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Destaque Etimologia e curiosidades - Respostas rápidas Gênero

Azul e rosa

Nas cores, tudo são convenções — umas duráveis, outras efêmeras.

Qual é a cor do menininho, perguntam. E da menininha? Ainda vale a oposição azul para o gauchinho, rosa para a prendinha? Ora, diz o velho provérbio, cores e gostos não se discutem: enquanto no Ocidente a cor do luto é o preto, em muitos países do Oriente é o branco que tem este valor. Nossas noivas ainda se vestem de branco, mas na Índia elas preferem o vermelho e na Noruega elas casam de verde. Cada povo — e também cada classe social, cada grupo etário, cada possível agrupamento de indivíduos formado pelos infindáveis critérios de simpatia ou semelhança — difere dos demais nas cores que prefere, nas combinações que valoriza e no simbolismo que a elas atribui.

Há associações inconscientes, aparentemente sem motivo, ao lado de outras que parecem baseadas em razões concretas. O branco está naturalmente ligado à higiene e à saúde (nas ambulâncias, nos hospitais, na roupa dos enfermeiros). Por extensão, branca também é a pureza e a inocência (o vestido de noiva, a roupa do nenê no batizado) e a sabedoria benfazeja (os sábios da lenda sempre têm roupas e barbas brancas).

O amarelo, por sobressair sobre fundos escuros, é a cor por excelência de tudo aquilo que precisa ser chamativo (as bolas de tênis, os botes salva-vidas, as capas de chuva de quem trabalha na estrada). O verde, cor da natureza fecunda, é associado por analogia com a juventude, o que parece natural (nossos verdes anos) — mas, no imaginário popular, por alguma razão inexplicável, os homenzinhos que pilotam os discos-voadores são sempre verdes, assim como os duendes. O azul, cor do céu sereno, ficou naturalmente ligado à paz e à tranquilidade (o azul da Comunidade Européia; os capacetes azuis da Força de Paz; a expressão “está tudo azul”). O vermelho, que era a cor dos imperadores e da nobreza, é atualmente reivindicado pelos partidos de esquerda; por evocar o fogo, é também associado ao perigo (o alerta vermelho, a bandeira vermelha das praias), ao fogo (os caminhões de bombeiros, os hidrantes, os extintores de incêndio). E por aí podemos ir, explorando a aquarela.

No caso em questão − assunto momentoso para quem não tem o que fazer −, a associação hoje vigente é azul para meninos, rosa para meninas. Por que não é ao contrário? Ninguém sabe; há estudos que tentam explicar isso antropologicamente (a maior sensibilidade da mulher para nuanças de cores chamativas, adquirida pela necessidade primitiva de distinguir, na floresta e na savana, os vegetais comestíveis), mas tudo ainda é simples especulação. E desde quando? (afinal, como vimos, os valores mudam com o tempo). Os estudos sérios apontam as primeiras décadas do séc. 19 (ao contrário do propalado − e equivocado − trabalho de Jo Paoletti, que tenta demonstrar que até 1940 o costume corrente era exatamente ao contrário, azul para as meninas e rosa para os meninos). A Wikipedia, desta vez, faz um belo trabalho ao listar registros de revistas de moda e de etiqueta a partir de 1823 (aqui: https://goo.gl/TS21mB).

Na segunda metade do séc. 20, é verdade, a exploração comercial da diferença de gêneros contribuiu para reforçar o que era uma tendência inicialmente espontânea: a distinção entre produtos “masculinos” e “femininos” nas roupas e brinquedos de criança quase duplicou o mercado: até as bicicletas, bens que tradicionalmente passavam pela família inteira, deixaram de ser intercambiáveis entre irmãos e irmãs (eu, aos oito anos, já sabia que a blusa das meninas era abotoada do lado contrário da blusa dos meninos, mas não lembro qual era o lado “certo”). Foi aí que nasceu também a taxa rosa, aquele sobrepreço que onera inexplicavelmente a maior parte dos produtos femininos (um barbeador rosa, por exemplo, custa mais do que um azul − e a única diferença entre eles é a cor). Como vemos, tudo são apenas convenções − umas duráveis, outras efêmeras. Desde 1800, o bebê costuma usar no batizado um gorrinho branco, ou, no máximo, azul, se for menino,  ou rosa, se for menina  − mas nada impede que um orgulhoso papai ninja batize sua filha com uma touquinha preta. E como disse uma amiga minha: quando eu era bebê, usava rosa; agora sou mulher e uso preto, porque emagrece. E chega de nhenhenhém.

