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Concordância em concurso

A questão pedia para assinalar a alternativa com erro de concordância. Segundo a banca, a frase com erro seria “Tanto aos capitalistas mais liberais quanto aos socialistas mais ortodoxos parecem de pouca importância o que não diz respeito ao campo estrito da economia”, mas não entendi por quê. Sujeitos ligados por “tanto.. quanto…” não levam o verbo para o plural?

A frase que marquei como errada foi  “Superaram-se, sim, no campo da técnica todas as expectivas, mas também se registre que todas as desigualdades sociais se agravaram”, porque acho que o pronome indefinido “todas” pediria o verbo no plural.

Patricia F. — Osasco, SP

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Cara Patrícia: sinto muito, mas a frase apontada pela banca realmente está errada. O verbo parecer deveria estar no singular, já que o sujeito é “o que não diz respeito ao campo estrito da economia“. Na ordem direta, fica “O que não diz respeito ao campo estrito da economia parece de pouca importância tanto aos capitalistas mais liberais quanto aos socialistas mais ortodoxos”.

O tanto e o quanto, aqui, não têm a menor importância para a concordância, simplesmente porque introduzem objetos indiretos (“tanto aos capitalistas“, “quanto aos socialistas“) — e não sujeitos.

Sinto dizer-te, também, que está corretíssima a concordância dos dois verbos da frase que assinalaste como incorreta: “Superaram-se, sim, no campo da técnica, todas as expectivas, mas também se registre que as desigualdades sociais se agravaram”. São dois casos de voz passiva sintética; o sujeito de “superaram-se” é “todas as expectativas”, e por isso ele está no plural; o de “se registre” é a oração seguinte (“que as desigualdades sociais se agravaram”) — e, como em qualquer caso de sujeito oracional, o verbo fica no singular.

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concordância com o sujeito deslocado

Parece mentira, mas uma banal alteração na ordem dos elementos da frase provoca um dos erros mais comuns de concordância verbal

 

Falta só dois reais“, diz o rapaz da livraria, enquanto procura nos próprios bolsos o troco que não tinha no caixa. Levanto os olhos para ele e hesito; uma vida toda como professor de Português me deu uma grande sem-cerimônia em corrigir o que os outros falam de errado, mas a experiência também me ensinou que nem todos aceitam de bom grado uma lição gratuita. Recebo as duas moedas e me afasto, pensando que, ao menos, nem tudo estava perdido, já que ele não disse o  *dois real de sempre. Eu compreendo o que ocorreu: tenho certeza de que o balconista sabe (conscientemente ou não, ele sabe) que o verbo deve combinar com o sujeito, nesse fenômeno que chamamos de concordância. Não se trata de caprichar a linguagem que ele está usando; é muito mais profundo. Ele nasceu dentro dessa língua e dentro dela virou gente; logo, este princípio está gravado tão claramente em algum ponto de seu sistema nervoso quanto os comandos que permitem que ele alterne os pés para caminhar para a frente. Ora, como é que algo tão elementar e fundamental pôde ser desconsiderado, a ponto dele usar *falta em vez de faltam? É muito simples: ele  não   “enxergou”  o sujeito.

Talvez esta seja a maior fonte de erros de concordância no Português. Estamos acostumados a encontrar  o sujeito no começo da frase; quando ele é deslocado para uma posição À DIREITA do verbo, é muito provável que o  confundamos com os complementos. Quando escrevemos, com todo aquele tempo que temos para refletir e revisar, um exame um pouco mais detalhado da estrutura identifica o sujeito; a maioria das pessoas, contudo, deixa de fazê-lo, cometendo esse tipo de erro. Veja os exemplos abaixo, todos com erro de concordância; como as expressões em destaque são o SUJEITO da frase, o verbo deveria estar no plural em todas elas:

* No ano passado teve início as conferências.
* Foi anunciado, em São Paulo, os nomes que compõem o Ministério.
* Ficou provado, desta forma, as tentativas de suborno.
* Espero que seja explicado para todos nós as razõe de sua atitude.

