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Egito e Grécia

 

Para falar na cultura egípcia, usamos palavras gregas  – algumas delas bem pouco elogiosas.

Escrevo estas linhas a bordo do navio Mayfair, que singra o Nilo em direção ao sul do Egito. Como Heródoto, quatro séculos antes de Cristo ─ e  como Dom Pedro II, dezoito séculos depois ─, nosso grupo vai fazendo um périplo inesquecível pelos mesmos templos e túmulos que eles visitaram, enfiando um rosário de nomes que sempre viveram na minha imaginação e que só agora se concretizam à minha frente: Luxor, Karnak, o Vale dos Reis, Edfu, Philae, sem contar Alexandria ─ para muitos a cidade de Alexandre, mas para mim a cidade de Antônio e Cleópatra  e, acima de tudo, a cidade de Cavafys.

Se foi pelo olhar da Grécia antiga que o Ocidente tomou contato com a terra dos faraós, não é de espantar que só possamos falar dele usando palavras de origem grega. Assim, vendo passarem, pela janela da minha cabine, as margens verdejantes do Nilo, com seus renques de tamareiras, vou explicar a origem curiosa de alguns nomes que os gregos escolheram para falar da cultura egípcia.

Em primeiro lugar, temos os hieróglifos, que figuram por toda a parte, nas paredes dos templos e nos monumentos. Esta é uma palavra de dupla prosódia, o que significa, em vernáculo, que tanto faz pronunciá-la com a tônica no /ró/ (como eu faço) quanto no /gli/ ─ aliás, como o nome de Cleópatra, que aqui no Egito é pronunciado à moda grega, com a tônica no /pa/, rimando (que a rainha me perdoe pelo mau gosto!) com alcatra. Esta palavra é composta do adjetivo hieros (“sagrado”) mais glifo (“letra, entalhe”) ─  algo assim como “letras sagradas”, porque os gregos, embora não soubessem ler este tipo de escrita, perceberam o seu caráter nitidamente religioso.

Depois vêm obelisco e pirâmide, duas imagens que associamos desde sempre ao Egito e que espantam mais pelo seu tamanho do que propriamente pela beleza artística. Outrora prevalecia aqui o gigantismo arquitetônico, com colunas que vinte homens não podem abarcar com seus braços abertos, ou com obeliscos de granito de mais de quarenta metros (o obelisco de Luxor, hoje instalado na Place de la Concorde, em Paris, pesa centenas de toneladas e exigiu, para seu transporte, a construção de um navio especial, com várias quilhas). As pirâmides são maiores ainda. A de Quéops tem mais de 140 metros de altura e foi por 4.000 anos (até o surgimento das catedrais medievais) a mais alta construção do planeta. Ora, sendo tudo isso tão despropositadamente grande, não poderia deixar de causar má impressão nos visitantes gregos, povo sabidamente inimigo da desmedida e do exagero ─  sem falar, imagino, na inevitável ferida narcísica que a visão daquelas massas gigantescas  deve ter provocado num povo tão orgulhoso de sua superioridade que consideravam bárbaros todos os demais povos que conheciam.

Segundo Lacarrière, grande conhecedor do mundo grego, essa é a única explicação para chamarem as imensas agulhas de granito inteiriço de obelisco, termo formado de obelos (“espeto”) mais o sufixo diminutivo isco (o mesmo que está em asterisco, “estrelinha”) ─  ou seja, apelidaram-nas de “espetinho”! E por ter a forma semelhante à das pirâmides, usaram para batizá-las o nome de um pão especial feito de trigo, pyramis, reduzindo assim todas aquela pompa e magnificência a um cenário de piquenique, com espetinhos e pãezinhos  ─ e não venham me dizer que foi por acaso.

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Azulejo vem de azul?

Em etimologia, nem tudo que reluz é ouro, nem tudo que balança cai: pode parecer, mas AZULEJO não vem de AZUL.

O assunto foi levantado por uma professora da rede pública estadual de Santa Catarina, do município de Lajes, cujo nome, a pedido seu, não será mencionado: “Professor, sou uma grande fã sua e tenho certeza de que vai me ajudar. Um aluno me perguntou por que, ao lado do azulejo, que obviamente vem de azul, nós não temos também verdejo, branquejo ou vermelhejo. Acho que é brincadeira, não? Que resposta posso dar a ele?”.

