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A Reforma adiada (1) – a vitória do bom senso

Ao aceitar um grande número de grafias diferentes entre os vários países lusófonos, os membros da Comissão que elaborou o novo Acordo Ortográfico deveriam ter voltado para suas casas, admitindo a impossibilidade dessa utopia unificadora. Infelizmente, numa constrangedora demonstração de falta de espírito cívico, terminaram por aprovar uma Reforma que trai o seu objetivo principal.

Um dos fatos mais importantes de 2012 para nós, brasileiros, praticamente passou em branco nas indefectíveis retrospectivas de final de ano: atendendo ao clamor de vários setores, a presidente Dilma determinou o adiamento do início da obrigatoriedade da “nova ortografia”, que ocorreria na noite do Ano-Novo, no exato momento em que, concluída a contagem regressiva da Globo, os fogos de artifício da baía da Guanabara espocassem em todos os telões e telinhas desta pobre mas valorosa Pindorama. O decreto presidencial, publicado do Diário Oficial no dia 28 de dezembro, estipula que o uso das novas regras só passará a ser obrigatório em 2016 — o que significa, prezado leitor, que, até lá, você poderá escolher entre dois sistemas ortográficos diferentes mas igualmente válidos.

Este providencial (e inesperado) ataque de bom senso foi, a meu ver, o melhor presente que o bom Pai Noel poderia nos trazer. O Brasil, que tinha se atirado de ponta-cabeça no abismo das novas regras (num açodamento, aliás, que surpreendeu e assustou os demais países lusófonos, bem mais prudentes do que nós), ganha assim tempo para amadurecer suas decisões, avaliar as tropelias que cometeu em todo esse processo e mudar o que for possível para minimizar os prejuízos que esta Reforma nos trouxe. O imbróglio em que estamos metidos é tão grande que acho indispensável lembrar quem foram os responsáveis — tanto os externos quanto os internos.

Os responsáveis externos são os participantes da Comissão que elaborou o Acordo, que não tiveram a honestidade de abandonar este projeto digno de um Nabucodonosor enlouquecido. Explico melhor: esta Reforma passou a perder seu prestígio e respeitabilidade no momento em que os usuários se deram conta de que ela se baseia numa falsa promessa. Como uma comerciante desonesta, vende o que ela própria não se dispõe a entregar. Espantado, caro leitor? Mas então me diga: o principal fundamento apresentado para abandonar o modelo que tínhamos não era a adoção de um sistema unificado, em que todos os falantes do Português  grafariam as palavras de uma mesma e única forma? Não era este estado quase edênico, do lobo e do cordeiro vivendo juntos e usando os mesmos acentos e letras, a grande justificativa para o esforço e o custo exigidos para implantar esta nova sociedade de igualdade ortográfica? Pois deveria ser, leitor, mas não é — e não sou eu quem diz, e sim a própria Comissão que redigiu o Acordo, ao aceitar e oficializar uma série de diferenças entre o modo de escrever deste e do outro lado do Atlântico, que continuarão intocadas. Aponto alguns exemplos:

1) Os que falam aqui usam certas pronúncias distintas dos que falam no além-mar? Não há problema; a Comissão dá um jeito: o Acordo oficializa centenas de formas duplas como sinônimo e sinónimo, acadêmico e académicogênio e génio, pênis e pénis, fêmur e fémur; bebê e bebé, judo e judô.

2) Portugal distingue foneticamente a 1ª pessoa do plural do presente do indicativo da mesma pessoa do pretério perfeito? Não há problema; a Comissão “unificadora” ajeita, autorizando que esta última seja acentuada por todo aquele que quiser: “Ontem trabalhámos até tarde”.

3) Há divergências na pronúncia de consoantes em fechamento de sílaba? O Acordo abraça ambas as formas de escrever: cetro e ceptro, corrupto e corruto, concepção e conceção. E por aí vai a valsa (ou o samba… ou o fado…).

Ora, aqui está, a meu ver, a grande desonestidade das pessoas que elaboraram este Acordo: ao se ver compelida a institucionalizar tantas duplicidades ortográficas (justificadas, é óbvio, por diferenças reais na pronúncia), a Comissão elaboradora deveria ter admitido a inexequibilidade do projeto e enterrado definitivamente esta proposta de unificação no cemitério das utopias (o qual, aliás, anda muito concorrido, ultimamente…). Que tivesse a hombridade de se definir: se a unificação não é possível, então não se fale mais nisso… No entanto, por vaidade, onipotência ou simplesmente para não perder a viagem, como se diz, ela acabou fazendo aquilo que, no tempo dos sapateiros, era chamado de “meia-sola”: alterou algumas coisas aqui e ali, “ao menos diminuindo um pouco mais a distância do sonho de uma grafia unificada”, como declarou, sem a menor vergonha na cara, um destacado membro da Comissão — como se fosse coisa pouca mexer na ortografia de tantos países para obter resultado tão pífio.

(continua)

Veja AQUI o que já publicamos sobre o Acordo

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Através dos dicionários Destaque

cuidado com o Novo Houaiss!

Se a memória não me trai, a História do Mundo para Crianças, de Monteiro Lobato, reproduz o famoso ladrilho encontrado sob as cinzas de Pompéia que mostra a figurinha de um cachorro acorrentado, encimada pela frase latina “cave canem” — que, em vernáculo, corresponde ao costumeiro aviso de “cuidado com o cão”. É desse mesmo verbo cavere (“tomar cuidado, acautelar-se”), pai do nosso precaver, que vem o substantivo caveat, que nada mais é do que uma advertência, um aviso, uma recomendação de cautela (para os que perderam o seu Latim, lembro que a pronúncia é /cáveat/). Pois esta coluna, meus amigos, é um caveat quanto à nova edição do Houaiss, motivado por uma valiosa (e acabrunhante) descoberta feita por um perspicaz e persistente leitor.