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Conceitos lingüísticos Destaque Flexão nominal

Questão de gênero

Uma colega de Belo Horizonte, Patrícia L., manda uma mensagem que é quase um desabafo: “Prezado Professor, saúde. Há vinte anos leciono Língua Portuguesa na rede pública e confesso que meu trabalho, se nunca foi fácil, vai ficando mais difícil a cada dia que passa. Imagine o senhor que a nossa Câmara Municipal aprovou, esta semana, em primeiro turno, um projeto de lei que determina que os cargos e funções constantes em documentos públicos sejam designados tanto no masculino quanto no feminino! Segundo a autora do projeto, a gramática machista [sic!] torna invisível o trabalho da mulher, quando se fala, por exemplo, em concurso público para o cargo de procurador, e não de procurador e procuradora. Nosso bom e velho Mattoso Câmara deve estar esperneando na tumba!”.

Confesso, cara Patrícia, que, ao ler a tua mensagem, tive vontade de imitar o Macunaíma e voltar para a minha rede. “Ai, que preguiça!”, pensei. “Vai começar tudo de novo!”. Lembrei daquelas intermináveis discussões sobre o uso de presidenta, em que os dois lados envolvidos — os prós e os contras — jogavam uns nos outros toda sorte de argumentos, muitos deles emocionais, pouquíssimos deles linguísticos. Porém, como fiquei curioso, fui googlear o tal projeto e constatei que, apesar da fundamentação científica ingênua e equivocada da vereadora, seu objetivo era bem mais modesto do que poderia parecer.

Peço-te licença, por um momento, para esclarecer aos demais leitores desta coluna a referência a Mattoso Câmara, o decano dos estudos linguísticos no Brasil. A ele devemos a descrição definitiva do sistema de gênero e número de nossos substantivos: a marca do feminino é o A, enquanto o masculino se assinala pela ausência desse A. Sabemos que filha, mestra e cantora são femininos porque ali está a marca; inversamente, sabemos que filho, mestre e cantor são masculinos porque ali não está a marca. Por isso, quando quisermos ser genéricos, usamos o masculino (ou seja, o gênero não-marcado): “O brasileiro vive menos do que o japonês (entenda-se: todos, eles e elas). Aproveitando esse princípio, é assim que o dicionário registra os substantivos de dois gêneros: lobo, menino, anão. O tal “machismo gramatical” é uma fantasia de certos grupos militantes que, invertendo causa e efeito, pensam que podem mudar a realidade mudando a linguagem — como já expliquei várias vezes nesta coluna. Paradoxalmente, o gênero que exclui é o feminino: se dissermos que os professores vão ser pagos em dia (o que não acontece por aqui, infelizmente), isso vale para homens e mulheres; se as professoras vão ser pagas, os homens estarão excluídos.

Voltando agora ao projeto, prezada leitora, posso te assegurar que não há razão para alarme. Apesar da vereadora belo-horizontina usar argumentos pífios, sua causa é mais simples e específica. Ela inspirou seu projeto nos protestos de uma professora da rede municipal que se revoltou por ostentar no crachá funcional o título de professor, como todas as suas colegas. Bom, aí já é de amargar! Por ignorância, preconceito ou desejo de racionalização na impressão dos crachás, os burocratas aqui literalmente pisaram na bola. Se pudéssemos perguntar ao próprio Mattoso Câmara o que ele acha disso, o  bom velhinho diria que esta é uma questão de atitude, e nada tem a ver com a estrutura gramatical de nossa língua. Usar a flexão feminina do substantivo para concordar com a detentora do cargo — procuradora, senadora, diretora, professora, juíza, promotora — é o mínimo que se espera em qualquer instância da administração pública, há muito tempo. Nosso Supremo hoje tem onze juízes; na composição atual, conta com nove juízes e duas juízas apenas.

