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Conceitos lingüísticos Destaque Flexão nominal

Questão de gênero

Uma colega de Belo Horizonte, Patrícia L., manda uma mensagem que é quase um desabafo: “Prezado Professor, saúde. Há vinte anos leciono Língua Portuguesa na rede pública e confesso que meu trabalho, se nunca foi fácil, vai ficando mais difícil a cada dia que passa. Imagine o senhor que a nossa Câmara Municipal aprovou, esta semana, em primeiro turno, um projeto de lei que determina que os cargos e funções constantes em documentos públicos sejam designados tanto no masculino quanto no feminino! Segundo a autora do projeto, a gramática machista [sic!] torna invisível o trabalho da mulher, quando se fala, por exemplo, em concurso público para o cargo de procurador, e não de procurador e procuradora. Nosso bom e velho Mattoso Câmara deve estar esperneando na tumba!”.

Confesso, cara Patrícia, que, ao ler a tua mensagem, tive vontade de imitar o Macunaíma e voltar para a minha rede. “Ai, que preguiça!”, pensei. “Vai começar tudo de novo!”. Lembrei daquelas intermináveis discussões sobre o uso de presidenta, em que os dois lados envolvidos — os prós e os contras — jogavam uns nos outros toda sorte de argumentos, muitos deles emocionais, pouquíssimos deles linguísticos. Porém, como fiquei curioso, fui googlear o tal projeto e constatei que, apesar da fundamentação científica ingênua e equivocada da vereadora, seu objetivo era bem mais modesto do que poderia parecer.

Peço-te licença, por um momento, para esclarecer aos demais leitores desta coluna a referência a Mattoso Câmara, o decano dos estudos linguísticos no Brasil. A ele devemos a descrição definitiva do sistema de gênero e número de nossos substantivos: a marca do feminino é o A, enquanto o masculino se assinala pela ausência desse A. Sabemos que filha, mestra e cantora são femininos porque ali está a marca; inversamente, sabemos que filho, mestre e cantor são masculinos porque ali não está a marca. Por isso, quando quisermos ser genéricos, usamos o masculino (ou seja, o gênero não-marcado): “O brasileiro vive menos do que o japonês (entenda-se: todos, eles e elas). Aproveitando esse princípio, é assim que o dicionário registra os substantivos de dois gêneros: lobo, menino, anão. O tal “machismo gramatical” é uma fantasia de certos grupos militantes que, invertendo causa e efeito, pensam que podem mudar a realidade mudando a linguagem — como já expliquei várias vezes nesta coluna. Paradoxalmente, o gênero que exclui é o feminino: se dissermos que os professores vão ser pagos em dia (o que não acontece por aqui, infelizmente), isso vale para homens e mulheres; se as professoras vão ser pagas, os homens estarão excluídos.

Voltando agora ao projeto, prezada leitora, posso te assegurar que não há razão para alarme. Apesar da vereadora belo-horizontina usar argumentos pífios, sua causa é mais simples e específica. Ela inspirou seu projeto nos protestos de uma professora da rede municipal que se revoltou por ostentar no crachá funcional o título de professor, como todas as suas colegas. Bom, aí já é de amargar! Por ignorância, preconceito ou desejo de racionalização na impressão dos crachás, os burocratas aqui literalmente pisaram na bola. Se pudéssemos perguntar ao próprio Mattoso Câmara o que ele acha disso, o  bom velhinho diria que esta é uma questão de atitude, e nada tem a ver com a estrutura gramatical de nossa língua. Usar a flexão feminina do substantivo para concordar com a detentora do cargo — procuradora, senadora, diretora, professora, juíza, promotora — é o mínimo que se espera em qualquer instância da administração pública, há muito tempo. Nosso Supremo hoje tem onze juízes; na composição atual, conta com nove juízes e duas juízas apenas.

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Concordância Destaque Flexão nominal

nenhuns

A leitora Frederica W. escreve de lugar não identificado para dizer que levou um susto quando encontrou em Mia Couto, seu autor do momento, a frase “Caiu sem nenhuns sentidos“. Bem-humorada, ela acrescenta: “Não vou perguntar se isso está certo; afinal, se ele escreveu assim, é porque pode — mas bem que eu gostaria de uma explicação para suavizar o golpe…”

Prezada Frederica, este nenhuns que estranhas é o polo oposto do pronome indefinido alguns. Ele sempre esteve lá, em todas as gramáticas, mas uma coisa é vê-lo arrumadinho numa lista de pronomes, onde parece inofensivo como uma aranha espetada num tabuleiro de museu, e outra é vê-lo assim, ao vivo, com cara de que já vai saltar sobre nós.

Se fosses portuguesa, nem terias notado este plural, porque ele continua bem vivo na terra de nossos avós. Em Lisboa, uma campanha publicitária proclama que “Lenços há muitos, mas nenhuns como estes”; um fórum da internet registra, abaixo de uma postagem: “Nenhuns comentários”; no belíssimo fado Partindo-se, que põe em música um poema do séc. XV, Amália Rodrigues canta: “Senhor, partem tão tristes/ Meu olhos por vós, meu bem/ Que nunca tão tristes vistes/ Outros nenhuns por ninguém”.

Antes que alguém pense que se trata de uma dessas inovações “suspeitas” da língua falada, lembro que nenhuns figura abundantemente na obra de escritores importantes como Gil Vicente, Camões, Vieira, Garret, Alexandre Herculano, Júlio Dinis, Eça de Queirós, Mário de Sá Carneiro, entre muitos outros.

Deste lado do Atlântico, contudo, sua sorte foi diferente. Este plural chegou a ser usado por Capistrano de Abreu, José Veríssimo, Rui Barbosa, Euclides da Cunha (“duzentos homens válidos, talvez sem recursos nenhuns“) e até mesmo pelo grande Machado de Assis (“Não eram os primeiros versos que escrevia à moça, mas não lhe entregara nenhuns“; “nenhumas relações estreitas existiam entre mim e ela”), mas não soube bem ao paladar brasileiro, que terminou aposentando-o.

Qualquer um de nós diria “não posso indicar nenhum restaurante” — ou, para os mais elegantes, “não posso indicar restaurante algum“. Já “não posso indicar nenhuns restaurantes” parece um daqueles plurais de brincadeira do saudoso comediante Mussum — de quem muito me lembro, quando vejo na TV a chamada para (mais) um programa de culinária, em que o chef, que tem a figura ideal para representar o personagem Queequeg, o arpoador do filme Moby Dick, tropeçou ao formar o plural de mel. Em vez de optar entre méis (minha preferida) ou meles, ambas dicionarizadas, saiu-se com um impossível mels — concorrendo com Mussum, que chamava qualquer birita (“biritis”, para ele) de , forma reduzida de mel, que ele flexionava sabiamente no plural mézis.

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Destaque Flexão nominal Lições de gramática

uma paradigma?

O gênero de um substantivo COMUM DE DOIS é definido pelo artigo que o acompanha:   O INTÉRPRETE e A INTÉRPRETE, O ARTISTA e A ARTISTA; já um substantivo SOBRECOMUM apresenta uma forma única, aplicável a ambos os sexos: A TESTEMUNHA (homem ou mulher). A qual desses dois grupos pertence o vocábulo PARADIGMA? E MODELO?

 

Assim que  recomeça a temporada dos concursos públicos, é natural que pipoquem por aqui algumas mensagens com perguntas extremamente específicas. A maioria eu respondo diretamente ao autor; uma que outra eu trago aqui, para compartilhar com vocês. Hoje eu trago a dúvida de Júlia K. (como regra de sobrevivência, sempre omito o sobrenome), concurseira de Florianópolis, que vai direto ao fígado: “Professor, paradigma é um substantivo comum de dois ou sobrecomum? Tenho um tratado de Direito do Trabalho, escrito por uma sumidade do ramo, que escreve uma paradigma. Pode isso?”.

Olha, Júlia, até pode ― mas depende do contexto, como vou explicar. Antes, porém, para proveito de todos, vou desconstruir tua pergunta (e não destruir, como alegou o advogado daquele megaempresário que, como dizem os lusos, está vendo o sol nascer aos quadradinhos…). Lembro, em primeiro lugar, que chamamos de comum de dois o substantivo que tem apenas uma forma (isto é, não flexiona), mas permite que se distinga o feminino do masculino com base no artigo, numeral ou pronome que o antecede: o/a policial, este/esta intérprete,  meu/minha cliente.

