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Através dos dicionários Etimologia e curiosidades

protocolar ou protocolizar?

Juliana G., de Palmas (TO) vive em eterna discussão com seus colegas de trabalho por causa da bendita derivação da palavra protocolo. O correto é protocolar ou protocolizar? Qual é a forma correta: “Sr. Francisco, dirija-se ao setor de protocolo para protocolizar seu documento” ou “Sr. Francisco, dirija-se ao setor de protocolo para protocolar seu documento”?

Prezada Juliana, para fazer um protocolo, tanto podes protocolar como protocolizar. Ambas as formas se encontram no Houaiss e no Aurélio. Escolhe a que melhor te parece, levando em conta as derivações que cada uma dessas formas vai produzir (protocolação, protocolização, etc.). Num dos recentes (e lamentáveis) acontecimentos envolvendo a propina e a compra de parlamentares, o deputado Severino Cavalcante, que ainda não tinha sido cassado, anunciou que ia protocolizar um dos incontáveis pedidos de CPI — e imediatamente foi vítima da crítica de conhecidos jornalistas de alcance nacional, que sempre se metem de pato a ganso, opinando sobre aquilo que eles mal e mal conhecem. Como diria minha professora do primário, esses senhores deveriam frequentar mais seguidamente o velho “amansa”… Abraço. Prof. Moreno

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sugerimento

Numa entrevista, ao falar da roupa que vestia, Dunga disse que seguia os sugerimentos de sua filha, que é estilista de moda. Ouvindo aquilo, o Brasil inteiro correu para o dicionário e, ao constatar que o termo não estava lá, extraiu do fato duas desastradas conclusões: primo, o tal vocábulo não existe; secundo, o Dunga fala tão errado quanto algumas importantes figuras desta Pindorama… Como era de esperar, alguns leitores escreveram perguntando o que eu achava disso tudo. Bem, em princípio eu sempre fico satisfeito com qualquer episódio que faça as pessoas se reencontrarem com o velho “amansa” que estava esquecido na estante, mas sou obrigado a meter a minha colher torta nesta tigela.

Em primeiro lugar, por trás da primeira conclusão está a ngênua de que o dicionário seja o repositório de todas as palavras existentes de nossa língua, uma espécie de cartório de registro de nascimentos onde os falantes podem conferir a existência ou não de um vocábulo. Nada mais falso; um dicionário é apenas uma seleção dos vocábulos que o seu autor considera mais importantes neste momento. Por exemplo, para que o Aurélio e o Houaiss pudessem ser editados como um volume único, os autores tiveram de fazer uma pesada seleção dos vocábulos que deveriam entrar — uma verdadeira lista de Schindler, onde nem sempre foram incluídas as palavras que mereciam. O Aurélio traz as palavras que Aurélio Buarque de Holanda escolheu; o Houaiss traz as palavras que Antônio Houaiss escolheu — e pronto! 

Quem vai ao Houaiss encontra várias palavras que não aparecem no Aurélio: agronegócio, apagão, auditar, autolimpante, biopirataria, carteirada, cartelização, cartolagem, conspiratório, emancipacionista, fitossanitário, hidroginástica,mexível, meritocracia, parquímetro ou soropositivo. Essa diferença pode nos dizer alguma coisa sobre o tamanho e a cobertura dos dois dicionários, mas nada sobre as próprias palavras em si — assim como o fato de não encontrarmos bivolt, bloqueto, cadeirante, degravação, drogadição, drogadito, intensivista, fumódromo, mecatrônica ou rinsagem em nenhum dos dois não nos autoriza a concluir que esses vocábulos, vivíssimos em nosso idioma, não existam… 