Todos os que acompanham esta coluna sabem que sou um admirador de primeira hora do dicionário de Antônio Houaiss. Assim que foi lançado, publiquei no Caderno de Cultura um extenso artigo de boas vindas, cujo título já anunciava a minha instantânea conversão ao novo credo: “Sai Aurélio, entra Houaiss “. Na ocasião, não hesitei em proclamar: “…terminei virando o Milênio com o Aurélio, e aurelista cheguei até este mês de setembro de 2001. Agora, contudo, troquei: começa a Era do Houaiss“. Hoje, depois de oito anos de convívio diário, tenho certeza de que minha avaliação não estava distorcida pelo deslumbramento da estreia: no momento, este é, sem dúvida alguma, o melhor dicionário da Língua Portuguesa, deste e do outro lado do Atlântico.

Ao entrar em vigor o nosso raquítico Acordo Ortográfico, neste ano da graça de 2009, nem passou pela minha cabeça trocar o exemplar que utilizo por um exemplar atualizado pela nova ortografia. Afinal, como sou do ramo, achei que não valia a pena a considerável despesa de quase meio salário-mínimo para adquirir uma edição concebida às pressas, sem o tempo necessário para que o próprio mundo acadêmico entendesse exatamente quais foram as mudanças introduzidas pela Reforma. Decidido, portanto, a postergar essa compra por mais um ou dois anos, não prestei maior atenção aos anúncios de lançamento do novo produto, imaginando que fosse o mesmo dicionário que possuo, acrescido das (pequenas) alterações na acentuação e no uso do hífen.

O amigo aí pensou o mesmo? Pois então fique sabendo que também caiu na esparrela. Quem levantou esta lebre foi Guilherme Braga, tradutor literário, licenciado em Letras pela nossa UFRGS, que, pensando em adquirir o novo dicionário, teve sua atenção despertada pela considerável diferença no tamanho físico das duas edições. O que ele já tinha, que é igual ao meu, vinha com mais de três mil páginas; o novo, com apenas duas mil. Ora, considerando que o dicionário antigo já é um volume de dimensões avantajadas, no limite da manuseabilidade, não parecia plausível que a editora as tivesse expandido ainda mais para acomodar o mesmo conteúdo em dois terços das páginas originais. Com a pulga atrás da orelha, nosso leitor efetuou um excelente trabalho investigativo. Ele próprio explica: “Anotei o intervalo de palavras constante na primeira página de cada letra do meu antigo Houaiss (a primeira página da letra c, por exemplo, vai de c a caapiá-verdadeiro) e o número de entradas contido neste intervalo – no caso da letra C, 57 entradas. Na edição do novo Houaiss, contei as palavras contidas no mesmo intervalo e elaborei uma tabela indicando a defasagem do novo Houaiss em relação ao antigo”. O resultado confirmou sua suspeita inicial: o “novo” dicionário é uma versão reduzida do anterior, “aliviada” da terça parte do conteúdo! Enquanto o dicionário antigo conta com 228 mil verbetes, o novo vem com míseros 146 mil — ou seja, a redução do conteúdo corresponde exatamente à redução de páginas.

Depois de uma troca de correspondências com a editora Objetiva e com Mauro Villar, atual responsável pelo Instituto Houaiss (o artigo, na íntegra, pode – e deve – ser lido aqui), o enredo ficou esclarecido: apesar de levar o mesmo nome –Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa-, são dois produtos diferentes. O antigo, de 2001, é o verdadeiro; o segundo, de 2009, é um dicionário menor, do tamanho do atual Aurélio. O antigo, que agora passa a ser chamado pela editora Objetiva de Grande Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, terá a ortografia atualizada pelo Acordo em data ainda não prevista. É uma pena que só agora, graças ao Guilherme Braga, sejamos avisados dessa embrulhada, pois muita gente comprou a nova edição pensando estar adquirindo a versão completa. Não posso afirmar que a editora tenha agido com fé –  mas com boa eu tenho certeza que não foi.

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o “não” como prefixo

Professor, não tenho certeza sobre como devo grafar “anti-inflamatórios não-esteróides (é uma classe de medicamento). As gramáticas que consultei não falam sobre o emprego daquele hífen depois do não, mas sei que é assim, hifenizado, que o vocábulo aparece em muitos livros e manuais médicos. Afinal, qual é o correto? Em que casos podemos usar o hífen depois da palavra não?

Áurea A. – São Paulo (SP)

 

Prezada Áurea: para desmentir aqueles que vivem resmungando que nosso idioma só piora com o passar do tempo, este não com valor de prefixo, estrela recém-chegada no firmamento da língua, constitui um notável (e moderníssimo) mecanismo para a formação de antônimos. Você quer saber quando ele vem seguido de hífen? Pois sou obrigado, por desencargo de consciência, a registrar que há uma certa controvérsia sobre este ponto, principalmente depois das trapalhadas da última edição do VOLP (mais sobre isso depois). Por isso, como você terá de escolher um dos lados desta disputa, faço questão de lhe fornecer os subsídios que julgo necessários para uma decisão consciente. Em primeiro lugar, reproduzo, abaixo, o que consta sobre o tema no livro Português para Convencer, escrito por Túlio Martins e por este seu criado:

 

“Historicamente, o Português sempre formou palavras negativas usando os prefixos i(n)– e des: ilegal, improdutivo, intempestivo; desleal, desarmônico, descabido. Desde o século passado, no entanto, teve início a prática (também presente em outras línguas, como o Inglês, o Francês e o Espanhol) de usar o não como um prefixo negativo universal, que se acrescenta a um vocábulo já existente (geralmente adjetivo ou substantivo abstrato) para formar um antônimo perfeito.