Este erro é ainda mais freqüente com aquele pequeno grupo de verbos que normalmente têm o sujeito à sua direita: EXISTIR, OCORRER, ACONTECER, FALTAR, RESTAR, SOBRAR, BASTAR, CABER. Entre os exemplos abaixo, em que os elementos em destaque são o SUJEITO da frase, encontramos o erro de nosso balconista:

Faltam dois reais.
Existem aí coisas horríveis.
Bastam dois comprimidos.
Sobraram três fatias.
Ocorreram fenômenos inexplicáveis.

Após o Acordo: freqüente > frequente

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concordância com a passiva sintética

As leitoras Diva Lea, de Assis (SP), e Maria Angélica, de Porto Velho (RO), estranham que ainda seja considerado erro deixar no singular o verbo  de vende-se casas. Elas — como todo falante brasileiro não sentem casas como o sujeito dessa construção, nem vêem aí uma equivalência com casas são vendidas. Em qualquer cidade do Brasil, em qualquer estrada, nas páginas dos classificados, nos anúncios da lista telefônica para onde quer que você olhe, vai enxergar exemplos do famigerado “erro” da passiva sintética. Sem dar a mínima para o  que dizem os gramáticos mais tradicionais, as pessoas povoam a paisagem brasileira de grandes cartazes e belos letreiros com aluga-se casas, conserta-se fogões, faz-se carretos, aceita-se encomendas, traçados em todas as cores e tamanhos. Por alguma misteriosa razão, os vendedores de terrenos  recusam-se a fazer o verbo vender concordar com os  terrenos que eles vendem; em vez de vendem-se, teimam em escrever “vende-se terrenos“, assim mesmo, com o verbo no singular.  Alguns começam a se perguntar se a  voz passiva sintética está ameaçada; eu vejo, simplesmente, que a questão já foi decidida há muito tempo: a passiva sintética deixou de ser uma estrutura viva de nossa língua. Ficou apenas a lenda, contada ainda respeitosamente junto ao fogo dos acampamentos gramaticais mais conservadores. E por que morreu? Porque o que ela teria a oferecer não interessa mais aos falantes, que vêem a voz passiva analítica a verdadeira atingir as mesmas finalidades, com muito mais vantagem.

Vamos ser sinceros: quando eu escrevo vende-se este terreno, pretendo significar que “este terreno é vendido” (ou “está sendo vendido”)?  Claro que não.  É  o interesse de não ser identificado (ou, às vezes, um simples pudor) que me leva a não escrever vendo este terreno (o que seria claro, direto e honesto). Ao optar pelo vende-se, quero anunciar algo assim como “alguém vende este terreno”. Em outras palavras, estou tentando usar, com um verbo transitivo direto, aquela mesma  construção que empregamos com os verbos transitivos indiretos quando queremos indeterminar o sujeito (“precisa-se de operários”, “necessita-se de costureiras”). Como explicava Celso Pedro Luft, usamos o SE sempre que não nos interessa especificar o agente. Em “aluga-se uma casa” e “vende-se este terreno” não interessa saber quem vende ou aluga; interessa a ação e seu objeto. Por isso mesmo, quando o próprio objeto está diante dos olhos do leitor, basta pregar nele uma tabuleta com o verbo, e pronto: aluga-se, vende-se.   Essa é a realidade; nossa insistência em manter o verbo no singular, a despeito do plural que vem depois, comprova que ninguém sente casas ou terrenos como sujeito dessas frases.

Há muito os lingüistas brasileiros já sabem que a passiva sintética é pura ficção, mas este é um daqueles tantos itens em que fica evidenciado o imenso (e estranhíssimo!) fosso que separa,  de um lado, o que hoje conhecemos sobre a nossa língua, e do outro,  o que a disciplina gramatical (sustentada pela maior parte dos livros didáticos) ainda difunde através do ensino. Neste caso, em particular, há um apego ainda mais inexplicável a uma dessas falsas verdades, já que muitos gramáticos “velhos”, dos bons (entre outros, o grande Said Ali em 1908! e João Ribeiro) já expressaram sua convicção  de que esta estrutura estava morta. Acontece que não são  os verdadeiros especialistas quem detém o poder da opinião gramatical no Brasil; este vem sendo exercido, desde o Império, por indivíduos dotados geralmente de pouca cultura lingüística e magros dotes intelectuais, que ocupam as posições de destaque na imprensa e nas editoras, impondo ao sistema escolar uma língua aprisionada numa estreita moldura teórica o que é, paradoxalmente, a verdadeira razão de seu sucesso, pois isso dá ao usuário aquela  sensação de segurança que o espírito redutor sempre oferece. Basta comparar a atitude aberta, indagativa, de velhos sábios como Said Ali ou Mário Barreto, com a posição autoritária e estreita da grande maioria dos autores que escrevem hoje, século XXI, sobre Língua Portuguesa, aqui nesta Pindorama. O próprio Said Ali já definia, curto e seco,  o problema desses bacharéis gramatiqueiros, com sua mirrada análise lingüística: eles “pecam por excesso de raciocínio dentro de limitado círculo de idéias“. Criaram um estreito arcabouço lógico para a língua (que, como sabemos, não é lógica) e nele basearam toda uma “disciplina gramatical” que, como não poderia deixar de ser, não passa de uma entediante arquitetura fantasiosa, sem o imprescindível apoio da realidade.