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Através dos dicionários Destaque Ensino da língua Questões do momento

ventosa

Aluno não aprende sozinho, ciscando como um pinto solto entre livros e apostilas. A aprendizagem sem professor é difícil, demorada e geralmente imperfeita, pois só ele é capaz de identificar os desvios e os becos sem saída em que o pensamento do aluno se perdeu.

Ao contrário do que alguns andam apregoando por aí, aluno não aprende sozinho, ciscando como um pinto solto entre livros e apostilas. A aprendizagem sem professor é difícil, demorada e geralmente imperfeita, pois só ele é capaz de identificar os desvios e os becos sem saída em que o pensamento do aluno se perdeu. Um bom professor deve ser um obsessivo leitor de sinais — as expressões do rosto, as exclamações, as perguntas, tudo vai contribuir para que ele descubra a melhor maneira de ajudar aquele que está ali, à sua frente, à espera desta ajuda. É mais ou menos o que acontece aqui quando me fazem uma pergunta: sem entender exatamente onde reside a dúvida do leitor, é impossível auxiliá-lo — mas, acreditem, isso exige paciência e muita atenção.

De uma pequenina cidade do agreste do Rio Grande do Norte — santa internet! —escreveu uma leitora para pedir notícias sobre o paradeiro de um vocábulo que sua família sempre usou mas que, como verificou com surpresa, não consta no dicionário. “Professor, cresci ouvindo meu pai dizer que a praia de Pirangi era muito ventosa, batida pelos ventos do Atlântico — mas o dicionário que consultei não registra este significado. É um sentido arcaico da palavra, ou não passa mesmo de fala de matuto?”.

É evidente que não levei a informação dela muito a sério, porque a experiência me ensinou que a trágica frase “não consta no dicionário” muitas vezes quer dizer, na verdade, “procurei num dicionariozinho escolar caindo aos pedaços — o único que temos aqui em casa — e não encontrei”. Por isso, com muito tato, tratei de aconselhar à leitora que pesquisasse num dicionário melhor — um Aurélio, um Houaiss, um Aulete —, já que não se trata de regionalismo ou palavra obsoleta, mas, bem ao contrário, de adjetivo usado correntemente, significando “com ventos fortes, com muito vento”. Meu conselho era didaticamente honesto: procura — e encontrarás!

A resposta não se fez esperar: ela costumava consultar nada mais, nada menos que o Houaiss on-line, e podia jurar que lá não havia menção alguma a esta associação com o vento, que tanto ela quanto eu atribuíamos ao vocábulo. “Só pode ser falha deles! Acho que não dá para confiar nesses dicionários da internet; digitei ventosa várias vezes e sempre deu a mesma coisa: fala de tratamento médico, de polvos, de árvores, mas nada sobre o vento”. Bingo! — só então me dei conta de qual era o verdadeiro problema que a afligia, qual era o nó que precisava ser desatado: apesar de escrever com certa desenvoltura, minha leitora não conhecia os rudimentos básicos de uma consulta ao dicionário. Coube a mim explicar-lhe que a palavra que estava procurando era um adjetivo — e que todos os adjetivos vêm sempre registrados no masculino, sobrando para os usuários a tarefa de deduzir o plural e o feminino; que encontramos bonito, mas não bonita, bonitos e bonitas; e que, portanto, se ela digitasse ventoso, finalmente apareceria o adjetivo que buscava, com o sentido de “com muito vento”, mais antigo do que a Sé de Braga. Daí as tardes ventosas, a praia ventosa de Pirangi. Como ela digitava indevidamente o feminino, abria-se o verbete ventosa, agora um substantivo, vocábulo de origem latina que designa aquilo que o polvo tem nos tentáculos e, por semelhança, aquelas campânulas de vidro que se aplicavam nas costas do paciente, consideradas pela medicina antiga como um meio eficaz para tratar diferentes problemas do organismo. Estava solucionada a questão: ela tivera a coragem de perguntar, e eu, felizmente, a coragem de explicar um detalhe que me parecia vergonhosamente óbvio, mas que, como ela mesma confidenciou depois, jamais lhe teria ocorrido espontaneamente.

