Categorias
Através dos dicionários Destaque Etimologia e curiosidades

Antagônimos

Os desconcertantes vocábulos que exprimem significados contraditórios ou opostos, como SANÇÃO, RELEVAR ou APARENTE.

O leitor Jorge Luiz S. (não mencionou a cidade) vem fazer um apelo quase dramático: “Caro Professor, lamento abusar da sua paciência, mas uma dúvida consome minhas noites. O verbo relevar, bem como seus cognatos (relevante, relevância, etc.), se apresenta  com dois valores distintos. Às vezes indica destaque, importância: “É de suma relevância que se aprove a reforma da Previdência”; outras vezes, ao contrário, sugere perdão ou pouca importância: “Deus há de relevar meus pecados”. Como interpretar isso, sem dar um nó na minha, diga-se, relevante saúde mental?”.

É natural que estranhes, meu caro Jorge, este comportamento do verbo relevar. Que as palavras tenham a propriedade de ganhar novos sentidos, isso ninguém desconhece; agora, que um mesmo vocábulo exprima significados contraditórios ou opostos, isso é muito raro − raríssimo, posso assegurar. Não é um fenômeno exclusivo do Português. Em Inglês, por exemplo, exatamente como em nosso idioma, sanction (sanção) pode significar tanto “aprovação” quanto “penalidade”: “A lei aguarda a sanção presidencial” versus “O Brasil pode sofrer sanção moral se descumprir o acordo”).

Como chamar esses vocábulos que carregam sentidos opostos? Não me parece uma questão essencial; dado o pequeno número de exemplos existentes, a Linguística acertadamente não se preocupou com isso. Já sugeriram chamá-los de antagônimos, como usamos no título da coluna. Outros as denominam de palavras-Jano (só para lembrar, Jano é um dos poucos deuses que Roma não importou da mitologia grega. Ele é bifronte, ou seja, é sempre representado com duas faces que olham em direções opostas − uma voltada para o passado, a outra voltada para o futuro. Por ser a divindade que preside o fim de um ano e o início do próximo, o mês dedicado a ele foi chamado de janeiro). Não creio que esta metáfora mitológica exprima adequadamente a ambiguidade de palavras como relevar. Para mim, elas seriam mais como o Doutor Jekyll, da obra The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, conhecida aqui no Brasil com o enganoso título de O Médico e o Monstro. Neste livro de Robert Louis Stevenson, o doutor, sob efeito de uma poção que ele próprio criou, deixa aflorar temporariamente o seu lado sombrio e reprimido, o Mister Hyde que mora dentro dele. Se por um lado esta comparação me parece mais justa, sou obrigado a confessar que palavra-Dr. Jeckyll seria ainda pior que palavra-Jano…

De qualquer forma, relevar não está sozinho. Há mais alguns exemplos, além do já mencionado sancionar. O termo handicap, que no Inglês significa “desvantagem” (os handicapped são os que chamamos de  deficientes), entrou em nossos dicionários com dois significado: “(1) vantagem; (2) desvantagem”! Durante muito tempo, hóspede  designou tanto aquele que era recebido numa casa ou numa hospedaria, quanto aquele que fornecia a hospedagem (que hoje preferimos chamar de anfitrião ou hospedeiro). Aparente pode ser “aquilo que se vê” ou “o que parece, mas não é” − todos concordamos que a frase “O talento dele é aparente” é ambígua. O verbo alugar serve para os dois lados da transação: “Eu alugava um terreno na Av. Assis Brasil” − eu pagava ou recebia aluguel? E o teu relevar? Como vamos entender algo como “Há vários aspectos que devemos relevar“? Como no traiçoeiro handicap, só o contexto vai decidir de que lado devemos montar neste cavalo.

Categorias
Destaque Formação de palavras

desprincesamento

 

Numa coisa todo o mundo concorda: a riqueza de uma língua é medida, em grande parte, pelo número de vocábulos que ela oferece a seus falantes — assim como, em escala menor, a riqueza de cada um de nós se mede pelo número de vocábulos que conhecemos. No entanto, toda hora aparece, na minha caixa de correio, alguém que vem lamentar o nascimento de uma palavra nova. Nesta semana de Natal, um leitor que assina com o pseudônimo de Indignado vem manifestar — por que a surpresa? — a sua indignação com a palavra desprincesamento. “De onde saiu essa doidice? Os jornais publicam assim sem o menor pudor! Até dá para entender o que a palavra quer dizer, mas pode ser assim? É só inventar e pronto? Não se poderia criar um instrumento legal que regulamentasse essas novidades?”.