Cara professora, a pergunta veio sacudir a árvore da memória e despertou-me a vaga lembrança de já ter tratado deste assunto. Embora conserve hábitos um tanto fora de moda ― escrevo preferencialmente a mão, com caneta tinteiro e tinta preta ―, aderi à informática desde o tempo do Windows 3.1, fazendo do computador um companheiro que só vou abandonar quando deixar este mundo. Usando de feitiço poderoso (na verdade, o Google Desktop), vasculhei os meus arquivos e encontrei, no início de 2000 (credo! já faz tantos anos!), um e-mail de nosso Luiz Achutti, enviado de Paris, comentando uma coluna em que eu afirmava, oblíqua mas claramente, que azulejo viria de azul. Dizia ele: “Escrevo apenas para dizer-te que vi ontem na TV uma matéria  sobre o Museu dos Azulejos  em Portugal. O cara lá pelas tantas falou que a palavra azulejo não veio de azul (como está implícito no teu artigo), mas sim de uma palavra árabe, de som parecido, que teria algo a ver com revestimento. Não lembro qual era a palavra do Árabe, mas espero que mesmo assim faças bom proveito da minha dica”.

A dica foi realmente valiosa; com a pulga atrás da orelha e um dicionário na mão, acabei confirmando que não há nada que ligue azulejo a azul, embora pareçam ser gente da mesma família. Corominas (conquanto seja um dicionário etimológico do Espanhol, sempre é útil quando estudamos formas compartilhadas entre os dois idiomas) diz que azulejo vem de al-zuleig ou al-zuleij (o al é apenas o artigo), que significa, aproximadamente, “pedrinha polida”, uma referência à arte dos mosaicos romanos, que os árabes conheciam tão bem. Por outro lado, azul, a cor, é uma forma reduzida de al-lzaward, vocábulo que o Árabe foi buscar no Persa e que você conhece como o segundo elemento de lápis-lazúli (do Latim lapis, “pedra” + lzaward, “azul”).

Embora haja um marcante predomínio do azul nos ladrilhos portugueses, todas as outras cores sempre estiveram presentes. Numa descrição da China, em 1520, o viajante informa que “As casas são ladrilhadas de azulejos de muitas cores“. Em 1603, Fernão Mendes Pinto (1603) descreve “um coruchéu [campanário] de azulejos de porcelana muito fina brancos e pretos“. Já no séc. 18, contudo, o bom Bluteau se encarregava de espalhar a falsa etimologia em seu dicionário: “azulejo – “espécie de ladrilho envernizado, com figuras ou sem elas; há brancos e verdes, mas pela maior parte são azuis, e desta cor tomou esta obra o nome“. Sendo ele o grande nome que foi em nossa lexicografia, desconfio que tenha contribuído ― e muito! ― para espalhar esta lenda.

 

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Esposas

Esposas - Edu

 

Baseado na etimologia, um leitor alega que o termo “esposa” designa a mulher prometida em casamento, não devendo ser empregado para as que já estão casadas.  

Um fiel leitor desta coluna, L. Barros, de Pelotas, pede minha opinião sobre um ponto que ele julga controverso: “Ainda ontem li outro colunista do jornal Zero Hora falando sobre sua esposa de tantos anos. Volta e meia corrijo algum amigo dizendo que esposa é a mulher que está casando, isto é, a noiva; depois do casamento os cônjuges passam a se chamar marido e mulher. Sempre atribuo a um certo “respeito” o fato de chamarem a mulher de esposa, como se o termo mulher fosse depreciativo. Por isso, para esclarecer para sempre esta questão, pergunto se podemos mesmo chamar nossos cônjuges de esposo ou esposa”.

Prezado leitor, acho que você está levando a sério demais a etimologia do termo. Como todos sabem, são incontáveis os casos em que o passar do tempo modifica o sentido original das palavras. É verdade que esposa vem do Latim sponsa (“prometida”), feminino de sponsus, do verbo spondere (“prometer solenemente”), mas o Português e as suas irmãs, ao herdarem o vocábulo da língua-mãe, passaram a usá-lo principalmente no sentido de “mulher casada” — épouse (Fr.), sposa (It.), esposa (Cat. e Esp.).

No nosso caso, desde o séc. 15 (antes mesmo do Brasil ser descoberto!) usamos esposa e mulher como sinônimos. Vercial, no seu tratado de liturgia (séc. 15), ao descrever o sacramento do matrimônio, recomenda: “publicamente deve assim dizer: eu te recebo por meu esposo e marido, e ele deve dizer: eu te recebo por esposa e mulher“. O padre Vieira (séc. 17) deixa bem claro: “respondeu que se não queria descasar de sua esposa“. A Bíblia, em suas inúmeras versões, ora usa um, ora usa outro, como, por exemplo, em Salmos 109,9: “Que seus filhos fiquem órfãos, viúva sua esposa” (Católica); “Sejam órfãos os seus filhos, e viúva sua mulher” (Ferreira de Almeida). Como se pode ver, em princípio a escolha é livre.

