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Lições de gramática Sintaxe das classes gramaticais

do/de Paulo

Renato de Mendonça gostaria de esclarecer se estão corretas as três formas da seguinte frase: (1) A casa é do Paulo, da Renata e do Marcelo. (2) A casa é do Paulo, Renata e Marcelo. (3) A casa é de Paulo, Renata e Marcelo.

Meu caro Renato: o leque deve ser ampliado para quatro opções: (1) A casa é DO Paulo, DA Renata e DO Marcelo. (2) A casa é DE Paulo, DE Renata e DE Marcelo. (3) A casa é DO Paulo, Renata e Marcelo. (4) A casa é DE Paulo, Renata e Marcelo.

A diferença entre 1 e 2 é a mesma que existe entre 3 e 4: usar ou não o artigo antes do nome próprio, o que é uma escolha livre para o falante. A diferença entre 1 e 2, de um lado, por oposição a 3 e 4, do outro, é mais gritante: em 1 e 2, estamos mantendo o paralelismo, repetindo a preposição antes de cada item. Em 3 e 4, usamos apenas a preposição no primeiro item da relação. Embora estas duas últimas formas sejam aceitas modernamente, se quiseres ser mais formal deverás ficar com as duas primeiras. Eu, particularmente, uso sempre a número 1. Abraço. Prof. Moreno

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toda a vez que

Caríssimo Prof., sou revisor de textos de um conceituado colégio aqui em Recife. Por esses dias, deparei com um material, para ser mais preciso, uma atividade da educação infantil, e fiquei na dúvida se é toda vez que ou toda vez em que. O enunciado era o seguinte: “Pinte a palavra baleia TODA VEZ em/que ela aparecer”. Eu acho que é toda vez em que, porque eu posso substituir por toda vez na qual. Um abraço.

Antônio — Recife

Caro Antônio: os escritores modernos usam, à sua escolha, tanto toda vez em que quanto toda vez que. Nada contra a primeira forma, mas a segunda, a meu ver, é muito mais agradável ao ouvido atual — aliás, seguindo a tendência intrínseca do Português de eliminar, pouco a pouco, as preposições nesse tipo de locução. No entanto, para que alguém não venha dizer que essa supressão corriqueira da preposição é modernice, lembro-te que Rui Barbosa (e olha que desconheço algum autor mais conservador do que ele, no séc. XX) só usava a segunda forma. No estilo inconfundível deste autor, mostro abaixo alguns exemplos, para ilustração: 

“Demasias desta gravidade hão de provocar a reprovação geral, toda vez que se recordarem”; “Fugindo de antecipar, ou contrariar a opinião geral, mostrar-se-á respeitoso e confiante no sentimento público, toda vez que se produza calma e legalmente”; “Toda vez que o governo se arma de restrições contra esta, é que menos confia naquela”; “Toda vez que reunirdes numa eminência um congresso de espíritos eleitos, e lhe conferirdes, com o dom de uma tribuna privilegiada, o cetro da lei sobre uma sociedade, essa instituição acabará fatalmente por ser o modelo do povo, que lhe obedece”; “Toda vez que a um libelo argumentado virdes responder um serventuário da nação, abespinhado e desabrido, com escavações infectas contra a honra do acusador, podeis estar certos de que assistis ao duelo da calúnia com a probidade”. Como podes ver, este é um Português vestido no capricho, com casaca, cartola e polainas — e lá já está o toda vez que. Abraço. Prof. Moreno

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o Recife?

Segundo alguns jornalistas e professores, devemos nos referir a esta cidade antepondo o artigo definido O (o Recife), uma vez que o nome da cidade é também a designação de um acidente geográfico (à semelhança do que acontece com o Rio de Janeiro, por exemplo). Esta explicação é correta? Devo me referir ao Recife desta forma?

Iara N. — Recife

Tenho notado que muita gente, excluindo a região sul, fala “eu vim DO Recife” em vez de “eu vim DE Recife”. A maioria dos repórteres da televisão sempre usa este artigo definido. Isso está certo?

Karina P. — Porto Alegre

Prezadas leitoras: o princípio geral, no Português, é o de que não se usa artigo antes de nome de cidade: as ruas de São Paulo, as praças de Belo Horizonte, as ladeiras de Salvador. No entanto, às vezes o nome de um acidente geográfico pode interferir na construção sintática com o topônimo. Em alguns casos, isso já ficou cristalizado na Língua, enquanto em outros a decisão vai ser tomada por cada falante individual. Eu, por exemplo, sempre falo do Rio de Janeiro, do Porto (Portugal) (como, penso eu, a totalidade dos brasileiros); contudo, prefiro usar de Recife, de Rio Grande (cidade em que nasci), embora perceba que muitos preferem do Recife, do Rio Grande.  Esta decisão de usar ou não o artigo é apenas um das centenas de situações em que o falante vai optar entre duas formas corretas; a soma de suas escolhas pessoais é o seu estilo pessoal de usar o Português. Quem quiser ficar dentro do princípio genérico, deixa sem artigo; quem preferir acompanhar os hábitos locais, correndo o risco de causar estranheza nos leitores não-locais, usa o artigo. Um excelente exemplo se encontra nas perguntas que vocês fizeram feitas: a moradora de Recife prefere usar o artigo, enquanto a gaúcha acha tudo isso esquisito. Abraço. Prof. Moreno