Meu caro Indignado, está na hora de revisarmos alguns princípios básicos que regem nosso léxico. Em primeiro lugar, não há, neste planeta, lei com poder suficiente para regulamentar o funcionamento de uma língua. O máximo que se consegue fazer é regulamentar a sua ortografia, que é uma pura convenção entre os usuários. Tentar legislar sobre o resto — a sintaxe, a criação de palavras, o sentido que elas têm, etc. — seria tão inútil como pregar aos peixes. No caso do léxico, então, a tarefa é impossível, pois é nele que melhor se enxerga o caráter infinito do idioma.

Ao contrário das sementes, as palavras jamais perdem o seu poder germinativo. No dicionário, em ordem alfabética, as centenas de milhares de vocábulos que ali repousam mantêm, intacta, a capacidade de gerar descendentes. Pardal, por exemplo, ali figurou, durante cinco séculos, como um simples passarinho; no momento em que resolveram assim designar os controladores de velocidade, a semente saiu de sua dormência e produziu pardalizar (as estradas), despardalizar, pardalização, despardalização… Ao contar aquela história em que Pedro Malasartes enche de moedas o fiofó de seu cavalo para enganar o fazendeiro rico e prepotente, um famoso poeta de cordel estampou na capa do folheto “O cavalo que descomia dinheiro”, evitando assim o c*gava do título popular. Aliás, por falar no tema, no tempo do presidente Figueiredo, uma lei sancionada teve de ser dessancionada para correção, sendo algumas horas depois ressancionada — dois novos galhos na árvore da palavra sanção foram criados no espaço de horas!

Aqui se inclui também o desprincesamento, palavra feinha que surgiu em contraposição a princesamento, outra novidade. Uma mãe em Curitiba achou importante e necessário abrir uma escola para ensinar às meninas aquelas artes e atitudes que, segundo ela, caracterizam uma verdadeira princesa; a iniciativa teve tanto sucesso que já se abriram várias filiais. Outras mães, ao contrário, vendo nisso uma submissão precoce das meninas a estereótipos de gênero, trouxeram do Chile a ideia de uma escola de desprincesamento, para incutir desde cedo nas garotas a consciência do novo papel da mulher na sociedade.

Como se pode ver, o processo é incontrolável; os vocábulos resultantes entram na implacável filtragem pelo uso e, aos poucos, vai-se vendo quais são as criações que já ingressaram na corrente sanguínea e quais vão ficar adormecidas, talvez para sempre. Gostar delas ou não, empregá-las ou não, criticá-las ou não — tudo depende da simples decisão de cada usuário. Para consolo do amigo Indignado, ofereço outra criação do mesmo quilate, o desencapetamento: já vi anúncio na internet oferecendo um “método fácil e eficaz para desencapetar um homemsexual“. Feliz Ano Novo!

Categorias
Crase Destaque Lições de gramática

sutilezas da crase

 

Tenho certeza, caro leitor, que você sabe muito bem que só os ingênuos acreditam em soluções simples para problemas complexos — e isso vale também para a gramática. O acento de crase  é um bom exemplo: há tantos fatores envolvidos em seu emprego que, percebendo que o gelo é fino e a mata é espessa, nenhum de nós se arrisca a usá-lo sem antes fazer uma pausa para pensar. Uma certa dose de angústia é inevitável aqui (há até quem se benza!), mas  asseguro que um pouco de calma e reflexão há de nos pôr no bom caminho.

Pois é exatamente sobre crase a consulta feita por uma enfermeira que, por razões pessoais, pede que eu não publique seu nome. Em seu trabalho na transcrição de consultas médicas, recorre constantemente a dicionários e a gramáticas, mas não consegue entender por que o A não deve ser acentuado em construções do tipo “paciente submetido A cirurgia de catarata”. Diz ela: “Um médico afirmou que é sem acento, mas, para mim, as duas condições de crase estão presentes: submetido pede a preposição A e o segundo termo é um substantivo feminino: não seria o suficiente?”.

Não, prezada amiga, não seria o suficiente. Assim como para o tango, são necessários dois participantes para que ocorra a crase: a preposição A está ali, como você percebeu, mas ela está sozinha; o outro parceiro, o artigo feminino A, não compareceu. Apesar de cirurgia ser palavra feminina, está sendo usada de modo indeterminado e, portanto, desacompanhada de artigo definido. Fica mais fácil de explicar se usarmos substantivos masculinos, pois a presença ou ausência do artigo O termina deixando tudo mais visível. Note que escrevemos “paciente submetido A exame de dependência toxicológica” — e não “ao exame”, o que prova que temos apenas a preposição. 