É evidente, porém, que essa livre escolha pode estar condicionada, em cada situação, por todas aquelas forças sociais e psicológicas que interferem no uso que cada um faz das palavras. Como você muito bem reparou, caro leitor, o termo esposa é considerado por muitos uma forma mais refinada de chamar a sua cara metade. Balzac, em 1830, descrevendo um burguês parisiense, ressalta que ele vai sempre usar o termo esposa (épouse) no lugar de mulher (femme), que ele considera vulgar e descortês.

Além disso, há casos em que o termo mulher pode não deixar claro se estamos falando do feminino de marido ou de homem: “Fulano teve várias esposas” não deixa dúvida, ao contrário de “Fulano teve várias mulheres“. Hoje, mais do que nunca, o termo esposa contrasta com as inúmeras formas não tradicionais de relacionamento entre os casais modernos. Quem diz “Apresento minha esposa” quer, conscientemente ou não, subentender que ele e sua consorte estão casados oficialmente — o que não está implícito no conceito (muito mais amplo) de “minha mulher”, que engloba tanto as esposas quanto as companheiras, as namoradas, as parceiras, as “queridas”, os “rolos”, e todas as outras formas  de convívio que nossa imaginação afetiva puder criar.

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Férias no dicionário

Edu sáb ago 2015

Veja como um bom dicionário pode transportar seus filhos para um mundo de aventuras e descobertas.

Para aqueles que, como eu, ainda têm criança em casa, a segunda metade de julho é a época ideal para chegar mais perto dos petizes e compartilhar com eles alguns breves mas preciosos momentos culturais (suspeito, às vezes, que o prazer seja bem mais nosso do que deles, mas não faz mal: todos vão sair ganhando). Se não tiver um bom livro ou um bom filme à mão, aconselho a recorrer ao dicionário, que tantas aventuras pode oferecer. Quer ver como é fácil, leitor? Pois há dias se ouve aqui em casa (muito mais vezes, confesso, do que eu gostaria) a música Pomar, do incomparável grupo Palavra Cantada ― uma composição infantil bem ritmada em que desfilam todas as frutas conhecidas e as árvores que as produzem (“mamão, mamoeiro; banana, bananeira; pera, pereira…”). O que dá para tirar daí? Muito mais do que se pensa, como vamos ver.

Primeiro, tenho certeza de que nosso pequeno ouvinte não ficará indiferente ao ser informado de que, em nossa língua, a árvore sempre tem o mesmo gênero que sua fruta: abacate, abacateiro, mas laranja, laranjeira, e que este princípio vale para todas elas ― com a enigmática exceção do figo, que nasce na figueira. Como esse é um caso único entre centenas, temos aí um bom pretexto para voltar ao passado, no período em que a nossa e as demais línguas românicas se formavam ― quando descobriremos que, no Catalão, a fruta também é feminina (una figa). Não fica difícil, assim, defender a ideia de que o Português preferiu dar o gênero masculino à fruta para distinguir da figa, aquela mãozinha sem-vergonha com o polegar enfiado entre o dedo médio e o indicador, gesto usado tanto para afastar o mau-olhado quanto (tirem as crianças da sala!) para sugerir aquilo que Luzia foi fazer na horta.

Em seguida, que tal uma história de sangue e horror, daquelas que sempre agradaram aos pequenos? Que tal contar-lhes a lenda do Papa-Figo, o velho sinistro que raptava meninos para extrair-lhes o fígado, usado na tentativa de cura de um ricaço leproso? E explicar que o tal velho papão devia se chamar, na verdade, Papa-Fígado, mas que esse Papa-Figo popular não é tão errado como parece, porque figo e fígado nasceram juntos, na mesma hora e na mesma maternidade? Basta lembrar que era costume entre os romanos engordar os gansos com figos em passa, a fim de que sua carne ficasse com sabor mais refinado, e que a parte mais requintada era o jecur ficatum  (jecur, “fígado” + ficatum “com sabor de figo”). Com o tempo, o primeiro elemento se apagou e só restou ficatum ― exatamente como aconteceu com uma (linha) diagonal, um (dente) canino, uma (carta) circular, entre tantos outros.

Como um guia na floresta, você continua mostrando os caminhos que ligam pontos que pareciam tão distantes: o sobrenome Figueiredo que aparece na lista de chamada do colégio vem de um bosque de figueiras, assim como de árvore saiu arvoredo e de vinha saiu vinhedo. E mais ainda teria para contar, se não terminassem antes as férias, tão curtas, ou  a paciência dos filhos.

