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Acordo ortográfico Como se escreve Destaque Outros sinais

lava-a-jato

Na coluna anterior, mencionei en passant a operação Lava-a-Jato — escrita assim mesmo, com tudo aquilo a que tem direito — o hifenzinho e a preposição A. Sempre atenta, a nossa Maria Rita Horn, anjo da guarda da redação, achou prudente me avisar que a imprensa, embora divirja aqui e ali quanto ao emprego do hífen, vem adotando unanimemente a forma sem a preposição. Como é um texto que leva a minha assinatura, deixamos assim como estava, mas prometi explicar os motivos da minha opção por uma grafia que comete a imprudência de contrariar os hábitos de nossa mídia.

Aliás, começo com uma ressalva: não tenho pretensões a ditar moda para a imprensa. Muitas vezes as escolhas linguísticas que os jornalistas fazem serão diferentes das minhas, e vice-versa — até porque, para eles, a linguagem é um instrumento, enquanto, para mim, ela é o próprio assunto. Como em lava-a-jato o “A” átono da preposição desaparece obrigatoriamente na pronúncia (um pequeno exercício de imaginação: se o verbo estivesse, por exemplo, na primeira pessoa, a preposição seria perfeitamente audível: lavo a jato), o vocábulo foi “reformado” na escrita para uma forma mais simples: lava-jato (falarei sobre o hífen daqui a pouco). Pronto! Essa lipoaspiração deixou tudo mais prático, mais leve, mais rápido; até concordo com isso, mas não posso deixar de apontar, caros leitores, que foi uma alteração bizarra, que desconsidera alguns princípios importantes da morfologia de nosso idioma.

O nome, segundo a própria Polícia Federal, surgiu da união do objetivo principal da operação (investigar a lavagem de dinheiro e desvio de verbas públicas) com o primeiro alvo investigado, uma casa de câmbio suspeita que pertencia ao proprietário do Posto da Torre. Lavagem de dinheiro, lavagem de carros — lava-a-jato (friso que esse oportuníssimo batismo nada teve a ver com Breaking Bad, a série de TV cujo protagonista abre uma lavagem de carros para justificar o dinheiro movimentado com a droga; a operação começou em 2004, a série é de 2008).

Se desconstruirmos (ô, verbozinho mequetrefe!) uma série de vocábulos como lava louça, lava carros, lava roupa, lava pratos, lava pés, vamos encontrar uma das estruturas mais frequentes na formação de nossos compostos: um verbo acompanhado de seu objeto direto (como em guarda roupa, tira teima, porta bandeira, etc.). Neste caso, o verbo lavar é seguido pelo nome daquilo que vai ser lavado. Já em lava a frio, lava a quente, lava a seco, lava a mão, o verbo é seguido por um adjunto adverbialcomo é que se lava. É evidente que lava a jato − lavagem usando o jato com alta pressão de água − pertence ao segundo tipo.

Os leitores atentos terão percebido que não empreguei hífen algum no parágrafo anterior; eu pretendo, desta forma, ressaltar o papel importantíssimo que este sinal tem na distinção (nem sempre possível) entre o que é uma locução (um arranjo casual de vocábulos independentes) de um substantivo composto. Grosso modo, podemos afirmar que sempre teremos hífen quando ocorrer a substantivação. “O bebê aumentava de peso dia a dia“; “o filme mostra o dia-a-dia de uma aldeia gaulesa”. “Aquele posto lava carros; ele adquiriu um potente lava-carros“. “Explicou o projeto passo a passo“; “o jornal traz um passo-a-passo para renovar o passaporte”.

Chegamos assim ao meu ponto: “como ele limpa a garagem? Ele lava a jato” (frase aliás ambígua, porque tanto pode se referir ao modo de lavar quanto à rapidez com que ele lava) é diferente de “vou usar meu lava-a-jato para tirar o limo do telhado” ou “vou passar no lava-a-jato para pegar meu carro”. Aí está: lava-a-jato. Os que quiserem me acompanhar, mas hesitam em usar o hífen por causa da confusa interpretação de um artigo do Acordo Ortográfico, que levou muita gente boa a eliminá-lo dos compostos com preposição, sigam ao menos o exemplo do Aulete, um excelente dicionário on-line, que registra lava a jato. Os que quiserem…

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sanguessuga

SANGUESSUGA, por sua estrutura, parece uma estranha no ninho — uma “exceção”, diriam os antigos. Para quem, entretanto, vê a língua como um sistema organizado e procura entender seus mecanismos, é impossível aceitar que um vocábulo composto tenha se formado assim a la louca, contrariando princípios tão elementares de nosso léxico.