É só nesse mundo fictício que a passiva sintética sobrevive. É um mecanismo perverso: mesmo aqueles que já estão convencidos de que ela é uma estrutura artificial não ousam ignorá-la, pelo medo de ser avaliados desfavoravelmente por seus leitores, que provavelmente acreditam nessa versão “oficial” do Português. Eu, por exemplo (que não acredito na sintética), vou escrever “vende-se casas”? Pois jacaré escreveu? Nem eu! Esse é um dos maiores fatores dessa sobrevivência virtual desta construção obsoleta: ninguém quer se arriscar a ser o primeiro. Isso é mais que humano (além do fato de que, vamos ser sinceros, não se trata de algo tão importante assim que valha o incômodo…). E ela segue vivendo da ilusão dos concursos, dos vestibulares, das petições, dos textos formais e conservadores. O que apresento a seguir é uma suma da concepção tradicional sobre a voz passiva sintética; embora eu dela discorde, friso que ela deve ser conhecida por quem quer que precise demonstrar domínio da Norma Culta Escrita.

1 – Concordância  com  a passiva sintética (visão tradicional)

Ao lidar com a voz passiva sintética (também chamada de pronominal, por causa do SE, que é um pronome apassivador), nosso maior problema é reconhecer o sujeito da frase.   Em estruturas do tipo aceitam-se cheques ou compram-se garrafas, o elemento que vem posposto ao verbo é considerado o sujeito (o paciente da ação).  Ocorre, no entanto, que a passiva sintética não é sentida como voz passiva pela maioria dos falantes, os quais,  vendo em cheques e garrafas um simples objeto direto, deixam de concordar o verbo com eles. Nasce aqui o que um antigo gramático chamava de “erro da tabuleta”: *aceita-se cheques, *compra-se garrafas, *vende-se terrenos, *aluga-se barcos.

Como já disse acima, não vou discutir, aqui, a real existência da passiva sintética; contento-me em explicar como é que a doutrina gramatical escolar a descreve. Não esqueça de que ela é ainda encarada como um dos traços que caracterizam o uso culto formal, e você pode ter certeza de que ela estará presente nas questões de vestibulares e concursos. É necessário, portanto, que você saiba  identificá-la, fazendo em seguida a competente concordância.

Para quem tem uma formação mínima em sintaxe, não é tão difícil reconhecê-la: verbos TRANSITIVOS DIRETOS seguidos de SE (não reflexivo) constituem casos inequívocos dessa estrutura. Se ainda assim persistirem dúvidas, lembre que a frase na passiva sintética tem forma equivalente na passiva analítica:

Aceitam-se cheques Cheques são aceitos.

Compram-se garrafas Garrafas são compradas.

Se o verbo for transitivo indireto, é evidente que não pode haver passiva tanto a sintética quanto a analítica.  A construção com VERBO TRANSITIVO INDIRETO+SE é uma das formas do sujeito indeterminado no Português, ficando o verbo sempre na 3ª pessoa do singular:

Precisa-se de serventes.

Falava-se dos últimos acontecimentos.

Como serventes e últimos acontecimentos têm a função de objetos indiretos, o fato de estarem no plural não afeta o verbo, que continua imóvel no singular. Aqui muitas vezes ocorre a hipercorreção, aquele curioso erro invertido: assim como o caipira da anedota, muitas vezes advertido a não dizer fia e paia em vez de filha e palha, termina caprichando num *”as arelhas da pralha”, assim também falantes que se preocupam demais em errar a concordância com a passiva terminam por flexionar erroneamente essas estruturas, apesar do verbo ser transitivo indireto:

*Precisam-se de serventes (em vez de “precisa-se”).