[A ilustração tem a marca registrada do genial Edu Oliveira]

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Azeite de oliva

Por que dizemos azeite de OLIVA, se ele vem da azeitona? E existe alguma diferença entre ÓLEO e AZEITE?

 

Como os médicos e os policiais, os professores de Português não podem deixar de prestar auxílio, quando solicitado, Desta vez foi num hotelzinho na serra, diante de um possante fogão a lenha. A proprietária, muito hospitaleira, tinha cozinhado para nós sua última reserva de pinhões desta safra e assistia, interessada, ao ritual da família — o escravo aqui a descascá-los no dente, e minha filha pequena a comê-los alegremente, sem remorso algum, com sal e azeite de oliva. Declarando-se leitora desta coluna — “Leio sempre o que o senhor escreve; fui professora primária e nunca perdi o gosto pelo Português” —, ela puxou da algibeira duas “dúvidas cruéis”: (1) por que a gente diz azeite de oliva e não de azeitona, e (2) por que usamos óleo, e não azeite, quando vem da soja. Prometi pesquisar (raramente me arrisco a responder assim, de bate-pronto, a perguntas sobre etimologia; as chances de fazer uma burrada, acredite, são imensas).

Pois vamos à primeira dúvida: do Latim oliva, introduzido pela dominação romana na Península Ibérica, veio o clássico oliva, usado inicialmente em Portugal e na Espanha. No entanto, quando os árabes entraram na região, no séc. VIII,  com eles entrou também o nome azeitona (az-zaituna), que passou a predominar sobre oliva. Este, apesar de substituído, ainda pode ser visto nas expressões “azeite de oliva” e “verde-oliva” (cor), além de participar, como radical, de oliveira, o que criou este exemplo raríssimo de árvore cujo nome não deriva, como as demais, do fruto que produz (figo:figueirapitanga:pitangueira; e assim por diante). Nos países que não tiveram a presença árabe, porém, o nome da azeitona até hoje é derivado da forma latina: olive (Ing.), olive (Fr.), oliva (It.).

A segunda pergunta também encontra sua resposta nesta dicotomia entre o Árabe e o Latim. Nosso óleo vem do vocábulo latino oleum (“azeite de oliva”), que entrou nos idiomas mais importantes do Ocidente — oil (Ing.), olio (It.), huile (Fr.), Öl (Al.) — para designar genericamente qualquer substância gordurosa em estado líquido. Contudo, por causa da influência árabe no mundo ibérico (muita gente esquece que os árabes conviveram com nossos antepassados por mais de sete séculos, do séc. VIII  ao séc. XV), o Português distingue o azeite (de az-zait, “azeite de oliva”) do óleo (daí o óleo diesel, o óleo de soja, de arroz, de rícino, de amendoim, de girassol, de milho, de canola, etc. — sem esquecer o terror das crianças da minha geração, o repugnante óleo de fígado de bacalhau). Esta dicotomia não existe nos outros idiomas, que denominam o nosso azeite de olive oil (Ing.), huile d’olive (Fr.), olio di oliva (It.) e Olivenöl (Al.).

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arma branca

EDU - ARMA BRANCA

O punhal, a adaga, a espada, a lança, o escudo e a armadura fazem parte do conjunto que se convencionou denominar de “armas brancas”. O que têm eles em comum para merecer este nome?

Num jantar, no meio de uma discussão sobre o desarmamento, querem saber por que falamos em armas brancas (as quais, aliás, matam muito mais gente do que as armas de fogo, no Brasil) . Existiria arma preta? Na hora eu não soube responder; agora, depois de várias visitas ao amansa, posso dar meu palpite: a expressão nasceu com a evolução que a palavra arma sofreu desde a Antiguidade. Até a Idade Média, o vocábulo, além das armas propriamente ditas, incluía também a couraça, o escudo, as perneiras, o capacete e tudo o mais; quando se lê em Homero que Hefesto fez novas armas para Aquiles, imagine-se o pacote completo. A vulgarização do uso da pólvora, contudo, terminou colocando em desuso as armaduras e os escudos, e a palavra arma passou a ser entendida de forma mais restritiva, designando os artefatos que ferem ou matam a pessoa ou o animal atingido.

A partir do séc. XVIII, com o desenvolvimento da pistola, do arcabuz e do canhão, o conceito arma ganhou duas subespécies: as armas de fogo, que usam a energia da pólvora, e as armas brancas, geralmente dotadas de lâmina, que dependem da força e do braço humano. Bem nessa época, o dicionário de Bluteau (é de 1720) distingue as armas de fogo das armas brancas, chamadas assim, diz ele,  “porque eram de aço branqueado ou prateado” (é útil lembrar que branco vem do Germano blanck, “reluzente, polido, branco”, o que combina perfeitamente com a aparência do aço).