O substantivo sobrecomum, por outro lado, tem um gênero gramatical determinado (ele ou é masculino, ou é feminino), mas serve para designar pessoas de ambos os sexos. Um exemplo bem à mão é testemunha, vocábulo exclusivamente feminino (João é minha testemunha; as testemunhas da defesa são os onze jogadores do Palmeiras). Neste caso, se eu precisasse, por algum motivo, distinguir entre homens e mulheres, teria de lançar mão de outras palavras que fizessem o serviço: “As testemunhas femininas serão alojadas no colégio das freiras; as testemunhas masculinas ficarão no quartel”.

Ora, paradigma se enquadra neste último caso. Não custa lembrar que é um vocábulo masculino ― embora muita gente, por causa daquele “A” no final, caia na armadilha e escorregue, produzindo pérolas como “A literatura marginal tem por finalidade romper com as paradigmas estéticas vigentes”. Credo! Em segundo lugar, assim como seus colegas monstro, carrasco ou ídolo, entre outros, o termo é aplicável a ambos os sexos, indiferentemente: “Esta médica é um paradigma de honestidade” (assim como ela pode ser um modelo de eficiência ou um carrasco para seus subordinados).

Chegamos, finalmente, ao cerne da tua pergunta: “Uma paradigma? Pode isso?”. Pode, sim ― e exatamente no contexto do Direito do Trabalho, onde o empregado paradigma é o empregado que serve de base para a equiparação dos demais funcionários. O vocábulo, agora transfigurado, vai admitir flexão de gênero, marcando o feminino, se for o caso: “a paradigma indicada”, “designou uma paradigma falecida”, etc. É a mesma metamorfose que ocorre com modelo: “A médica é um modelo de eficiência”, mas “foi contratada uma modelo“, ou, como escreve L. F. Veríssimo, “Nenhuma modelo me fez mal, ainda. Mas elas simplesmente me apavoram. É aquele ar que elas têm”.

 

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Como se escreve Destaque Flexão nominal

xeica

Xeica - EDU

De uma leitora de Curitiba, Palmira G., veio a pergunta que hoje respondo com especial carinho (ela lecionou Português durante quarenta anos, e, mesmo aposentada, nunca deixou de ensinar o amor ao idioma aos filhos e aos netos): “Sempre que eles têm dúvida, recorrem a mim, mas dessa vez eu fiquei devendo: minha neta mostrou uma notícia que fala de uma xeica que veio nos visitar. Isso existe, professor? O senhor não acha horrível?”. Acho horrível, sim, dona Palmira, mas se a senhora acompanhar minha explicação, verá que existe uma hipótese muito, mas muito pior.

Vamos começar com sheik, termo de origem árabe que serve para designar uma autoridade cuja gradação pode ir do simples chefe de clã ou tribo até chegar a um príncipe ou mesmo a um rei. Em vários países islâmicos ― e, em especial, nos Emirados Árabes ―, as mulheres da mesma hieraquia recebem o título de sheikha. A notícia que a senhora leu seguramente devia tratar da sheikha Mozah bint Nasser Al Missned, esposa do emir do Catar, que esteve no Brasil no ano que acabamos de encerrar.

Como o Árabe usa um alfabeto que não é o romano, o vocábulo, ao ingressar no Ocidente, foi transliterado das mais diferentes maneiras: jeque (Esp.), sceicco (It.), Scheich (Al.), cheik (Fr.), sheikh (ou sheik, as preferidas do Inglês, embora o portentoso Oxford English Dictionary registre mais outras dezenove variantes). No Português, como não poderia deixar de ser, a forma tradicional sempre foi xeque  (adotamos sempre a letra X para essas transliterações: xampu, xerife, xarope, Xerazade).

Desde o séc. 16, as páginas de Camões, de João de Barros e de Fernão Mendes Pinto estão repletas de xeques, e assim vivemos muito bem até que Hollywood (e depois a rede Globo) puseram em voga por estas bandas o sheik do Inglês. Nos anos 20, as brasileiras suspiravam quando Rodolfo Valentino, o eterno latin lover, corria pelo deserto, com o albornoz ao vento, nos filmes O Sheik e O Filho do Sheik; quatro décadas depois, nos anos 60, foi a vez da TV brasileira reaproveitar o cenário “romântico” do deserto para lançar a novela O Sheik de Agadir, que fez um grande sucesso na época. Por influência direta dessa forma inglesa, terminou surgindo a variante xeique, menos usada mas também registrada nos bons dicionários.

Agora a senhora vai me entender: a esposa do emir de Catar vem ao Brasil; o repórter, no que fez muito bem, não quer usar a forma inglesa, com o seu exótico SH e, pior ainda, com o KH, cacófato próprio para piada. O que faz ele? Vai ao dicionário e encontra duas opções, xeque ou xeique. Como se trata, porém, de uma dama, ele sabe que precisa usar o vocábulo no feminino. E aí? Existe outra saída? A senhora terá de concordar que, afinal, até que xeica não é tão horrível assim…

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Destaque Flexão nominal Formação de palavras Origem das expressões

freelance

Como se formou e como se flexiona o nome do gado GIROLANDO,? O que significa, realmente, a expressão SOLUÇÃO DE CONTINUIDADE? E FREELANCE, por que se chama assim? Veja a resposta a essas três perguntas, e muito mais! 

Sou gaúcho o suficiente para saber alguma coisa sobre o gado que produz a carne que ponho na brasa, mas  confesso que me pegaram de supresa as perguntas que fez um leitor sobre o gado girolando, sobre o qual ele fala com grande familiaridade. “Professor, girolando tem feminino? E sendo ele o resultado de uma cruza de gado gir com o holandês, por que não deu girolês?”. Antes de responder, fui pesquisar sobre esse bovino que eu desconhecia. Uma publicação da Embrapa veio suprir a lacuna de meus dicionários: na pecuária leiteira, é muito usado o cruzamento da raça holandesa, especializada em leite, com uma das raças de origem indiana, mais rústicas, que formam o grupo Zebu (que inclui o gir, o guzerá e o nelore, entre outros) ― daí o girolando, o guzolando e o nelorando, híbridos lexicais que a língua precisou produzir para designar esses novos membros do rebanho. São vocábulos necessários, mas, convenhamos, não ganhariam nenhum concurso de beleza: Jorge Luis Borges escreveu que o nome do ditador argentino Ongania parecia um tempo de verbo; pois, para mim, a enumeração dessas raças soa como uma lista de gerúndios…

         São duas as dúvidas do leitor. A primeira é saber se girolando tem feminino; não vejo por que não teria, já que este é o paradigma seguido pelos substantivos com dois gêneros. Afinal, se deste cruzamento nascem novilhos girolandos, por que não nasceriam também novilhas girolandas? A segunda se refere aos elementos utilizados na composição: já que o segundo elemento é holandês, por que não se formou girolês? A resposta é muito simples: na estrutura do composto, é imprescindível que os dois radicais (/gir/ e /oland/) estejam presentes para que o nome das duas raças  continuem reconhecíveis ― o que não aconteceria se a contribuição de holandês fosse apenas o sufixo –ês, o que produziria esquisitas formações como  *girês, ou *girandês ― lembrando que a forma sugerida pelo leitor, girolês, é usada para designar a mestiçagem do gir com o charolês.

         Outra consulta vem de uma velha amiga, camiseira de mão-cheia, que passa o dia ao pé do rádio, trabalhando na máquina de costura. “Professor, ouvi ontem o prefeito da minha cidade afirmar que a merenda escolar não vai sofrer solução de continuidade. Fiquei preocupada porque tenho dois netos na escola pública e não entendi muito bem se a notícia é boa ou ruim”. Ora, cara amiga, pode ficar tranqüila; se ele estiver falando a verdade, a merenda escolar vai continuar. O prefeito prometeu que ela não vai sofrer solução de continuidade, isto é, não vai sofrer interrupção ― em suma, a continuidade não vai ser dissolvida. Lembro que esta solução, aqui, não vem do  verbo resolver (um problema, um enigma), mas sim de dissolver (a mesma matriz que nos dá o café solúvel). Esta é uma daquelas expressões que, a meu ver, perdeu toda sua utilidade na fala diária, exatamente porque as pessoas a entendem de maneiras diferentes. Em certos bolsões de linguagem, contudo, continua a ser empregada com sucesso; é o caso, por exemplo, da Medicina, em que “solução de continuidade na pele” designa qualquer corte ou falha neste tecido.