*Falavam-se dos últimos acontecimentos (em vez de “falava-se”).

Para ter certeza de que não vai cometer este erro, você precisa identificar a regência do verbo; se for transitivo indireto, certamente não se tratará de caso de voz passiva. A mensagem por trás disso tudo, porém, é trágica: ninguém será capaz de lidar com essa estrutura se não for capaz de fazer todas as distinções sintáticas necessárias; nada mais natural, portanto, que o uso da sintética tenha ficado reduzido à escrita de usuários cultos e extremamente cautelosos.

2 – Aumenta a preocupação: as locuções verbais

Quando o verbo principal de uma locução verbal é transitivo direto, ocorrerá normalmente a voz passiva, flexionando-se (como é característico das locuções) o verbo auxiliar:

(ativa)         O rei tinha autorizado as núpcias do poeta.

(analít.)       As núpcias do poeta tinham sido autorizadas pelo rei.

(ativa)         A miopia pode estar prejudicando este garoto.

(analít.)        Este garoto pode estar sendo prejudicado pela miopia.

(analít.)        Essas terras tinham sido compradas.

(sintét.)        Tinham-se comprado estas terras.

(analít.)         As condições do tratado devem ser respeitadas.

(sintét.)        Devem-se respeitar as condições do tratado.

Nessas construções de passiva sintética com auxiliar, mais difícil ainda se torna reconhecer o sujeito posposto:

*Tinha-se comprado estas terras (em vez de “tinham-se”).

*Deve-se respeitar as condições do tratado. (em vez de “devem-se”)

Aqui, no entanto, há um caveat: existem vários auxiliares que impedem a transformação passiva (analítica ou sintética). Os gramáticos velhos os denominam de auxiliares volitivos os que indicam vontade ou intenção, como  QUERER, DESEJAR, ODIAR, e os que indicam tentativa ou esforço, como BUSCAR, PRETENDER, OUSAR, etc.

A frase “O homem tenta desvendar os mistérios da Natureza” não admite a passiva *”Os mistérios da Natureza tentam ser desvendados pelo homem”, da mesma forma que “Eu quero convidar Fulana”  não corresponde a “Fulana quer ser convidada por mim”. O mesmo vai acontecer com a passiva sintética: numa frase como “Pretende-se importar os componentes”, o auxiliar volitivo deixa  claro que componentes não pode ser o sujeito de “pretender”. O que temos aqui, na verdade, é um SUJEITO ORACIONAL o sujeito das frases abaixo é a oração subjetiva entre colchetes, e o verbo, conseqüentemente, fica na 3ª pessoa do singular:

Pretende-se  [importar os componentes].

Busca-se   [eliminar as diferenças].

 

Depois do Acordo: vêem, lingüista, lingüística, idéia e conseqüentemente passam a veem, linguista, linguística, ideia e consequentemente.

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Estados Unidos e Nova Iorque

Professor, tenho alguns reparos a fazer: (1) Em Inglês, Estados Unidos é sempre usado com o valor de um singular: “The United States is a big country. America is a big country. The U.S. is a world power. The U.S.A. has a problem with illegal immigration”. O plural dos verbos (neste caso, are ou have) não é usado porque Estados Unidos é considerado um nome próprio, não um substantivo + adjetivo. É um nome de um país. Os estados russos, os estados confederativos, os estados europeus, os estados brasileiros, os estados romanos, as ilhas havaianas — esses sim são substantivos + adjetivos, que não começam em letras maiúsculas. 

(2) Sua resposta sobre New York ou Nova Iorque não era clara. Quando falarmos em Inglês, ou em Português, dirigindo-nos a um estrangeiro, é melhor usar New York, ou a outra pessoa não vai entender. Quando falarmos em Português com uma pessoa que estudou Geografia em Português e só conhece os nomes das cidades do mundo nesta língua, usemos Nova Iorque. Nunca misture Inglês e Português no mesmo nome, e.g. New Iorque ou Nova York. Os mapas em Português têm os nomes das cidades do mundo em Português. Os mapas em Inglês têm os nomes das cidades do mundo em Inglês. A cidade Nieuw (New) Amsterdam foi renomeada como New York em 27 de agosto de 1664, em homenagem ao Duque de York. York é uma cidade da Inglaterra fundada antes do século VII e não tem nada de ver com a palavra portuguesa Iorque.”