Em segundo lugar, não podemos afirmar que sugerimento esteja errado; acho horrível o termo, mas, como vamos ver, ele está rigorosamente dentro das formações possíveis por derivação, que é, quero frisar, a mais poderosa máquina de criar palavras do Português. O princípio é muito simples: de uma mesma base existente, formam-se novos substantivos, adjetivos ou verbos, pelo acréscimo de prefixos ou sufixos. Às vezes, temos à nossa disposição vários elementos para a mesma finalidade; por exemplo, para formar substantivos abstratos a partir de verbos, podemos escolher o sufixo -ura (feitura, leitura), ou –ção (realização, repetição), ou –mento (nascimento, recrutamento), ou –agem (regulagem, filtragem), entre outros. Saber uma língua, muito mais do que dominar uma lista de palavras, é conhecer esses elementos formadores e o conjunto de regras que nos permite combiná-los. É importante ressaltar o caráter aleatório dessas combinações; nada nos diz qual desses sufixos será usado para uma determinada base. Aqui ocorre uma escolha em que parecem intervir critérios que ainda não foram bem estudados. Por que recrutamento e não recrutação ou recrutagem? Por que filtragem e não filtramento ou filtração? Quantos verbos formados pelo sufixo –izar estão lá, no estoque virtual de nosso idioma, que ainda não vieram à luz? Quantos substantivos abstratos em –mento

Em muitos casos, diferentes sufixos combinam com uma mesma base para formar vocábulos concorrentes, que passam a disputar a preferência dos falantes. No dicionário, encontramos, lado a lado, lavagem, lavação, lavamento e lavadura; sedução e seduzimento; desflorestamento e desflorestação; concluimento e conclusão. Submetidas ao invisível plebiscito popular, aquelas que parecem soar melhor vão conquistar mais falantes, mas isso não significa que as derrotadas vão desaparecer. Uns se dirigem ao bufê das palavras e compõem um prato com alface, palmito, tomate e salada de batatas (é uma combinação consagrada, assim como feijão, arroz e bife ou, na sobremesa, morango com chantili); outros vão lá e misturam no mesmo prato o feijão com a salada de batata, tudo isso com um pouco de sorvete por cima. Fazer mal não faz; é tudo uma questão de gosto. Os do primeiro tipo preferem escolha, conclusão, incômodo e sugestão; os do segundo, escolhimento, concluimento, descômodo e sugerimento. Depois, cada um com seu prato, voltam todos para a mesma mesa, para compartilhar a refeição do idioma — de preferência, em paz. 

(da coluna O PRAZER DAS PALAVRAS– Jornal Zero Hora – 25/11/2006)

 

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dicionário não é lei

Um atônito leitor escreve para compartilhar o espanto que sentiu ao ver que os nossos dois mais importantes dicionários divergem quanto ao adjetivo referente aos EUA: o Aurélio registra só estadunidense, enquanto o Houaiss prefere estado-unidense. Ora, se a essência do dicionário é descrever o atual estágio de nosso idioma, como é que a descrição desses dois autores não é idêntica, neste caso? A resposta, meu caro, aponta para um princípio fundamental da lexicografia, desconhecido de muitos, e que poderá causar surpresa, desânimo ou até indignação entre os leitores menos informados: por mais que o dicionário se esforce por fazer uma descrição objetiva e imparcial da língua, suas páginas estão repletas de julgamentos, crenças e preconceitos do seu autor.