A expressão arma branca, portanto, nada mais é do que um dos primeiros exemplos de retronímia (ou retroformação, como querem alguns), processo hoje comuníssimo, típico deste século vertiginoso em que vivemos. Leite era leite, não importando de que mamífero viesse. Usávamos a mesma palavra tanto para falar nos banhos de leite de Cleópatra quanto nos rios de leite e mel que nos aguardavam na Terra Prometida. A sociedade industrial, no entanto, sempre generosa na hora de fornecer corda para o consumidor se amarrar mais um pouquinho, passou a oferecer o leite desnatado – e o vocábulo leite, sozinho, deixou de ser suficiente para designar aquilo que o bezerro mama, tendo de receber o auxílio do adjetivo integral. É o mesmo caso de “música ao vivo“: antes de inventarem os sistemas de gravação e reprodução de som, hoje tão banais, um restaurante que animasse o seu jantar com uma orquestra ou um trio instrumental jamais cogitaria em mencionar “ao vivo”, pois a música era feita por músicos de carne e osso, e ponto.

É assim que funciona: o surgimento de uma novidade deflagra a necessidade de rebatizar o termo antigo, genérico, acrescentando-lhe um especificador. Não raro o elemento novo termina “roubando” o termo para si, ficando o elemento antigo reduzido a uma simples subespécie. Por exemplo, se alguém contar aos netos que costumava cheirar uma fraldinha antes de dormir, é bom que acrescente “de pano”, pois fralda, hoje, designa o que inicialmente era chamado de fralda descartável ― algo que, como diria a Emília do Monteiro Lobato, é francamente “incheirável”. Era isso.

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Abre-te, sésamo!

Quem está acostumado a usar senhas na internet vai entender perfeitamente o sentido da expressão “Abre-te, sésamo”. Aproveito, caro leitor, para lembrar que Ali Babá não CHEFIAVA os 40 ladrões; bem pelo contrário, ele FUGIA deles, e quase foi por eles assassinado.

Um antigo aluno, hoje leitor assíduo desta coluna, vem fazer uma pergunta que, segundo ele, já deveria ter feito há muito tempo: “Um folheto de propaganda que recebi argumenta que os cursos de MBA  têm a vantagem de acrescentar ao currículo três letras que soam como um abre-te Sésamo. Minha dúvida não é quanto ao sentido, que me parece claro: o MBA é um título acadêmico que abre portas, como na história de Ali Babá e seus quarenta ladrões; o problema é esse Sésamo. Sempre usei a expressão sem saber quem era ele; li em algum lugar que podia ser um jumento que acionava o mecanismo da porta, mas achei esta versão idiota demais. E o senhor, o que diz?”.

Pois eu digo, em primeiro lugar, que também já li essa pitoresca (e risível, vamos combinar) versão de que haveria um jumento chamado Sésamo, sempre a postos para abrir ou fechar a caverna do tesouro. Realmente, por ser grafado erroneamente com essa inicial maiúscula, pode passar a impressão de se tratar de um nome próprio ― e aí entra a fantasia: nome de quem? Como a história não menciona nenhum personagem a servir de porteiro, um burrico seria uma hipótese plausível no contexto das 1001 Noites. Note-se, porém, que o imperativo não é “abre”, mas “abre-te”, o que seria muito estranho se fosse dirigido a qualquer ser vivo.

Na verdade, o sésamo (com minúscula) nada mais é do que aquele grãozinho comestível que também atende no Brasil pelo nome de gergelim. Quando pronto para colher, o capucho que contém os grãos estoura ao mais leve contato, produzindo um estalo, dizem, similar ao da lingueta de uma fechadura ao ser acionada. Como se vê, o abre-te,  sésamo ― a vírgula é indispensável, pois temos aqui um vocativo ― foi muito bem escolhido por Xerazade, a princesa que narra a história, para constituir as palavras mágicas que davam acesso ao esconderijo dos salteadores. O irmão invejoso de Ali Babá, Cassim, foi apanhado pelos ladrões com a boca na botija justamente porque, na hora de sair, apavorado, esqueceu a palavra certa e trocou o sésamo por cevada, centeio, trigo e outros grãos comestíveis ― o que, evidentemente, não funcionou, como sabemos nós, acostumados à inexorável objetividade das senhas e das palavras-passe que usamos na internet.