Outro leitor — sintonizado, aliás, com o atual clima de Páscoa —, veio perguntar se a  expressão “entrou como Pilates no Credo” serve para crítica ou elogio, porque ouviu usarem-na a respeito de um amigo recentemente nomeado para cargo importante numa emissora estatal de televisão. Tenho de ser sincero: é uma crítica, meu caro leitor. Pôncio Pilatos (e não Pilates, que é o método de ginástica…) era o governador romano da Judeia quando Cristo foi crucificado; como seu nome é casualmente mencionado no Credo (do Latim, “creio”), uma das orações mais tradicionais da Igreja Católica, ele acabou se tornando, por isso, o símbolo do sujeito que não tem nada a ver com a situação em que se encontra — aquilo que o povo descreve como “entrar de gaiato”.

Após o Acordo: Judéia > Judeia

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Destaque Etimologia e curiosidades Origem das palavras

tsunami

Por que fomos pedir emprestado ao japonês o vocábulo TSUNAMI? Nossa língua não tem palavra própria para designar um vagalhão desse tamanho?

 

Raros serão os leitores desta coluna que já ouviram falar no dr. Castro Lopes, homem de letras que chegou a gozar de certa notoriedade no final do século XIX. Defensor fanático de uma causa equivocada — ele se opunha à “invasão” de vocábulos estrangeiros —, este filólogo diletante acabou se tornando um personagem cômico, que muito fez rir Machado de Assis e seus contemporâneos com sua indignação de opereta contra os estrangeirismos e com as soluções estapafúrdias que propunha para substituí-los. Seu livro mais conhecido é de 1889, Neologismos indispensáveis e barbarismos dispensáveis (“barbarismos” seriam os vocábulos provenientes de outros idiomas), obra em que relaciona cinqüenta palavras estrangeiras muito em voga por aqui, na época, condena-as sem piedade e, sem muito estudo ou modéstia, propõe trocá-las por vocábulos que ele próprio ia criando com retalhos do Grego e do Latim. Como a Igreja faz com seus dogmas, diz Machado, o Dr. Castro Lopes compõe palavras novas “com os elementos que tira da sua erudição, dá-lhes a bênção e manda-as por esse mundo”…

Ora, a julgar pela boa saúde de que até hoje desfrutam palavras que ele condenou (e pelo riso que despertam suas sugestões, que coloquei entre os parênteses), pode-se dizer que ele tinha razão quando se queixava aos amigos de ser tratado como Cassandra, a princesa de Troia a que ninguém dava ouvidos. Estavam na sua lista negra: abajur (lucivelo), piquenique (convescote), turista (ludâmbulo), engrenagem (entrosagem), feérico (fádico, de “fada”), drenar (haurinxugar), massagem (premagem), engomar (telisar, de “tela” + “alisar”), golpe de Estado (legicídio social), greve (operinsurreição, “insurreição de operários”), chalé (castelete). Castro Lopes também cismou com avalanche, sem se dar conta de que era natural que não tivéssemos um vocábulo para designar um fenômeno como esse, tão raro em Portugal e completamente desconhecido na geografia do Brasil. Sua sugestão foi nada menos que runimol, um pequeno frankenstein formado de ru (do Lat. ruere, “correr precipitadamente”) + ni (de nix, nivis, “neve”) + mol (de moles, “massa”): “uma massa de neve que se precipita”. Prevendo o fiasco, apontou a possibilidade de usarmos, para o mesmo fim, a palavra alude, a qual, embora não tivesse a sonoridade de runimol (segundo ele), tinha ao menos a virtude de ser muito nossa — no que também se equivocava nosso bom doutor, pois esta é uma velha importação do Espanhol…