A variedade de informações é gigantesca: além do simples significado do vocábulo, o dicionário registra também a sua grafia, a sua pronúncia, o gênero a que pertence (masculino ou feminino), a sua flexão, a separação de sílabas, a existência de formas variantes, o nível sócio-cultural em que o vocábulo é empregado, e outras mais. O lexicógrafo procura registrar democraticamente tanto o velho quanto o novo, tanto o solene quanto o coloquial, tanto o geral quanto o regional — mas não consegue ocultar, a cada linha, a cada verbete, a sua posição pessoal sobre aquilo que está descrevendo. Houaiss registra tanto cotidiano quanto quotidiano como formas perfeitamente aceitáveis; ao colocar, porém, a definição do vocábulo junto a cotidiano (enquanto em quotidiano há apenas uma simples remissão à outra forma), ele está declarando sua preferência. Se Aurélio coloca, entre parênteses, a indicação “(é)” junto ao vocábulo grelha, é porque essa é a pronúncia que ele prefere (embora, com imparcialidade, indique, no final do verbete: “É corrente, em boa parte do Sul do Brasil, a pronúncia de grelha com e fechado”). E assim por diante: a cada passo, o autor é obrigado a tomar decisões, o que significa dizer que dicionários como o Houaiss ou o Aurélio não são descrições neutras e objetivas de nossa língua, mas sim o conjunto de preferências lingüísticas do cidadão Houaiss ou do cidadão Aurélio. Portanto, tudo que está no dicionário é opinião — é claro que é uma opinião abalizada, de profissionais que dedicaram sua vida ao estudo das palavras, mas não deixa de ser opinião.

Os lexicógrafos sabem que podem coexistir, num mesmo momento histórico, diferentes comportamentos lingüísticos que os falantes cultos consideram aceitáveis, o que vai dar, para quem deseja escrever corretamente, uma razoável margem de escolha. Essas diferentes soluções convivem umas com as outras e disputam a nossa preferência; são incontáveis as situações em que podemos optar entre duas formas corretas. Um rápido passeio pelo Houaiss e pelo Aurélio nos mostra que é livre a escolha entre abdômen ou abdome, gérmen ou germe, regímen ou regime (as formas sem o n são mais modernas); atenazar ou atazanar, destrinçar ou destrinchar (a primeira forma de cada par é a variante mais culta); amígdala ou amídala, óptico ou ótico, seção ou secção; catorze ou quatorze, quota ou cota; monstrengo ou mostrengo (preferida por Houaiss); taberna ou taverna, assobio ou assovio (as formas com B têm mais prestígio); bêbado ou bêbedo, hemorróida ou hemorróide; cosmos ou cosmo, bílis ou bile, diabete ou diabetes, húmus ou humo. Também podemos escolher entre incontinente (Houaiss), incontinenti (Aurélio 2ª edição, a última em vida do autor) ou incontinênti (Aurélio-XXI); entre álcoois (Aurélio-vivo e Houaiss) ou alcoóis (Aurélio-XXI); entre o clitóris (Aurélio-vivo) ou a clitóride (Aurélio-XXI) — Houaiss fica em cima do muro, dizendo que a clitóride é “a forma mais correta, mas a menos usada”. Aurélio-vivo e Houaiss preferem malformação, Aurélio-XXI enquanto o prefere má-formação. Para minha surpresa, os dois Aurélios dão balde como feminino, enquanto Houaiss dá como masculino. Podemos decidir, ainda, se vamos escrever marcha à ré (Aurélio-vivo) ou marcha a ré (Aurélio-XXI e Houaiss ), pôr-do-sol (ambos os Aurélios) ou pôr do sol (Houaiss) — e por aí vai a valsa.

Usando a conhecida (mas eficiente) analogia entre linguagem e vestimenta, o dicionário é um grande magazine onde estão expostas todas as peças de vestuário existentes; há peças íntimas, peças formais, peças descontraídas, peças exóticas, peças chamativas, peças discretas, peças indecentes — e, assim como as palavras, podemos escolher as que mais nos agradam. A soma de nossas escolhas — seja nas roupas, seja nas palavras — é o que costumamos chamar pelo nome clássico de estilo.

Depois do Acordo:

lingüístico > linguístico

hemorróida > hemorroida

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pós-vida

Nobre Doutor: não obtive sucesso na primeira vez que perguntei, mas insisto: o vocábulo pós-vida existe mesmo? Consultei o Aurélio e o Houaiss e não o encontrei. Seria uma tradução de after-life que não é válida? Haveria outra opção?