 

Neste verão, ao atravessar o vizinho estado de Santa Catarina, visitei a pequena propriedade de um velho amigo, ex-colega, que trocou as agruras do magistério pela plácida prosperidade de uma criação de suínos de raça. Enquanto tomávamos o mate da amizade, um empregado veio avisar que uma tal de “lagoinha” estava cheia de “samexuga, bichinho danado para a criação” (o mesmo que você e eu, caro leitor, preferimos chamar de sanguessuga, e que o dicionário de Bluteau, com seu pitoresco estilo setecentista, descreve como “um bichinho aquático, de comprimento do dedo meminho*”). Nem eu nem o amigo estranhamos aquele “samexuga”, acostumados que estamos, por profissão, a ouvir de tudo — “xamexuma”, “xambexunga”, “samexuva”, “sambexuma” e toda aquela série de caprichosas combinações que o povo costuma fazer com essa sopa de letrinhas. Antes que ele fosse embora, no entanto, achei que era o momento ideal para tirar uma teima que venho cozinhando há muito tempo e perguntei, como quem não quer a coisa, o que aquele “bicho danado” comia. “Sangue, ora”, respondeu ele, despedindo-se, sem entender muito bem por que um homem da cidade, de óculos no nariz, tinha feito uma pergunta tão óbvia.

Pois eu, de minha parte, fiquei muito satisfeito com a resposta, que só veio confirmar minhas suspeitas: se aquele cidadão sabia que a sanguessuga se alimenta de sangue — palavra que ele pronunciou de maneira impecável —, o fato de chamá-la de “samexuga” indica, sem sombra de dúvida, que ele não se deu conta que é daí que vem o nome do bicho — aliás, da bicha, nome genérico que designava vermes, cobras e até lagartixas no Português do passado. Pondo isso em linguagem mais técnica, podemos dizer que para ele, assim como para a maioria dos brasileiros do campo, a estrutura deste vocábulo, composto por sangue e suga, do verbo sugar, não é transparente. É isso que explica todas aquelas variantes populares, pois quem reconhece ao menos o primeiro elemento, sangue (sugar, temos de convir, está muito afastado da linguagem coloquial), não pode aceitar essas deformações comuns para “same”, “xame”, “xambe”, “sambe” ou similares.

Ora, é muito raro que isso aconteça com nossos compostos, geralmente fáceis de entender porque reproduzem construções sintáticas típicas de nosso idioma. Por exemplo, a combinação de um substantivo com o adjetivo que o modifica (água quente, sal grosso, carne macia) é modelo para numerosíssimos compostos como amor-perfeito, sangue-frio, estado-maior, carro-forte e mesa-redonda. Tão ou mais comum é a construção que reúne um verbo transitivo com seu objeto direto — ganha-pão, porta-aviões, tira-gosto, beija-flor, salva-vidas, arranha-céu, saca-rolha, bate-estaca, etc. Um beija-flor é um passarinho que beija a flor; um saca-rolha é um dispositivo que saca a rolha, e assim por diante — o que aponta para o fato óbvio de que o nome da sanguessuga está com a ordem invertida, já que o normal seria chamá-la de suga-sangue. Não tenho dúvida de que foi por causa dessa inversão que os dois elementos que formam este composto deixaram de ser reconhecidos por grande parte dos falantes, já que, no fundo, a sequência  sanguessuga é tão exótica e inesperada para eles quanto seriam “rolhassaca” ou “estacabate”, obtidas pela inversão de saca-rolha e bate-estaca.

Então, por que cargas d’água — há de estar pensando meu estimado leitor — esta palavra acabou assim, virada do avesso? Na visão tradicional (aqui, no sentido de “atrasada”), não haveria muita razão para espanto, pois esta seria apenas mais uma das tantas “exceções” de que o Português está repleto — e “exceção” não se explica. Para quem, entretanto, vê a língua como um sistema organizado e procura entender seus mecanismos, é impossível aceitar que um vocábulo composto tenha se formado assim a la louca, contrariando princípios tão elementares de nosso léxico. Esta ave não é nativa, diria um biólogo das palavras; ela só pode ser migratória, tendo vindo ou de outro lugar, ou de outros tempos. Pois é procurar e achar: uma passada num bom dicionário etimológico francês me informa que esta palavra já veio prontinha do Latim, nossa língua mãe. Em Roma, era sanguisuga; o grande Plínio, na sua História Natural, já fala dela e de sua utilização para fins medicinais; dali entrou para o Francês como sangsue, para o Italiano como sanguisuga e para o Português como sanguessuga. Para mim, alívio e contentamento: mais uma vez fica confirmada a regularidade de nossos processos formadores; o composto só é diferente porque foi formado fora daqui, no distante passado, seguindo princípios que nada têm a ver com nosso idioma.

meminho* — dedo mínimo (séc. XVII); mindinho, minguinho

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interpretação dos vocábulos compostos

Professor Moreno: li sua explicação sobre o plural dos compostos. Concordo que, em vale-compras,  a palavra vale seja substantivo. Mas acho que ela também pode ser interpretada com verbo (isso vale uma compra). Dessa forma, as duas formas (vales-compra e vale-compras) não deveriam estar corretas?