O que parece ser uma complicação inerente à crase não passa, na verdade, de uma sutileza do emprego do artigo, uma palavra injustiçada, que tem de importante o que tem de nanica. O que está por trás disso é a diferença entre o dado e o novo, categorias que raramente são mencionadas nas gramáticas tradicionais. Quando nos referimos ao novo, não há artigo definido: “Polícia evita assalto na BR-101″ (e não “O assalto”). 

A presença (ou não) do artigo faz muita diferença. Compare “Referindo-se A peça infantil a que assistiu na Rocinha, a deputada…” com “Referindo-se À peça infantil a que assistiu na Rocinha, a deputada…”. Ambas estão corretas, mas dizem coisas diferentes. Na primeira, peça é um dado novo, sendo usado com sentido indefinido (“uma peça”); na segunda, pressupõe-se que os leitores compartilhem o conhecimento prévio de que a deputada tinha assistido a um espetáculo infantil na Rocinha. Seu Fulaninho informa que uma vez operou a catarata; na ficha dele se registra “paciente submetido a cirurgia de catarata” (“uma cirurgia”). Seu Fulaninho comenta que não ficou satisfeito com o resultado: “referindo-se à cirurgia de catarata, o paciente… (ele está falando daquela cirurgia já mencionada). 

Como você pode ver, a resposta é complexa porque este não é mesmo um caso tão simples —  ou tosco, como a de um leitor indignado que escreveu, em estilo meio arrevesado: “O acento craseado [sic] foi colocado em um texto na palavra ègua (credo!). Em qual caso na língua portuguesa se utiliza esse tipo de acento?”. Meu pensamento voou. Éguas, cavalos, jumentos… confesso que a tentação foi grande, mas engoli a piada.

Categorias
Como se escreve Como se escreve - Respostas rápidas Destaque

Pré-datado?

 

Como já disse outras vezes, só dois tipos de pessoa não se importam com a ortografia. Há as alminhas rebeldes que pregam a liberdade absoluta no uso das letras e dos acentos por acreditar que uma regra — qualquer espécie de regra — é apenas outra forma de discriminação social que as elites inventaram para perpetuar sua supremacia; para um desses revolucionários de formigueiro, é claro, escrever como lhe der na veneta torna-se um verdadeiro ato de autoafirmação política. 

Na outra ponta do espectro, encastelados no topo da montanha, vivem aristocratas como o Cardeal Richelieu, que tachava de plebeia qualquer preocupação com a grafia das palavras. Se ele vivesse entre nós, olharia para o hífen ou para o cê-cedilha com a mesma desconfiança com que a grã-fina olha para o indefectível pratinho de maionese no batizado do filho da empregada. Nós outros, contudo, que não pertencemos a nenhum desses dois grupos, achamos importante seguir, o mais fielmente possível, o modelo vigente, pois só assim fica assegurada a fluidez da leitura. Cada vez que me desvio da norma, quem sai perdendo sou eu, pois levo meu leitor a desviar sua atenção do texto para fixá-la na grafia da palavra. 

Por esse motivo, entendo perfeitamente o desabafo do leitor Silvio C., de Campinas, que, como todos nós, vive aos tombos com o misterioso hífen: “Caríssimo professor, o emprego do hífen com o prefixo pre está me tirando o sono. Escrevo pré-escolar e pré-nupcial, mas predeterminado e preestabelecer? É isso? Mas não há critério? O Acordo esqueceu de fazer uma regra para isso?”.

Não, prezado leitor, existe uma regra, sim — na verdade, uma velha regra que está em vigência desde 1943, que o atual Acordo apenas confirmou. Trocando em miúdos, ela reza que o prefixo tônico pré- (bem como seus irmãos pós- e pró-) será sempre seguido de hífen: pré-fabricado, pré-pago, pré-pizza. Esta regra obedece ao princípio básico de que prefixos com sinal diacrítico (acento ou til) são morfológica e fonologicamente independente, devendo, por isso, vir separados do vocábulo que os segue. 

