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Como se escreve Emprego das letras

erva, herbívoro

Professor Moreno: queria saber do Doutor por que erva, que vem do latim herba, escreve-se sem o H, e seus derivados com o H? Sou estudante de Letras e, fazendo  estágio em um colégio, o aluno perguntou ao professor o porquê desta  diferença; o professor disse ao aluno que era uma norma da gramática. Por que a gramática distancia tantas coisas de suas origens? Talvez por que a  língua é tratada pela sincronia e não pela diacronia? Muitíssimo obrigado!   

Anônimo 

Meu caro Estudante de Letras Anônimo: seguramente o professor a cuja aula assististe não é um modelo que devas seguir. Como pode ele evocar uma “norma da gramática” onde não há nenhuma? Pares como erva/herbívoro são muito comuns em nosso idioma — e simples de explicar a nossos alunos. O radical latino HERB– evoluiu, dentro do Português, para ERV– (o H desapareceu e o /b/, por regras de fonética histórica, passou a /v/); no entanto, como deves ter estudado na faculdade, os Humanistas do Renascimento Português voltaram-se para o Latim em busca de palavras que aumentassem nosso vocabulário incipiente e terminaram criando os famosos dublês, que estão presentes em todas as Línguas Românicas. Temos, portanto, dois radicais que coexistem, o evoluído e o reconstituído; há vocábulos que derivam do radical antigo, latino (herbívoro, herbáceo, herborizar) e vocábulos que derivam do radical moderno (erva, ervaçal, ervateira). O mesmo acontece, por exemplo, com hibernal, hibernar, hibernação, de um lado, e inverno, invernada, invernia, de outro. Se nós, professores, não tivermos claros os princípios e os conceitos, o que será de nossos pobres alunos? Abraço, e boa sorte! Prof. Moreno

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Formação de palavras Lições de gramática

dublês

Prezado Doutor: li que o esgoto da chuva é chamado de esgoto pluvial por se tratar de um “dublê”; procurei este vocábulo no Aurélio e no Houaiss, mas não encontrei nenhum significado que fizesse sentido. Genésio W. — Salvador

Meu caro Genésio: realmente, este vocábulo não se encontra registrado em nossos dicionários, apesar de ter sido muito usado pelos filólogos e estudiosos de Gramática Histórica, na forma francesa de doublet; hoje o mais comum é encontrá-lo substituído por “forma divergente”. Os “dublês”, ou formas divergentes, são dois vocábulos do Português que têm a mesma origem latina (ou, mais raramente, grega), mas que entraram na língua por caminhos diferentes: um deles seguiu a evolução fonética normal, enquanto o outro foi tomado de empréstimo diretamente do Latim. Assim, selo e sigilo são “dublês”, provenientes do mesmo vocábulo latino, sigillu; enquanto a evolução produziu selo, os humanistas do Renascimento foram buscar, diretamente do dicionário, a forma sigilo.

Esta dupla influência latina foi muito importante para a ampliação do léxico das Línguas Românicas. Uma base de Latim Vulgar entrou nas regiões conquistadas por Roma e ali evoluiu, misturando-se às línguas locais. Dessa mistura originaram-se o Português e o Espanhol, na Península Ibérica; o Francês, ao norte dos Pireneus; o Italiano, na Península Itálica; etc. As palavras latinas foram sofrendo o lento trabalho dos séculos, evoluindo para formas foneticamente diferenciadas para cada língua. Por exemplo, o homo latino produziu homem (Port.), homme (Fr.), hombre (Esp.) e uomo (It.). Este vocabulário inicial era predominantemente concreto, ligado à vida e à realidade quotidiana; nossos antepassados dos séculos XI, XII ou XIII não sentiam as limitações desse vocabulário evoluído pela simples razão de que toda a prosa técnica, todo o ensaio, todo o trabalho acadêmico era redigido (como, aliás, em toda a Europa) em Latim Literário. No entanto, à medida que aumentava a tendência a usar o próprio vernáculo também para esses textos (a partir do séc. XIV), os escritores perceberam a dificuldade de se expressar com a pequena quantidade de verbos, adjetivos e substantivos abstratos. Como tinham consciência de que o Português era filho do Latim, pensaram que nada mais natural seria do que recorrer mais uma vez aos depósitos da língua-mãe — e assim foi feito. Centenas de vocábulos foram colhidos diretamente do dicionário latino, criando-se assim essas duplas de irmãs em que uma delas, a forma evoluída, tem as marcas dos séculos, enquanto a outra, a forma reconstituída, é fresca como uma recém-nascida (e, por isso mesmo, muito mais parecida com a forma primitiva):