         Por fim, a surpresa (para mim, é claro; para você, leitor, pode ser informação mais velha que o jornal de anteontem): folheando o clássico Ivanhoé, de Walter Scott (preciso dizer que era uma edição da Inglaterra, onde preferem a afetada pronúncia /aivanrou/…), em busca de uma passagem perdida, encontrei, lá pelas folhas tantas, o bravo cavaleiro de Bracy dizer que tinha falado com o rei Ricardo Coração de Leão, oferecendo-lhe “the service of my free lances” ― algo assim como “o serviço de meus mercenários”.  Na Idade Média, era comum que cavaleiros e soldados veteranos oferecessem seus serviços a senhores que estivessem dispostos a pagar. Esses soldados da fortuna ― free lances (literalmente, “lanças livres”) ― eram aventureiros que ora se engajavam sozinhos em alguma força militar, ora compunham poderosas corporações (é o caso das Grandes Companhias, que atuaram ao lados dos franceses na Guerra dos Cem Anos). Uma repassada no Oxford me informou que essa expressão (também grafada freelance) passou a ser usada para o político que pula de partido em partido, sempre em busca de proveito próprio, até chegarmos ao nosso frila, pessoa que trabalha por conta própria, sem vínculo específico com qualquer empresa ― palavra que usei todos esses anos sem jamais suspeitar que trouxesse uma lança escondida em seu bojo. 

Depois do Acordo: tranqüilo > tranquilo

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Conceitos lingüísticos Destaque Flexão nominal

Popurri: grafia fonética, parônimos, gravidezes

Em plena 57ª Feira do Livro de Porto Alegre, ofereço aos meus leitores este popurri* de questões de linguagem (* do Fr. pot-pourri, “mistura de elementos heterogêneos; miscelânea”).

1 — GRAFIA FONÉTICA — Um leitor que se assina Usuário da Silva (este comovente pseudônimo me trouxe saudades daqueles personagens da minha infância que portavam nomes ingênuos como Concordino ou Sujismundo…) pergunta se não seria mais lógico fazer uma reforma ortográfica que tornasse fonética a nossa maneira de escrever. “Por que ninguém pensou nisso?”, conclui ele, sem ironia — e é por isso, sem ironia, que vou responder: simplesmente porque não seria possível. Isso explica, aliás, por que nunca foi tentado em qualquer lugar civilizado que valha a pena mencionar. A inteligência dos sistemas ortográficos existentes no mundo reside exatamente nisso: eles permitem escrever de uma forma única aquilo que os falantes podem pronunciar de várias maneiras diferentes. Escrevemos dois, mas o carioca diz /doix/, o gaúcho diz /dois/; escrevemos medicina, mas o pernambucano diz /médicina/, enquanto nós dizemos /mêdicina/; escrevemos mas, e dizem /más/, /mais/ ou /mãs/. Um sistema fonético seria baseado na fala de que região? E as outras? E as diferenças individuais de pronúncia, que são bem marcadas mesmo dentro de uma mesma área geográfica? Creia, meu caro Usuário: nosso sistema é o melhor possível para desempenhar esta incrível tarefa de dar uma forma razoável, na escrita, à soma infinita de todas as pronúncias.

2 — GRAVIDEZES — Outro leitor vem deplorar certos plurais que, a seu ver, são “angustiantes”. Assistindo a uma  palestra sobre gestação em adolescentes, estremeceu ao ouvir falar em gravidezes; numa cerimônia de produtores rurais, sentiu-se agredido com a forma arrozes; finalmente, fugiu de uma bucólica produtora de mel  quando ela comentou que o Piauí tem os melhores méis do mundo. “Sei que são plurais possíveis, mas são um insulto ao bom gosto!”. Ora, prezado leitor, bom ou mau gosto são critérios muito vagos. Gravidezes, gizes, arrozes, méis, etc. vêm sendo usados há séculos (não é figura de linguagem: são séculos, mesmo), mas em contextos que não são muito frequentes no nosso quotidiano. Tenho certeza de que um médico ou uma parteira não estranham gravidezes (até porque não existe outra maneira de dizer: “A paciente, depois de tantas …..). O arroz, o mel, a soja, o trigo são nomes não-contáveis (mass nouns, no Inglês, lembra?) e, por isso, ficam sempre no singular — na nossa linguagem usual. Quando me refiro, no entanto, a várias espécies, é muito comum pluralizá-los: “o calor da brasa carameliza os açúcares da carne”, “o arbóreo não está entre os arrozes produzidos no Brasil”, e por aí vai a valsa.

3 — ÓCIOS DO OFÍCIO? — Outro leitor implica com a expressão ossos do ofício. O correto não seria ócios? Não, meu caro, é osso mesmo — a parte ruim, a parte dura, que qualquer atividade pode encerrar; afinal, como a sabedoria popular já decretou, quem comeu a carne que roa os ossos. Antenor Nascentes, com mais cerimônia, diz que são “os percalços, as contrariedades inerentes a um mister, uma arte, uma indústria, um cargo”.

4 —PARÔNIMOS? — Letícia W., de Novo Hamburgo, tenta abrir caminho no meio do cipoal terminológico: “Gostaria de conhecer uma definição mais clara de parônimos, pois na minha cabeça eles se confundem com os homófonos e os homógrafos”. Pois fique sabendo, minha cara leitora, que este é um conceito que está praticamente condenado entre os  especialistas, e por um motivo bem razoável: os parônimos seriam aquelas palavras “parecidas” que deixam o usuário confuso na hora de escolher a forma correta. Ora, este conceito de “parecido” é cultural (isto é, depende da cultura do falante) e, por isso mesmo, vago e amplo demais para ser científico. Para uma pessoa de pouca instrução, horta e aorta, figo e fígado são parônimos; para mim e para meus leitores, não são. Os termos tráfego e tráfico são parônimos porque as duas sílabas que vêm depois da tônica soam da mesma forma em ambos; são parônimos também eminente e iminente porque tanto o E quanto o I (letras) são pronunciados como /i/, na posição pretônica. Cessão, sessão e seção são parônimos porque são homófonos, sem ser homógrafos. Sustar e suster são parônimos porque se confundem miseravelmente durante sua conjugação (responda depressa: a qual dos dois verbos pertence sustinha? E sustava? E susteve? E sustou?). Intimorato (destemido) e intemerato (puro, íntegro) são parônimos porque a cara dum é o focinho do outro; etc. Como podes ver, nem todos são homófonos, nem todos são homógrafos — mas, como diria um jovem de hoje, com sua precisão peculiar, é “tipo tudo parecido”.

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Através dos dicionários Conceitos lingüísticos Destaque Flexão nominal Lições de gramática Questões do momento

meados

“Em meado de setembro” ou “em meados de setembro”? Ambas estão corretas, mas o PLURAL é a forma preferida desde o séc. XIX. Outra daquelas falsas polêmicas que seriam evitadas com um pouco mais de leitura…

 

Alguns leitores estranham que uma coluna como O Prazer das Palavras, dedicada singelamente a comentar e a apreciar as riquezas do idioma, nem sempre seja tão mansa e serena como o tema faria supor. Afinal, dizem eles, trata-se de gramática e de ortografia, e não de futebol ou política — e não há nada que justifique o ânimo agreste, quase impertinente, com que freqüentemente estas poucas linhas são traçadas. Pois se enganam, amigos, que nem tudo são rosas por aqui; as questões de linguagem têm o condão de despertar as emoções mais primitivas do indivíduo, e certamente vocês ficariam surpresos com a raiva instilada em certas cartas que recebo.

Um bom exemplo foi o que aconteceu com meados. Um leitor perguntou se era verdade que a expressão em meados seria condenável, como afirmava taxativamente um de seus professores. “Ele me descontou um ponto na prova, argumentando que meado significa “meio” e só deve ser usado no singular, pois seria ilógico falarmos em meados de 2011; está certo o raciocínio?”. Expliquei-lhe, então, que o professor estava desatualizado; embora historicamente o vocábulo fosse usado no singular, há quase dois séculos passamos a preferir meados, forma já empregada por escritores do porte de Machado de Assis e Eça de Queirós, e que o próprio dicionário Houaiss, no verbete meado, informava que o termo é “freqüentemente usado no plural, como substantivo”.