“O uso do não como prefixo foi uma das grandes novidades com que a língua nos brindou no fim do século XX, permitindo que tudo possa ser dividido em duas categorias complementares, X e não-X — o que constitui uma ferramenta muito útil no discurso argumentativo. Com esse providencialíssimo não, podemos criar divisões binárias de praticamente tudo o que quisermos: os votantes e os não-votantes, os alfabetizados e os não-alfabetizados, os hispânicos e os não-hispânicos, os marxistas e os não-marxistas. Ele até nos permite falar no não-eu ou no não-ser, vocábulos que seriam impensáveis com nossos prefixos negativos clássicos, o ine o des. (…)

“Em muitos vocábulos esse prefixo vai concorrer com os tradicionais prefixos negativos, e geralmente com vantagem. É o que está acontecendo entre duas formações relativamente recentes, inocorrência e não-ocorrência. Ambos são amplamente usados em textos jurídicos, com uma leve preferência, por enquanto, pela primeira forma, que é tradicional. No entanto, não temos dúvida de que a segunda vai prevalecer em poucos anos; o não prefixal permite uma decodificação muito mais rápida do significado do vocábulo por parte do leitor, o que é sempre uma grande vantagem na disputa entre duas formas linguísticas concorrentes.”

[MORENO & MARTINS. Português para Convencer. São Paulo, Ática, 2006. p. 169]

 

Como você pode ver, não se trata de uma simples moda, mas sim de um processo que veio para ficar, superior em muito às outras formas de antonímia porque preserva integralmente o vocábulo original que está sendo antagonizado. Este recurso permite uma simetria perfeita entre afirmativa e negativa, o que nem sempre se consegue através de construções tradicionais.

Qual é a natureza deste processo? Não importa. Sejam formadas por derivação prefixal ou por composição (para muitos, aliás, dois nomes para um mesmo fenômeno), as novas palavras ficam melhor com hífen. Alguns gramáticos mais antigos negavam-se a usá-lo, mas a prática já o consagrou, especialmente porque ele serve para assinalar que o não, aqui, não é um advérbio de negação, mas sim um elemento da composição do vocábulo. Os bons dicionários o usam; o Houaiss, embora declare textualmente que considera este hífen mais adequado em substantivos (não-violência, não-proliferação, não-alinhamento), não deixa de registrar também adjetivos hifenizados, “especialmente no caso de tecnônimos, pois o uso assim os havia consagrado no jargão técnico ou tecnológico escrito”. Apuradas as urnas, constata-se que há uma inegável tendência a empregar o hífen, mesmo que persistam divergências quanto a alguns punhados de palavras.

Sempre coerente na sua onipotência, contudo, a comissão de Lexicologia da ABL, encarregada de elaborar o novo VOLP, foi muito além das chinelas — isto é, foi muito além do texto do Acordo Ortográfico e anunciou, em uma Nota Explicativa, que tinha decidido excluir o hífen dos casos em que a palavra não funciona como prefixo, mencionando, como exemplos, não-agressão e não-fumante, grafados por ela como não agressão e não fumante. No entanto, logo depois, no parágrafo seguinte da mesma Nota — talvez prevendo a inevitável reação contra esta decisão unilateral —, a douta comissão dá uma contemporizada tipicamente brasileira: “Está claro que, para atender a especiais situações de expressividade estilística com a utilização de recursos ortográficos, se pode recorrer ao emprego do hífen nestes e em todos os outros casos que o uso permitir”. Que tal? Firmes como uma rocha…

Eu escreveria, sem a menor hesitação, “anti-inflamatórios não-esteróides“, seguindo o consenso da maioria culta; respeito a decisão dos que preferem não fazê-lo, mas não me venham alegar uma pretensa “grafia oficial” a seu favor, pois aquela Nota Explicativa é apenas a opinião isolada de alguns acadêmicos e não integra o Acordo que o Brasil assinou com os demais países lusófonos. Agora cabe a você, Áurea, escolher o caminho que lhe aprouver. Abraço. Prof. Moreno.

 

Depois do Acordo: esteróides > esteroides

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Bom dia, bom-dia

Caro Professor, em uma mensagem eletrônica ou em uma carta, o cumprimento “bom diapode ser escrito sem hífen? Lucia — Curitiba

Em qualquer circunstância, Lucia — carta, bilhete, e-mail, etc. —  a saudação vai ser escrita sem hífen: “Bom dia!”. Quando for um substantivo, no entanto, deve ser hifenizado: “Deu um bom-dia sem graça e foi sentar em seu lugar”. Neste caso, tem até plural: “Já estava cansada daqueles bons-dias cheios de segundas intenções”. Pois nada disso muda, com o Acordo; as novas regras de hífen dizem respeito a formação com prefixos — o que não é o caso. Abraço.  Prof. Moreno

Mas caro Professor, de acordo com o VOLP, saudação protocolar é vocábulo grafado com hífen. O Houaiss ratifica tal ponto de vista. Assim, ao iniciar o dia, o bom-dia é um cumprimento, pois não? O Acordo de 1990 não aborda a questão. E aí?

Lucia — Curitiba

Minha cara Lúcia, nota que o Houaiss registra apenas o substantivo masculino (com hífen, aliás, como já te disse na mensagem anterior). Deves perceber que isso nada tem a ver com “Bom dia!”, aquele segmento de frase que dizemos quando encontramos alguém, ou dele nos despedimos. É uma locução, o que significa que já pertence ao mundo da sintaxe — e isso a deixa fora do âmbito do hífen, que fica restrito ao interior de um vocábulo composto. “Bom dia!” é da mesma tribo de “Boas festas!”, “Bons ventos!”, “Bom Carnaval!”, “Boa viagem”,”Bom almoço!”, “Boa hora” (que se diz para as gestantes), e assim por diante. Um exemplo que deixa bem clara esta diferença é “boa tarde”. Compara a concordância de gênero em “Tenha uma boa tarde” (locução) com “Deixo aos ouvintes o meu boa-tarde” (substantivo composto). Abraço. Prof. Moreno

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Não compre o novo VOLP! 3ª parte

[publicado em 19/06/2009]

Neste artigo, como nos dois primeiros, o tema não é o novo Acordo, do qual sou crítico declarado e inimigo irredutível, mas o Vocabulário Ortográfico que nossa Academia deu à luz, em parto desastrado e prematuro. Isso significa que não vou avaliar aqui as mudanças propostas pela última Reforma, sobre (e contra) as quais já escrevi tantas vezes, mas sim apontar ao meu prezado leitor o equívoco que a comissão brasileira cometeu ao tentar interpretá-las, comprometendo irremediavelmente esta quinta edição do VOLP e condenando-a ao depósito de papel velho. É o que pretendo demonstrar.

