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meados

“Em meado de setembro” ou “em meados de setembro”? Ambas estão corretas, mas o PLURAL é a forma preferida desde o séc. XIX. Outra daquelas falsas polêmicas que seriam evitadas com um pouco mais de leitura…

 

Alguns leitores estranham que uma coluna como O Prazer das Palavras, dedicada singelamente a comentar e a apreciar as riquezas do idioma, nem sempre seja tão mansa e serena como o tema faria supor. Afinal, dizem eles, trata-se de gramática e de ortografia, e não de futebol ou política — e não há nada que justifique o ânimo agreste, quase impertinente, com que freqüentemente estas poucas linhas são traçadas. Pois se enganam, amigos, que nem tudo são rosas por aqui; as questões de linguagem têm o condão de despertar as emoções mais primitivas do indivíduo, e certamente vocês ficariam surpresos com a raiva instilada em certas cartas que recebo.

Um bom exemplo foi o que aconteceu com meados. Um leitor perguntou se era verdade que a expressão em meados seria condenável, como afirmava taxativamente um de seus professores. “Ele me descontou um ponto na prova, argumentando que meado significa “meio” e só deve ser usado no singular, pois seria ilógico falarmos em meados de 2011; está certo o raciocínio?”. Expliquei-lhe, então, que o professor estava desatualizado; embora historicamente o vocábulo fosse usado no singular, há quase dois séculos passamos a preferir meados, forma já empregada por escritores do porte de Machado de Assis e Eça de Queirós, e que o próprio dicionário Houaiss, no verbete meado, informava que o termo é “freqüentemente usado no plural, como substantivo”.

Ao que parece, meu leitor, faceiro com a resposta, fez da minha mensagem uma capa vermelha e foi agitá-la diante dos olhos do touro — no caso, o referido professor; este, depois de escarvar o chão com as patas, tomado de fúria contra mim, que era mero espectador da tourada, investiu com tudo que tinha, numa mensagem agressiva que culminava num parágrafo cheio de peçonha: “Quando você se faz escrevente de Machado de Assis, Eça de Queirós e demais escritores para justificar alguns termos considerados incorretos pelos especialistas em língua portuguesa, vem-me a crassa dúvida: esses distintos escritores ditavam as regras de nosso vernáculo ou eram meros mortais regidos pelas regras impostas pelos filólogos, lexicólogos e afins?”. Viram só o topete? Mas isso lá é jeito de entrar numa discussão acadêmica? Infelizmente eu não tenho a virtude cristã da tolerância e acabo reagindo no mesmo tom; diga-se a meu favor, porém, que nunca cito o nome desses malcriados, pois acho que precisam ser protegidos deles mesmos. O que segue é a resposta que ele recebeu.

“Mas que raciocínio arrevesado, cidadão! Então o senhor não sabe que os especialistas em nossa língua são exatamente Machado, Eça, Vieira, Drummond, e não os gramáticos, filólogos e professores? Estes últimos, aliás, entre os quais humildemente me incluo, não têm direito algum de impor regras, especialmente para os escritores; seu papel neste universo é tentar entender como funciona o idioma e formular regras que descrevam esse funcionamento. Isso não significa, é claro, que o escritor tenha um toque de Midas que transforme em norma  qualquer idiossincrasia de seu estilo, pois, como diz o antiquíssimo brocardo filológico, “às vezes até o próprio Homero cochila” —, mas o uso frequente de uma determinada forma por vários desses especialistas mostra ao usuário consciente uma das possibilidades do idioma.

No início, meado era usado como adjetivo (na verdade, o particípio do verbo mear, “repartir, chegar ao meio”): “ele morreu meado dezembro”, “vinho meado de água”, “círculo meado de branco e preto”. Com relação a tempo, opunha-se aos também particípios findo e começado: “Meado setembro, começaram as chuvas” (“Findo setembro”, “Começado setembro”). A partir do séc. XIX, porém, vai se firmando o seu emprego como substantivo plural. Euclides da Cunha fala em “meados do século”, Eça fala em “meados já tépidos de março”; Aquilino Ribeiro usa “meados da Quaresma” e Machado, sempre o melhor, fala de uma senhora que “prorrogou seus belos cachos de 1845 até meados do segundo neto”. Não vejo nada de inusitado nesta pluralização, também ocorrida com fim e com começo (nos fins do verão, nos começos do século, etc.), que pode ser encontrada abundantemente em Vieira, Euclides, Eça e Machado, entre muitos outros.

Ora, quando autores deste quilate usam determinada palavra ou expressão assim, e algum professor diz só poderia ser assado, não tenha dúvida: o gajo não fez as  leituras que deveria ter feito em seu curso de Letras. Se existem dezenas de exemplos do plural meados na obra dos grandes escritores, isso significa que classificá-lo de “erro” é uma asneira que só pode ser cometida por quem não os leu. Entre os caminhos que a língua portuguesa oferece, o senhor tem o direito de achar meado mais bonito ou mais lógico, mas não pode cometer o absurdo, no seu sonho onipotente, de dizer que Machado e Eça (que conhecem cem vezes mais o idioma do que todos nós) estavam errados.”

[O PRAZER DAS PALAVRAS – ZH — 24/09/2011]

Depois do Acordo: freqüentemente>frequentemente

Nota para os amigos do Prata

Embora de cunho nitidamente escatológico, acho necessário um pequeno esclarecimento dirigido a vocês e a outros hispanohablantes que porventura cheguem a ler esta página: meado, em Português, é o inofensivo particípio do verbo mear, “dividir em dois, partir ao meio”, enquanto meado, em Espanhol, é o particípio do verbo mear, “urinar” (sua raiz, segundo o dicionário da Real Academia, é o verbo  meiāre, do Latim Vulgar, que também originou o nosso rústico mijar). Ora, tendo esses verbos a mesma forma, mas significados tão diferentes, fica fácil imaginar a estranheza que o título deste artigo será lido por quem tenha o Castelhano como língua materna…

Aproveitando a charla — já que falamos de mijar e da Real Academia —, registro um fato pitoresco e praticamente desconhecido para o leitor brasileiro: entre as duas Grandes Guerras, na Espanha, os jovens membros de um movimento poético de vanguarda promoveram uma grande mijada (“una meada grupal“) nas paredes da Real Academia Espanhola. Este grupo, conhecido como a Geração de 1927, organizou várias manifestações para comemorar o tricentenário da morte do poeta Luís de Gôngora, cujo gênio e talento não eram ainda reconhecidos pela cultura oficial da época. Indignados com a indiferença dos acadêmicos para com uma data tão importante, reuniram-se, na tarde de 23 de maio de 1927, diante do edifício da Academia e, na descrição de uma testemunha, decoraram suas paredes com uma “caprichosa coroa de efêmeros jorros dourados”. Achei a ideia inspiradora; nossa ABL bem que merece a homenagem de uma meada colectiva, depois da c*g*da que fez com seu Vocabulário Ortográfico.

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Através dos dicionários Destaque Etimologia e curiosidades

Lendo o dicionário (2)

A leitura de um dicionário com personalidade pode trazer mais divertimento e emoção do que muitos desses romances premiados que hoje chovem por aí, em que nada acontece entre uma capa e outra.


3 — Quando falamos, na coluna anterior, sobre a possibilidade de encontrar prazer e divertimento na leitura de dicionários, usamos como exemplo supremo a obra do famoso Dr. Johnson (1755), cujo estilo pitoresco e impertinente é muito mais vívido que o estilo impessoal exigido pelas técnicas atuais. A meu ver, é uma pena que o humor não seja um critério valorizado por aqueles que se dedicam à lexicografia; entre os dicionários modernos, a exceção mais conhecida é The Chambers Dictionary, que nasceu — seria uma ironia do destino? — exatamente na Escócia, terra que o bom Doutor tanto gostava de criticar. Nele ainda se percebe o dedo do editor, que faz questão de estampar suas opiniões no próprio texto do verbete, como podemos ver em “zapear — alternar rapidamente entre vários canais de televisão, numa vã tentativa de encontrar alguma coisa interessante”, ou “restauração — renovação e reconstrução (algumas vezes, quase a destruição) de um prédio, de uma obra de arte, etc.”.