Mas… (ouço, ao longe, o Diabo esfregando as mãos…), pelas mesmíssimas razões, a mesma regra determina que as versões átonas desses mesmos prefixos (pre-, pos- e pro-) não serão seguidos desse sinal: predispor, predestinado, preconcebido. É uma regra bem clara, mas, como você mesmo constatou, não serve para coisa alguma. Afinal, quem determinou que em preconcebido o E é fechado e átono, e não aberto e tônico (préconcebido)? Isso, meu caro, é o 5º mistério de Fátima. Há discussões similares sobre o cheque predatado ou pré-datado, sobre prejulgar ou pré-julgar, sobre preaquecer ou pré-aquecer o forno antes de assar o bolo. Esta hesitação natural sobre a tonicidade do prefixo é histórica e jamais vai ser resolvida; nunca teremos certeza sobre a sua pronúncia e, ipso facto, de sua grafia. O máximo que podemos fazer, nesses casos, é ver o que o Aurélio, o Houaiss ou o Aulete andam fazendo, para então decidir se vamos ou não concordar com a opinião deles.

   

 

Categorias
Análise sintática Concordância Concursos - análise de questões Destaque

Concordância em concurso

A questão pedia para assinalar a alternativa com erro de concordância. Segundo a banca, a frase com erro seria “Tanto aos capitalistas mais liberais quanto aos socialistas mais ortodoxos parecem de pouca importância o que não diz respeito ao campo estrito da economia”, mas não entendi por quê. Sujeitos ligados por “tanto.. quanto…” não levam o verbo para o plural?

A frase que marquei como errada foi  “Superaram-se, sim, no campo da técnica todas as expectivas, mas também se registre que todas as desigualdades sociais se agravaram”, porque acho que o pronome indefinido “todas” pediria o verbo no plural.

Patricia F. — Osasco, SP

___________________________

Cara Patrícia: sinto muito, mas a frase apontada pela banca realmente está errada. O verbo parecer deveria estar no singular, já que o sujeito é “o que não diz respeito ao campo estrito da economia“. Na ordem direta, fica “O que não diz respeito ao campo estrito da economia parece de pouca importância tanto aos capitalistas mais liberais quanto aos socialistas mais ortodoxos”.

O tanto e o quanto, aqui, não têm a menor importância para a concordância, simplesmente porque introduzem objetos indiretos (“tanto aos capitalistas“, “quanto aos socialistas“) — e não sujeitos.

Sinto dizer-te, também, que está corretíssima a concordância dos dois verbos da frase que assinalaste como incorreta: “Superaram-se, sim, no campo da técnica, todas as expectivas, mas também se registre que as desigualdades sociais se agravaram”. São dois casos de voz passiva sintética; o sujeito de “superaram-se” é “todas as expectativas”, e por isso ele está no plural; o de “se registre” é a oração seguinte (“que as desigualdades sociais se agravaram”) — e, como em qualquer caso de sujeito oracional, o verbo fica no singular.

Categorias
Concursos - análise de questões Destaque

concursos: adjunto adnominal x complemento nominal

Um candidato desesperado vem pedir auxílio para fazer um recurso urgente, numa questão que envolve a famigerada distinção entre adjuntos adnominais e complementos nominais. Não obteve tudo o que pedia, mas saiu daqui levando o mapa da mina.

Olá, professor Moreno. Serei o mais breve possível, pois preciso urgentemente saber seu posicionamento sobre uma questão do último concurso do TRT-7ª (2009). Em nome de seus filhos, por favor, me ajude, porque isso pode decidir a minha vida e a da minha família. Reproduzo abaixo a questão:

A busca por explicações para os diversos matizes da personalidade”

A mesma regência assinalada acima NÃO está caracterizada na expressão:

 (A) vários países da Europa.

(B) a influência dos hábitos e do estilo de vida.

(C) na formação da personalidade.

(D) produto apenas do ambiente.

(E) uma reação à série de barbaridades.”

O gabarito oficial dá como correta a alternativa “A”. Não entendo por quê; afinal, nenhuma alternativa apresenta a preposição POR, destacada no enunciado. Como eu poderia ter resolvido esta questão? Ela poderia ser anulada? Quanto o senhor cobraria para fazer um recurso para mim?

J.B. —  Juazeiro do Norte – CE

 

RESPOSTA —  Meu caro J.B, a questão parece ter um defeito grave. Vamos examinar, primeiro, a estrutura do enunciado: “por explicações” é complemento nominal de “busca”. Assim como o verbo buscar exige complemento verbal (objeto direto, no caso), o seu substantivo derivado necessita de um complemento nominal. Essa estrutura se repete na alternativa (C), em que “a personalidade” é o CN de “formação”, bem como na alternativa (E), em que “a série de barbaridades” é o CN de “reação”.

