARALIMPÍADA.        

 

Confesso que não entendi essa aceitação pacífica — quase ovina, eu diria — com que a maior parte da imprensa brasileira engoliu uma aberração do calibre de “paralimpíada”. Os meios de comunicação, sempre tão sensíveis (e críticos) a qualquer inovação vocabular — lembro, por exemplo, de quanta tinta se gastou para comentar o imexível do ministro Magri ou o sugerimento de Dunga, palavras, aliás, formadas dentro dos mais legítimos princípios do idioma —, desta vez aderiram imediatamente a esta malparida “paralimpíada” e ao não menos lamentável adjetivo “paralímpico”. “Foi exigência do Comitê Nacional”, dizem uns; “do Comitê Internacional”, emendam outros — como se alguma instituição desportiva, política, religiosa, financeira, jurídica ou o que seja, desta ou de qualquer outra galáxia, tivesse o poder de determinar a forma das palavras que nossa língua produz ou deixa ingressar em seu léxico! Se, com muita boa vontade, equipararmos o nome de um comitê esportivo a uma marca registrada, podemos até admitir que ele seja grafado de acordo com a vontade ou fantasia do dono (ou dos dirigentes). No entanto, assim como as corporações que produzem a Gillette e o Band-Aid nada podem fazer se resolvemos criar, a partir de seus nomes, os substantivos gilete e bandeide, os referidos comitês não vão influir, com suas decisões privadas, na grafia de palavras como paraolimpíada  e paraolímpico, já de uso comum e assim registradas em todos os nossos bons dicionários.

A língua inglesa, de onde veio a novidade, tem lá suas desculpas por ter produzido essa aberração: segundo o Oxford English Dictionary — o incomparável OED —, o termo paralympic foi cunhado nos anos 50 a partir da união de pedaços dos vocábulos paraplegic e olympic, já que, em sua primeira edição, o evento era dirigido exclusivamente para quem sofria algum tipo de paralisia. Este tipo de fusão lexical (chamada tecnicamente de amálgama, mesclagem, palavras-valise, etc.), que junta o segmento inicial de uma palavra ao final de outra para formar uma terceira, é bastante produtivo no Inglês: smog (smoke+fog), bit (binary+digit), brunch (breakfast+lunch), fanzine (fan+magazine), freeware (free+software), entre dezenas de outras. Duas delas, inclusive, passaram a fazer parte de nosso vocabulário técnico: mecatrônica (mechanics+electronics) e estagflação (stagnation+inflation).

Em nossa língua, no entanto, esse é um processo exótico, usado principalmente por quem busca o efeito crítico ou jocoso que as palavras amalgamadas despertam: showmício, portunhol, brasiguaio, bebemorar, chafé (café muito diluído), namorido (é mais que um namorado, mas menos que um marido — vocábulo que, misteriosamente, ainda não tem o seu equivalente feminino…), onguessugas (usada para ONGs não muito honestas), chocólatra, etc. Os humoristas de primeira linha (no meu dicionário, aqueles que descobrem, para alegria geral, as pepitas de humor que se escondem no idioma) exploram bastante este veio. É o caso de barcilo, “bactéria encontrada num bar”; boicejo, “o tédio do marido da vaca”; cartomente, “adivinha que nunca diz a verdade” (todas do Millôr Fernandes); ou de marmúrio, “barulho longínquo do mar”; zerossímil, “que não se parece com nada”; e triglodita, “muito, muito primitivo”, do nosso Luís Fernando Verissimo. Como se vê, esse curioso processo de criação produz vocábulos efêmeros, apropriados para situações especiais, lúdicas ou literárias, mas não faz parte daquela “máquina de fazer palavras” que todos os falantes do Português usam desde pequeninos.