Terry S. — Belo Horizonte

Meu caro Terry: agradeço tuas observações. São esclarecedoras quanto ao uso do Inglês, mas nada têm a ver com o Português. “The U.S.A. is“, “people are“, etc. — são características idiossincráticas do sistema flexional do Inglês, do mesmo modo como “Os Estados Unidos são” caracteriza o sistema do Português. Minha resposta quanto a Nova Iorque visa exclusivamente ao âmbito dos falantes nativos de nosso idioma; é evidente que, lá fora, ou usaremos New York, ou — o que é mais adequado ainda, como tu deves saber — a pronúncia específica conhecida pelos habitantes do país em que nos encontrarmos (o que fica difícil para quem viaja muito, principalmente pela Ásia).

Agora, meu caro Terry, não tens razão alguma quando afirmas, candidamente, que “os mapas em Português têm os nomes das cidades do mundo em Português”. Eu não devo ter sido claro em minha explicação, pelo que vejo: usamos, em nossos mapas, os nomes adaptados para o Português se existir a forma adaptada (Londres, Munique, Bolonha, etc.) e se, mesmo existindo, o uso a tenha consagrado (como eu disse no meu artigo sobre Nova Iorque, nossa língua formou Cantuária para Canterbury, mas preferimos ficar com o original). Na maioria casos, contudo, nossos mapas (e, ipso facto, nós, falantes) usam o nome original da região (Buenos Aires, Los Angeles, Buffalo — e não “Bons Ares”, “Os Anjos” ou “Búfalo”).

Por fim — last but not least —, que bela confusão fizeste com o nosso Iorque! Escreves: “York é uma cidade da Inglaterra fundada antes do século VII e não tem nada de ver com a palavra portuguesa Iorque“. Como não? Deves ter percebido que nós, países da América, usamos muitos topônimos oriundos de topônimos europeus — o que explica a grande profusão de novos e novas nos mapas dos EUA, do Canadá, do Brasil e de todos os países da América espanhola. Muito, mas muito antes de nosso continente ter sido descoberto por Colombo, Portugal comerciava com seus vizinhos europeus e tinha (o que é óbvio) nomes para eles e para seus países e cidades. Um viajante português que ia à Inglaterra (e não England), encontrava lá Londres (e não London), Gales (e não Wales), Iorque (e não York), etc. Quando o Brasil foi descoberto (bem antes, portanto, de chegarem os Peregrinos ao norte da América), Iorque já era uma palavra velha no Português. Ao rebatizarem New Amsterdam para New York, criou-se, automaticamente, para os falantes de nosso idioma, a oposição entre Iorque (para eles, na época, a verdadeira, na Inglaterra) e Nova Iorque (a pequenina cidade surgida em Manhattan, insignificante, perdida na solidão do novo continente). Um abraço, Terry, e continua meu leitor atento. Prof. Moreno

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Concordância Lições de gramática

concordância do verbo ser

Prezado professor, sempre me confundo com o verbo ser: “As lembranças É tudo o que fica na memória” ou “As lembranças SÃO tudo o que fica na memória”? Quando eu uso É ou SÃO? Tenho de concordar com o que vem antes ou com o que vem depois do verbo? Para mim é a maior confusão; já tentaram me explicar, mas nunca entendi. Rubem Paes

Meu caro Rubem, se te serve de consolo, fica sabendo que determinar o sujeito do verbo ser não é fácil para ninguém. Numa frase como “O pinheiro é muito alto”, não há dúvida alguma quanto às funções sintáticas: o pinheiro é o sujeito e muito alto é o predicativo. No entanto, numa frase como “A responsável é ela“, já não temos certeza de qual dos dois termos em destaque funciona como sujeito (e, portanto, comanda a concordância do verbo).

Se nos apegarmos à idéia de que o sujeito é o que fica à esquerda do verbo, diremos que o sujeito é A RESPONSÁVEL — o que se revela um palpite infeliz assim que fazemos uma simples alteração na frase: “*A RESPONSÁVEL é tu”. Essa frase é inaceitável. No Português culto, o verbo ser deve concordar com tu; a forma correta será “A responsável és TU”.

