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palíndromos

1 — Chamamos de palíndromo a palavra ou frase que pode ser lida da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda; sem maldade, podemos dizer que o palíndromo, comparado à frase comum, é algo assim como um bilhete de ida-e-volta. Este vocábulo é clássico, de origem grega; nele encontramos os elementos palin, “de novo”, mais dromo, “percurso, circuito”. O primeiro está presente em vocábulos extremamente eruditos, como palinfrasia (repetição doentia de frase inteiras) ou palimpsesto (pergaminho sobre o qual se escreve um novo texto, depois de apagado o texto primitivo); o segundo, mais conhecido, é o mesmo de hipódromo e autódromo. Essas frases são também chamadas de anacíclicas, do Grego anakúklein, i. é, que voltam em sentido inverso, que refazem inversamente o ciclo. Pela definição, vemos que o palíndromo é o irmão mais velho e mais sério da capicua, forma bem mais plebéia, criada no Catalão do séc. XIX para designar os números de loteria que tinham a mesma leitura quando invertidos, como vimos.

2 – As construções palindrômicas sempre intrigaram todos aqueles que costumam demorar seu olhar sobre a linguagem que utilizam.  Embora alguns mais casmurros considerem-nas pura perda de tempo, elas podem encantar os que se divertem com os jogos de palavras. Como diz Claude Gagnière, “para os que amam as palavras, o palíndromo representa uma espécie de felicidade em estado puro: é a frase espelho, a perfeição na simetria, ou a serpente que morde a própria cauda, o ingresso no círculo mágico dos vocábulos que não têm fim”. Não por acaso, os palíndromos foram (e ainda são) associados a poderes mágicos e especiais.

3 — Alguns autores querem incluir entre eles aquelas palavras que, lidas ao contrário, formam com suas letras um vocábulo diferente, como o EVA-AVE, ROMA-AMOR, RAUL-LUAR, ASSIM – MISSA, AMAR-RAMA, RARO-ORAR, RALOS-SOLAR, ROTA-ATOR, AROMA-AMORA, EMA-AME. No entanto, rigorosamente falando, a denominação deve ser reservada àquelas que mantiverem uma leitura idêntica, qualquer que seja o sentido, como ANA, ARARA, OCO , OSSO, MATUTAM, OTO, OVO, MIRIM, RADAR, ROTOR, RALAR, RELER, REVER, RIR , ANILINA .

4 — Já as frases palindrômicas são mais difíceis de encontrar, e, na sua maioria, nem sempre parecem ter saído da boca de um falante de posse de todas as suas faculdades. No entanto, não são raros os entusiastas. Millôr Fernandes, que se interessa por todos os recônditos da linguagem, é um dos mais ilustres participantes deste jogo; são dele exemplos como “Olá, galo”. “A mala nada na lama”.  “ A grama é amarga”.  “Amassa, má”.   O Barão de Itararé nos deixou “Assim a aia ia à missa”. Caetano Velloso imortalizou o seu “Irene ri”. Recentemente, Rômulo Marinho lançou um livro sobre o assunto, Tucano na CUT?,título que também é um palíndromo. Eis algumas de suas criações: Laço bacana para panaca boçal.  O Cid é médico.  A base do teto desaba.  Erro comum ocorre. Rola com o calor.  Seco de raiva, coloco no colo caviar e doces  Outros são de domínio público:  Roma me tem amor.  Atai a gaiola, saloia gaiata.  Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos.

5 — Para quem pensa que é muito difícil construir palíndromos, lembro a lendária figura de Juan Filloy, um esotérico autor argentino que escreveu até os 105 anos de idade e que mereceu uma referência no Rayuela, de Julio Cortazar. Apaixonado por todos os jogos de palavras, dono de um espantoso vocabulário, Filloy era uma verdadeira máquina de produzir palíndromos — segundo ele, “o divertimento dos gregos cultos”. No seu livro Karcino, publicou mais de dois mil, mas consta que passou dos seis mil, muito além de Leão VI, um imperador de Constantinopla que não conseguiu sequer chegar à marca de uma centena. “Sou o campeão mundial de palíndromos”, dizia orgulhosamente. “Olho as palavras e logo sei se são palindrômicas ou não; tenho uma espécie de visão retrospectiva, semelhante à dos linotipistas, que liam as linhas de trás para frente com a maior facilidade”. Suas criações são, infelizmente, intraduzíveis, já que foram escritas em Espanhol, “o idioma mais palindrômico do mundo”: “Sólo dí sol a los ídolos”, “No di mi decoro, cedí mi don”, “Ateo por Arabia iba raro poeta“, e por aí vai a valsa.