George B. — Belo Horizonte

Meu caro George: tu não vais encontrar no dicionário muitas dessas palavras formadas com pós- ou anti-, do mesmo modo que estão ausentes os advérbios em -mente e os diminutivos em -zinho. A formação de vocábulos com o acréscimo desses elementos é tão automática (e o seu significado tão facilmente depreendido pelo usuário) que os lexicógrafos, com toda a razão, não acham necessário incluí-las no dicionário. Podes escrever pós-eleição, pós-dilúvio, pós-atentado, pós-Bin Laden, pós-FHC, pós-Lula — e todo leitor vai entender perfeitamente. Se temos pós-data e pós-futuro (!), por que não teríamos pós-vida? Não te esqueças: menos de um terço de nossos vocábulos está registrado nos dicionários. Abraço. Prof. Moreno

P.S.: ficou bem-soante aquele “nobre” que utilizaste na saudação…

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“O” aberto ou fechado?

Caro Prof. Moreno: por favor, qual é a pronúncia correta da palavra isomorfo? É /isomôrfo/ ou /isomórfo/? Sou professor de Matemática e, entre meus colegas, as duas formas de pronúncia são ouvidas. Aprendi a pronunciar /isomórfo/, mas não encontrei nem no Aurélio nem no Houaiss a resposta para essa indagação. Desde já, muito obrigado. 

Aurélio S. — Curitiba 

Prezado Aurélio: a informação está lá, sim, tanto no Houaiss quanto no Aurélio; tu a viste mas não te deste conta. É uma prática consagrada entre nossos dicionaristas, mas pouco conhecida pelos leitores, indicar, entre parênteses, quando a pronúncia for /ê/ ou /ô/ fechados; quando nada mencionam, é porque a pronúncia é /ó/ ou /é/. Dá uma olhada em porta ou loja, e depois em mofo ou corvo, e vais ver que as vogais abertas são tomadas como default. Por isso, a pronúncia para o teu vocábulo é /isomórfo/; se fosse /isomôrfo/, o verbete traria a indicação /ô/.

O dicionário Houaiss, que tem uma sólida e generosa seção sobre a técnica lexicográfica utilizada, deixa isso bem explicitado na seção “Campo da ortoépia e da pronúncia”, que fica no “Detalhamento dos verbetes” (na versão eletrônica, está dentro da “Ajuda/Conhecendo o Dicionário”; na versão papel, está na página XIX). Entretanto, em certos casos de pronúncia duvidosa, o Houaiss indica também entre parênteses o /é/ aberto: é o caso de besta (/é/), arma de arremessar setas, e lobo (/ó/), parte do cérebro ou da orelha, que se confundem com os homógrafos besta e lobo. Este zelo foi estendido também àquelas palavras em que se verifica uma insistente pronúncia equivocada por parte dos falantes; assumindo uma postura didática, o dicionário achou importante registrar, por exemplo, “cateter (/tér/)” e “ibero (/bé/)”. Abraço. Prof. Moreno 

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o bom dicionário de sinônimos

Prezado Prof. Moreno, eu gostaria de esclarecer a seguinte dúvida: lendo os Sermões do Padre Vieira, notei que este autor faz distinção entre certas palavras que os dicionários dão como sinônimas. Assim, segundo ele, seguir é diferente de acompanhar pois quem segue fica atrás e quem acompanha fica ao lado. Nos dizeres do Pe. Vieira: “Porque quem segue fica sempre atrás, e quem acompanha fica por igual” (Sermões, 21,VI). Salvo engano meu, há diferença também entre portar e levar; portar daria idéia de algo com peso, idéia não transmitida pelo verbo levar… Por que os dicionários não trazem tais diferenças?