Alguns autores afirmam que, aqui, “o verbo está concordando com o predicativo”! — o que faria do verbo ser uma verdadeira atração de circo: “Vejam! Vejam! O único verbo que consegue concordar com outra coisa que não o sujeito da frase!”. Pelo tom que adotei, percebes que não julgo ser essa uma boa interpretação do fenômeno. Acho que é muito mais adequado dizer que o sujeito do verbo ser ora pode vir antes, ora depois do verbo; em cada frase específica, tu deverás, então, para fazer a concordância, decidir qual é o sujeito, qual é o predicativo. Para tanto, nota que as pessoas que escrevem bem em nossa língua seguem, geralmente, uma ordem de precedência que vai depender dos elementos que estiverem de um lado e do outro do verbo ser — mais ou menos similar àquele código de boa conduta que todo jovem devia seguir, nos anos 70, ao embarcar num ônibus ou qualquer transporte coletivo. Vamos recordar a cena: todos os assentos do ônibus estão tomados, exceto um. Sobem dois passageiros, uma velhinha coroca e um jovem atleta. A quem pertence o assento vago, no código da etiqueta e da educação? É claro que à velhinha. E se os dois novos passageiros  fosse uma jovem de perna quebrada e uma velhinha de cabelo grisalho? Eu diria que à jovem de perna quebrada, que tem mais dificuldade de se manter de pé (embora, no meu tempo de faculdade, quatro ou cinco dos passageiros que estavam sentados levantariam e começariam a brigar pelo privilégio de ceder o seu lugar à vovozinha; hoje…). E se fosse uma jovem de perna quebrada e uma jovem grávida de oito meses? E se fosse uma velhinha de perna quebrada e uma velhinha grávida? E assim por diante, dois a dois, os passageiros iriam subindo neste nosso ônibus virtual, e nós iríamos decidindo de acordo com os códigos não-escritos da grande tribo em que vivemos. Assim é com o nosso verbo ser: para decidir quem vai ocupar o lugar do sujeito, temos de comparar os dois candidatos ao cobiçado assento:

(1) substantivo humano + SER + substantivo não-humano — O sujeito será o substantivo com traço humano, qualquer que seja sua posição na frase: “O pior são os vizinhos“; “O inferno são os outros“; “Minha filha é meus cuidados”.

(2) substantivo (qualquer) + SER + pronome pessoal reto — O sujeito será o pronome reto, que, como você já viu, sempre exerce a função de sujeito: “A responsável és tu”; “O responsável sou eu“; “Os interessados somos nós“.

(3) substantivo no singular + SER + substantivo no plural — A preferência é normalmente dada ao substantivo com o traço plural: “Meu problema são os dentes“; “Os tijolos são um material barato”.

4) substantivo + SER + pronomes não-pessoais (quem, que, isto, aquilo, tudo, nada) — Neste caso, o mais aconselhável é considerar sujeito o substantivo: “Tudo são mentiras“; “Aquilo são invenções“. Isso esclarece a forma correta da frase que você menciona: “As lembranças são tudo o que fica na memória”.

Quando se trata de concordar com quantias, distâncias, horas, etc., o verbo ser deverá concordar com a expressão numérica: se ela for igual ou maior do que 2, usa o plural: “São quase duas horas“; “É uma e meia“; “Daqui ao centro são três quilômetros“; “Aqui está a conta: são dois mil reais“.

Com datas, alguns autores querem que se mantenha essa concordância com o numeral: “Eram dez de setembro”; “São dois de julho”. O uso moderno, no entanto, não aceita essa forma, preferindo “Era [o dia] dez de setembro”; “É [o dia] dois de julho”. No caso de prestar um concurso público, cabe a ti, com um pouco de discernimento, distinguir a qual das duas correntes se filia a banca examinadora. Em caso de dúvida, faz a concordância são, eram, etc., pois esta é uma posição que encontra muitos adeptos entre os gramáticos conservadores, os quais, por uma ironia do destino (ou não?) constituem a bibliografia básica da maioria das bancas. Abraço. Prof. Moreno

Depois do Acordo: idéia > ideia

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Fui eu quem fez?