Ao que parece, meu leitor, faceiro com a resposta, fez da minha mensagem uma capa vermelha e foi agitá-la diante dos olhos do touro — no caso, o referido professor; este, depois de escarvar o chão com as patas, tomado de fúria contra mim, que era mero espectador da tourada, investiu com tudo que tinha, numa mensagem agressiva que culminava num parágrafo cheio de peçonha: “Quando você se faz escrevente de Machado de Assis, Eça de Queirós e demais escritores para justificar alguns termos considerados incorretos pelos especialistas em língua portuguesa, vem-me a crassa dúvida: esses distintos escritores ditavam as regras de nosso vernáculo ou eram meros mortais regidos pelas regras impostas pelos filólogos, lexicólogos e afins?”. Viram só o topete? Mas isso lá é jeito de entrar numa discussão acadêmica? Infelizmente eu não tenho a virtude cristã da tolerância e acabo reagindo no mesmo tom; diga-se a meu favor, porém, que nunca cito o nome desses malcriados, pois acho que precisam ser protegidos deles mesmos. O que segue é a resposta que ele recebeu.

“Mas que raciocínio arrevesado, cidadão! Então o senhor não sabe que os especialistas em nossa língua são exatamente Machado, Eça, Vieira, Drummond, e não os gramáticos, filólogos e professores? Estes últimos, aliás, entre os quais humildemente me incluo, não têm direito algum de impor regras, especialmente para os escritores; seu papel neste universo é tentar entender como funciona o idioma e formular regras que descrevam esse funcionamento. Isso não significa, é claro, que o escritor tenha um toque de Midas que transforme em norma  qualquer idiossincrasia de seu estilo, pois, como diz o antiquíssimo brocardo filológico, “às vezes até o próprio Homero cochila” —, mas o uso frequente de uma determinada forma por vários desses especialistas mostra ao usuário consciente uma das possibilidades do idioma.

No início, meado era usado como adjetivo (na verdade, o particípio do verbo mear, “repartir, chegar ao meio”): “ele morreu meado dezembro”, “vinho meado de água”, “círculo meado de branco e preto”. Com relação a tempo, opunha-se aos também particípios findo e começado: “Meado setembro, começaram as chuvas” (“Findo setembro”, “Começado setembro”). A partir do séc. XIX, porém, vai se firmando o seu emprego como substantivo plural. Euclides da Cunha fala em “meados do século”, Eça fala em “meados já tépidos de março”; Aquilino Ribeiro usa “meados da Quaresma” e Machado, sempre o melhor, fala de uma senhora que “prorrogou seus belos cachos de 1845 até meados do segundo neto”. Não vejo nada de inusitado nesta pluralização, também ocorrida com fim e com começo (nos fins do verão, nos começos do século, etc.), que pode ser encontrada abundantemente em Vieira, Euclides, Eça e Machado, entre muitos outros.

Ora, quando autores deste quilate usam determinada palavra ou expressão assim, e algum professor diz só poderia ser assado, não tenha dúvida: o gajo não fez as  leituras que deveria ter feito em seu curso de Letras. Se existem dezenas de exemplos do plural meados na obra dos grandes escritores, isso significa que classificá-lo de “erro” é uma asneira que só pode ser cometida por quem não os leu. Entre os caminhos que a língua portuguesa oferece, o senhor tem o direito de achar meado mais bonito ou mais lógico, mas não pode cometer o absurdo, no seu sonho onipotente, de dizer que Machado e Eça (que conhecem cem vezes mais o idioma do que todos nós) estavam errados.”

[O PRAZER DAS PALAVRAS – ZH — 24/09/2011]

Depois do Acordo: freqüentemente>frequentemente

Nota para os amigos do Prata

Embora de cunho nitidamente escatológico, acho necessário um pequeno esclarecimento dirigido a vocês e a outros hispanohablantes que porventura cheguem a ler esta página: meado, em Português, é o inofensivo particípio do verbo mear, “dividir em dois, partir ao meio”, enquanto meado, em Espanhol, é o particípio do verbo mear, “urinar” (sua raiz, segundo o dicionário da Real Academia, é o verbo  meiāre, do Latim Vulgar, que também originou o nosso rústico mijar). Ora, tendo esses verbos a mesma forma, mas significados tão diferentes, fica fácil imaginar a estranheza que o título deste artigo será lido por quem tenha o Castelhano como língua materna…

Aproveitando a charla — já que falamos de mijar e da Real Academia —, registro um fato pitoresco e praticamente desconhecido para o leitor brasileiro: entre as duas Grandes Guerras, na Espanha, os jovens membros de um movimento poético de vanguarda promoveram uma grande mijada (“una meada grupal“) nas paredes da Real Academia Espanhola. Este grupo, conhecido como a Geração de 1927, organizou várias manifestações para comemorar o tricentenário da morte do poeta Luís de Gôngora, cujo gênio e talento não eram ainda reconhecidos pela cultura oficial da época. Indignados com a indiferença dos acadêmicos para com uma data tão importante, reuniram-se, na tarde de 23 de maio de 1927, diante do edifício da Academia e, na descrição de uma testemunha, decoraram suas paredes com uma “caprichosa coroa de efêmeros jorros dourados”. Achei a ideia inspiradora; nossa ABL bem que merece a homenagem de uma meada colectiva, depois da c*g*da que fez com seu Vocabulário Ortográfico.

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Concordância Destaque Flexão nominal Lições de gramática Lições de gramática - Respostas rápidas

Um balaio de femininos

Assim como já fizemos com os plurais, aqui vai um balaio contendo vinte respostas rápidas sobre o feminino em nosso idioma.

 

elefanta, elefoa

Janaíne, de Belo Horizonte, quer saber se o feminino de elefante é elefanta ou elefoa. Diz que já assistiu a vários programas de televisão que consideram elefoa, mas nas gramáticas que consultou ela encontrou elefanta.

RESPOSTA — Minha cara Janaíne: nos textos clássicos não há registro algum de elefoa; alguns autores utilizam o feminino aliá, mas é um vocábulo oriundo do Ceilão e só se aplicaria ao elefante indiano. Tanto na linguagem culta quanto na usual a forma soberana é elefanta.

 

feminino de réu?

Fábio R. ouviu de uma colega que a mãe dela “poderia tornar-se ” num processo judicial, e quer saber se isso está correto — ou seria réu, ainda que se trate de uma mulher?

RESPOSTA — Meu caro Fábio: claro que existe o feminino! “Esta companhia é em doze processos trabalhistas”, “O juiz condenou a a dois anos de detenção”. Isso tu encontras em qualquer dicionário! Agora, em termos genéricos, falando nos dois pólos do processo, a mãe de tua amiga poderá figurar como réu: “Quem é o autor? A senhora Fulana de Tal. Quem é o réu? A senhora Beltrana dos Anzóis”.

 

anfitriã ou anfitrioa

O leitor Ubiratan diz que sempre tem ouvido anfitriã, mas que a forma anfitrioa lhe parece mais correta. E eu, o que penso?

RESPOSTA — Meu caro Ubiratan: tanto pode ser anfitrioa quanto anfitriã. Essa indefinição é uma das características dos nomes em –ão, que apresentam flexões variadas, ora em gênero, ora em número. Só para exemplificar, dei uma recorrida no Aurélio XXI e catei alguns vocábulos que admitem a variante em “-oa , além de -ã: anfitrioa, alemoa, ermitoa, faisoa, tabelioa, teceloa, viloa. Minha intuição lingüística me diz, entretanto, que as formas em são consideradas hoje mais cultas que as outras: anfitriã, alemã, ermitã, vilã.

 

tigresa

Flávio S. escreve sobre o feminino de tigre. Segundo ele, o Aurélio diz que é tigresa, porém seu professor discorda, afirmando que é “tigre fêmea“. Qual é o correto?

RESPOSTA — Meu caro Eduardo: tanto o Aurélio quanto o Houaiss registram tigresa como um feminino possível para tigre. Talvez essa forma tenha sido importada do Espanhol, onde ela é de uso comum, mas isso não importa. Tradicionalmente, aparece muito o “tigre fêmea”, mas o séc. XX viu também o incremento do uso do feminino sufixado. Escolhe o que te aprouver.

 

auto-elétrica

Adalberto, de São Paulo, diz que tem muita admiração pelo Sua Língua e aproveita para me dar os parabéns. Gostaria também de saber qual é o correto, se é auto-elétrico ou auto-elétrica.