José Ricardo C. — Marília (SP) 

Meu prezado José Ricardo: em primeiro lugar, parabéns pela leitura de Vieira, um dos escritores que melhor soube explorar a riqueza do nosso idioma. Há muito eu fiz dele um companheiro inseparável, e o danado sempre me surpreende com a sua inimitável mistura de simplicidade e sutileza. O exemplo que pescaste nos Sermões é significativo: Vieira recusa-se a atribuir valor idêntico a dois vocábulos diferentes e sai no rastro de seus significados particulares. Fazes bem em perguntar: se ele fazia isso no século XVII, por que os dicionários atuais não fazem isso? Na verdade, a maior parte dos dicionários de sinônimos se limita a listar os vocábulos que têm mais ou menos o mesmo significado, silenciando sobre suas diferenças. Por esse pecado, no entanto, recebem o justo castigo: o leitor os considera inúteis, e eles mofam nas prateleiras dos sebos. 

Desde a Idade Média, no entanto, há dicionários que tratam de distinguir entre os diferentes sinônimos; encontrei menção a um autor grego tardio, Amônio, que escreveu, nos princípios da Era Cristã, uma obra intitulada Da Diferença das Palavras Semelhantes! Os sinônimos do Inglês, do Francês e até do Português já foram objetos de estudos similares; só dicionários desse tipo podem ser de alguma valia para quem escreve. Mesmo que algumas dessas distinções sejam subjetivas, fruto das concepções do dicionarista, é sempre produtivo acompanhar o esforço que o autor faz para defini-las. O modelo clássico, em Português, é o Roquete (Dicionário de sinônimos. Porto, Lello, s.d. 890 p.); no Brasil, há um dicionário similar do Antenor Nascentes (viva ele, que tanto fez pela nossa Lexicografia!), editado pela Nova Fronteira. Para te deixar mais consolado, reproduzo dele os seguintes exemplos:

DESCULPA, ESCUSA, PERDÃO – Desculpa é a razão apresentada para livrar de uma culpa. Quando reconhecemos que procedemos mal com alguém, pedimos-lhe desculpa. Escusa é a razão pela qual se explica por que não se pode fazer o que nos pedem. Perdão é a remissão da pena, castigo, em que se incorreu.

BRANDO, MACIO, MOLE, TENRO – Brando (mais usado em sentido moral do que em sentido material) é aquilo que cede facilmente ao tato, à pressão, conservando contudo certa consistência. Macio é o que, além de mole, é agradável ao tato, como se dá com uma almofada de penas, por exemplo. Mole é o que cede à compressão sem desfazer-se, por ter substância no seu interior. Uma bexiga cheia de ar, por exemplo, é branda mas não é mole. Um pêssego bem maduro é mole. Tenro é o que se mostra mole por sua condição de recente: madeira tenra.

MATINAL, MATUTINO – Matinal quer dizer da manhã, que se faz pela manhã, que sucede de manhã: refeição matinal, passeio matinal. Matutino se refere às primeiras horas da manhã, ao alvorecer, ao amanhecer. Estrela matutina, “a matutina luz” (Camões).

Depois do Acordo: idéia > ideia

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órtese

Prezado Doutor: gostaria de saber se a palavra órtese [sic] existe em nosso vocabulário. Não encontrei no Aurélio, mas continuo na dúvida porque se trata de uma edição antiga. Grato.

Ivan B.

Meu caro Ivan: sim, existe, e é muito usada na área da Medicina, da Odontologia e da Fisioterapia, que vêm fazendo, modernamente, a distinção entre órtese e prótese. Diferentemente da prótese, que substitui, no todo ou em parte, um membro que foi perdido, a órtese é uma ajuda externa, destinada a suplementar ou a corrigir uma função deficiente ou mesmo complementar o rendimento fisiológico de um órgão ou membro que tenha sua função diminuída (exemplos tradicionais são as antigas fundas para hérnia, o colar cervical e as talas de material plástico para o punho ou para o braço). O termo, que contém o radical grego orthos (“reto, correto”), vem da nomenclatura médica do Francês e está amplamente consagrado, inclusive na legislação da Previdência Social.