Quando o Diário Oficial da União publicou o texto do Acordo, percebeu-se que ele continha várias regras conflitantes ou redigidas de maneira confusa. E olhe, caro leitor, que não se trata da opinião pessoal de um adversário birrento como eu; esta foi a mesma impressão que tiveram todos os que se dispuseram a enfrentar aquele estilo pedestre, fossem eles do contra, fossem a favor. Todos nós — os bons e os maus, os crédulos e os descrentes — recolhemos as armas e ficamos na expectativa do vocabulário que a ABL deveria editar. Os acordistas tranquilizavam os aflitos (e a si mesmos) anunciando que todas as dúvidas e perplexidades que porventura restassem deixariam de existir no momento em que ele fosse publicado; os não-acordistas (com hífen, porque é assim que devem escrever aqueles que conhecem o idioma) esperavam, céticos, o parto da montanha, curiosos apenas em saber em que medida o VOLP reduziria o dano anunciado.

Diante desta disputa, um daqueles camponeses proverbiais, montado em seu burrico, teria sentenciado, abanando a cabeça: “De mau ovo, mau corvo”. E dito e feito: o VOLP veio decepcionar todo o mundo, pois a nossa comissão, em vez de trazer o bálsamo prometido, só veio aumentar a ardência da ferida, extrapolando sua competência ao tomar decisões que iam além e mesmo contra o que estava disposto. O caso de co-herdeiro foi típico. Em todo o Acordo perpassa a ideia de preservar sempre o H inicial do segundo elemento dos compostos (anti-higiênico, super-homem, neo-helênico, geo-história), o que representa um bem-vindo aperfeiçoamento do sistema de 1943, que não usaria hífen nos dois últimos exemplos acima. Nossa ortografia sempre manteve o H inicial de hora, hábito ou histérico — da mesma maneira que o Francês, o Inglês ou o Espanhol — para deixar visível o DNA desses vocábulos, inserindo-os na tradição greco-romana do Ocidente. Fiel a este espírito, a Reforma determinou que ele também seja conservado no interior dos vocábulos compostos, o que é decididamente um progresso; nossa ABL entendeu tão bem o princípio que o estendeu a um prefixo importante como sub-, transformando os antigos (e absurdos) subumano, subepático e subabitação, por exemplo, nos simpáticos sub-humano, sub-hepático e sub-habitação, com uma construção muito mais transparente para o usuário. Ora, depois de acertar tão bem no prego, essa mesma comissão, por razões insondáveis, resolveu dar uma martelada na tábua e transformou co-herdeiro (que continuamos a escrever assim, seja pelo modelo tradicional, seja pelo princípio atual) num esquisitíssimo *coerdeiro (está assim no VOLP), que desfigura totalmente o segundo elemento. Não importa se foi um cochilo ou se foi uma decisão deliberada, mas é um erro que precisa ser corrigido; escrito assim, o vocábulo contraria o princípio geral e, o que é mais espantoso, vai expressamente contra o texto do Acordo, que usa este vocábulo como exemplo, grafando-o, como era de esperar,  com hífen e com H.

Não é por um detalhe como esse, no entanto, que vamos condenar esta quinta edição. É natural que numa lista de centenas de milhares de itens existam dezenas de pequenos equívocos a corrigir (ainda mais se considerarmos a pressa com que foi feita e a duvidosa qualificação da equipe que a elaborou). Sempre foi assim, com as edições anteriores; mesmo o venerável e consistente vocabulário de 1943, enquanto vigeu, teve várias imperfeições e incoerências apontadas pelos especialistas. O que inutiliza o presente vocabulário, no entanto, é um equívoco teórico de base, que levou a comissão a grafar erradamente várias centenas de vocábulos, escrevendo sem hífen, por princípio, todos os compostos de mais de dois elementos. Num absurdo linguístico, como vou demonstrar na próxima coluna, defendem a retirada do hífen em vocábulos como fora-da-lei, pé-de-moleque, tomara-que-caia, dois-de-paus! É de estarrecer! Assim como está, o VOLP, como se diz, é “impróprio para o consumo”, tão funesto quanto o medicamento vencido ou a merenda estragada; espero sinceramente que já não esteja em curso alguma gigantesca operação para fornecê-lo a todas as escolas “desse” país. A ver.

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Não compre o novo VOLP! – 2ª parte

[publicado em 31/05/2009]

O assunto da coluna anterior foi a estranhíssima pressa com que nossa Academia lançou o seu Vocabulário Ortográfico, elaborado por uma comissão que, além de não ter representatividade alguma no meio cultural e acadêmico, não inclui — afora seu presidente, Evanildo Bechara — nenhuma reconhecida autoridade em nosso idioma. Estranhíssima, por quê? — há de perguntar o leitor que está chegando agora ao baile;  estranhíssima, digo eu, porque esta desastrada publicação veio implodir a própria essência do Acordo, que era (alguém ainda se lembra desta peta?) a unificação da Língua Portuguesa, aquele sonho celestial que atraiu muita gente de boa fé, tanto aqui quanto além-mar! Ébrios de tanta utopia, os neoconvertidos já enxergavam, ao longe, a luz celestial do futuro prometido: o Português seria finalmente unificado em todos os países lusófonos, aumentando assim o seu poder político e conquistando o direito de ingressar no elenco das línguas oficiais da ONU; os livros editados aqui seriam vendidos na África, os livros editados na África seriam vendidos aqui, e em Portugal, e em qualquer outro rincão debaixo do sol em que se fale o idioma de Camões. Os que se opunham ao Acordo e o chamavam de inútil e fantasioso eram apedrejados pela multidão, acusados de “retrógrados”, “conservadores” e “colonialistas”, entre outras pérolas. Era inútil; repetia-se, com a devida alteração, o maroto dito popular: água morro abaixo, fogo morro acima e tolo que quer se iludir, ninguém há de segurar…