O interessante é que paralympics tornou-se discutível mesmo no Inglês, sua língua de origem:  como os jogos passaram a incluir portadores de outras deficiências, a ideia primitiva de paraplegics desapareceu, e o vocábulo passou a ser reanalisado como para+olympics, onde o primeiro elemento é o prefixo de origem grega “para”, que significa, entre outras coisas, “semelhante, paralelo” — o mesmo que encontramos em paramilitar, paradidático e paramédico, ideia também presente na paraolimpíada, que passou a ser um evento regular, paralelo e estreitamente relacionado à olimpíada.

Não me cabe criticar os ingleses por persistirem no uso da forma primitiva; afinal, eles têm uma rainha, dirigem do lado errado da estrada e devem ter lá os seus motivos para se conformar com paralympics — mas asseguro que aqui é diferente: não há como justificar, no Português, esta forma esquisita, que causa estranheza a todos os que entram em contato com ela. (continua)

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tudo a ver

Há mais de trinta anos uma leitora procura justificativas para a grafia “tudo haver”. Talvez seja um alívio para ela saber que a forma correta é “tudo A VER” — e que “tudo haver”, “tudo a haver” ou “tudo há ver” são combinações inaceitáveis em nosso idioma.

De tudo aquilo que a escola nos ensina, nada nos marca mais fundo que as palavras que ouvimos de nossos mestres prediletos. Nas séries iniciais, então, a confiança na sabedoria da professora é ampla, total e irrestrita — e ai do sacrílego que ousar corrigir algum de seus ensinamentos! (Perguntem se alguma vez consegui convencer filho meu ou filha minha de que determinada regra de Português aprendida no colégio estava errada… Jacaré conseguiu? Pois nem eu…). É claro que muitas dessas “verdades” vão pouco a pouco perdendo o brilho à medida que nos distanciamos no tempo, mas algumas delas se entranham de tal forma nos tecidos de nossa mente que nos custa admitir que está na hora de expulsá-las, mesmo desconfiando de que são moeda falsa.

Um exemplo tocante é a leitora Elena V., de São Paulo, que escreveu a esta coluna em busca de um aliado para uma idéia que ela defende, quixotescamente, há muito tempo. “Professor, tenho esta dúvida desde que deixei o ensino fundamental, há mais de trinta anos, mas não tive sucesso em solucioná-la: na 5ª série, aprendi com minha professora de Português que a expressão correta seria “tudo haver”, e não “tudo a ver”, como escrevem por aí. No entanto, eu era sempre rechaçada quando empregava a forma que considero correta. Mesmo na faculdade perdi pontos em trabalhos e exames pela grafia “tudo haver”, que era corrigida por todos os professores. A coisa ficou pior quando a TV Globo começou a usar “tudo a ver” como bordão de sua programação, porque aí todos mencionavam a emissora para mostar que eu estava errada”.

Numa comovente fidelidade às ideias transmitidas pela antiga professora, ela continua narrando sua cruzada: “Comecei então a pesquisar em gramáticas e em sites dedicados à língua portuguesa, mas as referências a qualquer uma dessas duas formas de grafia eram inexistentes. Consultei, inclusive, estudiosos e nativos de outros idiomas (de origem latina e germânica), e alguns deles responderam que, pela lógica dos próprios idiomas, a grafia correta poderia ser “tudo a ver”, o que só me confundiu ainda mais. Numa pesquisa no Google, percebi que as duas formas são usadas atualmente, embora haja predominância do “tudo a ver”. Pergunto-lhe: será que há luz no fim do túnel? Será que um dia a forma que defendo vai finalmente prevalecer?”.

Pois então, minha cara Elena, sinto desiludir-te, mas sempre foi “tudo a ver”, “nada a ver”. A TV Globo, desta vez, não tem culpa alguma: assim está no Houaiss, assim está no Aurélio, mansamente registrado. Não há motivo para dúvida; haver, aqui, não caberia em nenhum de seus sentidos, e as sequência “*nada haver”, ou  “*nada a haver”, assim, com o verbo no infinitivo, são absolutamente impossíveis no Português. Vais encontrar, aliás, a mesma estrutura no Francês, língua irmã da nossa, na qual “isso nada tem a ver comigo” fica exatamente “ça n’a rien à voir avec moi” (o Espanhol usa “tiene que ver“, igual ao “tem que ver”, que também usamos aqui no Brasil.