Ademar Q. – Goiânia

Meu caro Ademar, a tua pergunta bate exatamente no prego: é tão fluida a natureza de nossos vocábulos compostos que são poucas as afirmações definitivas que podemos fazer sobre eles – ao contrário dos vocábulos simples, muito mais fáceis de sistematizar, cujo comportamento segue princípios que o falante termina “adivinhando”. Nos substantivos do Português, por exemplo, é bem definida a oposição entre o plural, marcado pelo “S”, e o singular, reconhecido exatamente pela ausência dele. Não nos incomodamos com os raríssimos substantivos que têm o “S” mesmo no singular (como pires ou lápis), embora falantes mais simples, sem instrução, muitas vezes interpretem essas formas como pertencentes ao plural e criem aqueles ingênuos singulares que nos fazem sorrir: “*quebrei um pir“, “*perdi meu lápi” (análogo a faquir, faquires e táxi, táxis). Deves perceber que esses erros não se devem ao desconhecimento da regra do plural, mas sim à interpretação errônea dos fatos lingüísticos.

A importância dessa interpretação, por parte do falante, é decuplicada no caso dos compostos. Como eu fiz questão de frisar no artigo que mencionas, os compostos não são carne, nem peixe: eles ficam num limbo intermediário entre um vocábulo simples e unitário (como cadeira, palha) e um elemento da estrutura sintática, formado por vários vocábulos (como “cadeira de palha“). Graficamente, um composto atua como um vocábulo uno, pois fica isolado entre dois espaços em branco; ora, por que não acrescentamos, simplesmente, um “S” no final de guarda-noturno, pé-de-moleque, horaaula, formando *guarda-noturnos, *pé-de-moleques e *hora-aulas? Exatamente porque sentimos a presença da estrutura sintática que lhe deu origem. Fazemos guardas-noturnos porque temos aí uma banal seqüência de um substantivo acompanhado de seu adjetivo modificador; fazemos pés-de-moleque porque estamos flexionando o núcleo de um antigo sintagma nominal (como cartas de baralho, flores de papel, etc.); fazemos horas-aula pela mesma razão, já que a presença do substantivo à direita, agindo como especificador (“aula”), é explicada pela estrutura subjacente “horas de aula”.

Quando vamos operar com um vocábulo composto, essa “desmontagem” mental pode variar de um falante para o outro, criando-se assim diferentes conseqüências flexionais. Se eu decompuser vale-refeição como “vale uma refeição”, terei enxergado aqui uma estrutura [verbo + substantivo] — análoga a tira-gosto, quebra-pedra, porta-estandarte —, que só poderá ser flexionada no substantivo: vale-refeições. Se, no entanto, eu interpretá-lo como “um vale destinado à refeição”, ele terá a estrutura [substantivo+ especificador] – análogo a operário-padrão, hora-aula -, que só deve ser flexionada no primeiro elemento: vales-refeição.

No caso particular de vale-compra, vale-refeição, etc., repito que opto sempre pela interpretação [substantivo + especificador], com o conseqüente plural vales-compra, vales-refeição. A meu ver, este vale que aqui é uma substantivação formada a partir do verbo valer: o papel onde se escrevia (e ainda se escreve) “vale um refrigerante”, “vale cem reais”, “vale uma entrada para o domingo”, etc. passou a ter esse nome, assim como aconteceu com o habite-se ou o atenda-se.

Além disso, quando um composto é formado de [verbo + substantivo], sempre pressupomos um sujeito que complete essa estrutura: porta-estandarte é, no fundo, “alguém que porta o estandarte”; bate-estaca é “um aparelho que bate a estaca”. Isso impede que façamos uma referência abreviada ao composto, usando apenas o seu primeiro elemento (“*lá vem o porta“, “*ouça o bate“), o que pode, no entanto, ocorrer em compostos cujo núcleo é um substantivo: o guarda-civil, o guarda; o mestre-escola, o mestre; o vale-transporte, o vale; e assim por diante.