Pois não é que a Academia Brasileira de Letras, sem tir-te nem guar-te, decidiu publicar um Vocabulário Ortográfico sem consultar ou ouvir os demais países interessados? Mas como? Não deveria ser um esforço comum? Não íamos todos dar as mãos para um mundo melhor, como recomendam as redações escolares? Pois não foi o que se viu. As autoridades brasileiras que se manifestaram quando o Vocabulário foi concluído quase não podiam conter o seu ufanismo: nada mais natural que tivéssemos saído na frente! Afinal, mais de 80% dos 230 milhões de falantes do Português vivem aqui na Pindorama, o que autoriza o Brasil a ser o puxador da escola de samba, a locomotiva do comboio, a São Paulo do mundo lusófono; non ducor, duco (“não sou conduzido, conduzo”), dizia, em Latim, o lema fascista cunhado por D’Annunzio. (Ao que eu, com meu habitual espírito de porco, poderia redarguir: mas a levar adiante esse raciocínio de brucutu — manda quem tiver o porrete maior —, por que não obrigamos, simplesmente, os demais países a escrever como nós temos feito desde 1943? Seria bem mais simples e mais barato — para nós!).

Quando um jornalista perguntou se este VOLP isolado não se chocava frontalmente contra o espírito do Acordo, o professor Bechara simplesmente respondeu que os demais países deviam fazer o mesmo e lançar cada um o seu — o que resultaria, se chegasse a ser feito, em sete vocabulários ortográficos diferentes. Ou seja, não só deixaria de haver a propalada unificação (era só uma bravata de campanha, não vêem?), como ficaria ainda muito pior do que estávamos até o ano passado; haveria sete maneiras diferentes de grafar nossas palavras! E o Brasil todo — as universidades, os especialistas e, principalmente, a imprensa — aceitou que lhe enfiassem goela abaixo (ou por outra via…) este absurdo quase sem gemer! Aqui e ali alguma voz isolada denunciou o disparate cometido, mas, com um fatalismo bocó, a maioria dos brasileiros deu o fato como consumado e passou a se preocupar apenas em aprender a escrever novamente. Surgiram livrinhos oportunistas explicando o novo sistema, os jornais publicaram guias práticos e resumidos, organizaram-se cursos-relâmpago sobre o tema — tudo para permitir que nosso falante pudesse experimentar o prazer da nova ortografia sem sentir muita dor. Vários pontos do Acordo ainda estavam obscuros, mas os seus sacerdotes insistiam no mesmo mantra: o VOLP virá; ELE deixará tudo mais claro.

Pois ELE veio. Nova e desagradável surpresa: o VOLP, a bíblia da ortografia vigente no País, não é oferecido on-line, como deveria, para consulta de todos os fiéis. Mas o que você queria, ingênuo leitor? Acesso gratuito? Está pensando que isso é obra de benemerência? Afinal, o senhor é contra o empreendedorismo? Quer arruinar os que investiram tanto tempo e esforço para montar este esquema? O senhor tem alguma coisa contra o lucro? É anarquista? É bolchevique? Quer que Moisés mostre as Tábuas da Lei sem ganhar algum? Ledo engano, caro amigo. Vá preparando a carteira, que você vai gastar R$ 120,00 (fica por cem, com chorinho) para ingressar neste recinto — e muito mais nos calmantes que vai ter de tomar quando perceber que comprou fruta bichada. Mas isso eu explico depois.

Depois do Acordo: vêem > veem

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Não compre o novo VOLP! — 1ª parte

[publicado em 16/05/2009]

Plutarco nos conta, em suas Vidas Paralelas, que Catão fazia uma campanha cerrada para que Roma destruísse de uma vez por todas os cartagineses, e para isso sempre encerrava seus discursos com uma frase que ficou famosa: ceterum censeo Carthaginem esse delendam (algo como “além disso, acho que Cartago deve ser destruída”). Como não consigo me conformar com a passividade ovina com que a nova ortografia vem sendo recebida no Brasil, pensei em imitar o venerável senador romano e concluir todos os meus artigos com uma frase que levasse meus leitores a perceber o oportunismo e a incompetência do Acordo. Eu já estava me ensaiando nesta cruzada quando, sem dizer água-vai, a Academia literalmente nos atropelou com a publicação do seu Vocabulário Ortográfico, cujos responsáveis um dia serão castigados por infligir ao nosso pobre idioma um dano ainda maior que os prejuízos causados por esta reforma infeliz. Em outras palavras, o Acordo foi a queda, o VOLP foi o coice.

Não vou tentar fazer uma lista completa de todos os problemas que ali existem; a experiência me ensinou que essa é uma estratégia ruim, pois o número excessivo de detalhes técnicos termina anestesiando o leitor, impedindo que ele distinga, no meio de todas as mudanças propostas, aquelas que realmente vieram atrapalhar sua vida. Por isso mesmo, vou me limitar a poucas (mas graves) denúncias.

1 — A grande justificativa dada pelos defensores do Acordo sempre foi a unificação da Português (não vou discutir se é possível ou não, desejável ou não, importante ou não; estou aqui para falar do VOLP). Foi em torno deste nobre objetivo que os países lusófonos se reuniram, dispostos a investir muito tempo (e muito dinheiro) para alcançá-lo; nada mais natural, portanto, que o Acordo, já no seu Artigo 2º, declare expressamente que todos os países signatários tomarão as providências necessárias para elaborar “um vocabulário ortográfico comum da Língua Portuguesa, tão completo quanto desejável”. É justo, dirá o meu leitor; afinal, quem quer os fins dá os meios, e a existência desse núcleo duro, comum a todos os países que falam a língua de Eça e de Machado, servirá de base para os dicionários, gramáticas e corretores de texto que vão nascer com a Nova Ordem.