RESPOSTA — Meu caro Adalberto: auto-elétrico é um adjetivo composto, do mesmo tipo que médico-cirúrgico. Como tal, ele vai concordar com o substantivo a que estiver ligado, flexionando sempre o segundo elemento do composto: tratamento médico-cirúrgico, clínica médico-cirúrgica, plantões médico-cirúrgicos. Da mesma forma, serviços auto-elétricos, oficinas auto-elétricas. Na rua, geralmente vemos auto-elétrica porque aqui se pressupõe claramente o vocábulo oficina (o mesmo substantivo feminino que está por trás da concordância de “retificadora de motores”, “vulcanizadora de pneus”, etc.

 

feminino de Reitor

Acir C., de Ponta Grossa (PR) pergunta: “Em nossa universidade surgiram algumas polêmicas e ninguém chegou a conclusão alguma. Nosso Reitor é um homem. A vice dele é uma mulher. Como ela deve ser chamada? Vice-Reitor ou Vice-Reitora? As mulheres são pró-reitores ou pró-reitoras?”

RESPOSTA — Prezado Acir, vejo que o machismo aí é pior do que em meu estado, o Rio Grande do Sul! Na UFRGS, tivemos, há pouco tempo, uma reitora; ela indicou vários pró-reitores e várias pró-reitoras. Com a inevitável ascensão da mulher, todos os cargos estão sendo flexionados no feminino: temos desembargadoras, senadoras, prefeitas, reitoras, juízas, promotoras (dá uma lida em Existe generala?). O que as mulheres daí dizem dessa polêmica?

 

gênero de omelete

Valquíria C., de São Bernardo do Campo, tem uma dúvida para qual ainda não encontrou resposta: deve dizer “vou fazer um omelete ou uma omelete”?

RESPOSTA — Minha cara Valquíria: embora o Houaiss omelete como sendo indiferentemente masculino ou feminino, prefiro seguir a lição do mestre Aurélio e considerar o vocábulo como feminino; não foi por acaso que a variante que se formou (e que ambos os dicionários registram) é omeleta. Portanto, fica com “vou fazer uma omelete” — e bom proveito.

 

gênero de “marmitex”

As professores Lena e Nilma F. perguntam se marmitex é palavra masculina ou feminina, formada por derivação de marmita.

RESPOSTA — Minhas caras: Marmitex, que eu saiba, não é palavra, mas uma marca comercial de papel aluminizado e afins (certamente derivada de marmita). Qual é o gênero? Não sei, porque a concordância, em casos como esse, é feita com relação ao objeto designado. Se for uma dessas “quentinhas” de alumínio, seria então “uma marmitex” — do mesmo modo que “uma gilete” (lâmina), “um modess” (absorvente), “uma havaiana” (sandália) — todas elas tradicionais marcas da indústria.

 

numeral no feminino

Alguém (ou algo) chamado Mweti, extremamente gentil, pergunta se o numeral 31.202, na frase “Durante o ataque, 31.202 mulheres foram feridas”, deveria ser lido “trinta e UMA mil, duzentas e duas mulheres”.

RESPOSTA — Prezado Mweti (?): tua intuição está correta; “trinta e uma mil mulheres” + “duzentas e duas mulheres” = “trinta e uma mil, duzentas e duas mulheres”.

 

feminino de beija-flor

Renata M. escreve da Virgínia, nos EUA, perguntando se a palavra beija-flor possui feminino, e por quê.

RESPOSTA — Minha cara Renata: não, beija-flor não tem feminino. As pessoas (e, conseqüentemente, o idioma) não distinguem os sexos das aves, exceto aquelas que, pela importância econômica (produção de ovos, por exemplo), precisam ser separadas em machos e fêmeas: pato, pata; galo, galinha; peru, perua; marreco, marreca. As demais — garça, pardal, ticotico, bem-te-vicurrupião, pintassilgo, águia, etc. — são tratadas como sendo de um só gênero. Às vezes hesitamos na hora de determinar o gênero de uma delas, mas isso é outra coisa: uns dizem um, outros uma sabiá, mas vão usar consistentemente a sua opção tanto para machos quanto para fêmeas.

 

plenário, plenária

O leitor Rosalino pergunta a diferença entre plenário e plenária.

RESPOSTA — Prezado Rosalino: Plenário é a sala onde se reúnem os parlamentares, os deputados, etc. (“Muitos servidores públicos lotavam o plenário da Assembléia“). Plenária é uma forma reduzida de referir-se a uma reunião: “Poucos professores participaram da [reunião] plenária de ontem à noite”.

 

búfala

Cleide A., de São Paulo, relata uma discussão com os amigos, numa pizzaria: “O correto é pedir pizza de mozarela de búfala, como está no cardápio, ou mozarela de búfalo? Logo alguém alegou que búfalo não tem feminino…”

RESPOSTA — Prezada Cleide: como não tem feminino? Claro que tem! É búfala, mesmo. Cuidado quando olhares no dicionário: quando ali diz “s.m.”, isso não significa que não tenha feminino. Basta procurar aluno, ou menino, e vais ver que o dicionário apenas diz qual é o gênero desta forma que encontraste — mas isso não se refere à  existência ou não da forma feminina. O Houaiss registra, com todas as letras, no verbete búfalo: “Fem.: búfala”.

 

muito dó

A leitora Tânia C., gaúcha, mantém uma discussão cordial com alguns amigos mineiros, que juram que a palavra (“pena”) é do gênero feminino, empregando expressões como “tenho uma de fulano” ou “me dá uma daquelas”. Qual é a forma correta?

RESPOSTA — Minha cara Tânia: , no sentido de “pena, piedade”, é um substantivo masculinotanto na opinião do Houaiss, como na do Aurélio, nossos dois dicionaristas mais abalizados. Aliás, a quase totalidade dos oxítonos em Ó são masculinos, como xodó, cipó, , etc., o que me faz estranhar muito essa tendência de certos estados do país (não é só Minas…) usarem como feminino. A única explicação seria uma confusão semântica com pena, a partir de analogias do tipo “estou com muita pena” = “estou com *muita dó“.

 

o gride de largada

Milton Sebastião pergunta sobre o gênero da palavra grid: é masculino ou feminino? Usamos O grid ou A grid?

RESPOSTA — Prezado Milton: embora alguns (poucos) usem o feminino, talvez por associarem a grade, a esmagadora maioria dos brasileiros (na informática, na cartografia, no automobilismo) usa o vocábulo como masculino (o grid, ou, como vai terminar ficando, o gride). É como substantivo masculino que o vocábulo vem registrado no dicionário Houaiss.

 

gênero de paradigma

Rita, de Belo Horizonte, que trabalha em um escritório de advocacia, escreve para dizer que o seu chefe, ao falar de um acusado, costuma dizer que ele é um paradigma; se for uma acusada, diz que ela é uma paradigma. “Afinal, paradigma é um substantivo de dois gêneros?”

RESPOSTA — Prezada Rita: se entendi bem, o problema é saber se paradigma se comporta como analista: um analista, uma analista. Ora, é claro que não; paradigma, como testemunha, é vocábulo de um gênero só: ele é uma testemunha, ela é uma testemunha; ele é um paradigma, ela é um paradigma.

 

formanda

Renato G., de Porto Alegre, reclama que o Aurélio, tanto quanto o Houaiss, indicam o verbete formando como substantivo masculino. Pergunta: “Devo falar nos convidados do formando ou da formanda Denise?”

RESPOSTA — Meu caro Renato: este é um cacoete de nossos dicionários. Eles registram os substantivos no masculino singular (o que é boa técnica), mas insistem em especificar, a seguir, “s.m.” — como se esse fosse o único gênero que o vocábulo admite. Examina aluno e cantor , por exemplo, e vais encontrar essa indicação defeituosa. Eles deveriam indicar que o vocábulo tem os dois gêneros, ou limitar-se a indicar “s.m.” e “s.f.” quando se tratasse de substantivo de um só gênero. É claro que existe formanda, assim como formandos e formandas.

 

gênero de mascote

A leitora Vera H. vem gentilmente perguntar se mascote é masculino ou feminino.

RESPOSTA — Minha cara Vera: mascote é um substantivo feminino; “aquele carneiro é a mascote do regimento”, “o papagaio era a mascote preferida dos indígenas”, e assim por diante. Assim vem no Houaiss e no Aurélio; acho que há, contudo, uma forte tendência a considerar este substantivo como um comum-de-dois, como estudante (O mascote, A mascote), dependendo do gênero do animal a que se refere. Em breve os dicionários vão ter de registrar essa dupla possibilidade.