É assim que vais encontrá-la em Rubem Braga: “E se na verdade não somos pescadores nem aviadores, que temos a ver com o vento?”; “Afinal, o leitor nada tem a ver com o que me aconteceu em Casablanca”. E em Monteiro Lobato: “Que tem a Lua a ver com isso?”. Dentre as dezenas de ocorrências em Nelson Rodrigues, escolho duas: “Aquele que estava diante de mim nada tinha a ver com o suave, o melífluo, o pastoral d. Hélder da vida real” e “As nossas conversas eram tristes, porque o amor nada tem a ver com a alegria e nada tem a ver com a felicidade”. Em Érico Veríssimo também: “Pois esta revolução, meu filho, não tem nada a ver com jogo de xadrez”; “A inteligência não tem nada a ver com a fé — replicou Rodrigo”. Em Carlos Drummond de Andrade, nosso poeta maior: “Eu preparava pastas de documentos e as mandava para lá, não tinha nada a ver com a política do governo”; “Eu sofria quando ela me dizia: — Que tem a ver com as calças, meu querido?”. Do outro lado do Atlântico, comparecem Saramago (“prova de que o meu íntimo não tem nada a ver com este caso”) e Lobo Antunes (“Porque não tinha a ver com o processo”). Queres mais? Clarice Lispector: “Que é que você e o sol têm a ver com a poesia?”. Carlos Heitor Cony: “Zizinha aceitava tudo, achou até que o amor àquela cobra tinha alguma coisa a ver com são Francisco de Assis” — e muitos, muitos outros, que não preciso mencionar porque acho que já dei exemplos bastantes. Algo me diz, no entanto, que minha resposta não vai pôr fim ao teu tormento de tantos anos, e vais continuar procurando alguém que te justifique o “haver”… Esquece isso, Elena; absolve tua professora, que devia ser excelente, a julgar pela marca que deixou na tua vida, e parte para uma nova dúvida, que um novo ano se aproxima.

Depois do Acordo: idéia > ideia

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Como se diz Destaque Fonologia

A OSPA e a osga

Uns enfiam o pé na /pôça/, outros na /póça/; uns dizem /algôz/, outros preferem /algóz/ —  e todos clamam que estão com a razão. A mesma hesitação se manifesta na hora de pronunciar as vogais de uma sigla: a Ospa (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre) é /ôspa/ ou /óspa/? Veja o que está por trás disso tudo.

Publicar alguma coisa na internet gera conseqüências tão imprevisíveis quanto lançar ao mar uma mensagem na garrafa. Há quase dez anos, quando o www.sualingua.com.br era tão jovem que ainda não comia com a mão, respondi a uma consulta de um casal de músicos de Porto Alegre, integrantes da Ospa, que estavam intrigados com o fato dos vocábulos harpa e arpejo serem escritos de maneira diferente. “Se ambos vêm da mesma raiz, arpejo também não deveria ter H?”, perguntavam os dois, com absoluta propriedade. A razão desta discrepância ortográfica, expliquei, foi a loucura que fez a Itália ao suprimir o H inicial de todos os vocábulos (Port. homem, Esp. hombre, Fr. homme — mas It. uomo; Port. hora, Esp. hora, Fr. heure — mas It. ora). Ora, arpejo, como a maior parte de nossos termos musicais, veio do Italiano arpeggio — e como lá a velha harpa virou arpa, deu no que deu…

Vai daí que esta garrafa vagou pelo ciberespaço por quase uma década, até que minha antiga resposta veio despertar no jovem Michel P., de 15 anos incompletos, uma dúvida que ele classifica de “atroz” (não lembro bem, mas acredito que, nesta idade, minhas dúvidas também costumavam ser “atrozes”): “Professor, como é que se diz em voz alta o nome de nossa orquestra? É /óspa/ ou /ôspa/? Meu avô, aqui em Lajeado, fala com o O fechado, mas ele é meio alemão e aí não conta, porque fala tudo assim, até /bôsta/” [uso as barras inclinadas para assinalar que estamos falando da pronúncia, não da grafia].