Foi imbuída desse puro espírito fraternal que a simpática Academia Galega, ainda esta semana, entregou à Academia de Ciências de Lisboa uma relação do léxico comum aos portugueses e galegos; ao receber o vocabulário, o responsável pelo Instituto de Lexicografia ressaltou a importância desse tipo de contribuição para a elaboração de um documento de base, que se enriquecerá ainda mais quando todas as regiões lusófonas, de Cabo Verde a Timor-Leste, fizerem o mesmo. Perfeito! Se você aguçar bem o ouvido, prezado leitor, não deixará de ouvir, ao fundo, o som das harpas e o cantar dos anjos.

2 — Ora, aqueles portugueses que defendiam o sonho da unificação não perceberam com quem andavam a fazer acordos e caíram na esparrela. Não tinham a menor idéia da perversa arrogância do brasileiro de hoje, metido a malandro, matreiro, astucioso (o velho complexo de inferioridade invertido), que se acha mais esperto que qualquer estrangeiro, mais sabido que qualquer professor (“Meu mulato inzoneiro“, como diz Ary Barroso, na Aquarela do Brasil — leia-se, “que é sonso, manhoso, enredador”). Quando Portugal abriu os olhos, já estávamos com o nosso Vocabulário Ortográfico pronto, publicado e à venda por módicos R$120,00 (mais sobre isso, depois). O ingênuo europeu ainda perguntou, timidamente: “E o vocabulário comum, como fica?”. Nossa Academia, ou por estultice ou por esperteza (tanto faz, pois a vergonha que sinto é a mesma!), respondeu candidamente que o vocabulário comum estava pronto, só faltava agora o vocabulário ortográfico de nomes próprios — ou seja, fingiu não entender que, neste caso, o adjetivo comum significa “compartilhado, pertencente a todos”. A esta altura, caro leitor, você está olhando incrédulo para estas linhas. “Ah, essa não! Não acredito! Nossa Academia não faria isso!”. Pois fez. E pior: como a pergunta continuasse no ar, o responsável pela elaboração do VOLP, nosso bom Evanildo Bechara (que era considerado, até então, o gramático de referência do Brasil atual), teve a coragem de declarar, em entrevista à Folha de São Paulo, que os especialistas portugueses não foram consultados porque “em nenhum momento o Acordo fala em vocabulário comum. O VOLP, portanto, é brasileiro, e os outros países de Língua Portuguesa poderão criar os seus” — o que levou D’Silvas Filho, um dos ardorosos defensores do Acordo lá na terra de nossos avós, confessar, há poucas semanas: “Agora sinto-me perplexo, com o receio de que, efectivamente, esteja à vista uma mudança com perda da nossa identidade nacional na língua”. Só agora, digníssimo? Boneca Teresa! (a novela continua)

Depois do Acordo: idéia > ideia

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Arquivem esta reforma! E já! [7° de 10]

[publicado em out. 2008] — [7° de 10]

Esta anunciada reforma é ineficaz, amadora e espantosamente prejudicial ao nosso sistema de ensino. Se o Brasil ainda guardar uma pequena reserva de sensatez, vai esquecer esta proposta para sempre e sepultá-la no cemitério das idéias malucas, de onde ela nunca deveria ter saído. Em primeiro lugar, é ineficaz porque não conseguiria alcançar o que pomposamente anuncia — unificar a grafia em todos os países que compartilham nosso idioma. O sistema ortográfico brasileiro e o português são muito parecidos; como dois navios paralelos, singram o oceano sempre na mesma direção, a vinte metros um do outro. A atual reforma conseguiria aproximá-los para dezessete metros — isto é, iria diminuir três metros da distância, a qual, no entanto, continuaria a existir. É muito custo e muito trabalho para muito pouco proveito. Daqui a uns trinta anos, tudo ia começar de novo.

Em segundo lugar, é amadora porque pouco ou quase nada simplifica o trabalho de aprender e de ensinar a ortografia; elimina algumas regrinhas secundárias, embaralha ainda mais (se é que isso é possível!) o emprego do hífen e, ironia suprema, quer suprimir o acento de pára (verbo), usado para distingui-lo da preposição para — logo um dos raríssimos acentos diferenciais que teria toda a justificativa para continuar existindo.

Em terceiro lugar, causaria um dano incalculável ao sistema de ensino. Hoje convivem brasileiros que foram alfabetizados (1) pelo modelo anterior a 1943, (2) pelo modelo definido pelo Acordo de 1943, (3) pelo modelo modificado pelo Acordo de 1971; já vivemos um quadro suficientemente complicado e não precisamos acrescentar mais uma camada nesse pandemônio. Ortografia precisa de tempo para sedimentação — e isso se conta em séculos, não em décadas. Uma nova reforma aumentaria ainda mais a insegurança que todo brasileiro tem na hora de escrever — insegurança essa, como podemos ver, absolutamente justificada. Parem de brincar com o que não entendem; deixem nossa ortografia em paz!

Depois do Acordo: idéia > ideia

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Mudanças na ortografia [6° de 10]

A base de nossa ortografia atual é o Acordo de 1943, implantado por Getúlio Vargas como parte de seu plano de modernizar o país. Antes dele, o brasileiro podia escolher entre diversas maneiras de representar por escrito as palavras do idioma, numa verdadeira babel ortográfica. Hoje é difícil imaginar como seria viver assim, com diferentes sistemas convivendo anarquicamente nas páginas dos jornais, nos livros, nos dicionários e, o que era pior, nos bancos escolares. Foi o Acordo de 1943 que trouxe ao país a unidade que hoje conhecemos, criando um modelo estável que sofreu, em 1971, apenas um pequeno retoque (friso que foi a única modificação ocorrida de 1943 até hoje):

(1) foi suprimido o raríssimo trema que indicava hiato (escrevendo gaüchismo, assinalaríamos que a pronúncia desejada era /ga-u-chis-mo/ e não /gau-chis-mo/, além de evitar que algum leitor tomasse o vocábulo como um derivado de gauche —”esquerda”, em Francês — e lesse /gochismo/;

(2) foi suprimido o acento subtônico dos derivados em –mente e em –zinho (escrevia-se gêniozinho, sòmente, cafèzinho, espontâneamente);

(3) foi suprimido o acento circunflexo diferencial dos pares com E ou O aberto e fechado (gêlo:gelo, almôço:almoço; tôda:toda; mêdo:medo).