Ocorre que as outras três alternativas têm adjuntos adnominais e se enquadrariam, portanto, naquilo que a banca pede, pois nenhuma delas tem a mesma regência assinalada no enunciado. O exemplo mais óbvio está na alternativa (A), indicada no gabarito oficial (“países da Europa”). O problema é que, na alternativa (B), “dos hábitos e do estilo de vida” também são adjuntos adnominais (já que, na estrutura profunda, “os hábitos e o estilo de vida influem” — e o princípio indiscutível é que o sujeito da estrutura profunda se transforma em adjunto na estrutura de superfície). O mesmo ocorre na alternativa (D), em que “ambiente” é o adjunto adnominal  de “produto” (“o ambiente produz”).

Desta forma, a questão apresenta TRÊS alternativas que não correspondem à estrutura assinalada no caput e, portanto, deveria ser anulada. Essa é a minha opinião —  e aqui ficamos. Não faço recursos individuais, nem poderia: eu trabalho sozinho e não é fácil atender a todos os consulentes do Sua Língua. Teu apelo, entretanto, me comoveu. Não vais sair com as mãos abanando: com base no raciocínio que apontei acima, um bom professor de Português aí da tua cidade certamente vai montar um sólido recurso. Boa sorte!

Prof. Moreno

Categorias
Destaque Destaquinho Flexão verbal Lições de gramática Questões do momento

Chico também escorrega no Imperativo

As regras de formação do IMPERATIVO são tão artificiais que raríssimos são os brasileiros que conseguem navegar por essas águas turvas sem naufragar. Como veremos, nem Chico escapou dessa armadilha.

Prezado Doutor,  gostaria de parabenizá-lo por sua página na Internet.  Minha dúvida encontra-se na letra de uma música de Chico Buarque, compositor pelo qual tenho uma grande admiração. A referida música intitula-se Fado Tropical.  Sua primeira estrofe nos diz:

“Ó, musa do meu fado
Ó, minha mãe gentil,
Te deixo, consternado,
No primeiro abril.
Mas não sê tão ingrata,
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

 Não deveria o ilustre compositor ter utilizado o imperativo negativo na forma mas não sejas tão ingrata? Ou será que a língua escrita em Portugal, notoriamente presente na letra da música, permite aquela outra construção? Agradeço sua atenção.”

João Marcelo ― Fortaleza

RESPOSTA ― Meu caro João Marcelo: o Chico — quem diria! — também tropeçou no imperativo, como seus colegas Gil e Mílton Nascimento (dá uma olhada em lê ou leia).  Na verdade, errou duas vezes: deveria ter escrito não sejas e não esqueças ( e esquece, como está na canção, são formas do imperativo afirmativo, não do negativo). Para tua informação, o imperativo em Portugal é igualzinho ao nosso, e os dois versos estão errados deste e daquele lado do Atlântico.

Agora, esse erro, vindo de quem vem ― o melhor letrista de nosso cancioneiro popular ― serve para confirmar duas teses (que eu defendo, aliás):

(1) o Imperativo negativo da 2a pessoa passou a ser, para a maioria dos falantes, idêntico ao afirmativo (volta, não volta; fica, não fica, etc.). Só não concordam com isso os gramáticos tradicionais ― e, por consequência, as bancas de concurso.

(2) não é qualquer um que pode encarar o tu e sair ileso. Vê só: nesse torvelinho, caíram três dos nossos maiores compositores da MPB!

_________________________________

Junte-se ao grupo Sua Língua no Facebook! Clique AQUI 

 

Categorias
Destaque Generalidades Livros recomendados

CAIXA ESPECIAL: GUIA PRÁTICO DO PORTUGUÊS CORRETO

Finalmente reunidos! A L&PM acaba de lançar a caixa contendo os quatro volumes do GUIA PRÁTICO DO PORTUGUÊS CORRETO — Ortografia, Morfologia, Sintaxe e Pontuação. Todo o conteúdo organizado em quase 1.000 páginas de texto.

Veja mais no YouTube: aqui



 

 

 

 

 


Categorias
Destaque Lições de gramática

Português para Concursos – Curso Completo

PROGRAMA:

 

1 — FONOLOGIA E ORTOGRAFIA

a) Letra e fonema. Vogais, consoantes e semivogais. Ditongos crescentes e decrescentes. Tritongos. Hiatos. Dígrafos. Encontros consonantais perfeitos e imperfeitos. Separação de sílabas. Parônimos.

b) O sistema ortográfico. Emprego das letras. Acentuação: a regra de 1943 e as modificações introduzidas pelo Acordo. Grafia dos porquês.