Talvez não saibas, meu caro Michel, que a resposta à tua pergunta serve para dividir os gaúchos em duas facções que não se bicam, assim como chimangos e maragatos, gremistas e colorados. Conversando com Luiz Osvaldo Leite, presidente honorário da república de seus amigos e um dos grandes incentivadores da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, fiquei sabendo que não há entrevista sobre a Ospa em que não lhe perguntem a opinião: afinal, como é que se diz? A resposta que ele dá é a mesma que eu daria: cada um pode escolher a que mais lhe aprouver — mas a tendência dominante é, sem dúvida, a pronúncia aberta do O. Cabe a mim, nesta coluna, explicar o porquê disso tudo.

Em primeiro lugar, por que existe esta dúvida? Ora, ela nasce da tradicional hesitação que os brasileiros têm na determinação do timbre do O e o E em dezenas de vocábulos. Nossas gramáticas e dicionários vivem discutindo a pronúncia de dolo, algoz (dizemos /ô/ ou /ó/?), quibebe, coeso, extra, obsoleto (dizemos /ê/ ou /é/?), entre muitos outros em que a escolha entre aberto e fechado ainda não está consolidada pelo uso. E não se espante com isso o leitor: se, por um lado, a ortografia é regulamentada e fixada por uma norma específica, nada semelhante existe para a língua falada, que abriga um sem-número de variantes regionais, etárias e sociais. Como já mencionei em colunas anteriores, uns metem o pé na /póça/, outros o metem na /pôça/; há quem faça /ióga/, há quem prefira /iôga/. Não é de estranhar, portanto, que as pessoas se dividam quanto ao nome da nossa orquestra sinfônica.

Em segundo lugar, a tendência a priorizar a pronúncia /óspa/ coincide com o padrão dominante nessa configuração fonológica: birosca, cosca, gosma, losna, bosta, morta, amostra, aposta, costa, hoste, posta, resposta (e, muito parecida, a osga, nome daquela simpática e inofensiva lagartixinha de parede). Vocábulos femininos com O fechado existem, mas são minoria: mosca, rosca, lagosta, fosca, tosca, crosta, ostra ─  e não é por acaso que se ouve, por hipercorreção, um e outro candidato a celebridade pronunciando /óstra/… É por isso, aliás, que nossos bons dicionários  indicam, entre parênteses, quando o E ou o O são fechados; quando nada mencionam, é porque a pronúncia é /ó/ ou /é/, ou seja, as vogais abertas são tomadas como “default“.

Em suma, caro Michel, eu uso e recomendo a pronúncia aberta, embora nada tenha contra  os partidários de /ôspa/. Só lhes peço que aposentem o velho argumento de que o O, nesta sigla, como representa a vogal inicial de /ôrquestra/, também deveria ser fechado. Não é assim que as coisas funcionam; basta ver, em siglas corriqueiras, que não há correspondência necessária entre o timbre da vogal da sigla com o da vogal da palavra representada: IBOPE (o O está por “Opinião”); SEC (o E está por “Educação”), GBOEX (o E está por “Exército”), CEP (o E está por “Endereçamento”), BO (o O está por “Ocorrência”), e por aí vai a valsa.

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BOLETIM:  o Sua Língua agora publica um boletim quinzenal com tópicos diversos (e inéditos) sobre nosso idioma. Veja o 1º da série AQUI.