Se o humor for involuntário, pouco importa; vamos rir da mesma forma. Alexandre Dumas nos conta que certa feita, durante uma das revisões do Dictionnaire de l’Académie Française, o imortal a quem cabia redigir o artigo sobre o camarão pediu a Charles Nodier que opinasse sobre o verbete que tinha escrito: “camarão — pequeno peixe vermelho que anda de marcha a ré”. “Sua definição só tem um problema”, respondeu Nodier, implacável — “é que o camarão não é um peixe, só fica vermelho quando o cozinham e não nada para trás; quanto ao resto, está perfeita”.

4 — Na falta de um Dr. Johnson vernáculo, vamos nos contentar com um passeio pelas páginas dos dicionários de Bluteau (1712) e de Morais (1813, o ano da boa edição) — ambos com consulta livre aqui. O leitor deverá ter notado que todas as obras mencionadas foram escritas antes de 1850, data que poderíamos tomar como o marco inicial da explosão vocabular que acompanhou o desenvolvimento científico e tecnológico da segunda metade do séc. XIX — o que significa que elas praticamente só contêm as palavras de uso geral, não especializado. Como estes dicionários estão livres da imensa quantidade de termos técnicos e científicos que hoje seriam indispensáveis, oferecem a nossos olhos um retrato muito mais nítido  daquilo que poderíamos chamar de “núcleo lexical” do nosso idioma — a essência, o âmago, o cerne mesmo desta grande e frondosa árvore que é a língua portuguesa.

O estilo deles é variado, mas fascinante. Morais alterna entre o grosseiro e o sutil. O verbete para diarréia é tosco: “doença, fluxo do ventre, em que sai dele uma evacuação frequente de matéria clara, áquea, mucosa, glutinosa, com escuma, biliosa ou denegrida dos intestinos”, mas o de encalpelar é quase poético: “levantar, encrespar e fazer dobrar o ápice ou língua da onda sobre si mesma, como sucede andando o mar mui grosso”. Às vezes suas definições saem ao trancos e barrancos: anta – “animal quadrúpede do tamanho de um bezerro de seis meses, com figura de porco, mas a cabeça é maior; tem os olhos pequenos e em lugar do rabo lhe ficam uns cabelos que vêm caindo; nas mãos tem quatro unhas ocas, nos pés três, e um princípio de uma quarta unha”; alce — “espécie de cabra brava, de grandeza cavalar. Grã-besta”. Às vezes, por outro lado, são precisas e valiosas: acolá – “aquela parte, o lugar distante que se aponta, onde não está quem fala, nem a pessoa a quem se fala”. Algumas são surpreendentes: antecuco – “aquele que a mulher enganava antes do casamento”;  caramelo — “a neve congelada; caramelo de açúcar” (Bluteau, no verbete urso, diz: “no Mar Glacial há ursos brancos que andam por cima dos caramelos”).  Outras são de uma crueza comovente: batecu — “golpe que se dá com o assento do corpo, caindo”; Bluteau traz, com restrições, a palavra cu — “inurbano e descomposto sinônimo de assento traseiro e pousadeiro” — e aproveita para incluir cuada — “pancada que se dá com tal parte no chão”; em outro lugar, refere-se ao mesmo monossílabo como “o nome do cano real do microcosmo” — verdadeira obra-prima de ironia e de estilo.

Como sou otimista, imagino que muitos, além de mim, valorizem preciosidades desse tipo — às quais acrescento, volta e meia, a saborosa surpresa de constatar que existem relações há muito esquecidas entre palavras de cujo parentesco eu não suspeitava, apesar da óbvia semelhança — como garra e agarrar (“prender com garra”); andar e andaime (“o espaço por onde se pode andar”); desfile e desfiladeiro (“passo estreito por onde a tropa não pode passar senão marchando à desfilada”, a qual, por sua vez, vem a ser a “disposição dos soldados quando vão em fileiras um após o outro”); pinhão e apinhar (“ajuntar muito muitas coisas, como estão juntos os pinhões das pinhas”) — e assim por diante (as definições são do Morais).

Depois do Acordo: diarréia>diarreia

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Através dos dicionários Destaque Etimologia e curiosidades

Lendo o dicionário (1)

Que livro você levaria para uma ilha deserta? — Muitas vezes, ao longo da vida, respondi a esta clássica pergunta, sempre indeciso entre a “Odisseia”, “Guerra e Paz” ou “As 1001 Noites”. Hoje, sem hesitar, eu escolheria um dicionário.

 

1 — Não existe instituição com maior autoridade na casa de um brasileiro que o Dicionário. Que se discuta a infalibilidade do Papa, que se debatam os textos sagrados (excetuando-se, é claro, as letras de Chico Buarque), que se critiquem artigos da Constituição, vá lá; agora, o maluco que se atrever a contestar o Dicionário será olhado com aquele misto de temor e de piedade com que os crentes olhavam os sacrílegos. Para o homem comum, o que o Dicionário diz é lei; com base nele, solucionam disputas, decidem apostas e ficam sabendo se, afinal de contas, aquela palavra usada pelo ministro existe ou não existe. “Está no dicionário” é a frase que dá a um vocábulo o direito de existir; “não está” condena o pobre vocábulo ao nada, ao não-ser. Para a maioria dos meus compatriotas, o Dicionário é muito mais que um livro cheio de palavras; para eles, na verdade, é o livro que sempre terá a última palavra.

É desse respeito incondicional, aliás, que advém o curioso uso do artigo definido — O Dicionário (as maiúsculas são intencionais…) —, como se existisse apenas um texto único, fundador, difuso, que se corporifica em diferentes formatos e encadernações, assim como o Novo Testamento ou os romances do Machado de Assis. Esse tipo de leitor, naturalmente, olha o dicionarista com reverência: afinal, não é ele o Pai dO Dicionário? Como essa adoração não viceja apenas no Brasil, mas se manifesta em todo o Ocidente, posso aproveitar a ironia de Randolph Quirk, gramático e linguista britânico, quando diz que a maioria dos leitores reverencia o dicionarista como se ele tivesse subido ao Monte Sinai do conhecimento e voltado de lá com as tábuas que contêm as Palavras e o seu Significado, sua Ortografia e sua Pronúncia.

2 — Ora, nossa coluna sempre fez questão de combater essa visão quase mística do fazedor de dicionários. Como já demonstramos aqui várias vezes, ele é gente de carne e osso e está sujeito aos mesmos achaques e mazelas que nós outros — ou melhor, era gente de carne e osso e estava sujeito aos mesmos achaques; a mudança no tempo do verbo se impõe porque agora, no séc. XXI, nenhum dicionário é obra de um homem só. Caldas Aulete, Houaiss, Aurélio, Larousse e Webster não são mais nomes de pessoas reais, mas verdadeiras grifes, por trás das quais operam grandes equipes de lexicógrafos e pesquisadores. Ao se despersonalizar, ao concentrar o esforço de dezenas (às vezes centenas) de especialistas, o dicionário de equipe tornou-se muito melhor e muito mais científico que os antigos e heroicos dicionários de um homem só, como o Dr. Johnson, para o Inglês, Littré para o Francês, Bluteau e Morais para o Português — mas sou obrigado a confessar que leio a obra destes veteranos com um prazer que jamais pude encontrar nos modernos.

Meu atilado leitor terá percebido que eu disse ler, não consultar — o que significa, em outras palavras, que não estou me referindo ao dicionário como mera obra de referência (que é a sua própria razão de existir), mas como obra de leitura. Acho fascinante abrir um dicionário pelo simples prazer de me aventurar, ao acaso, pelas trilhas e alamedas esquecidas de nosso idioma, e se me fizessem a clássica pergunta sobre o livro que levaria para uma ilha deserta, certamente optaria por um bom dicionário, como fez W. H. Auden, um dos mais importantes autores de língua inglesa no séc. XX. As razões que ele dá para sua escolha (no prefácio de The Dyer’s Hand) me parecem irretorquíveis: é um livro que nunca acaba, pois mantém com o leitor uma relação de absoluta docilidade, permitindo que se comece em qualquer página, em qualquer direção, inclusive de trás para frente, em infinitas possibilidades de leitura.