Por fim, uma pequena informação adicional que não pediste, mas que sempre servirá para alguma coisa: a história fala de Ali Babá e os quarenta ladrões, não de Ali Babá e seus quarenta ladrões. Os ladrões não são chefiados por Ali Babá, que é a vítima; bem ao contrário: eles passam a persegui-lo no momento em que percebem que o pobre carvoeiro descobriu o segredo da caverna, e só não o matam por detalhe. Faço questão de esclarecer esse ponto fundamental porque andei lendo, não faz muito, um confuso jornalista que, comentando a roubalheira do Planalto, dizia que, descobertos os ladrões, só faltava agora prender o Ali Babá…

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A quadratura do círculo

Muita gente pensa que buscar A QUADRATURA DO CÍRCULO é coisa de biruta. Muitos gênios da ciência, contudo, dedicaram seu tempo a esta tarefa.

 Às voltas com seu trabalho de conclusão de curso (o temido TCC, no jargão acadêmico), uma aluna de Santa Maria pede ajuda para entender uma frase em que Roland Barthes afirma que a obra de Gilberto Freyre “importa na quase realização da quadratura do círculo dos historiadores”. A leitora quer saber, afinal, se isso é crítica ou elogio. Diz ela: “Professor, o contexto em que Barthes faz essa afirmação parece bem elogioso, mas sempre entendi que procurar a quadratura do círculo era perda de tempo, coisa de cientista biruta. Estive enganada todo esse tempo?”.

Olha, leitora, eu também pensava assim; até ler a tua mensagem, eu também era capaz de jurar que esta expressão servia para designar uma tarefa impossível de realizar, um absurdo em si mesmo, pois, se era círculo, não podia ser quadrado… Ah, a felicidade dos que não sabem! Meu advogado de defesa alegará que tenho atenuantes, pois sou do tempo em que a escola se dividia entre Clássico e Científico, e eu, tendo cursado o primeiro, encerrei muito cedo meus estudos de Matemática, não indo além das equações de 2º Grau. No que se refere à quadratura, contentava-me com a frase de Flaubert, no seu implacável Dicionário das Ideias Feitas: “Não se sabe o que seja, mas deve-se dar de ombros sempre que falarem nisso”. Tua pergunta, porém, acendeu uma luz vermelha: como Roland Barthes sempre foi um admirador da obra do genial Gilberto Freyre, quem ficou em dúvida fui eu, e resolvi aprender.

Não precisei ir muito longe para descobrir que já na Antiguidade esta era uma celebérrima questão de Geometria, tendo ocupado gênios como Hipócrates, Euclides e Arquimedes. Ela consiste em construir um quadrado que tenha a mesma área de um dado círculo, usando apenas um compasso e uma régua sem graduação. Embora já se tenha demonstrado que é tecnicamente impossível resolver o problema usando apenas esses recursos, por mais de dois mil anos uma legião de cientistas e de amadores enfrentou o desafio. A expressão de Barthes, portanto, é um elogio à obra de Freyre, que, segundo ele, quase chega a resolver um problema até agora considerado insolúvel para os historiadores (que problema é este, eu não sei; como não recebi o texto todo, me sinto abandonado no meio do baile…).

Se fosse para expressar uma dessas inutilidades que abundam no mundo acadêmico, a palavra mais adequada, fresquíssima, estalando de nova, recentemente saída do forno do Umberto Eco (pois foi ele que a confeccionou), é a portentosa tetrapilectomia, uma elaborada construção em que se reúnem três elementos heterogêneos: tetra (no Grego, “quatro”); pilus (no Latim, “pelo, cabelo”) e tomia (no Grego, “corte”). Essa palavrona (pois palavrão ela não é) designa a inútil arte de dividir, em quatro partes, um fio de cabelo ao comprido. Exemplo de uso? Aqui vai um: “Aquele lá é o rei da tetrapilectomia. Ele não consegue dizer uma frase sem despejar em cima da gente uma avalanche de detalhes inúteis”. Conheço uma meia dúzia desses.

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caquistocracia

 

Quando um regime privilegia um pequeno grupo de poderosos, quando as massas, conduzidas por líderes populistas, tentam se sobrepor às leis e às instituições, caímos na CAQUISTOCRACIA — o governo dos piores.

Às vezes meus amigos me convocam para servir de árbitro em alguma questão de linguagem. Desta feita, a discussão foi sobre a paternidade de caquistocracia, este desajeitado vocábulo que serve de título à coluna de hoje (e que já vou, sem demora, dissecar para meus leitores). Um dos lados alega que é um neologismo criado pelo professor Michelangelo Bovero, de Turim, que esteve em Porto Alegre numa das edições do Fronteiras do Pensamento; o outro atribui a criação do termo a um pensador argentino, Jorge Garcia Venturini, num artigo publicado na década de 70, anterior aos trabalhos de Bovero. Como já faz tempo que deixei de trabalhar de graça, fixei um preço para essa arbitragem; agora que ambos os contendores já pagaram o combinado (dois quilos de uma erva-mate muito especial e outras tantas voltas de lingüiça caseira), publico aqui o resultado de minha pesquisa.