Depois do Acordo: conseqüência > consequência

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Como se escreve Destaque Etimologia e curiosidades Semântica

velas e velórios

 

Assim como o verbo SELAR é o ponto de encontro de duas famílias distintas — selo e sela —, VELAR também serve a dois senhores.

Imagine o leitor que dois pequenos rios, nascidos a dezenas de quilômetros um do outro, desçam para o mesmo vale e ali acabem misturando as águas para formar um

novo rio que as levará para o mar. Algo muito semelhante ocorre, com freqüência, no mundo das palavras, como você poderá ver no exemplo que descrevo a seguir: a partir do Latim sigillum, nosso idioma produziu sigilo e selo, dois vocábulos que antigamente designavam o sinete que tornava inviolável uma carta ou um documento. Com o tempo, sigilo assumiu o significado de “segredo”, enquanto selo passou a designar também a estampilha que corresponde ao porte que deve ser pago para enviar qualquer correspondência. Este é o primeiro rio.

Bem longe dali, a partir do Latim sella (“cadeira, assento”), formou-se o substantivo sela, nome genérico do assento de couro que usamos nos animais de montaria. A bicicleta, que é o cavalo urbano, recebe uma versão reduzida da sela, que se chama, não por acaso, de selim. Este é o segundo rio. Ora, selo e sela, embora sejam vocábulos de origem e significado diferentes, como vimos, acabaram produzindo um verbo derivado idêntico — selar —, misturando definitivamente suas águas. Um bom dicionário, aliás, para seguir a boa técnica, tem a obrigação de abrir dois verbetes diferentes, um para cada selar, pois se trata de dois vocábulos individuais que casualmente convergiram na mesma forma.

A situação que acabo de descrever vai servir de resposta à pergunta de um ilustre leitor desta coluna (tem nove anos apenas, mas vai completar dez em agosto, o que, ele imagina, vai colocá-lo em outra fase da vida…). Da última vez em que conversamos, em um desses churrascos de família, mostrou-se descontente com a expressão ameaça velada, que tinha encontrado num conto de Sherlock Holmes, que ele tanto aprecia. Para ele, velado deveria designar aquilo que está bem iluminado, bem claro, mas seu pai, de quem fora se socorrer, tinha definido o termo como algo “obscuro, escondido”, conforme o texto deixava entender. Ora, dizia ele, não costumamos velar os defuntos? Não ouvia ele o avô se referir seguidamente a lâmpadas de 40 velas, de 60 velas? Afinal, não gira tudo em torno da iluminação? Então, por que ele não podia entender ameaça velada como uma ameaça feita às claras, cara a cara, olho no olho?

Se você está lendo esta coluna desde o início, meu jovem amigo, já deverá ter percebido que a solução do problema já foi antecipada pela história dos dois rios que se unem num só. Neste caso, a única diferença é que estamos diante de três (e não duas) palavras diferentes, de famílias diferentes, oriundas de radicais diferentes, que vou descrever individualmente.

(1) Uma coisa é a vela, de cera ou parafina, que acendemos na igreja ou no bolo de aniversário. Desta palavra não se forma adjetivo derivado algum — isto é, não existe um velado ligado à vela de acender. Este é o mesmo substantivo que era usado como medida da luminosidade fornecida por uma fonte; é por isso que as pessoas mais velhas ainda falam em lâmpadas de 60 velas.

(2) Outra coisa é o velório, em que um defunto é velado — isso está ligado ao verbo velar (do Latim vigilare), que significa “vigiar, ficar acordado” e pode também significar “cuidar”: “Isabel entrou no jardim; a pobre menina tinha velado toda a noite” (Alencar); “…tinha velado uma parte da noite” (Machado); “Dei-te um anjo que, de dia e noite, velando e dormindo, te assistisse” (Vieira). O fato de nossa cultura ainda usar velas durante os velórios (há países em que elas são proibidas, por medo de incêndio) é a coincidência que aumentou a confusão entre dois termos, que nada têm a ver um com o outro. Nada impede que alguém seja velado sem haver vela alguma acesa…

(3) Temos, por fim, o adjetivo velado com o sentido de “obscuro, encoberto”, vindo do Latim velare, que significava “cobrir com um véu”. Estamos dentro da mesma família semântica quando dizemos que as mulheres muçulmanas costumam sair à rua com o rosto velado (tapado por um véu): “Os longos cílios velando os brandos olhos (Alencar); “os olhos com as mãos velando” (Machado), etc.