Auden diz “um bom dicionário”, genericamente, mas seus comentaristas são quase unânimes em afirmar que ele tinha em mente a obra do incomparável Dr. Johnson, uma das figuras mais brilhantes da efervescente vida literária da Inglaterra do séc. XVIII. Para consulta, seu Dictionary of the English Language fica muito aquém de qualquer dicionariozinho moderno; para leitura e divertimento, no entanto, ele é um verdadeiro banquete. Como ainda não imperava este discurso objetivo e pretensamente neutro com que os dicionários atuais constroem seus verbetes, Dr. Johnson manifestava livremente suas crenças, suas preferências, seus interesses e suas excentricidades. Seus preconceitos afloram por toda a parte; como não sabe jogar xadrez, define-o como “um jogo sutil e abstruso”; como tem uma velha pendenga contra os escoceses, aproveita para fustigá-los no verbete aveia, que define como “um grão que na Inglaterra se dá aos cavalos, mas na Escócia serve para alimentar o povo” — afirmação que seria impensável nestes dias de politicamente correto. (continua))

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bonitíssimo

Professor Moreno: tenho um primo na Alemanha que está tentando aprender a nossa língua . Ele tem progredido bastante, mas outro dia, num museu, apontou para um quadro e exclamou: “Olhe! É bonitíssimo!”. Eu lhe disse que não era assim que se falava, mas terminei ficando com dúvida. Essa forma está muito errada mesmo? Todos os adjetivos têm um superlativo? Sei que os dicionários comuns (como o famoso Aurélio) só apresentam os superlativos menos óbvios, como boníssimo, mas não trazem belíssimo, por exemplo, que é óbvio demais. Ora, como sei se o superlativo que estou propondo existe? Bonitíssimo não está lá. O que devo concluir? Bonitíssimo não existe, ou existe e é tão básico que nem se dão ao trabalho de publicar umas letrinhas a mais no dicionário só pra tranqüilizar os menos informados?!

Alline C. R. – Campinas (SP)

Minha cara Alline: é claro que existe bonitíssimo. Os dicionários (de qualquer língua, por sinal) costumam deixar fora de suas listas todas aquelas formações que, de tão produtivas, são facilmente deduzidas pelo falante. Assim, em Português, quase não se registram (1) os diminutivos em –inho e –zinho, (2) os superlativos em –íssimo e (3) os advérbios em –mente. Por exemplo, não há necessidade de incluir pobrezinho, pobríssimo e pobremente, três formações automáticas a partir de pobre. É uma economia considerável de três entradas no dicionário — e não apenas de algumas letrinhas! Multiplica isso pelas dezenas de milhares de substantivos e adjetivos, e vais ver que vale a pena!

Agora, uma coisa é certa: há padrões morfológicos que se aplicam a todos os vocábulos que existem e a todos os que virão a existir em nossa língua. Se um dia, hipoteticamente, for criado um adjetivo calurdo, nascerá com ele a possibilidade de formar calurdozinho, calurdíssimo e calurdamente — porque essa é uma potencialidade de todo e qualquer adjetivo. O teu primo apenas aplicou uma regra poderosíssima de formação de superlativo; se nós não gostamos de usar bonitíssimo, haverá muita gente que goste; esta forma está lá, sempre latente, esperando apenas que alguém precise dela para vir à tona, como foi o caso. Teu primo está realmente começando a dominar o nosso idioma. Abraço. Prof. Moreno

Depois do Acordo: tranqüilizar > tranquilizar

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Através dos dicionários Destaque

cuidado com o Novo Houaiss!

Se a memória não me trai, a História do Mundo para Crianças, de Monteiro Lobato, reproduz o famoso ladrilho encontrado sob as cinzas de Pompéia que mostra a figurinha de um cachorro acorrentado, encimada pela frase latina “cave canem” — que, em vernáculo, corresponde ao costumeiro aviso de “cuidado com o cão”. É desse mesmo verbo cavere (“tomar cuidado, acautelar-se”), pai do nosso precaver, que vem o substantivo caveat, que nada mais é do que uma advertência, um aviso, uma recomendação de cautela (para os que perderam o seu Latim, lembro que a pronúncia é /cáveat/). Pois esta coluna, meus amigos, é um caveat quanto à nova edição do Houaiss, motivado por uma valiosa (e acabrunhante) descoberta feita por um perspicaz e persistente leitor.

Todos os que acompanham esta coluna sabem que sou um admirador de primeira hora do dicionário de Antônio Houaiss. Assim que foi lançado, publiquei no Caderno de Cultura um extenso artigo de boas vindas, cujo título já anunciava a minha instantânea conversão ao novo credo: “Sai Aurélio, entra Houaiss “. Na ocasião, não hesitei em proclamar: “…terminei virando o Milênio com o Aurélio, e aurelista cheguei até este mês de setembro de 2001. Agora, contudo, troquei: começa a Era do Houaiss“. Hoje, depois de oito anos de convívio diário, tenho certeza de que minha avaliação não estava distorcida pelo deslumbramento da estreia: no momento, este é, sem dúvida alguma, o melhor dicionário da Língua Portuguesa, deste e do outro lado do Atlântico.

Ao entrar em vigor o nosso raquítico Acordo Ortográfico, neste ano da graça de 2009, nem passou pela minha cabeça trocar o exemplar que utilizo por um exemplar atualizado pela nova ortografia. Afinal, como sou do ramo, achei que não valia a pena a considerável despesa de quase meio salário-mínimo para adquirir uma edição concebida às pressas, sem o tempo necessário para que o próprio mundo acadêmico entendesse exatamente quais foram as mudanças introduzidas pela Reforma. Decidido, portanto, a postergar essa compra por mais um ou dois anos, não prestei maior atenção aos anúncios de lançamento do novo produto, imaginando que fosse o mesmo dicionário que possuo, acrescido das (pequenas) alterações na acentuação e no uso do hífen.

O amigo aí pensou o mesmo? Pois então fique sabendo que também caiu na esparrela. Quem levantou esta lebre foi Guilherme Braga, tradutor literário, licenciado em Letras pela nossa UFRGS, que, pensando em adquirir o novo dicionário, teve sua atenção despertada pela considerável diferença no tamanho físico das duas edições. O que ele já tinha, que é igual ao meu, vinha com mais de três mil páginas; o novo, com apenas duas mil. Ora, considerando que o dicionário antigo já é um volume de dimensões avantajadas, no limite da manuseabilidade, não parecia plausível que a editora as tivesse expandido ainda mais para acomodar o mesmo conteúdo em dois terços das páginas originais. Com a pulga atrás da orelha, nosso leitor efetuou um excelente trabalho investigativo. Ele próprio explica: “Anotei o intervalo de palavras constante na primeira página de cada letra do meu antigo Houaiss (a primeira página da letra c, por exemplo, vai de c a caapiá-verdadeiro) e o número de entradas contido neste intervalo – no caso da letra C, 57 entradas. Na edição do novo Houaiss, contei as palavras contidas no mesmo intervalo e elaborei uma tabela indicando a defasagem do novo Houaiss em relação ao antigo”. O resultado confirmou sua suspeita inicial: o “novo” dicionário é uma versão reduzida do anterior, “aliviada” da terça parte do conteúdo! Enquanto o dicionário antigo conta com 228 mil verbetes, o novo vem com míseros 146 mil — ou seja, a redução do conteúdo corresponde exatamente à redução de páginas.