Sucinto como deve ser, o texto desta minirreforma gastou apenas um parágrafo para definir os três acentos que deviam ser suprimidos do sistema de 1943 — e pronto.  Em vez de seguir a mesma prática de indicar apenas as supressões, o Acordo assinado este ano é um amontoado de regras desordenadas, mal concebidas e redigidas de maneira pedestre. Os participantes desta amaldiçoada comissão dedicaram-se à tarefa completamente redundante de dizer, de novo, tudo o que 1943 já tinha conseguido dizer de forma mais clara e organizada. A conseqüência é a falsa aparência de complexidade que o texto assume para o leitor não-especializado, que não percebe, por trás desse palavreado cheio de farofa, que a montanha está parindo um esquálido ratinho. Pois esta é a razão de ser da coluna de hoje: definir, com clareza, o que mudará — para o Brasil, para nós, para mim e para você, meu caro leitor — o que mudará, repito, se a comunidade aceitar este novo modelo e consagrá-lo pelo uso.

Para nós, brasileiros, é importante esclarecer que este Acordo só inova, com relação ao modelo de 1943, na acentuação e no emprego do hífen; o emprego das letras fica exatamente como sempre foi. Na acentuação, ocorre a supressão de algumas regras hoje vigentes — e só; no uso do hífen, a comissão propõe mudanças cujas conseqüências ela própria desconhece. Faço questão de assinalar que este artigo seria totalmente diferente se fosse destinado ao leitores portugueses, pois as mudanças que eles vão ter de engolir são de outra ordem e calibre.

Mudanças na acentuação — As regras que vão ser alteradas são poucas e de escassa importância:

1 — Hoje se acentuam os hiatos tônicos ÊE, ÔO: vôo, abençôo, relêem, dêem, etc. O Acordo suprime esta regra: voo, abençoo, releem, deem.

2 — Hoje se acentuam os ditongos abertos éi, éu, ói, onde quer que eles estejam: jibóia, heróico, paranóia, geléia, idéia; réu, herói, dói, réis. O Acordo só mantém esse acento nas oxítonas: réu, herói, dói, réis, troféu, mas jiboia, heroico, paranoia, geleia, ideia, assembleia, apoiam, etc.

3 — Tendo em vista que a letra U — quando colocada entre Q e E, Q e I, G e E, G e I — pode ter três valores diferentes, utilizamos hoje um sistema tripartite que indica claramente quando ela é muda, tônica ou átona: (1) se é muda, fica sem marca (quilo, guerra); (2) se é tônica, leva acento (argúi, argúem); (3) se é átona, leva trema (pingüim, agüenta). O Acordo pretende eliminar esta regra inteirinha, escrevendo tudo sem acento ou trema: quilo, guerra, argui, arguem, pinguim, aguenta. O leitor certamente entenderá que estamos falando de grafia; a pronúncia das palavras não muda, nem pode mudar. Por isso, mesmo que um dia se escreva linguiça (assim, sem trema), o U continuará a ser pronunciado obrigatoriamente.

4 — Hoje se acentuam o I e o U tônicos quando vierem depois de vogal ou ditongo e estiverem sozinhos ou formando sílaba com S: juízes, gaúcho, saíste, reúno, feiúra, baiúca. O Acordo apenas suprime o acento quando a vogal vier depois de ditongo decrescente: continuamos a escrever juízes, gaúcho, saíste e reúno, mas passamos a escrever feiura, baiuca, gaiuta, bocaiuva, reiuno.

5 — Caem os acentos diferenciais de pélo(s), péla(s), côa(s), pólo(s), pêra e (não consigo entender por quê!) o de pára. Continua o de pôr e pôde, e torna-se facultativo o de fôrma, antiga reivindicação de mestre Aurélio Buarque de Holanda. 

Mudanças no hífen com prefixos — Aqui as mudanças propostas atingem um número muito maior de palavras e parecem obedecer a um princípio mais racional. Os futuros desdobramentos que essas regras terão, contudo, não podem ser avaliados enquanto a Academia não editar o novo Vocabulário Ortográfico. As alterações mais importantes são as seguintes:

1 — Usaremos hífen quando o prefixo terminar por vogal idêntica à que inicia o segundo elemento: anti-inflamatório, micro-onda, micro-organismo, neo-ortodoxo. Se as vogais forem diferentes, contudo, não há hífen: antiestático, microindústria, neoexpressionismo, infraestrutura, autoestrada.

2 — Usaremos hífen sempre que o segundo elemento começar por H: geo-história, mini-hospital, sub-habitação, co-herdeiro.

3 — Não há hífen quando o prefixo terminar em vogal e o segundo elemento iniciar por R ou S; como sempre fizemos em casos semelhantes, o R ou o S serão duplicados: contrarregra, autosserviço, contrassenha, neorrealismo, ultrassom, antissemita.

Em princípio, caro leitor, é isso aí. A partir de 2009, os documentos oficiais vão ter de se submeter bovinamente ao novo estilo; nós, os outros, ainda teremos ainda três anos de carência, durante os quais — como ardentemente espero — a sociedade civil do Brasil e de Portugal vai acabar rejeitando essas alterações insensatas. Os editores ingênuos, que hoje ainda alimentam a fantasia de que a unificação trará a abertura de novos mercados, virão juntar-se a este coro de descontentes no momento em que perceberem que um original brasileiro, para ser publicado em Portugal ou na África, continuará a exigir uma trabalhosa adaptação ortográfica, já que Acordo, ao admitir demagogicamente dezenas de regras “facultativas”, não unifica coisíssima nenhuma. Vocês vão ver.