 

masculinos terminados em A

Kleber S. escreve de Hannover, Alemanha, indagando sobre substantivos masculinos que terminam em A. Diz ele: “Conheço uma exceção clássica como planeta e sei que existem aqueles que se aplicam aos dois gêneros, como pateta. Existe algum outro substantivo masculino terminado em a ou feminino com final o?”.

RESPOSTA — Meu caro Kleber: existem vários substantivos masculinos terminados em A: planeta, cometa, mapa, tapa, tema, diadema, sofisma, diagrama, telefonema, aneurisma, etc. — muitos deles, não por acaso, considerados femininos até o século XVI (Camões usava escrever “A cometa”, “A planeta”). Agora, femininos em O são raríssimos; temos tribo, libido e reduções de vocábulos maiores, como foto e moto.

 

arquiteto, arquiteta

Escreve a leitora Gabriela A.: “Bondoso Professor, gostaria de esclarecer a seguinte dúvida: arquiteto é um substantivo exclusivamente masculino? Posso escrever que uma mulher é uma renomada arquiteta, ou essa palavra não é usada no feminino?

RESPOSTA — É evidente, dona Gabriela, que arquiteto é um substantivo masculino, mas arquiteta é a forma feminina correspondente! “Fulana é uma renomada arquiteta“, é claro. Esse é um erro técnico de nossos dicionários: registrar, ao lado dos substantivos de dois gêneros, a rubrica s.m., entre parênteses. Olha em qualquer dicionário e vais encontrar “aluno (s.m.), “lobo (s.m.)”, dando a falsíssima impressão de que eles só têm uma forma — quando, sabes muito bem, o Português tem aluna e loba desde o séc. 12. Só na França, por uma dessas coisas inexplicáveis, os substantivos ligados a profissões não admitem feminino — mas as francesas já estão fazendo um movimento bem aguerrido para terminar com essa discriminação.

 

a cal

Fábio M., de Juiz de Fora (MG), entregou um trabalho seu para ser revisado e ficou em dúvida quanto a uma correção feita pela professora de Português: “Escrevi que O cal era utilizado na indústria para neutralização química, e ela modificou para A cal. Gostaria de saber sua opinião”.

RESPOSTA — Ora, Fábio, a “minha opinião” é que a razão está com a professora que te corrigiu. Todos os dicionários dão cal como substantivo feminino (ao contrário de sal, por exemplo, que é masculino). É por isso que se fala em cal hidratada, cal viva, etc.


Depois do Acordo:

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lingüística> linguística
conseqüentemente>consequentemente
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tsunami

Por que fomos pedir emprestado ao japonês o vocábulo TSUNAMI? Nossa língua não tem palavra própria para designar um vagalhão desse tamanho?

 

Raros serão os leitores desta coluna que já ouviram falar no dr. Castro Lopes, homem de letras que chegou a gozar de certa notoriedade no final do século XIX. Defensor fanático de uma causa equivocada — ele se opunha à “invasão” de vocábulos estrangeiros —, este filólogo diletante acabou se tornando um personagem cômico, que muito fez rir Machado de Assis e seus contemporâneos com sua indignação de opereta contra os estrangeirismos e com as soluções estapafúrdias que propunha para substituí-los. Seu livro mais conhecido é de 1889, Neologismos indispensáveis e barbarismos dispensáveis (“barbarismos” seriam os vocábulos provenientes de outros idiomas), obra em que relaciona cinqüenta palavras estrangeiras muito em voga por aqui, na época, condena-as sem piedade e, sem muito estudo ou modéstia, propõe trocá-las por vocábulos que ele próprio ia criando com retalhos do Grego e do Latim. Como a Igreja faz com seus dogmas, diz Machado, o Dr. Castro Lopes compõe palavras novas “com os elementos que tira da sua erudição, dá-lhes a bênção e manda-as por esse mundo”…

Ora, a julgar pela boa saúde de que até hoje desfrutam palavras que ele condenou (e pelo riso que despertam suas sugestões, que coloquei entre os parênteses), pode-se dizer que ele tinha razão quando se queixava aos amigos de ser tratado como Cassandra, a princesa de Troia a que ninguém dava ouvidos. Estavam na sua lista negra: abajur (lucivelo), piquenique (convescote), turista (ludâmbulo), engrenagem (entrosagem), feérico (fádico, de “fada”), drenar (haurinxugar), massagem (premagem), engomar (telisar, de “tela” + “alisar”), golpe de Estado (legicídio social), greve (operinsurreição, “insurreição de operários”), chalé (castelete). Castro Lopes também cismou com avalanche, sem se dar conta de que era natural que não tivéssemos um vocábulo para designar um fenômeno como esse, tão raro em Portugal e completamente desconhecido na geografia do Brasil. Sua sugestão foi nada menos que runimol, um pequeno frankenstein formado de ru (do Lat. ruere, “correr precipitadamente”) + ni (de nix, nivis, “neve”) + mol (de moles, “massa”): “uma massa de neve que se precipita”. Prevendo o fiasco, apontou a possibilidade de usarmos, para o mesmo fim, a palavra alude, a qual, embora não tivesse a sonoridade de runimol (segundo ele), tinha ao menos a virtude de ser muito nossa — no que também se equivocava nosso bom doutor, pois esta é uma velha importação do Espanhol…

Além disso, ele não poderia perceber que estava em andamento, aos poucos, um movimento de globalização linguística, especialmente na área científica, que veio a se consolidar com o rádio, o cinema e, mais tarde, a TV e a internet. Começava a surgir um elenco de “palavras internacionais”, sem pátria e sem fronteira, adotadas por quase todas as línguas modernas do mundo (respeitadas as evidentes peculiaridades ortográficas de cada uma). Palavras como álcool, banana, canguru, chocolate, elefante, fax, futebol, gay, hotel, jazz, jeans, microfone, ninja, planeta, rádio, sauna, táxi, teatro, telefone, tigre, vídeo, violino, xerox, ioga, zoom foram se separando gradativamente de suas línguas originais, passando a integrar um fundo lexical comum, cada vez mais numeroso. Avalanche (ou avalancha, como preferem alguns) hoje está presente em dezenas de idiomas, muito usado também pelo sentido figurado de “quantidade avassaladora” (“uma avalanche de protestos”, “uma avalanche de pedidos”).

Isso também ocorre com outros vocábulos que designam fenômenos naturais específicos de determinadas regiões. Falamos de fiordes em várias partes do mundo — inclusive no Chile e na Argentina —, embora o original venha da Noruega (fjord). Gêiser vem do Inglês geyser, que veio, por sua vez, do Islandês Geysir, nome de uma fonte de água quente no sul da Islândia, mas existem gêiseres nos EUA, na Rússia, na Guatemala, na Indonésia, na Islândia, no Japão, etc. O iceberg (já existe a grafia semiaportuguesada icebergue) vem do Noruguês is (“gelo”) + berg (“montanha”), mas está presente em dezenas de idiomas. É aqui que entra tsunami, palavra vinda do Japonês, pronunciada até a náusea nos últimos dias. Para alguns cientistas, não precisamos dela, pois designaria a onda gigantesca que também chamamos de maremoto, produzida por um terremoto oceânico; para outros, porém, maremoto designa o sismo ocorrido no mar, e tsunami seria apenas a onda por ele produzida. Seja como for (os geólogos e sismólogos que decidam), já é uma palavra do nosso léxico, que o adotou como substantivo masculino, passível de flexionar também em número: o tsunami, os tsunamis.

Depois do Acordo:
cinqüenta > cinquenta
lingüística > linguística

 

 

Sobre o GÊNERO de tsunami

Alvaro S., de Criciúma (SC), quer saber qual é o gênero dessa onda gigante que afetou a Ásia e trouxe confusão à vida de milhões. “Eu aprendi que, nas palavras novas, o uso é que vai determinar o gênero. Por ser uma onda, seria feminino. O raciocínio está correto?”