Depois de uma troca de correspondências com a editora Objetiva e com Mauro Villar, atual responsável pelo Instituto Houaiss (o artigo, na íntegra, pode – e deve – ser lido aqui), o enredo ficou esclarecido: apesar de levar o mesmo nome –Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa-, são dois produtos diferentes. O antigo, de 2001, é o verdadeiro; o segundo, de 2009, é um dicionário menor, do tamanho do atual Aurélio. O antigo, que agora passa a ser chamado pela editora Objetiva de Grande Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, terá a ortografia atualizada pelo Acordo em data ainda não prevista. É uma pena que só agora, graças ao Guilherme Braga, sejamos avisados dessa embrulhada, pois muita gente comprou a nova edição pensando estar adquirindo a versão completa. Não posso afirmar que a editora tenha agido com fé –  mas com boa eu tenho certeza que não foi.

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etimologia médica – 2

Muitas palavras que o Português foi buscar no Árabe trazem, em seu início, o artigo definido al, que nossos antepassados ibéricos, na sua inocência lingüística, pensavam fazer parte do próprio corpo do vocábulo. Daí veio a primeira sílaba de álcool, de almanaque ou de Alcorão (no Inglês e no Francês, Koran); assim também nasceu a álgebra, que vem de al-jabr, “a reunião de partes em um só todo”. Seu ingresso no mundo da Matemática se deu com o livro Al-jabr w’al muqabalah, publicado em 825 d.C. pelo matemático árabe Al Khwarizmi (de onde nos veio, também, os vocábulos algarismo e algoritmo). A palavra jabr (“recolocar no lugar”) referia-se metaforicamente à transposição dos termos negativos de um lado da igualdade para o outro: ao se equacionar x-2=12 como x=14, era como se o lado esquerdo tivesse sido “consertado”.

O estimado leitor estará pensando, quiçá, que entrou na sala errada; o cartaz anunciava algo sobre Medicina, mas o filme (ou “a fita”, como diria minha saudosa avozinha) se passa no deserto, num cenário que parece mais adequado para o Homem que Calculava, de Malba Tahan… Pois não se assuste, que continuamos dentro do tema iniciado na coluna anterior. Estamos falando, na verdade, da cirurgia, palavra que nos veio do Grego através do Latim. Pelos elementos que acompõem — kheir (“mão”) e ourgós (de érgon, “trabalho”) —, o vocábulo cirurgia significava, literalmente, “trabalho feito com as mãos”, e se aplicava tanto ao artesão quanto ao cirurgião, o qual, na concepção antiga, não era necessariamente um médico. Este (chamado de iatros – daí o pediatra, o psiquiatra, entre outros) era o que detinha o saber teórico, enquanto o cirurgião, profissional de posição inferior, trabalhava manualmente, curando feridas e fraturas. Como resumiu um autor espanhol, o médico vendia seu saber; o cirurgião, o seu trabalho.

Durante séculos, as práticas cirúrgicas foram executadas pelos barbeiros, que, além de fazer a barba e cortar o cabelo aos clientes, também sabiam suturar ferimentos, fazer sangrias e extrair dentes. O dicionário de Morais (1813) ainda define cirurgia como “a parte da Medicina que ensina a curar feridas, chagas, tumores, deslocações; e as operações de abrir e cortar membros, &tc. do corpo humano” (note-se, de passagem, como se enganam os que consideram o “&” como um símbolo para o etc.; aqui fica claríssimo que ele corresponde apenas ao “e“). Pouco a pouco, porém, o avanço da Medicina tornou impossível essa divisão de tarefas, tornando-se impensável, como sabemos, um cirurgião que não tenha a formação médica completa.

Voltamos, assim, à nossa álgebra. Quando os árabes levaram o vocábulo al-jabr para a Península, seu significado também abrangia a arte de reunir ossos quebrados ou deslocados. Bluteau, em seu famoso dicionário, define álgebra como “reparação ou conserto de ossos quebrados ou deslocados”, e algebrista como “o que exerce a arte de consertar ou restituir a seu lugar ossos deslocados ou quebrados”. Assim aparece no Quixote, no Espanhol, e na Carta de Guia dos Casados, de Francisco Manuel de Melo. Nos dois países era comum estabelecimentos de barbeiro ostentarem letreiros anunciando “algebrista e sangrador“, depois substituídos simplesmente por “cirugião“.

Sempre que menciono o nome de Bluteau, algum leitor me escreve invejando o fato de eu ter à mão um exemplar do famosíssimo Vocabulário Português e Latino, mais difícil de encontrar do que cabeça de bacalhau; publicada em edição única, em dez volumes, no início do séc. XVIII, esta obra vale hoje uma pequena fortuna no mercado de bibliófilos, sem dúvida. No entanto, fiquem sabendo os interessados que já raiou a liberdade no horizonte do Brasil: por uma elogiável iniciativa de José Mindlim e da USP, o Vocabulário agora está à disposição de todos nós AQUI), lado a lado com o Dicionário da Medicina Popular, do famoso Chernoviz — e, o que é melhor ainda, dotado de um sistema de busca que reconhece tanto a grafia original quanto a moderna (podemos chegar a paranympho digitando simplesmente paraninfo). Nós, os  apaixonados pelas palavras — entre os quais faço questão de incluir o doutor Nelson Porto, médico com alma de filólogo, com quem costumo trocar um dedo de prosa sobre dicionários e etimologias —, ganhamos assim, graças à internet, o acesso a um mundo que só conhecíamos de ouvir falar.

Depois do Acordo: lingüística>linguística

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Acordo ortográfico Artigos Através dos dicionários Conceitos lingüísticos Destaque

Não compre o novo VOLP (final)

Como adiantei na coluna anterior, o gigantesco equívoco do novo VOLP reside na maneira como seus autores interpretaram as regras do hífen do Acordo Ortográfico. Não esperávamos que eles solucionassem definitivamente as dificuldades que cercam este danado sinalzinho porque sabemos que é tarefa impossível; não importa quantas reformas venham a ocorrer nos próximos mil anos: sempre vai haver indecisão quanto ao hífen porque ele se apoia no terreno eternamente movediço que marca o limite entre a Morfologia e a Sintaxe, o limite entre o vocábulo e a locução. Explico melhor.

Desde o momento em que aprendemos a ler, sabemos reconhecer os vocábulos de uma linha escrita a partir de um simples critério visual: basta contar os  segmentos que estão separados por espaços em branco. Este critério, essencialmente prático, foi consagrado por muitos séculos de tradição gramatical, desde que se compuseram os primeiros dicionários. No caso de um vocábulo composto — produto da união de dois vocábulos já existentes no idioma —, cabe ao hífen assinalar o fato de que aquelas duas entidades, normalmente separadas, estão ali como partes constitutivas de um todo. É por isso que o hífen também se chama de traço-de-união; sua presença confirma nossa definição inicial de vocábulo como uma inscrição em cujos lados — tanto o esquerdo quanto o direito — existe uma interrupção do texto escrito.

O espaço separa, o hífen une. Se leio mesa redonda, o espaço me avisa de que estou falando de uma determinada mesa, de forma redonda (nem quadrada, nem retangular). Se leio mesa-redonda, porém, o hífen me informa de que se trata de um composto, um substantivo que designa “discussão ou conferência em que todos aqueles que dela participam estão em pé de igualdade”. No primeiro caso, dois vocábulos formam um sintagma (ou locução); estamos no terreno da Sintaxe; no segundo, os vocábulos se uniram para formar um novo vocábulo (estamos no terreno da Morfologia).

Pois este é o fator que complica o uso do hífen: quando é que um sintagma passa a ser um substantivo composto? Em que momento saímos da Sintaxe (vários vocábulos) e entramos na Morfologia (um só vocábulo)? Por que papel crepom e papel celofane são vistos como locuções, enquanto papel-bíblia e papel-carbono são compostos? Por que muitos gramáticos escrevem ponto e vírgula como três vocábulos separados, ao contrário do preferível ponto-e-vírgula, como uma unidade? Há vários “palpites” sobre como se poderia fazer esta diferenciação, mas acho que nunca chegaremos a uma resposta definitiva — não por deficiência das teorias ou incompetência de nossos estudiosos, mas exatamente pela natureza difusa do problema. Não se poderia exigir do VOLP, portanto, que fizesse o que ninguém fez (ou fará).