Sempre que encontrares dúvida ou hesitação na flexão de um composto, podes ter certeza de que isso foi motivado pela possibilidade, naquele determinado caso, de uma dupla interpretação sintática de seus elementos constituintes. Abraço. Prof. Moreno

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conseqüências>consequências

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hibridismo

Quem tem a paciência de ler minha coluna sabe muito bem que, apesar do tom brincalhão destas linhas, sempre tratei com seriedade as perguntas dos meus leitores. Está no sangue: sou professor desde que me conheço por gente e jamais vou humilhar alguém por aquilo que não sabe. Quem me escreve, portanto, não precisa pedir desculpas por suas dúvidas, como fez a leitora de Pelotas que me mandou uma adorável cartinha (daquelas legítimas, com selo e envelope endereçado pelo próprio punho — e, como era de esperar, muito bem escrita) sobre os hibridismos.

“Releve a ignorância desta quase anciã, professor, mas achei que hibridismo era um conceito tão superado quanto o Elixir Paregórico. Terminei a Escola Normal antes da guerra contra o Eixo e lembro muito bem que um excelente professor condenava qualquer palavra que misturasse duas línguas diferentes. Para ele, sociologia era malformada porque metade vinha do Latim (socio), metade do Grego (logia)”. Acrescenta: “Nunca cheguei a lecionar, mas sempre gostei de ler sobre nosso idioma; eu gostava mesmo era de ler o que o querido prof. Luft escrevia  sua coluna No Mundo das Palavras. Agora, meu neto veio nos ver aqui em Pelotas e disse que aprendeu na faculdade que bafômetro é um hibridismo horroroso, empregado em vez da forma correta, que seria etilômetro. Mas ainda se fala nesse tal de hibridismo? Eu sempre achei muito intolerante essa posição; não me parece justo condenar um vocábulo só porque tem duas origens, o senhor não acha? Se eu estiver dizendo bobagem, o senhor desculpe esta avozinha coroca, mas responda por carta, para eu não passar vergonha no jornal”.

Vergonha, prezada leitora? Vergonha devia sentir qualquer professor que ainda tem a coragem de falar numa chinesice dessas, em pleno séc. XXI! O conceito de hibridismo, assim como o de purismo, provém daquela época em que ainda se preparavam os movimentos totalitários que iriam eclodir no início do séc. XX. Só um ingênuo não percebe o quanto a idéia absurda  de pureza lingüística está intimamente associada à de pureza racial; a obsessão é a mesma, a loucura também. Ora, assim como os puristas da raça consideravam que toda e qualquer mestiçagem viria “manchar” nosso patrimônio genético, assim também os puristas da linguagem tentavam livrar nosso idioma de qualquer traço que pudesse “desvirtuá-lo”. Para isso, lutavam em duas frentes: a mais barulhenta era a perseguição implacável das palavras estrangeiras que tivessem se infiltrado em nosso léxico (por que não marcá-las com uma estrela amarela no peito, para que pudessem ser facilmente reconhecidas?); a outra, mais discreta, era a condenação inapelável, por parte desse tribunal da Inquisição, dos compostos eruditos que tivessem nascido de um “casamento inter-racial”. Os vocábulos que utilizam elementos das línguas da Antigüidade são “legítimos” e “bem-vindos”, já que procedem de um berço respeitável (desde, é claro, que tenham se casado entre si, sem se misturar com a língua vizinha; o folclórico Augusto Comte teve a má idéia de juntar o elemento socio, do Latim, com logia, do Grego, e levou chumbo da patrulha purista). Agora, os que nasceram do casamento “espúrio” de dois idiomas, esses deveriam ser apontados com o dedo e denunciados como hibridismos (os leitores terão percebido, a esta altura, que chamar um vocábulo de híbrido é o mesmo que chamar uma pessoa de mestiça com a intenção de ofender).

Ora, esses autores nunca entenderam que um generoso mecanismo de nossa língua permite que o falante decomponha as palavras que conhece e use os elementos resultantes em novas combinações vocabulares. A dona de casa sabe que o termômetro, o velocímetro e o barômetro são instrumentos de medir; por isso, quando vai dizer que cozinha por intuição, sem determinar com precisão as quantidades dos ingredientes, diz que usa o olhômetro; os alunos às vezes respondem usando o chutômetro; quando alguém não entende as indiretas da namorada, deveria ligar o desconfiômetro; o relógio que mede o tempo de estacionamento pago (parking, do Inglês) é o parquímetro. Não é uma maravilha? O dispositivo que permite avaliar o teor alcóolico do ar expirado pelo motorista pode ser chamado, realmente, de etilômetro — mas preferimos chamá-lo de bafômetro, muito mais expressivo e de compreensão instantânea para todos os brasileiros. O radical bafo todo o mundo sabe o que é; já etil… Como a senhora mesmo disse, é um absurdo condenar belos vocábulos como esses sob a alegação de que são mestiços. Mestiços somos todos nós, neste país, e fascistas são todos aqueles — sejam brancos, sejam negros — que vivem a alardear ridiculamente a sua presumida pureza racial.