Meu caro Alvaro: tsunami já está dicionarizado, registrado como masculino tanto no Houaiss quanto no Aulete. Agora que a palavra entrou no vocabulário do falante comum, vamos ver se esse gênero se confirma, ou se a preferência vai para o feminino. Agora, não me venhas com essa de subentender onda; os técnicos vão te redarguir que eles subentendem vagalhão (eta, palavrinha feia essa!). Já fiz minhas pesquisas com algumas cobaias que estão mais perto de mim, perguntando o que eles pensam quando ouvem tsunami; a resposta deles (pode não ser correta, geograficamente, mas é o que lhes veio à cabeça) é que tsunami é um maremoto. Estás a ver como são as coisas? Por isso é que a prudência recomenda: vamos esperar, para ver como a sensibilidade dos brasileiros vai receber o termo. Abraço. Prof. Moreno



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o terceiro balaio de plurais

software/hardware

Estamos finalizando um folheto publicitário e deparamos com uma dúvida atroz: na frase “O Governo Federal adota vários softwares produzidos por esta empresa”, aquele plural está correto? Meu chefe disse que não existe o plural de software, assim como também não existe o de hardware. ciO cliente está correto?

Luciana G. São Paulo

 

RESPOSTA Prezada Luciana, o Inglês já tem o plural softwares; embora os puristas da Informática defendam a existência apenas do singular, este plural passou a ser empregado largamente a partir do momento em que o vocábulo passou a ser usado como sinônimo de “programa de computador” (como mostra muito bem o teu exemplo). Só para teres uma idéia, hoje (maio de 2010) hardwares cravou mais de dois milhões ocorrências no Google, enquanto softwares abre bem os olhos! bateu bem mais de cem milhões de ocorrências. O teu chefe disse que “não existe”? Ele não entende nada de linguagem. Ele poderia alegar, isso sim, que o uso técnico recomenda o singular — mas até isso, como podemos ver por estes números astronômicos, já está ficando discutível.

 

correios?

A EBCT usa, até no seu símbolo, o nome correios, mas o Aurélio não apresenta essa palavra. Aliás, define correio como sendo a repartição pública que recebe e expede correspondência. Perguntando à empresa, ela respondeu que o correto é mesmo correios. Afinal, qual é o certo?

Pedro B. – Natal

RESPOSTA – Ô, Pedro, o Aurélio registra o singular o que não significa que o vocábulo não possa ter plural! O nome da empresa, se notaste, usa o plural em correios e em telégrafos desde a proclamação da República, o que parece indicar que desde aquela época o conceito engloba vários tipos de correio talvez correio aéreo, correio terrestre, correio militar, assim como hoje falamos de correio-papel, de correio-eletrônico, etc. Se a empresa diz que é assim, assim é; o que o dicionário registra vale para a palavra, não para a pessoa jurídica. Da mesmas forma, temos as Lojas Americanas, as Casas Pernambucanas, e por aí vai a valsa.

 

histórico-geográfico

Eu gostaria de saber se está correto o plural de histórico-geográfico na frase “O geógrafo pediu vários levantamentos histórico-geográficos da região”.

Elianai C.

RESPOSTA – Prezado Elianai, qualquer adjetivo composto de dois outros adjetivos só pode flexionar no seu segundo elemento: clínicas médico-cirúrgicas, levantamentos histórico-geográficos, etc.

 

microempresa

Professor, aqui no trabalho estamos com uma dúvida cruel. Meu chefe insiste em colocar no site da empresa o termo micros empresas. Aprendi que não usamos prefixos no plural. E agora?

Keli O.

RESPOSTA Keli, o vocábulo é microempresa – tudo junto, sem hífen e sem espaço. Como é que vamos enfiar um S de plural ali no meio? Impossível. O plural é microempresas; agora, ninguém é obrigado a escrever as palavras da maneira correta, especialmente os chefes…

 

dias da semana

Gostaria de tirar uma grande dúvida com relação ao plural dos dias da semana. O correto é segundas-feira ou segundas-feiras?

Sônia A.

RESPOSTA – Prezada Sônia: todos os sábados, domingos, todas as segundas-feiras, terças-feiras — e assim por diante.

 

4ª-feira

Gostaria de saber se, quando escrevo “todas as 4ªs feiras”, devo passar tanto o numeral quanto feira para o plural.

Irma M. Lins (SP)

RESPOSTA – Cara Irma, tua dificuldade nasce do fato de usares essa bizarra combinação de abreviatura numérica com a flexão natural do vocábulo por extenso. Por que não quartas-feiras? Quando o ordinal for um dos elementos constitutivos de substantivo composto, não deve receber a abreviação de simples numeral. Vais escrever primeiro-ministro, mas nunca 1º-ministro; vais escrever “Tenho ensaio todas as quartas“, mas nunca “Ensaio todas as 4ªs“.

 

plural no adjunto adnominal

Caro professor Moreno, meu filho pediu-me que passasse a frase “Não havia água mais fresca e gelada que água de cacimba” para o plural. Respondi que devia ser “Não havia águas mais frescas e geladas que águas de cacimbas” — e o danado disse que errei, pois cacimba não deve ir para o plural. Ele está certo?

Sandro

RESPOSTA – Um dia, Sandro, isso começa a acontecer conosco e não pára mais: os filhos começam a saber mais do que a gente. Ele tem razão; muito, mas muito raramente se justifica a pluralização do adjunto adnominal ligado por preposição: casa de sapê, casas de sapê; floco de neve, flocos de neve; pastel de forno, pastéis de forno; água de cacimba, águas de cacimba.

 

ponte-rolante

Surgiu uma dúvida, aqui na empresa, sobre o plural de uma palavra composta, ponte-rolante. Eu flexionei como pontes-rolantes porque a regra diz que substantivo e adjetivo variam em gênero e número. Mas a maioria concordou que o plural seria pontes-rolante. Quem tem razão?

Cláudio R. S.

RESPOSTA É uma triste constatação, Cláudio, mas geralmente a maioria não tem razão. O raciocínio correto é o teu: compostos de substantivo+adjetivo flexionam em ambos os elementos: ponteslevadiças, onçaspintadas, pontesrolantes.

 

mercado-nicho

Professor, aprendi que, num composto de substantivo+substantivo, só o primeiro irá para o plural quando o segundo servir apenas para indicar a finalidade do primeiro: navio-escola, navios-escola. E quando eu escrevo, por exemplo, “o valor das ações nos mercados-nicho“, trata-se do mesmo caso? E precisa deste hífen?

Maristela M.

RESPOSTA – Prezada Maristela, mencionaste corretamente a regra que se aplica neste caso: quando o segundo elemento de um composto substantivo+substantivo indicar finalidade, só o primeiro vai flexionar. Além disso, embora se trate de um mostrengo vocabular, deves usar o hífen: palavra-chave, palavras-chave; mercado-nicho, mercados-nicho. É bom que saibas, no entanto, que não existe regra para isso. O uso do hífen com prefixos foi regulamentado, mas o resto como o presente caso ainda é uma Terra de Ninguém. Basta ver as grafias ponto e vírgula e ponto-e-vírgula, entre as quais se dividem até hoje os gramáticos e dicionaristas (gente que, como era de se esperar, deveriam ter mais certeza ao escrever).

 

gaze

Trabalho na área da saúde como intrumentadora cirúrgica em um hospital; um dia desses surgiu uma dúvida, e meus colegas me encarregaram de encontrar resposta… Qual é o plural de gaze? Alguns dizem que não existe, outros que seria gazes; outros simplesmente contornam o problema e dizem compressas de gaze e ninguém quer cometer um erro, já que os cirurgiões adoram corrigir as pessoas “inferiores”.

Luciana V. – Sorocaba

RESPOSTA – Minha cara Luciana, o plural de gaze (registrado, inclusive, no Houaiss) segue a norma de qualquer substantivo terminado em “E”: gazes. O que talvez os médicos estranhem é o uso do plural em um substantivo que é geralmente “de massa”, não-contável como algodão. Este também tem plural, mas raramente temos a oportunidade de empregar algodões (como arrozes, açúcares, méis, etc.), a não ser quando nos referimos a vários tipos da mesma substância (“Os algodões da Ásia são diferentes dos algodões do Brasil”). No teu trabalho, no entanto (principalmente se a gaze e o algodão presentes na sala de cirurgia obedecerem a dimensões padronizadas), acho perfeitamente adequado utilizar esses vocábulos de maneira individualizada: “Preciso de uma gaze“, “Um algodão só não vai ser suficiente”, “O doutor esqueceu duas gazes e três algodões dentro do paciente”.

 

viés

Professor Moreno: por gentileza, estimaria saber o plural de viés. Fica assim mesmo, ou recebe alguma terminação?