O pecado mortal da comissão da ABL foi a interpretação desastrada da regra que dispõe que o hífen deve ser usado “nas palavras compostas por justaposição que não contêm formas de ligação”. Imagino que esta espantosa imprecisão terminológica (o que é “justaposição”, aqui? E o que seriam essas “formas de ligação”?) tenha colaborado para o equívoco, mas nossa Academia deveria ter sido mais prudente e solicitado a ajuda dos “universitários” (dos professores, é claro).  O Acordo parece estar fazendo apenas uma referência capenga a um princípio que sempre foi observado: não há hífen quando existe um fonema de ligação, como em natimorto, setissílabo, alvinegro (comparem com rubro-negro), avifauna, clarividente, etc. Nossa comissão, todavia, numa visão muito particular, entendeu por “forma de ligação” qualquer preposição ou  conjunção que estivesse entre os elementos do vocábulo composto e retirou, à moda galega, o hífen de pé-de-moleque, fora-da-lei, diz-que-diz e dezenas de outros. Embriagados de tanta audácia, nossos heróis não pararam aí e estenderam a regra para qualquer composto com mais de dois elementos — inclusive as frases substantivadas (tomara-que-caia, deus-nos-acuda, etc.). Estava instituído o caos: usamos hífen nos compostos de dois vocábulos para distingui-los das locuções (cachorro-quente não é um “cachorro quente”; meio-dia (12h) não é “meio dia”) — mas isso deixa de ser necessário nos compostos maiores? E pé-de-pato e “pé de pato”? E faz-de-conta e “faz de conta”? Numa “Nota Explicativa” constrangedora, a comissão alega que o contexto suprirá a ausência do hífen, o que pode ser verdade em algumas frases, mas em outras não, numa casuística que é  o contrário do que se espera da ortografia. O pior, porém, foi a criação de um absurdo lexicográfico que vai entrar para a História: o substantivo que contém espaços em branco! Os futuros brasileirinhos vão aprender que maria vai com as outras — assim, com minúscula no nome próprio, com verbo conjugado, etc. — é um substantivo? Mas é de amargar!  A ABL deve admitir seu equívoco e voltar atrás, antes que se perca o pouco prestígio que ainda lhe resta.

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o dicionário analógico

1 — Enquanto meus amigos trocavam reminiscências sobre o futebol gaúcho da nossa infância, eu atiçava, distraído, o fogo da churrasqueira, esperando que a lenha se transformasse em brasa bem viva. Embora eu goste deste esporte, sinto um tédio mortal sempre que a conversa descamba para o terreno da tática e vira uma acalorada discussão sobre o aproveitamento de jogadores e esquemas alternativos. No fundo, aprecio um bom jogo assim como aprecio um bom livro, mas não tenho paciência para ficar ouvindo teses sobre um ou sobre o outro.

Desta vez, no entanto, acabou sobrando para mim: o tema eram os fardamentos de nossos clubes, com suas cores designadas por termos tradicionais da heráldica, como o alvinegro, o auricerúleo, o rubro-negro, e alguém lembrou o Grêmio Bagé, cujas cores — o amarelo e o preto — eram descritas também por um desses compostos de sabor parnasiano que ninguém ali da roda conseguia recordar. Perguntaram se eu conhecia; confessei que nunca tinha ouvido falar nisso, mas que, desde que ficassem cuidando o fogo, eu iria olhar no dicionário e logo os ajudaria a encontrar a resposta. Levei uma vaia. Como é que eu iria catar no dicionário uma palavra que eu nunca tinha visto ou ouvido? Em que letra eu ia começar a pesquisa? Como ia descobrir, dentre as duas mil e poucas páginas do Houaiss, aquela em que a desejada palavra se escondia? Pois é muito simples — para quem conhece o caminho. Este é o meu assunto de hoje.

Como qualquer bípede falante, eu tenho dois tipos de vocabulário: o ativo, que é composto pelas palavras que efetivamente consigo mobilizar na hora de falar ou escrever, e o passivo, muito mais extenso, que reúne também aquelas palavras que sou capaz de reconhecer quando as vejo empregadas por alguém. A passagem do passivo para o ativo é um processo de amadurecimento que inicia quando encontro uma palavra desconhecida. Na primeira vez não lhe dou muita atenção, mas encontros sucessivos começam a torná-la familiar; com o tempo, eu passo a reconhecê-la sempre que a vejo e já a saúdo com desenvoltura: ela acaba de entrar no meu vocabulário passivo e, dependendo da freqüência com que nos virmos, um dia vou me lembrar dela na hora em que estiver compondo uma frase — e pronto! Ela terá se tornado ativa.

Ora, enquanto uma palavra não migrar do estoque passivo para o ativo, ela pode provocar a mesma situação aflitiva em que se encontravam os meus parceiros de churrasco: eles sabiam que existia um termo exato para o que desejavam expressar, mas não conseguiam recuperá-lo na memória — o que tornava inútil, portanto, um dicionário comum, organizado em ordem alfabética. Como recuperar a palavra que fugiu? O processo de busca é o mesmo que usamos para telefones. Imagine, caro leitor, que você sofre de má-digestão e um amigo mencionou um especialista de mão-cheia, anotando o telefone do consultório num papelzinho — o qual, como era de esperar, você perdeu logo em seguida. Como o catálogo telefônico é inútil, já que você não lembra o nome do médico, a solução é recorrer às páginas amarelas, em que os profissionais estão agrupados por afinidade. Você vai na seção “Médicos” e ali localiza, reunidos numa lista, os  gastroenterologistas. Pronto! Basta examinar rapidamente os cinqüenta nomes ali relacionados, e você vai encontrar — e reconhecer — o nome que tinha perdido.

No caso das palavras, quem faz as vezes das páginas amarelas é o dicionário analógico (ou ideológico). Nele, os vocábulos não estão relacionados em ordem alfabética, mas sim agrupados de acordo com o seu significado, seguindo uma classificação sugerida por Peter Roget, um cientista inglês do séc. XIX que fez para a linguagem o que Lineu fez para a Botânica: dividiu a realidade em várias categorias hierarquizadas e por elas distribuiu as palavras por afinidade. Em cada seção vêm registrados todos os vocábulos referentes ao mesmo campo semântico, agrupados por classes gramaticais (substantivos, adjetivos, verbos, advérbios). Uma vez localizada a categoria que nos interessa, basta ler a lista — como nas páginas amarelas — e vamos reconhecer a palavra perseguida. Foi fácil solucionar o caso do fardamento do Grêmio Bagé: abri o dicionário analógico na grande categoria das cores e fui direto à seção do amarelo. Como eu não conhecia a palavra, comecei a ler em voz alta todos os itens da relação até que — bingo! — todos saltaram quando cheguei a jalde (que, como averigüei mais tarde, é o esquisito nome que a heráldica usa para amarelo). Era a resposta: o Grêmio Bagé era tratado na crônica desportiva como “o jalde-negro” (cruzes!). Não preciso dizer que meu dicionário imediatamente se tornou o objeto da curiosidade (e da inveja) dos meus amigos, que queriam saber mais sobre ele. O resto eu conto depois.

2 — Na coluna anterior, mostrei como funciona um dicionário analógico, utilíssima ferramenta que tem uma estrutura semelhante à das páginas amarelas da lista telefônica e nos permite recuperar aquele vocábulo preciso que costumamos esquecer bem na hora em que precisamos dele. Conhecendo o gosto e o interesse que meus leitores têm pelas palavras, tinha certeza de que não estava pregando aos peixes — e, com efeito, não foram poucos os que escreveram para perguntar onde poderiam adquirir esta novidade.