Se és leitor assíduo do nosso sítio, deves saber que os dicionários — mesmo os melhores, como o Houaiss e o Aurélio — trazem apenas uma parte do nosso vocabulário técnico. Se procurares neles todos os verbetes de um dicionário de Medicina, de Direito, de Geologia, etc., certamente vais deixar de encontrar a metade da lista. Isso é normal, pois um dicionário que contivesse todos os léxicos especializados teria quatro vezes o tamanho do Houaiss, que já tem mais de 2.000 páginas. Dezenas de milhares de palavras “existem”, mas não estão nos dicionários de uso geral. Abraço. Prof. Moreno

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maniático

Olá, professor! Você poderia me esclarecer uma dúvida? Acabaram de me falar que a palavra maniático não existe. Fui conferir em alguns dicionários e realmente não a encontrei. Neles constava apenas o termo maníaco. Considerando também o uso corriqueiro da palavra maniático, pergunto se é errado usá-la, pois — ao menos para mim — ela parece ter um sentido mais específico, enquanto maníaco parece se estender a vários outros casos. Obrigada pela atenção.

Uda Schwartz

Minha cara Uda: realmente, o vocábulo maniático, que é largamente empregado no Espanhol, parece estar fazendo falta por aqui, pois serve para designar a pessoa que tem lá as suas manias, seus hábitos idiossincráticos, mas inofensivos, distinguindo-se, dessa forma, do maníaco, usado em sentido técnico pelos profissionais da área Psi. 

O problema desses dois vocábulos começa com a mãe deles, a palavra mania — literalmente “loucura”, no Grego. Esse significado continua vivo na Medicina e na Psicologia; é por isso que se fala de uma psicose maníaco-depressiva e que se internam psicopatas no manicômio (foi pelas manias que o imorredouro Simão Bacamarte, de Machado de Assis, acabou enchendo a Casa Verde com seus parentes e vizinhos). Com o tempo, contudo (o Tempo é o senhor da Linguagem – é bom não esquecer!), mania saiu do vocabulário exclusivamente científico e vulgarizou-se na linguagem corrente, passando a denominar apenas aqueles hábitos, esquisitos ou não, que fogem um pouco do usual: (1) Nada de mais em tomarmos café numa xícara; Fulano, contudo, tem a mania de só usar um copinho do Requeijão Tabajara. (2) Ela tem a mania de folhear o jornal do fim para o começo. (3) Ele tem a mania de tirar o som da TV e ouvir a transmissão do jogo pelo rádio.  

Mesmo na linguagem usual há novas distinções a caminho. Maníaco é a forma preferida para “gostar de alguma coisa, ser louco por ela”: eu sou maníaco por doce de leite. Maniático vai entrando no Português para designar “aquele que é cheio de manias, cheio de nove horas”: ela desistiu do namoro porque ele era muito maniático. Se o vocábulo não está ainda em nossos dicionários, isso não quer dizer que ele não exista, Uda. Centenas de palavras que empregamos não estão lá, também (o Houaiss tem um pouco mais de 240.000 registros, enquanto se estima o léxico do Português em quase 600.000 itens). A vantagem de “estar no dicionário” é que isso elimina qualquer necessidade de justificar o emprego de um vocábulo, enquanto o uso dos que “ainda não estão” pode ser contestado por algum boi-corneta. Avalia bem a situação em que vais empregá-lo e manda bala. Abraço. Prof. Moreno

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bons dicionários

Caro professor: agradeço a oportunidade de apresentar minha dúvida.Traduzo muitos textos do Japonês para o Português. Não sou tradutor juramentado, tampouco fiz cursos de tradução. Porém, sinto muito a falta de um bom dicionário de língua portuguesa. Não me sinto à vontade com o Aurélio ou o Michaelis; o Houaiss eu ainda não conheço. Solicito uma sugestão de um dicionário etimológico e outro de sinônimos. Um abraço.