Como você pôde ver, caro leitor, o livro de Conan Doyle estava correto ao falar em ameaça velada — aqui, uma ameaça oculta, como que encoberta por um véu, não manifestada claramente. Aliás, é desse mesmo radical que vem o verbo revelar, que os dicionários definem primeiramente como “tirar o véu”.

Depois do Acordo: freqüência > frequência

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Como se escreve Destaque Questões do momento

Como se escreve o nome Kadafi

Afinal, conseguiremos um dia grafar corretamente o nome do presidente perpétuo da Líbia? Kadafi, Gadaffi, Cadafe? O Doutor explica.

Nos últimos dias, a imprensa brasileira anda batendo cabeça sobre a forma correta de grafar o nome do ditador da Líbia. É Kadhafi, Gadhafi, Qaddafi, Gaddafi, Kaddafi ou Kadafi? Por mais estranho que pareça, prezado leitor, todas elas podem ser usadas, e mais algumas outras que não foram mencionadas. Essa incômoda abundância de variações ortográficas é praticamente inevitável sempre que quisermos transpor para o alfabeto românico (este que estou usando) um nome próprio proveniente de qualquer idioma que utilize um alfabeto diferente, como o hebraico, o grego, o árabe, o chinês, o cirílico (usado pelos russos, por exemplo), para citar apenas os que estão mais próximos de nós, culturalmente. Esse processo, chamado de transliteração, consiste na tentativa de representar o som original do nome usando apenas as letras do nosso próprio alfabeto. Como se pode imaginar, o resultado nunca será plenamente satisfatório, pois é impossível representar fonemas que nossa língua desconhece com um sistema gráfico que foi desenvolvido para atender às peculiaridades do Português.

Às vezes, parece que soltaram todos os demônios da tipografia. Lembram do autor do Arquipélago Gulag? Já encontrei Soljenitsin (com e sem acento), Solzhenitsyn, Soljenitzin, Soljenittsin, Soljenítsyn, Soljenitsyne — e ninguém pode dizer que uma é mais “fiel” do que a outra. É por isso que há tantas propostas para o nome de Kadafi (escolhi esta porque achei mais fácil de ler, mas talvez pudesse melhorá-la para Kadáfi; já Cadáfi ou Cadafe, mais fáceis ainda, não me agradam porque, sem o “K“, o nome me parece um tanto  descaracterizado — e por aí segue a discussão, indefinidamente).

Não há nada que se possa alegar para definir uma forma como “correta” e desautorizar as demais variantes — nem mesmo, se isso fosse possível, a consulta à certidão de nascimento do distinto, já que ali o nome dele virá grafado em caracteres árabes.  E se existir uma forma “oficial” de transliteração deste nome, adotada pelos órgãos do próprio governo líbio nos documentos destinados a circular no Ocidente? Nem assim, caro leitor, porque ninguém pode impor  aos outros países a sua escolha ortográfica — no máximo, sugerir, como anda fazendo a China, que tenta convencer o mundo a grafar Xangai como Shanghai (veja detalhes aqui).

A preferência das agências internacionais de notícias por uma ou outra forma também não conta, pois elas obedecem aos hábitos ortográficos de sua língua de origem e seguem, exatamente por isso, rumos próprios e diferentes. Este é um daqueles momentos em que os editores ou chefes de redação precisam deixar de lado sua proverbial vocação democrática e anunciar, com voz firme, qual foi a forma escolhida. E fim de papo.