Fico constrangido em dizer que esta “novidade” já era conhecida na Antiguidade, quando Júlio Pólux, um estudioso de Alexandria, organizou, por volta de 180 D.C, o seu Onomasticon, um dicionário de palavras e expressões agrupadas por assunto. Na Idade Média e no Renascimento houve várias imitações sem maior importância, até que, em 1852, Peter Mark Roget, médico britânico, lançou o seu Tesouro de Palavras e Frases Inglesas, classificadas e distribuídas de modo a facilitar a Expressão das Idéias e auxiliar a Composição Literária, conhecido até hoje, no mundo anglo-saxão, pela primeira palavra de seu extenso título (em Inglês, Thesaurus). No prefácio à sua obra, que se tornou o modelo dos dicionários analógicos modernos, o bom doutor descreve com grande acuidade a frustração que sentimos quando, apesar de todo nosso esforço, a palavra que queríamos não atende ao nosso apelo: “Como os espíritos da vasta profundeza, ela não vem quando chamamos, e somos obrigados a empregar palavra ou expressão que ou é genérica demais, ou limitada demais, ou exagerada, ou insuficiente, ou que não se adapta à ocasião e que não acerta no alvo que tínhamos em mente” — a mesma situação que Mark Twain, sempre irreverente, comparou à decepção de um apaixonado que, em vez de se encontrar com sua amada, tem de se contentar com a prima dela.

Quase um século atrás, em 1936, a nossa Editora Globo publicou o primeiro dicionário deste tipo em Português, o Dicionário Analógico; tesouro de vocábulos e frases da língua portuguesa, do padre Carlos Spitzer, alemão que veio para o Brasil ainda menino; na década de 50 saiu uma segunda edição, com várias tiragens, mas a obra, claramente inspirada pelo dicionário de Roget (até no título), acabou vendida ao desbarato nos caixotes da Feira do Livro de Porto Alegre. Em 1946 saiu em Portugal o Dicionário Analógico de Artur Bivar, que eu consultava, quando podia, na Biblioteca Central da UFRGS, mas que agora, depois de quinze anos de persistência, finalmente localizei num sebo de Minas Gerais. Mais recente e mais fácil de encontrar — e também mais completo — é o Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, do professor goiano Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, editado na década de 70 pela Editora Coordenada, de Brasília, com um número desconhecido de tiragens posteriores. Durante muito tempo este dicionário esteve esgotado, e quem tinha a felicidade de possuir um exemplar guardava-o como um tesouro (“não empresto, não troco e não vendo por nada”). Felizmente para todos, Carlos Augusto Lacerda, à frente da editora Lexikon, lançou em 2010 uma edição novinha em folha deste dicionário, que deve fazer parte da estante básica de referência de qualquer brasileiro que conviva com as palavras.

Na semana passada, tive novamente de recorrer a eles a fim de recuperar um vocábulo que me tinha escapado. Numa brincadeira com um amigo, imaginei uma cerimônia em que ele leria solenemente um conhecido (e péssimo) poema gauchesco, enquanto um pequeno coral cantaria em surdina o Hino Rio-Grandense sem pronunciar as palavras da letra, isto é, apenas entoando a melodia com os lábios cerrados. Embora não seja um especialista no canto lírico, como o professor Luiz Osvaldo Leite, meu prezado amigo, eu sabia que existe um termo específico que descreve este tipo de execução — mas quem disse que eu conseguia lembrar? Não hesitei em baixar da estante os três analógicos, sabendo que palavra alguma resistiria a tamanha artilharia combinada. Não deu outra! Enfiado entre monodiar, cantarolar, trautear, cantar a capella, modular, vocalizar, gargantear, gorjear, cantarinhar e cantorejar, lá estava o que eu buscava: cantar a boca chiusa, que os dicionários usuais definem como “cantar com a boca fechada, transferindo a ressonância para a região nasal”. Feliz com mais essa pequena vitória sobre o esquecimento, repus carinhosamente na estante os meus três fiéis mosqueteiros. Sou obrigado a reconhecer que, para mim, essa sensação de finalmente atinar com a palavra há tempos perdida — um misto de orgulho e alívio — é um dos maiores prazeres que encontro no meu trato contínuo com o dicionário.

[O PRAZER DAS PALAVRAS – colunas publicadas no jornal ZH em agosto de 2008]

Depois do Acordo:

freqüência > frequência

cinqüenta > cinquenta

averigüei > averiguei

idéias > ideias

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Através dos dicionários Etimologia e curiosidades

Sai Aurélio, entra Houaiss

“Não há autor mais infeliz que o de um Vocabulário.”

Padre Rafael Bluteau (1638-1734)

1 — Por vinte e cinco anos o dicionário de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira foi um companheiro inseparável no meu trabalho com a Língua Portuguesa. Fui um aurelista de primeira hora; aderi ao Novo Dicionário em 1975, no dia em que foi lançado, e passei entusiasmado para a 2a. edição, a melhor de todas, em 1986 (até hoje eu a mantenho instalada no meu computador). Já a 3a. edição, póstuma, com sua pífia capinha multicor e o título oportunista de Aurélio–Século XXI, não me agradou e perdeu a minha confiança: é que, morto Aurélio em 1989, os atuais editores, em vez de se limitar aos acréscimos indispensáveis e às eventuais correções, tiveram o topete de fazer um sem-número de “revisões” desastradas no texto do Aurélio-vivo (é assim que me refiro à 2a. edição). Está certo, pensei, desanimado — é a Nova Ordem: se alunos ensinam o professor e funcionários escolhem o Reitor, então amanuenses podem agora corrigir o Mestre… Assim mesmo, terminei virando o Milênio com o Aurélio, e aurelista cheguei até este mês de setembro de 2001. Agora, contudo, troquei: começa a Era do Houaiss.

2 — Em 1975, quando surgiu o Aurélio, Antônio Houaiss era o único lexicógrafo militante que poderia criticá-lo à altura. Já trazia na cabeça o plano completo de seu próprio dicionário, mas teve a grandeza de saudar o lançamento como “uma conseqüência natural da grande expectativa que o público brasileiro depositava em Aurélio Buarque de Holanda, credor da estima e do respeito geral”. Essas palavras generosas eram pouco comuns na tradição de nossos dicionaristas, acostumados a se lançar ferozmente sobre o trabalho dos colegas. Sempre tinha sido assim; parodiando Guimarães Rosa, fazer dicionários sempre foi muito perigoso. Era a isso que se referia nosso bom Padre Bluteau, autor da epígrafe que encabeça este artigo. Ele passou 30 anos escrevendo (a mão!) os 10 volumes de seu gigantesco Vocabulário Português e Latino e sabia o que o esperava, pois, como nos diz em seu estilo pitoresco, um dicionário “é a coruja dos livros. Ao redor da coruja se ajuntam outras aves, e cada uma delas lhe dá sua picada: folgam todos de folhear um vocabulário para lhe dar unhadas”. Para prevenir as inevitáveis pancadas, o esperto Bluteau precedeu seu Vocabulário de um extenso prólogo, dividido em seções dirigidas a todo tipo de leitor, entre eles o leitor malévolo, o impaciente, o indouto (“muito dó tenho de ti, leitor indouto: como homem, és animal racional; como indouto, és meramente animal”), ao pseudocrítico, ao impertinente e ao mofino. Não preciso dizer que essas precauções, entretanto, não o salvaram de incontáveis críticas e polêmicas. Depois dele (e usando o Vocabulário como base) vieram os dicionários de Morais, de Roquete, de Lacerda — que foram, por sua vez, alvejados pelas zombarias de Caldas Aulete, numa espécie de “velha a fiar” lexicográfica.

