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bauru tem hiato ou ditongo?

Começou assim:

Prezado professor: bauru é uma oxítona terminada em “u”, e por isso não leva acento. No entanto, em dicionários atuais, há autores que separam a palavra assim: ba-u-ru, como se tivesse um hiato… Qual o correto?

Magda S.

 

Resposta do Sua Língua:

Minha cara Magda, não conheço nenhum dicionário que se atreva a encontrar um hiato em bauru. Para que o “u” ficasse em sílaba separada, ele precisaria ser tônico; ora, a sílaba tônica é a última, como sabes. A pronúncia não é /ba-ú-ru/, mas /bau-rú/. Abraço. Prof. Moreno

2ª mensagem:

Professor, muito obrigada pela resposta! Mas, como o senhor pode constatar abaixo, a ABL me disse que a palavra bauru possui hiato… Por isso estou lhe enviando novamente a pergunta, pois aprendi que esta palavra tem é ditongo – exatamente como o senhor me respondeu. Em um concurso público, como a classificaria?

Magda S.

Resposta da ABL:

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ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

ABL RESPONDE

Pergunta: “A palavra bauru tem ditongo ou hiato? Certa feita, vi em um dicionário esta palavra dividida assim: ba-u-ru. Por quê? Muito agradecida desde já, Magda.”

Resposta: O correto é ba-u-ru –  hiato.

Academia Brasileira de Letras – Todos os direitos reservados

Conclusão:

Prezada Magda, alguém enlouqueceu na nossa vetusta Academia! Talvez tenha havido uma confusão com baú – aqui sim, hiato. Em bauru, a primeira sílaba é /bau/, um legítimo ditongo decrescente. Isso vale em qualquer concurso do território nacional, porque assim está em todas as gramáticas e dicionários que conheço. Deves desconsiderar essa resposta da ABL, dada sabe-se lá por quem. Não é a primeira vez que leitores, como tu, reclamam de respostas um tanto “peculiares” dadas por esse serviço de tira-dúvidas. Chego a pensar que haja um hacker infiltrado, interceptando as mensagens dos consulentes e respondendo  tudo à moda galega. Abraço. Prof. Moreno

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Acentuação Como se diz Como se escreve

É fluido ou fluído ?

Caro Professor: estou navegando há dias pela Internet em busca de auxílio para uma questão e nada tenho encontrado. Como achei o seu site e acredito que seu conhecimento pode em muito me orientar, estou lhe escrevendo pedindo socorro!  Estou tentando abrir uma empresa de cosméticos feitos com essências naturais e pretendo nomeá-la “Fluidos da Natureza”. Seria “Fluidos” ou “Fluídos“? Este é o ponto em questão. Já obtive uma informação de outro site, mas em nada me esclareceu; pelo contrário: fiquei ainda mais confusa sobre qual seria mais adequado ao meu caso. Carla C.

Prezada Carla: Nomezinho bem complicado tu foste escolher para tua empresa! É bonito e sugestivo; digo que é complicado porque nunca será pronunciado corretamente pelos teus clientes (e nem sei se seria desejável). Vou explicar por quê.

Quanto à Gramática, distinguem-se dois vocábulos diferentes:

1 — O primeiro, fluido, tem o “U” tônico e divide-se em duas sílabas: FLUI-DO. Se te lembras de teu tempo de colégio, o UI aqui é um ditongo. Este vocábulo tem o sentido genérico de “líquido”: mecânica dos fluidos, fluido de freio; “a Aids se transmite pela troca de fluidos do corpo”. Modernamente, acho que passou também a significar algo “gasoso”; pelo menos, é o que sugere o uso que dele fazem as pessoas místicas: “Nesta sala há maus fluidos“, “podem-se perceber os bons fluidos“, etc. Em todos os exemplos acima, é classificado como substantivo; às vezes é usado como adjetivo (ainda com o mesmo sentido de “líquido”): “estava muito quente, e o mel ficou mais fluido“; “Ó formas vagas, fluidas, cristalinas” (no antológico poema Antífona, de Cruz e Sousa).

2 — O segundo, fluído, tem o “I” tônico; é uma palavra de três sílabas (FLU-Í-DO). É o que chamamos de hiato, lembras? Aliás, é exatamente por ser um hiato que o I precisa levar esse acento gráfico. Agora estamos diante do particípio do verbo fluir (“correr, transcorrer”), formado da mesma maneira que caído (de cair) e saído (de sair): “As horas tinham fluído sem que nós nos déssemos conta”; “todo o óleo tinha fluído para o chão da garagem”. Nota que os dois vocábulos são diferentes na pronúncia, na grafia e no sentido.