Além disso, ele não poderia perceber que estava em andamento, aos poucos, um movimento de globalização linguística, especialmente na área científica, que veio a se consolidar com o rádio, o cinema e, mais tarde, a TV e a internet. Começava a surgir um elenco de “palavras internacionais”, sem pátria e sem fronteira, adotadas por quase todas as línguas modernas do mundo (respeitadas as evidentes peculiaridades ortográficas de cada uma). Palavras como álcool, banana, canguru, chocolate, elefante, fax, futebol, gay, hotel, jazz, jeans, microfone, ninja, planeta, rádio, sauna, táxi, teatro, telefone, tigre, vídeo, violino, xerox, ioga, zoom foram se separando gradativamente de suas línguas originais, passando a integrar um fundo lexical comum, cada vez mais numeroso. Avalanche (ou avalancha, como preferem alguns) hoje está presente em dezenas de idiomas, muito usado também pelo sentido figurado de “quantidade avassaladora” (“uma avalanche de protestos”, “uma avalanche de pedidos”).

Isso também ocorre com outros vocábulos que designam fenômenos naturais específicos de determinadas regiões. Falamos de fiordes em várias partes do mundo — inclusive no Chile e na Argentina —, embora o original venha da Noruega (fjord). Gêiser vem do Inglês geyser, que veio, por sua vez, do Islandês Geysir, nome de uma fonte de água quente no sul da Islândia, mas existem gêiseres nos EUA, na Rússia, na Guatemala, na Indonésia, na Islândia, no Japão, etc. O iceberg (já existe a grafia semiaportuguesada icebergue) vem do Noruguês is (“gelo”) + berg (“montanha”), mas está presente em dezenas de idiomas. É aqui que entra tsunami, palavra vinda do Japonês, pronunciada até a náusea nos últimos dias. Para alguns cientistas, não precisamos dela, pois designaria a onda gigantesca que também chamamos de maremoto, produzida por um terremoto oceânico; para outros, porém, maremoto designa o sismo ocorrido no mar, e tsunami seria apenas a onda por ele produzida. Seja como for (os geólogos e sismólogos que decidam), já é uma palavra do nosso léxico, que o adotou como substantivo masculino, passível de flexionar também em número: o tsunami, os tsunamis.

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cinqüenta > cinquenta
lingüística > linguística

 

 

Sobre o GÊNERO de tsunami

Alvaro S., de Criciúma (SC), quer saber qual é o gênero dessa onda gigante que afetou a Ásia e trouxe confusão à vida de milhões. “Eu aprendi que, nas palavras novas, o uso é que vai determinar o gênero. Por ser uma onda, seria feminino. O raciocínio está correto?”

Meu caro Alvaro: tsunami já está dicionarizado, registrado como masculino tanto no Houaiss quanto no Aulete. Agora que a palavra entrou no vocabulário do falante comum, vamos ver se esse gênero se confirma, ou se a preferência vai para o feminino. Agora, não me venhas com essa de subentender onda; os técnicos vão te redarguir que eles subentendem vagalhão (eta, palavrinha feia essa!). Já fiz minhas pesquisas com algumas cobaias que estão mais perto de mim, perguntando o que eles pensam quando ouvem tsunami; a resposta deles (pode não ser correta, geograficamente, mas é o que lhes veio à cabeça) é que tsunami é um maremoto. Estás a ver como são as coisas? Por isso é que a prudência recomenda: vamos esperar, para ver como a sensibilidade dos brasileiros vai receber o termo. Abraço. Prof. Moreno



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Destaque Flexão nominal Lições de gramática

a champanha

“UM champanha GELADO” ou “UMA champanha GELADA”? Existe uma forma correta, ou tanto faz dar na cabeça ou na cabeça dar?