2 — MORFOLOGIA

a) Estrutura do léxico. O quadro das dez classes gramaticais. A importância de cada uma delas. Classes variáveis e invariáveis; a distinção adjetivo/advérbio. Classes abertas: substantivos, adjetivos e verbos. Classes fechadas: artigos, numerais, pronomes advérbios. Um caso especial: os advérbios em –mente.

b) A criatividade lexical: processos de formação das classes abertas. Derivação. O mecanismo da derivação sufixal. Formas paralelas na formação de substantivos por sufixação. Composição vernácula e composição erudita. O aportuguesamento de vocábulos estrangeiros: o processo de filtragem ortográfica. Princípios gerais. Processos menores: truncamento, siglas, nomes industriais, vocábulos criados no mundo literário e contribuições da gíria.

c) O substantivo e as classes que o acompanham. Abstratos de ação e de qualidade. Número: plurais problemáticos. Plural dos nomes em –ão. Plural dos diminutivos. Gênero: substantivos de gênero duvidoso. Casos especiais de feminino (presidenta, generala, etc.)

d) O adjetivo. Superlativo dos adjetivos — formas abundantes. Equivalência de locuções adjetivas e adjetivos eruditos. Consequências da alteração na ordem substantivo-adjetivo. Plural dos substantivos e adjetivos compostos.

e) Artigos, numerais e pronomes. A organização do sintagma nominal. Pronomes demonstrativos adjetivos e pronomes indefinidos adjetivos. Artigo opcional antes de nomes próprios e de pronomes possessivos. Consequências no uso do acento de crase. Emprego de artigo antes dos nomes de cidades, estados e países. Concordância do numeral com o substantivo. Os demonstrativos: emprego de este e esse.

f) Verbos: regulares x irregulares; abundantes x defectivos. Tempos primitivos e derivados. Dificuldades na conjugação: derivados de ter, ver, vir, pôr, etc. Conjugação com o pronome O enclítico. Verbos defectivos: precaver e reaver. Particípios abundantes. Formação do Imperativo. A diferença entre tu e você. Problemas ortográficos: S ou Z, J ou G, –ui ou –ue, etc.

3 — SINTAXE

a) A estrutura da frase simples. Morfologia x sintaxe; classe x função. Sujeito e predicado: os padrões frasais. Verbos intransitivos: o padrão S – V- ∅. Os transitivos: padrões S-V-OD, S-V-OI e S-V-OD-OI. Distinção entre objeto direto e objeto indireto. Os verbos de ligação: o padrão S-V-Predicativo. O predicativo do objeto. Adjunto adverbial. Configuração e posição na frase. Voz ativa e voz passiva. O agente da passiva. O equívoco da NGB: adjunto adnominal e complemento nominal. Sintaxe dos pronomes pessoais – retos e oblíquos.

b) Concordância e regência. Orações sem sujeito: haver e fazer. Verbos impessoais nas locuções verbais. Voz passiva pronominal (ou sintética). Concordância do verbo ser. Casos duvidosos de regência. Crase.

c) O período composto. Diferenças entre a coordenação e a subordinação. Nexos oracionais: coordenativos x subordinativos. Os pronomes relativos. Orações substantivas, adjetivas e adverbiais. Equivalência concessivas—adversativas. Equivalência causais—consecutivas. O conceito de “oração principal”. Orações reduzidas e desenvolvidas.

4 — PONTUAÇÃO

Pontuação e sintaxe. A vírgula: deslocamentos e intercalações; orações adjetivas explicativas. O ponto-e-vírgula: enumerações complexas, coordenadas assindéticas e conjunções pospositivas. Parêntese e travessão. Equivalências. Pontuação final: ponto, interrogação, exclamação, reticências.

5 — INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS

Reconhecimento do campo semântico. Análise contextual de palavras e expressões. Tipos de enunciado e diferentes abordagens. Conceito e a abrangência de inferência. Reconhecimento do tema geral do texto. Argumentos utilizados pelo autor. Métodos práticos que facilitam a interpretação.

6 — REESCRITA

O que é semântica. A importância dos nexos oracionais. Os modalizadores textuais e sua função. Inversões sintáticas e modificações semânticas. Correção gramatical x manutenção do sentido. Nominalização de subordinadas e coordenadas. Transposição da desenvolvida para reduzida e vice-versa.