Até aqui, moleza. Agora, o teu problema: para mim, é evidente que o nome da tua empresa deve ser “FLUIDOS da Natureza”. Estamos falando do primeiro sentido; a idéia é a de que forneces essências, líquidos, substâncias que a Natureza produz (ligada, muito bem, a meu ver, com aquela outra conotação moderna do vocábulo fluido, mais mística e, como tal, extremamente vendável). Acontece que nove entre dez brasileiros não distinguem um vocábulo do outro, pronunciando /flu-í-do/ em ambos os casos. Em geral, as pessoas dizem flu-í-do de freio, mecânica dos flu-í-dos, maus flu-í-dos — e vão falar de teus cosméticos como “Flu-í-dos Da Natureza”. Dessa não vais escapar; aliás, qualquer insistência para que eles digam a forma correta, flui-do, pode ser contraproducente para a divulgação da marca. Esse é o dilema em que tu te meteste, ao escolher esse nome. Minha sugestão? Registra e escreve corretamente (fluidos, sem o acento), mas deixa rolar livremente a pronúncia (que, aposto meus diplomas, vai ser flu-í-dos). Abraço. Professor Moreno

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“porém” tem dígrafo ou ditongo?

Professor, sempre leio as questões elaboradas para concursos que vêm nos jornais; uma delas, no entanto, me deixou muito cismada quanto à resposta. A questão era: As palavras porém e quero têm:

a) ditongo decrescente oral e dígrafo
b) ditongo crescente nasal e dígrafo
c) ditongo crescente nasal e ditongo crescente 
d) ditongo decrescente nasal e dígrafo 
e) dígrafo e dígrafo

Bom, eu, com toda a minha segurança, “crente que estava abafando”, marquei a alternativa E, mas segundo o jornal a resposta certa seria a D. Já quebrei a cabeça, tentando encontrar onde está o ditongo da palavra porém, mas até agora não consegui nada. Conto com sua ajuda.

Danielly A. —  Realengo (RJ)

Minha cara Danielly, aceita um conselho do Doutor: quando fizeres testes de concursos e de vestibulares, JAMAIS leves a sério os que falam de dígrafos, ditongos, hiatos, etc. Acredita: a Fonologia, para uma grande parte dos professores de Português, ainda é um mundo completamente desconhecido. Nenhum colega meu que se preze, ao elaborar uma prova, vai incluir questões como essa que transcreveste. Ela se baseia numa visão ingênua e reducionista da Fonologia (que aparece, infelizmente, nas gramáticas escolares), em que tudo seria claro, preciso e com contornos bem definidos. Ora, quem faz um bom curso de Letras sabe que é interminável a discussão entre o que é ditongo e o que é hiato (há autores sérios que põem em dúvida, inclusive, a existência de ditongos crescentes em nosso idioma); se há semivogais ou semiconsoantes; se existem vogais nasais, no Português, ou se há um fonema nasalizador que trava a sílaba nasal; e assim por diante, numa sucessão interminável de pontos controvertidos. É claro que esse panorama assustador que estou pintando é absolutamente normal no mundo científico — principalmente se considerarmos que (1) a Lingüística é uma das ciências mais novinhas (e mais: dentro dela, a Fonologia é uma das áreas de maior ebulição acadêmica, no momento), e que (2) ela, diferentemente das ciências ditas “exatas”, luta por elaborar os próprios critérios e parâmetros que vai aplicar no estudo da língua. Ou dito de forma mais concreta: enquanto um ictiólogo (biólogo especializado em peixes) sabe, de antemão, que os peixes que vai estudar têm partes já definidas — barbatanas, escamas, cauda, etc. —, um fonólogo, antes de começar a analisar os sons do Português, é obrigado a definir o que ele entende por sílaba, por acento, por vogal, por consoante, etc., etc. É por isso que qualquer trabalho em Lingüística, antes de entrar no tema propriamente dito, precisa definir a metodologia que vai ser utilizada e delimitar os conceitos que vai empregar, numa rotina que, apesar de indispensável, torna muito desagradável a leitura dos trabalhos acadêmicos feitos com seriedade (eu mesmo perpetrei alguns…).

Ora, como é que podemos, então, basear uma questão de escolha múltipla em conceitos tão movediços? Se bem te entendi, deves ter considerado o final de porém como um dígrafo porque o M, em final de sílaba, é considerado, por alguns, como um simples nasalizador da vogal anterior. Ora, duas letras para representar um só fonema = dígrafo. Fica sabendo, no entanto, que outros consideram esta nasal como uma verdadeira consoante, o que os levaria a recusar, aqui, a hipótese de um dígrafo. Além disso, há autores que postulam, nesses casos, a existência de um ditongo descrescente: bem seria /beyn/; a sílaba final de cantam seria /tãw/; e assim por diante. Todas essas opiniões vêm fundamentadas com argumentos científicos, e o mundo acadêmico convive com essas divergências, naturais em qualquer ciência. O que não se justifica é usar esses pontos de grande controvérsia para elaborar questões alegadamente “objetivas”. Depois as bancas se queixam do grande número de recursos dos candidatos inconformados…

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paroxítona ou proparoxítona?