Isso explica, Genésio, por que todos nós escutamos, enquanto o médico ausculta, por que uma dor no olho nos leva ao oculista e por que a água da chuva escoa pelo esgoto pluvial. Além disso, suspeitamos que o fato do lucro ser irmão de sangue do logro não deve ser mera coincidência. Abraço. Prof. Moreno

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Formação de palavras Lições de gramática

praga

Assim como uma suave brisa faz a brasa se transformar em labareda, assim a imprensa e a internet, nos últimos dias, tanto sopraram que levantaram uma verdadeira polêmica sobre a tradução do termo latino plaga, utilizado por Bento 16 na sua exortação Sacramentum Caritas, ao se referir ao casamento entre duas pessoas divorciadas. O Papa escreve em Latim e sabe, melhor do que ninguém, escolher as palavras que usa. O problema, dizem, foi a versão em Português: o sítio do Vaticano, que traz o documento em várias línguas, ostenta, na página dedicada ao nosso idioma, a expressão uma verdadeira praga, escrita com todas as letras. Alguns preferiram ver aqui um escorregão do tradutor do Vaticano, alegando que ele deveria ter empregado o termo chaga, o equivalente em vernáculo ao Latim plaga. Outros, no entanto, não viram equívoco algum: era praga mesmo o que o Santo Papa pretendia dizer — e disse.

Eu tinha decidido que não ia meter minha colher torta nesta questão, e por dois simples motivos: primeiro, como não sou católico, não me sinto à vontade para analisar as palavras do líder espiritual de uma religião que não professo; segundo, mesmo que fosse, não veria muita diferença entre as duas traduções possíveis, já que qualquer uma delas deixa muito claro que o Vaticano vê o casamento entre pessoas separadas como uma prática condenável na comunidade católica: entre praga ou chaga talvez haja uma diferença de gradação, mas, no fundo, tanto faz dar na cabeça como na cabeça dar. Por isso, eu pretendia passar ao largo, à espera, muito simplesmente, de que a própria Santa Sé pusesse um ponto final em tudo, esclarecendo qual era a intenção primitiva do texto papal. Ao ver, no entanto, que os intrometidos de sempre já começavam a sair de suas tocas, descascando no lombo do anônimo tradutor do Vaticano e acusando-o de ter cometido um erro primário, resolvi sair em sua defesa e demonstrar que sua confusão — se é que ocorreu — estaria plenamente justificada pela sutileza das distinções.

O problema já começa na passagem do plaga latino para o nosso idioma, pois este é justamente um dos vocábulos envolvidos na fascinante história dos dublês (do Francês doublet), também conhecidos como formas divergentes: dois vocábulos que têm a mesma origem latina (ou, mais raramente, grega), mas que entraram na língua em épocas diferentes. A forma mais antiga seguiu a evolução fonética normal, enquanto a outra é um empréstimo tardio que os escritores do Renascimento foram colher diretamente nos dicionários latinos, por sentirem que a pequena quantidade de verbos, adjetivos e substantivos abstratos que o Português oferecia era insuficiente para o que precisavam expressar. Enquanto a forma evoluída tem a marca dos séculos, a forma reconstituída é fresca como uma recém-nascida (e, por isso mesmo, muito mais parecida com a forma primitiva): selo e sigilo, por exemplo, provêm do mesmo vocábulo latino, sigillu; a evolução produziu selo, mas os eruditos reabilitaram sigilo. Hoje as duas convivem pacificamente, cada uma com seu significado e com seus derivados. Da mesma forma delgado e delicado (do Lat. delicatu), escutar e auscultar (de auscultare), coalhar e coagular (de coagulare), desenho e desígnio (de designiu), macho e másculo (de masculu), logro e lucro (de lucru), contar e computar (de computare), e muitos outros. Os vocábulos latinos iniciados pelo encontro consonantal PL trocam-no por CH no Português: de pluvia vieram chuva e pluvial; de plumbum, chumbo e plúmbeo; de plenum, cheio e pleno; de planus, chão e plano; e, como era de esperar, de plaga vieram chaga e praga. Bingo!