6 — Agora, uma que não é palíndromo, mas quase: quando a novela Cara-de-Bronze, de Guimarães Rosa, foi traduzida para o italiano, o tradutor trocou várias cartas com o autor, consultando-o a respeito de algumas expressões mais difíceis, entre elas a frase “Aí, Zé, opa!”, repetida várias vezes por um dos personagens. Guimarães Rosa disse-lhe que traduzisse a expressão como bem quisesse, pois não conseguiria, em Italiano, preservar o seu verdadeiro valor, que era, quando lida ao contrário, “a poesia!”.

Depois do Acordo: plebéia > plebeia

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capicua

Os orgulhosos filólogos catalães nos asseguram que a palavra capicua nasceu em Barcelona, no final do século XIX, para designar os números que podem ser lidos indiferentemente da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda, como 252, 1881, 31513, 245542, por exemplo. A Matemática, que vem estudando esses números desde a Grécia Antiga, chama-os pelo respeitoso nome de palíndromos, à semelhança dos palíndromos da linguagem — vocábulos ou frases inteiras que podem ser lidas em qualquer direção, como Ana, mirim, reler, luz azul ou seco de raiva, coloco no colo caviar e doces. Palíndromo é um belo nome, imponente, preciso, daqueles que diz tudo o que necessitamos saber, pois reúne palin e dromos (em Grego, “de novo, em sentido inverso” e “correr”); era, no entanto, um vocábulo sisudo demais para as pessoas do povo de Barcelona, que nada sabiam de Grego, mas acreditavam que encontrar um número desses nos bilhetes dos bondes era um indiscutível sinal de bom agouro. Por isso, foi cunhado o vocábulo capicua, composto de “cap+i+cua” — literalmente, “cabeça e cu”, em Catalão —, termo que teve ampla aceitação no Espanhol, mas escassa penetração no nosso idioma, ao menos no Brasil.

Por estar ligado semanticamente à idéia de “inversão”, logo começou a ser empregado em situações bem mais concretas que a Numerologia. Chama-se de capicua, por exemplo, a jogada decisiva de uma partida de dominó em que a pedra vencedora pode ser colocada em qualquer um dos extremos; ou o par de selos impressos de tal forma que um está invertido em relação ao outro (que os franceses chamam pelo elegante nome de tête-bêche); ou, numa receita de grelhados (“carne capicua”), um espetinho em que se enfiam pedaços de carne, cebola, tomate, carne, cebola …; ou, como informa meu Houaiss, uma forma politicamente incorreta (mas engenhosa) de nomear os bissexuais. Mais próximo de nós, a Argentina há pouco lutava contra a herança de Menem, o presidente capicua, que veio contrariar a vocação sortuda dos capicuas, para o azar de nossos vizinhos. Há alguns anos, quando ainda havia jornalistas argentinos com disposição para fazer humor, um discurso de Menem foi assim descrito: “As velhas palavras do General Perón — Primeiro está a Pátria, depois o Movimento e, por último, os homens! —foram traduzidas em capicua, pois Menen deixou claro em seu discurso que agora primeiro estão os homens, depois o partido e, por último, a pátria”.

De qualquer forma, ainda persiste esta superstição de que os capicuas são indicadores de boa sorte, principalmente no que se refere a datas. Muitos achavam que devia ser especial o dia 20.02.2002, um capicua dos grandes; se foi ou não, para eles, não posso saber. Lembro apenas aos supersticiosos que a cada dez séculos ocorrem apenas dez anos capicua; 2002 foi o primeiro do novo milênio, e, sinto informar, é o último que veremos: o próximo só vai ocorrer no longínquo 2112, quando todos nós já teremos passado desta para uma melhor.