O interessante da questão é que tanto Bovero quanto Venturini (ambos são cientistas políticos) alegam ser o pai legítimo de caquistocracia, palavrona criada para designar “o governo dos piores”, em oposição à aristocracia, que seria “o governo dos melhores” — mas nenhum dos dois tem razão. Eles são autores da segunda metade do século 20, e o termo já vinha sendo usado há mais de um século antes de nascer Venturini, que é o mais velho. Uma rápida passada pelo OED (o grande dicionário da Oxford — o maior monumento lexicográfico que conhecemos) mostra que o termo caquistocracia (em Inglês, kakistocracy) era usado desde 1826, enquanto o adjetivo da mesma família, caquistocrático (kakistocratical), já aparece em 1641. O fato de ambos se declararem, formalmente, inventores de uma palavra que já existia não depõe contra sua honestidade intelectual; são incontáveis os artistas e pesquisadores de renome que foram vítimas de criptomnésia, esta ilusão de ser o primeiro a formular uma determinada idéia ou a empregar determinado vocábulo quando, na verdade, estão apenas recuperando, na memória, um conteúdo que foi colhido na obra de outrem.

Para entender melhor a motivação que fez esta palavra nascer (seja lá quem tenha sido o seu criador), é necessário voltar, na Grécia antiga, à obra de Políbio, que morreu no ano de 125 A.C. Assim como todas as coisas estão sujeitas à degeneração, dizia ele,  assim também degeneram as formas de governo que podemos adotar. Assim como a ferrugem, para o ferro, ou o caruncho, para a madeira, são enfermidades internas que podem destruir esses materiais, cada um dos regimes políticos conhecidos traz consigo o risco de uma enfermidade que pode disvirtuá-lo: a monarquia, com o rei bom, pode degenerar em tirania (ou despotismo).  A aristocracia, em que mandam os mais sábios (de aristós, “o melhor” + cracia, “poder”), pode degenerar em oligarquia (de olígos, “pouco” + arquia, “autoridade”), o governo de poucos, ávidos predadores da sociedade. Finalmente, a democracia (de demos, “povo”) pode descambar para a oclocracia (de óclos, “multidão”), o governo da ralé que, controlada por demagogos, usa a força bruta para se sobrepor à lei e às instituições.

O bom Políbio preconizava, como preferível, um sistema político que misturasse as virtudes das três formas benignas (monarquia, aristocracia e democracia) para estabelecer um regime misto em que os melhores mandassem em nome do povo, mas nunca chegou a pensar, como fez Bovero, na possibilidade oposta — um regime em que viessem a se combinar as características das três formas degeneradas (tirania, oligarquia e oclocracia). Afinal, Bovero, que é nosso contemporâneo, acompanhou a dissolução política que caracterizou a Itália de Berlusconi e viu nascer esse sistema — hoje tão próximo do Brasil e de seus vizinhos —  que mistura a cega violência da massa, a oligarquia dos ricos e o autoritarismo quase ditatorial dos líderes demagógicos. Pois foi justamente para nomear esta sinistra combinação dos vícios e defeitos de todos os sistemas que lhe ocorreu (como já tinha ocorrido a outros, antes dele) juntar a cracia o elemento kakistos, “pior” (superlativo de kakos, “mau, ruim” — o mesmo que usamos em cacófato e em cacofonia). É claro que nem ele, nem Venturini, nem ninguém antes deles pode ser considerado o “pai” desta palavra. Caquistocracia nada mais era do que um vocábulo que já existia virtualmente no nosso estoque de palavras possíveis, à espera, apenas, de que a vida real produzisse as condições necessárias para que alguém a empregasse. É assim que a língua funciona.

Depois do Acordo:
lingüiça>linguiça
idéia>ideia

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Fantasias

Na fronteira do Brasil com os países do Prata, um baile de carnaval pode reunir, no mesmo salão, aqueles que pulam DISFARÇADOS com aqueles que pulam FANTASIADOS — e todos vão se divertir (ou aborrecer…) da mesma forma.