Um cínico poderia até dizer que um dicionarista no eixo Brasil—Portugal limitava-se a duas práticas indispensáveis: plagiar os dicionários que vieram antes e encher de bordoada os seus autores. Era comer e virar o cocho — e aos coices, bem no espírito luso-brasileiro da polêmica lingüística. Em Camilo, por exemplo, podemos ver nosso idioma ser discutido quase fisicamente, em debates em que mais se mostravam os punhos que os argumentos, e onde se pode colher o melhor material sobre insultos verbais em Português. Um tal de Pina, ao enfrentar Camilo, erra o uso do pronome “si”? Danou-se; Camilo, sem piedade, executa-o: “Que vá à escola do vizinho mestre de instrução primária e pergunte-lhe se um pronome pessoal da terceira pessoa pode empregar-se como pronome da segunda. O mestre, naturalmente, responde-lhe cavalgando-o”. E quem não conhece a triste sina da Academia das Ciências de Lisboa? Tendo iniciado, em 1779, os trabalhos destinados à produção de um dicionário “definitivo” para a Língua Portuguesa, os infelizes acadêmicos conseguiram publicar, em 1793, só o primeiro volume, que incluía todas as palavras iniciadas pela letra A — ou seja, de A até Azurrar. A piada estava madura, pronta para colher. Alexandre Herculano, que não gostava da Academia, aproveitou a deixa para uma crítica mordaz e antológica: no seu A Dama Pé-de-Cabra, das Lendas e Narrativas, elegeu um onagro (uma espécie de jumento) como seu instrumento de vingança: “O onagro fitou as orelhas e, em sinal de aprovação, começou a azurrar; começou por onde, às vezes, academias acabam”. Quando essa mesma Academia, em 1976, publicou uma nova edição do volume do A, deve ter respirado aliviada ao acrescentar no final da lista o providencial azuverte, uma ave do Timor…

Houaiss, como cavalheiro que era, abandonou essa prática truculenta da tradição lexicográfica, mas não a de aproveitar o trabalho dos colegas. Sabia que todo dicionarista precisa apoiar-se nos ombros de seus antecessores: a lexicografia tem a aparência de uma interminável pirâmide humana (ou dicionárica, como ele diria). No mesmo artigo de 1975 em que elogia Aurélio, Houaiss declara abertamente que o novo dicionário, classificado de “médio ou inframédio”, era um passo básico, “precioso”, para chegar ao “grande” dicionário, que ainda estava por ser escrito; em seguida, abre o jogo e descreve como deveria ser essa obra — e ali está, em detalhes, o dicionário que agora foi lançado e que leva o seu nome.

3 — Houaiss era um predestinado para a lexicografia. Seu nome sempre esteve ligado a enciclopédias e dicionários. Organizou a Enciclopédia Delta-Larousse e a Mirador-Internacional; trabalhou no Novo Dicionário Barsa Inglês-Português, no Dicionário Koogan-Larousse, no Webster Inglês-Português, bem como na elaboração do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), publicado pela Academia em 1981. Em 1985 conseguiu reunir recursos para começar os trabalhos, interrompendo-os 7 anos depois; só em 1997 conseguiu iniciar a segunda fase, que levou o dicionário até o prelo. Houaiss morreu em 1999, a poucos passos da Terra Prometida, mas tinha levado a cabo o projeto de uma vida inteira passada no convívio com as palavras. Não as olhava, entretanto, com essa maneira particular dos poetas ou dos escritores; olhava-as como um entomólogo olha os insetos, exatamente com aquele mesmo olhar classificatório, organizatório, quase obsessivo, que prenuncia o lexicógrafo. A grande obra que escolheu para traduzir do Inglês foi, não por acaso, o tão decantado e tão pouco lido Ulysses, de Joyce. “Foi um erro de Joyce encastelar-se no romance; eram as palavras o que lhe interessava”, disse Borges, na Argentina, sem suspeitar que sua frase, aqui, do outro lado da fronteira, servia como uma luva no Houaiss tradutor. Seus detratores (entre eles, Paulo Francis e Millôr) afirmavam que Joyce traduzido por Houaiss só podia resultar mesmo num monstrengo ilegível; eu não conheço a tradução, já que há muito me permito o luxo de só ler os autores que me dão prazer. Do que li de Houaiss, contudo, não tive boa impressão; ele não se saía muito bem quando juntava palavra com palavra. Seu texto é duro, entrecortado, retorcido, difícil de ler, não raro pedante, que revela, no entanto, um prazer incontido na enumeração rebuscada, na pesquisa lexical, no gozo da palavra por si mesma. Em seu livrinho sobre a cerveja, que devia ser ameno, olhem o tijolaço que ele escreve sobre as mesas e os tira-gostos:

“Em ambientes fechados, as mesas cervejeiras tendem a ser, se de madeira ou de metal, sólidas e robustas. Se em ambientes abertos, primaveris, veranescos, estivais, jardinais, as mesas, quase sempre metálicas (nem de vime se usam), são levitantes, o mesmo acontecendo com as cadeiras, para que, não abrutadamente, o bibente se balanceie. […] A cerveja se sente bem com salmourados, avinagrados, defumados, embutidos, salados, enfriados e uma série de ados. Mas não se trata de consumo intenso, é claro, pois que o consumidor já veio adequadamente alimentado para a mesa cervejal. Em fim de festa, primaziando certos mitos, poderá ir até um chucrute” (A Cerveja e seus Mistérios. Rio de Janeiro, Salamandra, 1986)

4 — Muitos dos dicionários na minha estante foram editados em dois volumes: o Viterbo, o Lacerda, o Morais, o Cândido Figueiredo, o Caldas Aulete; era o formato preferido no passado. A partir do sucesso do Pequeno Dicionário Brasileiro, nos anos 50, foi ficando claro que o mercado queria mesmo um bom dicionário de um só volume. Aurélio tinha material para um dicionário muito maior, mas teve de reformular seu projeto para um volume único; a solução foi cortar milhares de verbetes, numa verdadeira “lista de Schindler”, em que ele teve de decidir quem ia para a página impressa e quem ficava na gaveta (e ainda existem, na imprensa, bois-cornetas que criticam o humilde Magri por ter usado um termo que não estava no Aurélio!). O Hou-aiss, até o ano passado, era anunciado como um dicionário de dois volumes; no entanto, um investimento de 9 milhões de reais não admite aventuras mercadológicas, e a Editora Objetiva optou prudentemente pelo volume simples — mas sem cortes. Para que dois pudessem caber em um só, expandiram-se ao máximo os limites físicos: a letra diminuiu, a página aumentou de tamanho, o papel utilizado é finíssimo, mas de alta qualidade, e a encadernação foi reforçada para permitir um volume mais grosso. O resultado, tenho de confessar, é impressionante! É um livro lindíssimo, com uma impressão e uma diagramação magníficas. São 3.000 páginas e 228.000 verbetes, contra as 2.150 páginas e os 160.000 verbetes do Aurélio-XXI! Dá para ver, entretanto, que ele chegou ao limite da edição em papel; se posteriores edições receberem acréscimos, isso só poderá ser feito com o sacrifício de algum material já impresso. Não cabe mais nada! O futuro de sua expansão está na edição eletrônica; no formato de livro, só se for em dois volumes, pois o peso do atual já desafia leitores com menor preparo físico.

Para aproveitar ainda mais o espaço, foi empregado um sem-número de abreviaturas e abreviações (Houaiss distingue umas das outras; pudera não…); a maioria delas passará despercebida do leitor que vai em busca das informações de sempre (significado, etimologia, grafia, etc.), mas será de extrema utilidade para leitores especializados. Além disso, este dicionário não traz abonações de autores consagrados, porque isso implicaria aumentar o texto em quase 20%. O Aurélio traz, e eu gosto; o Houaiss, no entanto, prefere apresentar exemplos que esclareçam o leitor quanto ao uso do vocábulo em suas várias acepções. A prática, comum a vários dicionários estrangeiros, não torna o verbete menos útil.

Além de um maior número de verbetes, era de se esperar que um dicionário concebido pelo enciclopédico Houaiss trouxesse maior quantidade de informação sobre cada vocábulo — e assim é. Em homenagem à Semana Farroupilha, escolhi o vocábulo mate; vejam o verbete no Aurélio-XXI e no Houaiss, respectivamente 1 e 2:

1 — mate — [Do quíchua mati, pelo esp. plat. mate.] S. m. 1. Bot. Erva-mate. 2. As folhas dessa árvore, secas e pisadas. 3. A bebida feita com a infusão dessas folhas assim preparadas; chá-mate. Mate chimarrão. Bras. 1. O que se toma sem açúcar. Mate de armada curta. Bras. RS 1. Mate quentíssimo, a ponto de queimar a boca.