Alice Rosa

RESPOSTA Minha cara Alice, o plural é vieses como revés, reveses ou convés, conveses.

 

o quadrado dos catetos

Deixando de lado a matemática e pensando friamente nas concordâncias de nosso Português, qual a forma correta? Espero que Pitágoras não revire em seu túmulo, mas a hipotenusa é igual à raiz quadrada da soma do quadrado dos catetos ou da soma dos quadrados dos catetos.

Emerson O.

RESPOSTA Meu caro Emerson: nada impede que se use o plural, como se vê bastante nos livros de Matemática (“a soma dos quadrados dos catetos”). Parece-me, no entanto, que nossa língua prefere usar simplesmente o singular, quando se refere a vários possuidores do mesmo item. “O nariz dos indianos é afilado”, “A boca das espanholas é mais vermelha”, “Isso ficou para sempre no coração dos brasileiros“. Da mesma forma, “a área dos triângulos”, “o quadrado dos catetos”, “a base dos cilindros”. É uma questão que hoje ainda divide os falantes em dois grupos quase iguais, mas acho que pouco a pouco começa a prevalecer o singular.

 

terra natal

Oi, professor! Qual seria o plural correto da frase “No inverno a pessoa volta para sua terra natal”? Seria “as pessoas voltam para sua terra natal” ou “para suas terras natais”?

Camilla

RESPOSTA Ora, Camilla, a tua pergunta, na verdade, não é sobre o plural, mas sim sobre a necessidade de flexionar a expressão que se refere a muitas pessoas. “Os esquimós coçam o nariz“, “os torcedores do Flamengo saíram com a alma lavada notaste como usamos o singular? Portanto, “Os dois amigos vão voltar para sua terra natal mesmo que um volte para a Inglaterra e o outro para a França

 

baleia-franca

1) Tenho uma dúvida que não quer calar! O plural de baleia franca é baleias franca, certo?

Jaqueline – Imbituba (SC)

RESPOSTA O plural de baleia-franca (tem hífen!) é baleias-francas, Jaqueline; franca é, aqui, um adjetivo, e deve portanto flexionar normalmente.

2) Porém franca não é um adjetivo e sim o nome vulgar de uma espécie animal. Não quero dizer que as baleias são francas mas sim que tenho duas ou três baleias de determinado nome, entende?

Jaqueline – Imbituba (SC)

RESPOSTA Jaqueline, franca é um adjetivo, sim, assim como azul, bicuda e branca. Por isso, no plural, ambos os elementos flexionam: baleias-francas, baleias-azuis, baleias-bicudas e baleias-brancas assim dizem o dicionário do Houaiss e o do Aurélio. Diferente seria se o segundo elemento do composto fosse um substantivo: baleias-piloto, baleias-pamonha nesse caso, só o primeiro elemento flexionaria. Sinto muito, mas não tens razão.

 

câncer

Professor Moreno, o plural de câncer é cânceres ou câncers?

Mozara T. – Porto Alegre

RESPOSTA Prezada Mozara: não temos finais em “RS” em nosso idioma. Revólver, revólveres; mártir, mártires; câncer, cânceres.

 

box

Uma amiga me pede ajuda na difícil tarefa de pluralizar uma palavra estrangeira. Qual é o plural de box (local de estacionamento): boxes ou boxs? No google, eu encontrei ambas, portanto permaneço na dúvida. Desde já lhe agradeço.

Luís Augusto L.

RESPOSTA – Meu caro Luís: o ponto de partida já está equivocado. O espaço de estacionamento (assim como o “quartinho” onde fica o chuveiro) é boxe (com “E” no fim), plural boxes. Se a tua amiga insistir em escrever o vocábulo na sua grafia original (box, no Inglês), o plural estrangeiro ainda assim seria boxes. “*Boxs” não existe nem aqui, nem na Inglaterra.

 

meio-fio

Como é o plural de meio-fio (cordão da calçada)?

Isabel – Porto Alegre

RESPOSTA – Prezada Isabel: meio é um numeral fracionário e concorda em gênero e número com o substantivo que acompanha: meios-fios, como meias-entradas, meias-solas, meias-garrafas, é meio-dia e meia [hora].

 

café

Estamos diante de um impasse: os cultos dizem que o certo é cafezes. Já os leigos discordam e preferem cafés. E aí, quem ganha esta peleja? Eu fico no time dos leigos…

Amigo

RESPOSTA Desculpa, amigo, mas jamais ouvi alguém “culto” dizer cafezes. Isso não existe, que eu saiba. Todos os cultos e os incultos dizem cafés, que sempre foi o plural.

tricô

Professor, qual seria o plural de tricot? Sempre ouvi falar em tricots, com “S” no final, mas será que tricotes também nao estaria certo?

Alex M. – Rio de Janeiro

RESPOSTA – Meu caro Alex, a palavra é tricô, plural tricôs. Tricot é Francês, plural tricots.

extraclasse

Professor, discutimos muito na escola e temos várias dúvidas, entre elas qual seria o plural de extraclasse. Qual o uso correto? Extraclasses? Ou a palavra fica invariável?

Luciana S. – Gravataí (RS)

RESPOSTA Prezada Luciana: a meu ver, extraclasse fica invariável; os vocábulos com “extra” costumam flexionar porque quase sempre o elemento à direita é um adjetivo (extraconjugais, extracurriculares, extraoficiais, etc.) o que não é o caso, aqui, em que classe é um substantivo. Portanto, se o considerarmos análogo àqueles adjetivos compostos em que um dos elementos é um substantivo (casas verde-mar, raios ultravioleta, etc.), ele não vai flexionar.

 

blitz

Outro dia o jornal local estampou a manchete de que a polícia havia efetuado “várias blitze“. Eu conhecia só blitz. Se já temos “ZZ” (em pizza), “TCH”, “PS”, “PN”, que mal há em ter uma palavra terminada em “TZ”? Aquele “E” foi para aportuguesar? E por que faltou o “S” do plural?

Marcus F.

RESPOSTA Puxa, Marcus, que confusão eles fizeram! Que eu saiba, o vocábulo alemão blitz faz o plural blitzen. No entanto, o aportuguesamento (sempre benéfico) deste vocábulo dá blitze no singular, blitzes no plural. A manchete quis ficar em cima do muro e errou; que escrevessem, então, “várias blitzen” (o que 90% dos leitores estranhariam), ou “várias blitzes“.

 

quaisqueres?

Olá, prof. Moreno: ainda hoje estava jogando War com meus amigos e num dos cartões do jogo estava escrito: “Escolha dois territórios quaisquer“. Um de meus colegas disse que está errado e que o plural de qualquer é quaisqueres. Confesso que fiquei na dúvida apesar de nunca ter ouvido tal termo. Qual é o certo, afinal?

Felipe P. – São João da Boa Vista (SP)

RESPOSTA Meu caro Felipe, qualquer é um pronome que tem a estrutura (particularíssima) de um vocábulo composto. O singular é formado de qual+quer; quais+quer formam o plural, que é interno. Não existem *qualqueres ou *quaisqueres.

 

quaisquer

Ellen, leitora de Cuiabá, tem dúvida quanto à diferença entre qualquer e quaisquer. “Possuem o mesmo significado? Como devem ser empregadas?”

RESPOSTA Minha cara Ellen: quaisquer é o plural de qualquer. Compara “eu não tenho qualquer dúvida” com “eu não tenho quaisquer dúvidas“. Dois exemplos do Machado de Assis: “Quaisquer que fossem as cores…”; “o casamento, quaisquer que sejam as condições, é um antegosto do paraíso”.

 

os guarani?

José Ricardo B. Almeida, de São Paulo, diz ter lido num livro escolar uma frase que começava assim: “Os jesuítas entraram em contato com os Guarani“. Isto está certo?

RESPOSTA – Não, meu caro José ao menos em livros escolares. Isso aí foi uma moda inventada pelos antropólogos: há uma convenção de uso, entre eles, de sempre deixar o nome das tribos indígenas no singular: “os bororo“, “os guarani“. Isso não vale, no entanto, para a linguagem das pessoas normais (como, aliás, convenções específicas usadas entre matemáticos ou químicos também não valem). Vamos escrever “os guaranis“, “os tupis“, “os tupinambás“, “os timbiras“, como sempre escreveram os nossos melhores autores (basta ler Vieira, Alencar e Gonçalves Dias, por exemplo).

Depois do Acordo: pára > para (equivocadamente, aliás)