Um publicitário gaúcho está preparando material promocional para um bar sofisticado e quer saber como deve se comportar com relação ao termo champagne. Para começar, prezado leitor, trata de usar a forma há muito já aportuguesada, champanhe ou champanha (prefiro esta última). Quanto ao gênero, recomendo o feminino: “uma champanha bem gelada“. Não vejo mais razão para aquela sanha caturra de dizer que o vocábulo é masculino porque se trataria do “vinho champanha”; acho impossível conviver com uma concordância de pesadelo do tipo “um champanha bem gelado“, e tenho argumentos lingüísticos que me apóiam.

Dizes que teus professores de Português passaram a vida inteira a dizer que champanha é masculino? Pois temos algo em comum: os meus também. No entanto, ao longo da minha carreira, fui ficando cada vez mais convencido de que o gênero deste vocábulo, no Brasil, passou a ser feminino. Não posso precisar quando isso aconteceu, mas sei que aconteceu. Como sabes, atribuímos um gênero a todos os nossos substantivos. Os que correspondem a seres sexuados (macaco, cantor, mestre, leão) geralmente apresentam uma forma masculina e uma feminina; nesses casos, o gênero combina biologicamente com o sexo. O gênero dos demais substantivos, contudo, é arbitrário: eles se distribuem entre masculinos e femininos segundo critérios imponderáveis. Se compararmos os pares teste e tosse, dia e pia, pau e nau, lápis e cútis, nariz e cicatriz, talismã e avelã, podemos ver que nada existe nesses vocábulos que justifique sua diferença de gênero. Uns são femininos e outros são masculinos simplesmente porque assim se fixaram no nosso léxico. Estudos modernos mostram que os falantes, ao atribuir o gênero aos vocábulos que seriam neutros (se nós tivéssemos isso, em Português), sofrem principalmente a influência do perfil fonológico — o que explica por que, como comentou Borges com ironia, temos um mísero alfinete masculino ao lado de uma grande lança feminina. O fato de aumentar a preferência pela forma champanha, com o A final, pressiona a palavra naturalmente para o feminino, pois 99% dos vocábulos em –anha são deste gênero: aranha, barganha, cabanha, castanha, entranha, façanha, montanha, picanha, etc.

Isso não é novidade: quando a soja foi introduzida no Brasil, defendia-se o gênero masculino, já que seria o [feijão] soja. E como os velhos gramáticos esfalfavam-se para defender o soja! No entanto, o perfil fonológico terminou se impondo e soja passou a feminino,  como convém a todos os nossos vocábulos que apresentam a vogal tônica aberta /ó/ e terminam em /a/; pouco a pouco os dicionários passaram a admitir os dois gêneros, e hoje, finalmente, registram apenas “s.f.” (“substantivo feminino”). É claro que muito contribuiu para isso o fato óbvio de que ninguém costuma incluir a soja na família dos feijões (a não ser que seja agrônomo).

O mesmo está acontecendo aqui: embora sejam, em termos enológicos, uma coisa só, sempre  vi, no Brasil, distinguirem o vinho da champanha. Assim se expressa a maioria das pessoas, mesmo as mais cultas. Se eu tiver sorte, num jantar dos bons, o anfitrião vai perguntar se eu quero vinho ou champanha, ou se devemos passar do vinho para a champanha, já que, para nós,  em nossa compreensão tropical, trata-se de duas coisas bem diferentes. A França tem todo o direito de torcer o nariz, mas, e nós com isso? Fica com o feminino, leitor; embora haja ainda alguma resistência, a direção de tendência já está traçada e é irreversível. Até numa forma afetuosa como “uma champanhota” já se percebe que a derivação está sendo feita espontaneamente sobre uma base lexical feminina. Além disso, como era de esperar, no verbete “champanhe”, o dicionário do Houaiss já indica, brilhando como uma pérola sobre veludo negro, que este substantivo pode ser usado nos dois gêneros. A próxima edição, daqui a anos, talvez só traga o feminino. Não te espantes: isso é a língua evoluindo.