2 — mate s.m. (1817) — 1 árvore de até 10m (Ilex paraguaiensis) da fam. das aqüifoliáceas, nativa da América do Sul, de flores pálidas, em cimeiras axilares, bagas globosas e folhas coriáceas, us. no preparo do chimarrão e, após torrefação, em chá tomado quente ou geralmente gelado, como é muito popular em quase todo o Brasil, com propriedades tônicas, estimulantes e diuréticas [sin.: caá, caaeté, chá-dos-jesuítas, chá-mate, congonha, congonha-mansa, congonha-verdadeira, congonheira, erva, erva-mate, mate-do-paraguai, pau-de-erva] 2 as folhas dessa planta, depois de secas. 3 bebida preparada com a infusão dessas folhas; chá-mate. mate chimarrão B aquele que é bebido sem açúcar. mate de armada curta RS aquele que é servido muito quente, queimando os lábios e a língua. ETIM esp. mate (1570) ‘cabaça vazia para vários usos domésticos, particularmente, para tomar erva-mate’, (1740) ‘infusão da erva-mate’, der. do quích. mati ‘cabacinha’

Que tal? O verbete nos dá várias informações sobre a planta, sobre as propriedades da bebida e sobre os seus vários sinônimos; além disso, não poucos leitores vão se surpreender ao ver que o vocábulo teve seu uso alterado dentro do próprio Espanhol, de onde nos veio: no séc. XVI, indicava o mesmo que no Quíchua — cabaça ou cuia; é a partir do séc. XVIII que passa a designar também a bebida que nela se toma. O que podemos querer mais de um dicionário?

Nesse verbete ficam evidentes duas grandes atrações do novo Houaiss: a datação e a etimologia. Sempre que for possível, ele indica a data da primeira ocorrência impressa do vocábulo (e de suas posteriores significações, se houver) e esclarece sua etimologia, com base no incomparável Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, do filólogo português José Pedro Machado. Friso que, desde a 1a. fase, Houaiss contou com a colaboração do também falecido Antônio Geraldo da Cunha, autor do Dicionário Etimológico Nova Fronteira e do Dicionário Histórico das Palavras Portuguesas de Origem Tupi.

Numa longa seção pré-textual de 25 páginas em corpo 7 miudinho, intitulada Detalhamento dos verbetes, Mauro Villar, o atual responsável pelo projeto, apresenta a profissão de fé do dicionário, descrevendo, para quem quiser ver, todas as decisões editoriais e lexicográficas que foram tomadas. Ao ingressarmos nessa seção, entramos no ventre da baleia. O eitor especializado vai encontrar aí os andaimes dos verbetes, expostos com impressionante riqueza de minúcias; o leitor comum, entretanto, só deveria aventurar-se nesse cipoal em caso de real necessidade. Nessas páginas também aparece uma breve definição dos princípios gramaticais adotados; não cabe aqui discuti-los, mas, em atenção a meus leitores, posso assegurar que, se não são exatamente a última palavra no assunto, ao menos não chegam a comprometer.

Só achei estranho — pois não é que não me agüentei e já resolvi iniciar os ataques? — o descabido destaque que deram a Rebelo Gonçalves na matéria do plural dos compostos. Ele foi um erudito filólogo português, ortógrafo de respeito, mas completamente desatualizado em matéria de Morfologia. Na medida em que esqueceram de consultar Celso Pedro Luft, que traz, a meu ver, a lição mais lúcida sobre o problema, deixaram de enxergar a fundamental distinção entre substantivos e adjetivos compostos; em conseqüência, o dicionário tropeça ao indicar, no verbete surdo-mudo, a mesma flexão para o adjetivo e para o substantivo. Ora, quando surdo-mudo é substantivo, variam todos os elementos flexionáveis: o surdo-mudo, a surda-muda, os surdos-mudos, as surdas-mudas; quando é adjetivo, varia, como em qualquer adjetivo composto, apenas o segundo elemento: menino surdo-mudo, menina surdo-muda, meninos surdo-mudos, meninas surdo-mudas).

Mesmo sem a edição em CD, que me permitiria fazer uma pesquisa mais abrangente, fui testar o Houaiss em alguns itens em que o Aurélio-XXI tinha me desapontado. Como eu já esperava, o novo dicionário, mais recente e muito maior, é também muito mais completo. Não estão no Aurélio, mas estão no Houaiss, agropastoril, agronegócio, antipessoal, apagão, biofertilizante, biopirataria, cartelização, cartolagem, clubística, conspiratória eletroeletrônica, fitossanitário, flamenco, gabaritar, hidroginástica, meritocracia, parquímetro, soropositivo. Para aqueles que pensam que só as palavras que estão dicionarizadas têm direito a existir, informo que nenhum dos dois registra agroexportador, antimotim, antiestatizante, autolimpante, bivolt, bloqueto, civilizatória, degravação, drogadito, drogadição, intensivista, mecatrônica, rinsagem.

Outros casos, encontrados aqui e ali no Houaiss: (1) Vejo que ele registra corretamente eletrocussão (com SS); enquanto Aurélio viveu, assim estava no seu dicionário; depois, seus amanuenses trocaram para eletrocução. (2) Houaiss também prefere clitóris, como fazia Aurélio-vivo; o Aurélio-XXI aconselha um absurdo clitóride (ainda por cima, feminino!). (3) Ao definir cotio, Aurélio ignora o sentido mais geral do vocábulo, “aquilo que cozinha facilmente” — daí falar-se em “feijões cotios”; Houaiss, preciso, registra este significado e o dá como dominante. (4) Apesar de ser um tanto fescenino o exemplo, advirto que, ao contrário do mestre Aurélio, o mestre Houaiss não confundia cunete e minete. (5) O Houaiss é o primeiro dicionário em âmbito nacional a registrar o nosso brigadiano: “RS qualquer componente da força policial”. (7) Aurélio preferia xerox com a tônica no E (/xérocs/); Houaiss, acertadamente, recomenda a tônica no O (/xerócs/) — ou seja, oxítona, como todos os vocábulos em X que ingressaram no Português depois da 2a. Guerra (pirex, inox, gumex, jontex, etc.). E assim por diante.

Se não confiasse o suficiente na agudeza de meus leitores, eu poderia ter medo de ser mal compreendido; tenho certeza, no entanto, de que todos perceberam que os casos acima relacionados depõem contra o Aurélio exatamente porque eu os havia listado como pontos discutíveis naquele dicionário, meu companheiro de anos. Embora eu tenha certeza que o meu convívio com o Houaiss há de gerar uma lista semelhante, não hesito, no entanto, em afirmar taxativamente que entramos em nova etapa na lexicografia brasileira. O Rei Aurélio está morto; viva o Rei Houaiss!

Depois do Acordo:

conseqüência > consequência

lingüística > linguística

aqüifoliácea > aquifoliácea

agüentei > aguentei

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Através dos dicionários Etimologia e curiosidades

elencar

Luiz Artur e Denise, de Belo Horizonte, usavam alegremente o verbo elencar, mas ficaram em dúvida sobre sua existência ao ver que alguns manuais de estilo jornalístico condenam este verbo, enquanto outros o consideram inexistente. “Contudo, o Google fornece dezenas de milhares de ocorrências para este verbo, o qual, além disso, está registrado no VOLP da Academia Brasileira de Letras. Afinal, é errado usá-lo, ou é apenas uma questão de estilo?”.

Meus prezados: como vocês parecem já ter intuído muito bem, o verbo nasceu e já está bem “criadinho”. Esse não morre mais (já vem no Houaiss, com verbete e tudo). Não interessa o que manuais de redação ou professores onipotentes digam: ninguém (repito, sem querer ser dramático: ninguém!) mata uma palavra que já nasceu. Outra coisa é considerá-la adequada, ou elegante, etc.— entramos aí na infinita variedade de estilos pessoais. Eu não uso porque acho feia; outros usam porque acham bonita. Cada um tem a sua lista de palavras que julga desajeitadas, que certamente incluirá palavras que outros julgam maravilhosas. Abraço. Prof. Moreno