Depois do Acordo:

idéia > ideia

lingüística > linguística

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Não compre o novo VOLP! 3ª parte

[publicado em 19/06/2009]

Neste artigo, como nos dois primeiros, o tema não é o novo Acordo, do qual sou crítico declarado e inimigo irredutível, mas o Vocabulário Ortográfico que nossa Academia deu à luz, em parto desastrado e prematuro. Isso significa que não vou avaliar aqui as mudanças propostas pela última Reforma, sobre (e contra) as quais já escrevi tantas vezes, mas sim apontar ao meu prezado leitor o equívoco que a comissão brasileira cometeu ao tentar interpretá-las, comprometendo irremediavelmente esta quinta edição do VOLP e condenando-a ao depósito de papel velho. É o que pretendo demonstrar.

Quando o Diário Oficial da União publicou o texto do Acordo, percebeu-se que ele continha várias regras conflitantes ou redigidas de maneira confusa. E olhe, caro leitor, que não se trata da opinião pessoal de um adversário birrento como eu; esta foi a mesma impressão que tiveram todos os que se dispuseram a enfrentar aquele estilo pedestre, fossem eles do contra, fossem a favor. Todos nós — os bons e os maus, os crédulos e os descrentes — recolhemos as armas e ficamos na expectativa do vocabulário que a ABL deveria editar. Os acordistas tranquilizavam os aflitos (e a si mesmos) anunciando que todas as dúvidas e perplexidades que porventura restassem deixariam de existir no momento em que ele fosse publicado; os não-acordistas (com hífen, porque é assim que devem escrever aqueles que conhecem o idioma) esperavam, céticos, o parto da montanha, curiosos apenas em saber em que medida o VOLP reduziria o dano anunciado.

Diante desta disputa, um daqueles camponeses proverbiais, montado em seu burrico, teria sentenciado, abanando a cabeça: “De mau ovo, mau corvo”. E dito e feito: o VOLP veio decepcionar todo o mundo, pois a nossa comissão, em vez de trazer o bálsamo prometido, só veio aumentar a ardência da ferida, extrapolando sua competência ao tomar decisões que iam além e mesmo contra o que estava disposto. O caso de co-herdeiro foi típico. Em todo o Acordo perpassa a ideia de preservar sempre o H inicial do segundo elemento dos compostos (anti-higiênico, super-homem, neo-helênico, geo-história), o que representa um bem-vindo aperfeiçoamento do sistema de 1943, que não usaria hífen nos dois últimos exemplos acima. Nossa ortografia sempre manteve o H inicial de hora, hábito ou histérico — da mesma maneira que o Francês, o Inglês ou o Espanhol — para deixar visível o DNA desses vocábulos, inserindo-os na tradição greco-romana do Ocidente. Fiel a este espírito, a Reforma determinou que ele também seja conservado no interior dos vocábulos compostos, o que é decididamente um progresso; nossa ABL entendeu tão bem o princípio que o estendeu a um prefixo importante como sub-, transformando os antigos (e absurdos) subumano, subepático e subabitação, por exemplo, nos simpáticos sub-humano, sub-hepático e sub-habitação, com uma construção muito mais transparente para o usuário. Ora, depois de acertar tão bem no prego, essa mesma comissão, por razões insondáveis, resolveu dar uma martelada na tábua e transformou co-herdeiro (que continuamos a escrever assim, seja pelo modelo tradicional, seja pelo princípio atual) num esquisitíssimo *coerdeiro (está assim no VOLP), que desfigura totalmente o segundo elemento. Não importa se foi um cochilo ou se foi uma decisão deliberada, mas é um erro que precisa ser corrigido; escrito assim, o vocábulo contraria o princípio geral e, o que é mais espantoso, vai expressamente contra o texto do Acordo, que usa este vocábulo como exemplo, grafando-o, como era de esperar,  com hífen e com H.

Não é por um detalhe como esse, no entanto, que vamos condenar esta quinta edição. É natural que numa lista de centenas de milhares de itens existam dezenas de pequenos equívocos a corrigir (ainda mais se considerarmos a pressa com que foi feita e a duvidosa qualificação da equipe que a elaborou). Sempre foi assim, com as edições anteriores; mesmo o venerável e consistente vocabulário de 1943, enquanto vigeu, teve várias imperfeições e incoerências apontadas pelos especialistas. O que inutiliza o presente vocabulário, no entanto, é um equívoco teórico de base, que levou a comissão a grafar erradamente várias centenas de vocábulos, escrevendo sem hífen, por princípio, todos os compostos de mais de dois elementos. Num absurdo linguístico, como vou demonstrar na próxima coluna, defendem a retirada do hífen em vocábulos como fora-da-lei, pé-de-moleque, tomara-que-caia, dois-de-paus! É de estarrecer! Assim como está, o VOLP, como se diz, é “impróprio para o consumo”, tão funesto quanto o medicamento vencido ou a merenda estragada; espero sinceramente que já não esteja em curso alguma gigantesca operação para fornecê-lo a todas as escolas “desse” país. A ver.