R. Hayashi — São Paulo 

Meu caro Hayashi: a dor que estás sentindo é exatamente no nosso calcanhar de Aquiles: o Português não tem (e não terá) dicionários muito melhores do que os dois que citaste, ou mesmo do que o Houaiss, que é o melhor que temos. A elaboração de um grande dicionário é um empreendimento caríssimo, e só idiomas que tenham abrangência planetária (como o Inglês e o Espanhol) suportam investimentos desse porte. Em escala um pouco menor, o Francês e o Alemão (principalmente por sua tradição cultural) possuem uma razoável lexicografia. No nosso caso, entretanto, somos obrigados a ir juntando, aqui e ali, as informações de que necessitamos. Eu mesmo, muitas vezes, recorro ao lendário OED (Oxford English Dictionary — o mais completo do mundo), dicionário de Inglês, para tirar dúvidas quanto a palavras do Português (principalmente as abstratas e as técnico-científicas, que provêm do fundo comum greco-latino). 

Quanto às indicações que solicitas, recomendo-te duas obras: o Dicionário Etimológico de Antônio Geraldo da Cunha (não é o mais completo, mas é o único que vais encontrar no Brasil; o outro, do José Pedro Machado, é editado em Portugal e é caríssimo) e o Dicionário de Sinônimos do Antenor Nascentes (o único que vale a pena consultar, pois procura mostrar as diferenças entre as palavras de significados semelhantes). O conteúdo do dicionário de Antônio Geraldo da Cunha, ao que parece, foi incorporado ao texto do Houaiss. Prof. Moreno

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aidético

Caro Cláudio Moreno: entre nós que trabalhamos com doenças infecciosas — eu sou médico infectologista — a palavra aidético tem uma conotação pejorativa. É como se nós nos referíssemos a um paciente com câncer como canceroso. Para mim, ainda mais, não havia sequer razão para a sua existência, já que a raiz aids não daria aidético, no máximo um aidesético. Para minha surpresa o Aurélio pôs no dicionário o termo sem nenhum alerta sobre seu uso perigoso. E eis que o Houaiss vem e faz o mesmo. Esses nossos dicionaristas não estariam aceitando termos acriticamente? O que o senhor acha disso? Estão autorizando a nós, médicos, usarmos o termo de forma vernacular em nossos artigos científicos? Abraços.

Helio B.

Meu caro Hélio: a língua corrente usa as palavras independentemente das considerações éticas que um médico possa levantar. Essa distância entre o uso especializado e o uso comum é observável em qualquer área do conhecimento; enquanto o vocabulário jurídico distingue entre roubar e furtar, a diferença inexiste para o cidadão que teve seu carro levado por ladrões. Para este mesmo cidadão, o vocábulo aidético designa simplesmente os indivíduos contaminados pelo vírus da Aids; ele não percebe aí a carga pejorativa que um médico vê e procura evitar. É como louco ou maluco, vocábulos que um falante comum utiliza, sem malícia, para designar quem sofre das faculdades mentais, mas que deixam toda a comunidade de psiquiatras e psicólogos com os cabelos (e as barbas) em pé.

Aidético é o adjetivo que nasceu de Aids, e ninguém mais poderá matá-lo, mesmo que fosse malformado — no que, aliás, também tenho as minhas dúvidas. Por que deveria ser *aidesético? Não temos nenhum vocábulo com essa terminação “-esético”; além disso, vejo que lues deu luético e herpes deu herpético, com a desconsideração da sibilante final, como ocorre com aidético

Agora, o fato de todos os bons dicionários registrarem o termo não significa sinal verde para usá-lo em trabalhos científicos; lembra-te, por exemplo, de que todos os palavrões estão dicionarizados, mas isso não nos autoriza a empregá-los num artigo ou numa tese. Dicionário apenas registra e informa; a nós cabe decidir o que é correto ou adequado para as situações concretas, de acordo com nossa formação e nossa sensibilidade. Como muito bem observaste, médicos que se referem a seus pacientes como “cancerosos” ou “sifilíticos” parecem não ter a humanidade e a compreensão indispensáveis para um profissional dessa área. Abraço. Prof. Moreno