[Não deixe de ler também o gênero e a champanha]


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Destaque Sintaxe das classes gramaticais

“Águia DE Haia” ou “Águia DA Haia”?

Prezado Professor: a cidade de Haia é precedida de artigo em alguns idiomas que pesquisei  —The Hague (Ing.), La Haya (Esp.), La Haye (Fr.). Aqui, no entanto, está mais do que consagrado entre nós o uso desse nome SEM o artigo; todos diriam que Rui Barbosa é o “Águia DE Haia“, não o “Águia DA Haia“. Aborrece-me, na verdade, que alguns “descobridores da pólvora” apontem o dedo em riste e asseverem, inflexíveis, que o correto seria A HAIA. Embora os despreze, indago: há uma forma “mais certa” ou outra “menos certa”?

Luiz Fernando S. R. – Petrópolis (RJ)

 

Todos os que me lêem sabem o quanto custa, às vezes, encontrar o termo preciso, o mot juste dos franceses, a palavra que diz exatamente o que pretendemos dizer. Ora, assim como os personagens refinados da literatura jamais perguntam qual a classe social do herói que lhes salvou a vida, nós também não haveremos de hostilizar um desses vocábulos insubstituíveis, precisos e certeiros só porque ele pertence a uma faixa menos asseada de nossa linguagem. Não conheço melhor exemplo do que caga-regras, rótulo perfeito para essas aves intrometidas que volta e meia aparecem para dar suas bicadas em nosso idioma, deixando para nós, que somos do ramo, o trabalho de limpar a sujeira que fizeram. O Aurélio define o caga-regras como “pessoa que se julga sabichã, a dona da verdade”; o Houaiss, como “aquele que se julga melhor que os outros ou superior a eles e impõe ou quer impor sua vontade sem ter competência ou autoridade para tanto” (como o prezado leitor terá notado, a diferença de qualidade entre os dois dicionários é constrangedora).

Faço esse comentário porque nosso amigo Luz Fernando, ao que parece, anda sofrendo o assédio dessas incômodas caturritas que andam revoando por aí, apregoando a novidade de que o nome da cidade holandesa em que Rui Barbosa brilhou seria a Haia, e não Haia, simplesmente, como nós, os tolos, acreditávamos. “Embora os despreze”! Gostei de ver, Luiz Fernando! Essa é a atitude correta para com esses profetas recém-chegados, que pensam (no seu delírio) ter sido enviados aqui embaixo para reescrever a história e a tradição de nossa língua.

Para começar, não é possível definir, com rigor, quando se usará (ou não) o artigo antes dos nomes de lugar. Nós, no Brasil, dizemos na França, na África, enquanto nossos irmãos de além-mar preferem em França, em África. No corpo do mesmo poema, Camões ora usa Espanha com artigo, ora sem: “Somente sei que é gente lá de Espanha” e “Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha”. O padre Vieira, o Imperador da Língua, tanto escreve “tenho visto a Companhia em todas as cinco Assistências dela: na de Portugal, na de Espanha, na de França, na de Alemanha, e na de Itália”, quanto “os príncipes da Itália”, “os portos da França”, “setenta mil soldados da Alemanha”. Aqui mesmo há uma velhíssima pendenga entre os que dizem em Recife e os que defendem no Recife – e os dois lados têm lá sua razão. “Certo” e “errado”, aqui, são conceitos temerários. Tudo vai depender do momento histórico, da região, dos hábitos consagrados pela língua culta.