Prof. Moreno: numa prova de 5ª série, pediram a meu filho que escolhesse, num texto dado, uma proparoxítona; ele escolheu miséria. A questão seguinte pedia uma palavra que tivesse hiato; ele respondeu também miséria, coerentemente. A professora, porém, considerou incorretas ambas as respostas, dizendo que miséria é uma paroxítona e que nela não há hiato, mas ditongo. Nas gramáticas que consultei, os autores consideram as duas classificações como corretas. Peço sua opinião e reitero não haver intenção de confrontar a posição da escola. Simplesmente desejo saber qual das opções — ou se ambas — está dentro das regras gramaticais.

Gilson A. — Lavras (MG)

Meu caro Gilson: a professora tem razão. Miséria é uma paroxítona terminada em ditongo crescente. Exatamente por isso (devido à elasticidade dos ditongos crescentes na pronúncia), a sílaba final pode — repito: pode —, numa pronúncia escandida, ser dividida em duas (/mi-sé-ri-a/), o que transforma palavras desse tipo, NA FALA, em proparoxítonas. Alguns autores, inclusive, para assinalar o fato, dizem que as paroxítonas terminadas em ditongo crescente podem ser chamadas de proparoxítonas eventuais, relativas ou acidentais — mas elas continuam a ser paroxítonas, e foi a isso que a professora se ateve.

Quanto ao hiato, ele inexiste aqui. Compara secretária e secretaria . Na primeira (que é análoga a miséria), o I é átono; temos, portanto, um ditongo (semivogal + vogal); na segunda, o I é tônico; temos, portanto, um hiato (vogal + vogal). Mesmo que eu leve toda a discussão para o plano da fala, não cabe falar em hiato no caso de miséria.

Para teu consolo, Gilson, informo-te que a maioria dos autores de livros escolares ainda não entendeu bem este item. Não estou brincando: as noções de fonologia que nossas gramáticas escolares trazem estão completamente defasadas. Para que entendas a dimensão do problema, digo-te que elas tratam noções com sílaba, acento tônico, hiato, ditongo, etc., a partir de teorias pré-1950, o que é tão anacrônico quanto um manual médico que abordasse o câncer, a sífilis ou a asma com princípios médicos e biológicos anteriores à 2ª Grande Guerra. Acredita, não estou exagerando.

Além disso, devemos levar em consideração que o ensino de Português, na escola, é (e deve ser) centrado no domínio da linguagem escrita, sem entrar nessa comparação (que estou fazendo agora) entre o plano ortográfico e o plano fonológico. Se subíssemos ao andar de cima, na pós-graduação, aí então ias ver o que é bom: lá, nas altitudes geladas, há autores que até negam a mera existência de ditongo crescente em Português — mas isso é outra história. Abraço. Prof. Moreno

P.S.: recomendo-te também a leitura do que escrevi em ditongo ou hiato?

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ditongo ou hiato?

Caí num dilema essa semana… Alguns professores que consultei provaram-me (ou pelo menos, quiseram provar) que a palavra poluição tem um ditongo, mas, na minha teimosa e estimada opinião, ela tem mesmo é um hiato… Poderias esclarecer esta dúvida tão constante em meu dia-a-dia? 

Juliana

Minha cara Juliana, não me disseste em que nível está sendo travado esse debate — Ensino Médio? Graduação? Pós-Graduação? Isso é fundamental para esclarecer o problema. No nível do Ensino Médio, muitos consideram o encontro vocálico em poluição, intuição como ditongo decrescente (po-LUI-ção), embora haja vozes discordantes. Na Universidade, já se se aprende que não há um limite assim tão claro entre ditongos e hiatos; na Pós-Graduação — bom, aí a coisa pega fogo, pois deve haver várias teses provando tanto uma, quanto a outra posição. 

Em suma, o que tu, Juliana, tens a ver com tudo isso? Simplesmente o teu ouvido captou um problema que, como pudeste ver, está presente em todos os níveis em que nossa língua é estudada, exatamente porque essa indefinição é intrínseca ao Português. Há muitas outras assim; contudo, como no ensino precisamos de categorias com limites bem definidos, terminamos simplificando a questão e optando por um dos lados (e varrendo o que não se enquadrou para debaixo do tapete). É isso, Juliana; tens de aprender a conviver com pontos controversos. Em Português, ao contrário do que muita gente gostaria, não é pão, pão; queijo, queijo. Abraço. Prof. Moreno