Para complicar ainda mais o enredo, o termo plaga, que significava “chaga, ferida aberta” no Latim clássico, adquiriu também o sentido de “flagelo” no Latim da Bíblia Vulgata! E agora? Em qual desses latins Bento 16 estava pensando, quando usou o vocábulo? E não adianta muito bisbilhotar nas versões para outras línguas: a espanhola traz plaga (“flagelo”, em vez de llaga, “ferida”), acompanhado pela inglesa, que traz scourge (“flagelo”), mas a italiana usa piaga, que tanto pode ser “ferida”, quanto “flagelo”. A francesa em nada ajuda, porque o termo escolhido — plaie — também tem os dois sentidos (“les plaies de Jésus-Christ” — as chagas de Cristo — e “les dix plaies d’Égypte” — as dez pragas do Egito). E ainda criticam quem traduziu o texto para o Português! A pessoa mais indicada para desmafagafizar esse ninho de mafagafos seria o próprio autor, mas, até agora, quem se arriscou a falar em seu nome foi o bispo Karl Josef Romer, que declarou, em entrevista ao Estadão, que “é praga mesmo, é isso que o Santo Padre quis dizer, pois ele é muito cuidadoso na escolha das palavras”. Sim, Dom Romer, Sua Santidade escolheu o Latim plaga, que significa … E lá vamos nós de novo! Tenho certeza de que o Papa, quando perceber a dúvida de interpretação suscitada pelo termo que aparece  na versão portuguesa, vai tratar ele próprio de esclarecer qual a melhor tradução para o plaga latino. Afinal, além de ser um intelectual de primeira água, é uma das poucas autoridades estrangeiras capazes de pronunciar o nosso inimitável ditongo ÃO, que é, a meu ver, o grande xibolete do Português.

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Etimologia e curiosidades Origem das expressões

plúmbeo

O Doutor explicou por que a água da chuva escoa pelo esgoto pluvial. Pois, caro Doutor, este pluvial não vem de plúmbeo (de chumbo, da cor de chumbo, etc.)? 

Antônio C. A. — Palmas (TO)

Meu caro Antônio: vejo que andaste lendo minha matéria sobre os dublês. A tua sugestão não está correta — plúmbeo nada tem a ver com a pluvia do Latim, que significa “chuva” —, mas acertou em cheio noutro par de dublês: plumbum evoluiu no Português para chumbo; quando os Humanistas do séc. XIV reconstituíram sua origem, criaram o adjetivo plúmbeo, que significa “cor de chumbo”, e mais uma dúzia de derivados de uso científico (plumbagina, plumbago, etc.) 

Aproveito para lembrar que, no Inglês, o vocábulo para “encanamento hidráulico” é plumbing, e o sujeito que faz consertos até hoje se chama plumber, reminiscência do tempo em que os canos de água eram de ferro galvanizado, e as juntas tinham de ser soldadas com chumbo derretido.

Talvez o que tenha atraído tua intuição seja a conversão regular do grupo PL latino para o nosso CH: pluvia deu chuva; plaga deu chaga; plumbum deu chumbo; e assim por diante. Abraço. Prof. Moreno

P.S.: Essa vai de inhapa: veio também de plumbum o nosso prumo, já que era de chumbo aquele peso na ponta de um cordão, usado para verificar a verticalidade de qualquer superfície. Mais outra: é por isso que ao chumbo, na Tabela Periódica, corresponde o símbolo Pb.