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Acordo ortográfico Questões em aberto

palavras que perderam a noção de composição

Olá, professor Cláudio! Sou formanda de Letras e tenho dúvida quanto a um item da Reforma Ortográfica: quando se considera que uma palavra perdeu a noção de composição? Como posso identificar os casos em que isso ocorreu? Por exemplo, bate-boca. Aqui foi perdida a noção de composição porque se tornou uma expressão? É uma questão semântica? Não entendi essa explicação para o não uso do hífen. Por favor, professor, se puder me ajudar, ficarei grata.

Raquel G. — Santa Maria (RS)

Raquel, chegaste ao nervo deste confuso Acordo: como saberemos se os falantes perderam ou não a consciência da composição de um vocábulo? Quem vai decidir quais os vocábulos que entram nesta lista? Como se pode obedecer a uma regra tão vaga e tão fluida, redigida cabalisticamente, que abrange “certos compostos, em relação aos quais se perdeu, em certa medida, a noção de composição”. Certos compostos? Em certa medida? Que portento! Nem consigo imaginar o esforço necessário para chegar a tamanha imprecisão usando tão poucas palavras!

Para mim, aliás, a composição de para-quedas continua bem consciente, ao contrário do que alegam as “sumidades” que assumiram o poder na República da Ortografia. Quantos concordariam comigo, quantos discordariam? Quem é que vai saber? Esta regra é o dedo que revela o gigante, isto é, revela a prepotência dos autores deste Acordo e prova que eles, como eu sempre vou afirmar, não são do ramo. Não conhecem Lingüística, não conhecem nosso idioma e nâo têm a menor noção de como funciona a mente dos falantes. Pobre Brasil! Abraço. Prof. Moreno

1 — Escreve Luciana R., de Salvador:

Olá, professor! Sou bióloga, mas faço questão de escrever corretamente. Pesquisei bastante em seu site, mas não obtive a informação que procuro. A nova ortografia promete deixar o uso do hífen mais lógico, mas eu não entendi muito bem aquela parte que fala de certos compostos que perderam a noção de composição —”girassol, madressilva, mandachuva, pontapé, paraquedas, paraquedista, etc.”. Este “etc.” é o problema: como vou saber se a noção de composição também foi perdida em outros vocábulos?

2 — Aninha, de Piracicaba (SP):

Caro professor, estamos em dúvida quanto ao uso do hífen na nova ortografia. Em alguns dicionários encontramos a palavra parachoqueparaquedas juntos, em outros para-choquepara-quedas. Qual é o certo? Lembramos que no programa do Caldeirão do Huck, no Soletrando, a palavra para-choque foi soletrada com hífen. No dicionário Michaelis, contudo, está escrito parachoque, paraquedas. Qual o correto? Ajude-nos, por favor.

Prezadas leitoras: como vocês têm, no fundo, a mesma dúvida, acho que posso responder às duas numa só mensagem. Concordo com a Luciana: aquele “etc.” colocado ao final da lista de exemplos é a coisa mais desastrada que eu já vi no texto de um Acordo Ortográfico. Quem é a divindade que vai decidir quais são os vocábulos cuja composição deixou de ser percebida pelos falantes? O silêncio da Academia sobre este ponto vai estimular o aparecimento de listas de todo o tipo, já que temos, no Brasil, tantas “autoridades” sobre o idioma quanto candidatos a técnico da seleção canarinho. Ao contrário do que se deveria esperar, a Reforma vai aumentar ainda mais a hesitação sobre a grafia correta dos compostos — a começar pelos casos que eles relacionaram expressamente no texto, pois a composição de para-quedas, para mim, ainda está bem visível…

Além disso, ao deixar a enumeração em aberto, a regra tornou-se uma fonte inevitável de discórdia entre os dicionários. A nova edição de bolso do Aurélio e do Houaiss já nos forneceu uma prévia do que vem por aí: o primeiro incluiu no “etc.” paralama, parabrisapararraio, parachoque, seguindo o modelo de paraquedas; o segundo só tirou o hífen de paraquedas, conservando-o nos outros. Resultado: os dois dicionários se tornaram inconfiáveis, porque ambos, apesar de anunciar que já seguem a nova ortografia, divergem nestas e em muitas outras palavras. Abraço. Prof. Moreno

Veja a regra aqui

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Como se escreve Outros sinais

malmequer

Prezado Professor: o substantivo malmequer (ou bem-me-quer), que designa várias espécies de flores, grafa-se assim. E a brincadeira de desfolhar a margarida, como devo escrever? Ao arrancar cada pétala da flor, posso considerar que estou diante da frase e não do substantivo?