Caro professor, ainda não consegui descobrir a forma correta para a resposta à pergunta “Quem fez isso?”. Seria “Fui eu quem fez” ou “foi eu que fiz“? Por favor, explique-me qual é a resposta correta; ou quem sabe nenhuma das duas pode ser usada?

Helena B. — Campinas (SP)

Minha cara Helena, vamos por partes; há duas orações na tua frase. Na primeira, não tens escolha: ela será necessariamente “fui eu“. O sujeito está claro (“eu”) e o verbo precisa concordar com a 1a. pessoa; “*foi eu” é erro brabo. Na segunda oração, contudo, tens duas opções: usar que ou usar quem. Se usares que, o seu antecedente é o eu da oração anterior, e a concordância será “que fiz“. Se usares o quem, este é um pronome de terceira pessoa, e a concordância será “quem fez“. Portanto, “fui eu que fiz” ou “fui eu quem fez” (da mesma forma que “fomos nós que fizemos” ou “fomos nós quem fez“). Podes escolher, mas eu te recomendo, pessoalmente, a primeira opção, porque está mais de acordo com a fala usual. Abraço. Prof. Moreno

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A gente somos?

1ª — Caro professor: a expressão a gente, tão comumente usada hoje em dia, trata-se de um terrível mau uso da língua ou é apenas uma cacofonia (pois dói no ouvido)? Grato.

[Rubens  G. – Campinas]

Meu caro Rubens: mas que maneira de colocar a questão! Do jeito que escreveste, ou matas, ou enforcas! A Retórica alertava para esses falsos dilemas, que não deixam saída para o interlocutor: “tu ainda bates na tua avozinha, ou resolveste agora ter pena da pobre velhinha?” — nota que, seja qual for tua resposta, estarás admitindo uma atitude lamentável contra a terceira idade. A gente é um “terrível mau uso” ou “apenas uma cacofonia”? Sentiste a maldade? Acho que em parte é bom, em parte é ruim, Rubens. A força com que gente entrou no Português quotidiano parece revelar que temos necessidade de uma forma assim — um impessoal, como o on do Francês, para substituir o nós, que é muito mais particularizado. Nota que, do ponto de vista flexional, gente tem a vantagem de usar a 3ª pessoa do singular, a mais simples e menos marcada de todas: “a gente decidiu”, “a gente precisa entender“, etc. O problema que começa a surgir, no entanto, reside na escolha dos pronomes (pessoais e possessivos) que irão fazer companhia a gente, devido a seu emprego no lugar do nós: “a gente trouxe nossos ingressos”, “a gente precisa entender nosso pai” — aí sim, Rubens, exemplo de mau uso (mas não terrível…). Vamos ver como o sistema vai resolver essa; entender uma língua é, antes de mais nada, observar as tendências naturais que ela decide seguir. Abraço. Prof. Moreno

P.S.: Fica atento para um erro que começa a aparecer por aí: andam escrevendo “*Agente precisa tomar cuidado”, “*agente não sabia o que estava acontecendo”. Que tal? 

2ª — Caro Professor Moreno: ficaria muito grato se o senhor esclarecesse quem pode fazer uso da silepse. Vou ser mais explícito: de acordo com o que vi nas gramáticas sobre silepse, poderíamos dizer “a gente vamos”, pois o verbo concordaria com o plural implícito no vocábulo “gente”. Seria silepse de número? 

David A., de Maceió (AL

Meu caro David: QUEM pode usar a silepse? Quem quiser, ora. A língua é uma das poucas instâncias democráticas que temos. Se queres saber QUANDO, aí já é outro departamento. Mas, cuidado: as gramáticas não dizem que podemos usar “*a gente vamos”: isso é erro bravio, do mato cerrado. O que acontece com “gente” é que, às vezes, passamos para o seu conteúdo intrinsecamente plural: “A gente estava atravessando um momento muito difícil. Depois de três dias, decidimos recorrer ao senhor”. Nota que não se trata de “*a gente decidimos“. Estamos em outra oração, com outro verbo; houve a transição natural de “a gente” para “nós”. Há uma banda jovem (a que toca “Popozuda”…) que ridiculariza esse erro — aliás, numa bela batida funque: “A gente somos inútil!”. Abraço. Prof. Moreno