Depois do Acordo: conseqüência > consequência

[artigo publicado em 25/10/2008. O lançamento do VOLP pela Academia Brasileira de Letras, em março de 2009, não altera em nada o teor do que aqui foi escrito]

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O que muda na ortografia? [5° de 10]

Depois de demonstrar, com uma mancheia de exemplos, que a tão propalada unificação da grafia é um mero delírio de amadores, que vai terminar como a famosa Batalha de Itararé — “a que não houve” —, vamos ao que interessa: o que vai mudar em nossa ortografia, se o Acordo entrar em vigor? Para mim, para meu leitor, para nós, os aflitos, que mudanças a reforma trará? Pouca coisa, eu diria — mas o suficiente para perturbar a quem está quieto em seu cantinho e para inutilizar todas as bibliotecas escolares de que dispomos. O fato do texto — nota para os zoilos de plantão: não acredito que alguém aí fora ainda pense que é de bom-tom escrever “o fato de o texto“! Cruz, credo! Gramática neles! — o fato do texto do Acordo, repito, ser extenso deve-se mais à prolixidade e ao estilo pedestre de quem o redigiu do que propriamente ao número de mudanças introduzidas. A nós, brasileiros, caberiam as seguintes novidades:

(1) o desaparecimento do trema e do acento agudo no U, nos ambientes “G_E”, “G_I”, “Q_E” e “Q_I”; hoje escrevemos pingüim, argúi, averigúem, seqüestro, que passariam a pinguim, argui, averiguem, sequestro, como em Portugal.

(2) O desaparecimento do circunflexo nos hiatos EE e OO; zôo, vôo, abençôo, lêem passariam a zoo, voo, abençoo, leem, como em Portugal.

(3) O desaparecimento, nas paroxítonas, do acento nos ditongos abertos EI e OI. Heróico, lambisgóia, diarréia, geléia passariam a heroico, lambisgoia, diarreia, geleia — mas continuaríamos a acentuar as oxítonas: céu, réu, dói, herói, papéis — tudo exatamente como é lá na pátria do mestre Álvaro Siza (o qual, como era de esperar de sumidade tamanha, também gostaria de mandar às urtigas este Acordo chinfrim).

(4) O desaparecimento do acento no U tônico, depois de ditongo: em vez de baiúca, gaiúta e bocaiúva, passaríamos a escrever baiuca, gaiuta e bocaiuva — como é na terra de Camões e do bacalhau à Gomes de Sá.

(5) A eliminação dos acentos diferenciais de pélo, pélas, péla (v. pelar); pêlo(s); pólo(s), que passariam a pelo, pelas, pela; pelo(s); polo(s). Aqui, absurdamente, o acento de pára (v. parar), sempre útil, também seria condenado.

Além disso, haverá também movimentações no misterioso pântano do hífen; várias das regras atuais, incompreensíveis e contraditórias, serão substituídas por outras tantas, da mesma laia. Neste passo, o Acordo acrescenta esta obra-prima de imprecisão: “Certos compostos, em relação aos quais se perdeu, em certa medida, a noção de composição”, grafam-se sem hífen, entre eles mandachuva, paraquedas, paraquedista, etc. — deixando-nos a matutar sobre quem serão as certas pessoas que vão determinar os certos casos em que se perdeu, em certa medida, a noção de composição… Esse nó Górdio só vai ser cortado quando — e se — for publicado um Vocabulário Ortográfico oficial (só o Português tem essa aberração jurídico-lingüística…), que aponte para o brasileiro comum o que é pão e o que é queijo.

Enquanto isso, lá do outro lado do Atlântico, os nossos irmãos portugueses estarão enfrentando as suas mudanças — sim, mudanças que valem só para eles, mas que para nós não trazem novidade alguma. Por exemplo, eles vão deixar de escrever aquelas consoantes que escrevem, mas não pronunciam: Egipto, acção, afectivo, colecção, exacto, adoptar passarão a ser escritos de acordo com a pronúncia culta do Português Europeu: Egito, ação, afetivo, coleção, exato e adotar. Herva e húmido passarão a erva e úmido (como já é aqui). E assim por diante.

Como o leitor deverá ter percebido, o Acordo realmente trabalha em nome de uma aproximação recíproca: as concessões que o Brasil e Portugal farão, embora sejam diversas de um país para o outro, tendem a eliminar as diferenças entre os dois sistemas, diferenças, aliás, que têm raízes históricas: Portugal adota o modelo de 1945, que foi formalmente assinado e ratificado pelo Brasil, mas rejeitado pelos brasileiros, que voltaram ao Acordo de 1943, ainda vigente por estas bandas. Na óptica dos burocratas que defendem a Reforma, será dado mais um passo (um pequeno passo que leva a uma longa marcha, diria o presidente Mao…) para a unificação, mas é muito pouco — e muito caro. A montanha vai parir um mísero ratinho, num parto caríssimo que vai sobrecarregar, em nome de uma utopia irresponsável, o nosso raquítico sistema educacional e acarretar uma renovação obrigatória de todas as bibliotecas escolares. Nos governos corruptos do passado, poderíamos até supor que os verdadeiros beneficiados com a reforma fossem as grandes editoras, de olho nessas reedições milionárias, e os funcionários do MEC encarregados das licitações. Felizmente tudo mudou, e o atual governo é austero e incorruptível como nunca Dantas, digo, dantes “nesse” país… 

Depois do Acordo: lingüística > linguística

[artigo publicado em 19/07/2008, muitos meses antes do lançamento do VOLP pela Academia Brasileira de Letras. Tudo o que foi escrito neste artigo continua valendo — inclusive as críticas]