Magna —  São Paulo

Minha cara Magna: quando os namorados tiram as pétalas da margarida, eles vão dizendo “Mal me quer, bem me quer; mal me quer, bem me quer” — presumindo-se que o sujeito implícito do verbo querer seja a figura do(a) amado(a): (“[ela] bem me quer, [ela] mal me quer”). Estamos, portanto, em pleno nível sintático, onde cada palavra é uma unidade independente, separada uma da outra pelo tradicional espaço em branco. 

Quando a expressão foi substantivada para designar a própria flor, passou a substantivo composto: malmequer (ou bem-me-quer) É mais ou menos o que aconteceu com “Deus nos acuda!” e “foi um deus-nos-acuda“, “Chove e não molha” e “ficaram no chove-não-molha“. Uma coisa é a frase, que veio em primeiro lugar; a outra, o substantivo que foi formado a partir dela. 

Quanto ao uso do hífen, deves lembrar que a regra que se aplica ao prefixo bem é diferente da que se aplica a mal: bem vai ser hifenizado sempre que formar um composto com outro vocábulo de existência independente em nosso idioma (bem-estar, bem-aventurado, bem-querer, bem-vindo, etc.), enquanto mal só vai ter hífen quando se ligar a palavras iniciadas por H ou por vogal: mal-estar, mal-assombrada, mal-arranjado (mas malfeito, malmequer, etc.). Abraço. Prof. Moreno

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Flexão nominal Lições de gramática

plural dos compostos: Estados-Nação

Caro Prof. Moreno, eu tenho dúvidas sobre a expressão Estado-nação. A primeira é a própria grafia — se Estado-nação, Estado-Nação ou qualquer uma destas duas formas, sem o hífen. A segunda diz respeito ao uso do plural. Eu estive lendo a sua esclarecedora explicação do plural de compostos e percebo que a expressão estaria entre aquelas formadas por [substantivo+substantivo]; parece-me, ademais, que o sentido é “Estado que é nação” (mas isto é um pouco complicado; afinal, a expressão foi cunhada pela História para se referir à unificação da Itália e da Alemanha, pelo que sei). O plural então ficaria Estados-nação? Sempre grata pela sua atenção.

Dea L.

Minha cara Dea: que palavrinha feia, essa! Olha, eu não sei exatamente tudo o que está por trás do conceito de Estado-Nação (já que Estado vai com maiúsculas, é melhor fazer o mesmo com Nação), mas eu flexionaria como Estados-Nação. Acontece que nem sempre a minha intuição concorda com a dos especialistas que usam o vocábulo. Para mim, por exemplo, um decreto-lei seria “um decreto que tem a força de lei, que a ela se equipara”; nada mais justo do que fazer o plural decretos-lei —- no que eu sou literalmente atropelado pela grande nação dos juristas, que usam exclusivamente decretos-leis.

Isso se entende facilmente: há uma forte tendência a tratar como formas variáveis ambos os elementos dos composto do tipo [substantivo + substantivo]: em vez de horas-aula, palavras-chave, folhas-padrão, que é a flexão canônica, cada vez mais aparecem formas como “horas-aulas”, “palavras-chaves”, “folhas-padrões”. É tal a incidência dessas últimas (e desengonçadas) flexões que já dá para perceber em que direção o quadro está avançando. Contudo, se mais uma vez temos aquela oportunidade de escolher entre duas formas, continua valendo o princípio fundamental: o estilo é a soma de nossas opções. Quem usa Estados-Nação, horas-aula, palavras-chave revela bom gosto e sensibilidade lingüística; os outros, não. Abraço. Prof. Moreno

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Lições de gramática Regência

arroz-de-leite, arroz-com-leite

Ele: “Professor Moreno, gostaria de saber se é correto o nome do doce arroz-de-leite , sinônimo de arroz-doce. Minha mulher insiste que está errado. Está grafia consta no Aurélio, enquanto a que ela diz ser a correta, arroz-com-leite, não consta. Por favor, esclareça-nos. Muito obrigado.” [Ernesto – Porto Alegre]

Ela: “Caro professor Moreno, há um debate entre mim e meu marido a respeito do nosso famoso doce regional, o arroz-doce, que já está virando polêmica familiar. Eu sou do interior e ele de Porto Alegre. Quando começamos a namorar, achavam estranho, na casa dele, eu falar arroz-com-leite, pois todos falavam arroz-de-leite. Desde então o debate vem crescendo e está se tornando cada vez mais acirrado. Eu argumento que de leite não se faz arroz. Pode-se fazer um doce de leite, uma rapadura de leite, mas nunca arroz. Eles argumentam que é o nome do doce e que, por isso, pode. Tive a idéia de entrar em contato quando li sua explicação sobre déjà vu — o que não é torna-se aceito e tido como verdadeiro e correto. Será que teremos também o *cunós ou *cunóis tido como correto algum dia? Um abraço.” 