Já contei aqui, faz muito tempo (para quem não lembra, a primeira coluna de O Prazer das Palavras foi publicada em janeiro de 2002), a surpresa que teve um velho amigo meu na frente de um cinema de Montevidéu que anunciava sessões vespertinas de Free Willy, o conhecidíssimo filme sobre a amizade de um menino com uma orca. Ele teve um verdadeiro choque ao ver o cartaz que trazia, em letras de palmo e meio, o título do filme em Espanhol — Liberten a Willy. “Pude sentir minhas orelhas crescendo: só faltavam as ferraduras para eu ser um burro completo”, brinca ele, resignado. “Se não tivesse ido ao Uruguai, talvez nunca tivesse me dado conta de que o nome da baleia é só Willy, e free é o imperativo do verbo libertar, em Inglês. Também, só eu mesmo, para achar que orca pode ter nome e sobrenome!”.

Pois este, meu amigo, sempre foi um dos maiores benefícios de qualquer viagem — seja a outro país, a outra época (aí está a literatura…) ou a outra língua: lançar uma luz diferente sobre o mundo que nos cerca. O que é familiar fica praticamente invisível para nós, até que uma dessas súbitas mudanças de perspectiva nos faça enxergar, pela primeira vez, detalhes que sempre estiveram bem debaixo de nosso nariz. No caso de nossa língua, uma visita ao Espanhol, como vamos ver, costuma revelar facetas que não são percebidas pela maior parte dos nossos falantes. Não há, entre as várias filhas do Latim, irmãs mais parecidas que o Português e o Espanhol. Ambas nasceram na Península Ibérica e cresceram lado a lado, sem grandes barreiras geográficas a separá-las. Ambas se lançaram aos mares mais ou menos ao mesmo tempo, no Renascimento, e vieram alojar-se aqui nas Américas, onde também passaram a fazer fronteira uma com a outra, compartilhando suas semelhanças e — talvez mais importante — iluminando-se reciprocamente com suas diferenças.

Estava eu posto em sossego, lendo um dos estupendos suplementos do jornal El País, quando senti que meus conhecimentos da língua espanhola não estavam dando para o gasto. “No se como habeis podido aguantar los celos de la gata“, dizia a frase, transposta por mim, em vernáculo, para algo como “Não sei como tens aguentado os ciúmes da gata”. Ciúmes? Como nada havia no contexto que sugerisse que o felino em questão fosse ciumento, fiz o que sempre deveria fazer, mas nem sempre tenho paciência: fui ao amansa (em Espanhol, por falar nisso, também é amanza burros), o grande dicionário da Real Academia Espanhola, para ver o que a doutíssima diz a respeito de celo. Outra surpresa: na língua de Cervantes, o vocábulo celo (do Lat. zelus) equivale a três vocábulos diferentes na língua de Camões. O primeiro significado — “cuidado, diligência, esmero” — é o que aqui chamamos de zelo; o segundo — “época em que os animais procuram o acasalamento” — é o que chamamos de cio; o terceiro, finalmente — “suspeita ou receio de que a pessoa amada esteja gostando de outra” — é o nosso velho ciúme. O autor do artigo de El País queixava-se, simplesmente, dos cios da gata, que “estavam ficando insuportáveis”… Embora, no Português, a aparência dos três vocábulos seja diferente, sua raiz é exatamente a mesma. E aí? Vale alguma coisa essa ligação originária entre entre cio, zelo e ciúme? Para um estudioso da alma humana, decerto que sim.

A proximidade do Halloween (o Dia das Bruxas — festa estrangeira que, como o Natal, o Dia das Mães e o Coelhinho da Páscoa, foi importada do Hemisfério Norte) trouxe-me outra dessas revelações inesperadas. Minha filha caçula queria — está muito na moda! — uma fantasia de vampiro, com capa negra, gola alta e forro vermelho. Minha mulher adquiriu os tecidos e os aviamentos (palavrinha batuta, essa!) e pediu que eu descobrisse, nas vastas ondas da internet, um molde que ela pudesse utilizar para cortar a capinha. Procura daqui, procura dali, encontrei um excelente saite argentino, cheio de moldes e instruções para confeccionar os mais diversos disfraces (o singular é disfraz). Disfarces! Eu nunca tinha me dado conta disso! Enquanto nós usamos fantasias, eles usam disfarces! “Ele foi à festa disfarçado de pirata”, para nós, é totalmente diferente de “Ele foi à festa fantasiado de pirata”. Afinal, em Português disfarçar é esconder o que somos, fantasiar é imaginar aquilo que não somos. Não quero me intrometer em seara alheia (o Mário e a Diana Corso devem ter algo a dizer sobre isso), mas arrisco:  enquanto um argentino ou uruguaio usa o disfarce para ocultar quem ele é, o brasileiro usa a fantasia para se imaginar no papel de quem ele não é! Num baile na fronteira, em Livramento ou em Uruguaiana, pulam disfarçados ao lado de fantasiados — todos querendo experimentar a sensação de viver uma outra vida, mas cada qual à sua maneira.