Marta — Porto Alegre

Meus caros Ernesto e Marta: façam as pazes, porque os dois têm razão. O tradicional doce português, o arroz-doce, pode ser chamado tanto de arroz-de-leite quanto de arroz-com-leite. Não tentem encontrar uma ordem onde ela inexiste: infelizmente o uso da preposição na denominação dos pratos de nossa cozinha não segue a estrutura-padrão de nossos sintagmas. Entendo a posição da Marta: o arroz-doce é feito “com” leite, e não “de” leite. No entanto, uma pesquisa detalhada em livros de culinária consagrados me fez suspeitar que não é tão simples assim. Encontrei feijão de azeite, feijão de alho, cocada de ovos, arroz de polvo, arroz de marisco, arroz de frango, arroz de alho, arroz de coco (Luís Câmara Cascudo), arroz de pequi, arroz de leite (Gilberto Freyre) — em todos eles, aposto que a Marta substituiria o “de” pelo “com”.

Em alguns cardápios, inclusive, vi distinguirem arroz-com-leite, prato salgado em que o arroz é cozido no leite e não na água, do arroz-de-leite, incluído entre as sobremesas. Em outros, no entanto, o próprio arroz-de-leite aparece como salgado; um típico restaurante do Rio Grande do Norte oferece à gula dos fregueses vários pratos da cozinha regional do Seridó, entre eles carne-de-sol com arroz-de-leite, rabada de boi, guiné torrado, buchada, entre outros. Deu para perceber? Neste caso, não existe um padrão sedimentado quanto ao emprego do “com” ou do “de”.

Agora, Marta, senti uma ponta de ironia quando perguntas se um dia teremos como correto o famigerado *cunós ou, pior ainda, o *cunóis — assim como se eu tivesse insinuado que o errado passará a ser certo, já que a maioria fala assim. Nada disso; o caso do arroz-de-leite é bem diferente. Não estamos falando em substituir uma forma do Português culto (conosco) por uma do Português falado substandard (*cunóis) — a distância é grande demais para ser transposta—, e sim usar uma preposição em vez de outra (fato comum e freqüente em nosso idioma). Querem um conselho? Depois de ler este artigo, comemorem em torno de um belo prato de arroz-de-leite (ou com leite) morninho, com uma canelinha por cima, o fato de ambos terem razão. E voltem sempre! Um abraço para os dois. Prof. Moreno 

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freqüente > frequente

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Flexão nominal Lições de gramática

abram alas

Prezado Prof. Moreno: infelizmente passamos por uma situação inusitada na última Quarta-Feira de Cinzas, quando da apuração do Carnaval de rua na cidade de Valinhos (SP). Minha escola foi julgada e teria ganho o título, não fosse por um jurado ter aplicado uma penalidade de 2 pontos na letra do samba. Em determinado momento, há a seguinte frase: “… Ô abram-alas, que a Vila vai passar…”, fazendo uma alusão às pessoas (imperativo — plural), para que abram caminho que a escola vai passar (este “Ô” seria uma interjeição). Nem mesmo o jurado soube explicar o motivo da penalidade (ele escreveu “…acho que ficaria melhor abre-alas…”, o que mudaria completamente o sentido da frase). Minha dúvida é a seguinte: o verbo contido na expressão abre-alas não pode ser conjugado? Agradeceria muito seu retorno. Um grande abraço. 

Luciana C. R. — Campinas

Minha cara Luciana: não, os verbos que estão dentro de um substantivo composto jamais são conjugados. Eles ficam ali como cristalizados: o saca-rolha, os saca-rolhas (e não *sacam-rolhas); o porta-bandeira, os porta-bandeiras (e não *portam-bandeiras). Infelizmente, a letra da tua escola contém um pequeno equívoco, que terminou comprometendo sua classificação: ela confunde o abre-alas (“tabuleta, dístico, ou carro alegórico, que abre o desfile duma entidade carnavalesca”, segundo o Aurélio) com “abram alas“, aí sim o imperativo plural, avisando às pessoas que a Vila vai passar. “Ô, abram alas, que a Vila vai passar” — essa é a forma correta (sem hífen, porque não é um composto). Sinto muito. Abraço. Prof. Moreno