No caso de Haia, há uma nítida indecisão histórica. Até o séc. XIX nota-se uma preferência (especialmente nos autores portugueses) por a Haia – embora Francisco Manuel de Melo e Rocha Pita usem o nome sem artigo. Eça e Machado ainda preferem a Haia, mas Fialho de Almeida ora usa o artigo, ora o dispensa. No séc. XX, no entanto, a preferência por Haia, sem artigo, é esmagadora e revela o que se chama, em Lingüística, de “direção de tendência”. Uma simples passeada pelo Google encontrou mais de 250.000 ocorrências para Tribunal de Haia contra 50.000 para Tribunal da Haia; mais de 300.000 para Corte Internacional de Haia contra 60 (seis dezenas!) para Corte Internacional da Haia; 950.000 para Convenção de Haia contra 140.000 para Convenção da Haia; finalmente – e impressionante! – mais de um milhão para Águia de Haia contra 33 (a idade de Cristo!) para Águia da Haia… Um milhão contra trinta e três! Ainda bem! Se fosse chamado de Águia DA Haia, Rui Barbosa começaria a dar voltas no túmulo como uma piorra!

Esses dados nos permitem afirmar, sem hesitação, que pouco a pouco vai diminuindo o número daqueles que acham necessário o artigo antes do nome desta cidade. Não podemos dizer que eles estejam errados, é claro – mas hoje a forma preferível é SEM o artigo. É completamente despropositado que uma minoria em extinção procure condenar aquilo que a maioria culta já decidiu há muito tempo. Ah, outra coisa: lembro que, nesses casos, a posição que adotarmos quanto ao artigo vai naturalmente ter seus reflexos na crase. Quem não usa artigo vai a França, a África, a Haia; quem o usa, vai à França, à África e à Haia.

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lêem > leem

Lingüística > Linguística

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Destaque Formação de palavras Origem das palavras

vernissagem

Vernissagem é um vocábulo de origem francesa que designa o dia da inauguração de uma exposição de arte; geralmente consiste numa festividade reservada para convidados escolhidos e para a imprensa. Este seleto público que freqüenta AS vernissagens tem assim uma espécie de elegante pré-estréia da exibição (acompanhada de uma indispensável boca-livre, é claro,  que ninguém é de ferro).  O vocábulo — literalmente “envernizagem” — vem do Francês vernis (o nosso verniz) e remonta ao velho costume de dedicar o dia anterior à abertura de uma exposição para os artistas aplicarem o verniz protetor nas pinturas a óleo ou fazerem os últimos acabamentos em seus quadros.  Na Inglaterra, sempre tão metódica em seus registros, sabe-se que essa tradição vem desde 1809, quando foi oficialmente instituída pela  Royal Academy of Arts. Conta-se, inclusive, que um dos maiores paisagistas ingleses do século passado, o famoso Turner, aproveitava esse dia para fazer mudanças substanciais em suas pinturas.

Um pouco antes da Guerra de 1914, o termo francês vernissage começou a se difundir nos meios artísticos ocidentais, inclusive nas Américas, trazendo com ele o fascínio e o charme da  Belle Epoque. Seu processo de entrada no nosso idioma foi o mesmo de milhares de outros vocábulos importados: primeiro, ingressou aqui como turista, sendo facilmente reconhecível por sua indumentária estrangeira (seu gênero era  masculino e ostentava uma terminação em –age, inexistente no Português).  Depois, no entanto, como os nacionais simpatizassem com ele e o convidassem a fixar residência aqui, abandonou o seu ar gaulês e adotou uma aparência genuinamente vernácula: adaptou sua terminação para o portuguesíssimo –agem e, ipso facto, passou ao gênero feminino — exatamente como fizeram os seus conterrâneos mirage, sabotage, bagage, fuselage, entre muitos outros, que se transformaram em miragem, sabotagem, bagagem, fuselagem. Todos vivem hoje pacificamente ao lado de nossos ferragem, camaradagem, carceragem, vantagem e mais centenas de outros substantivos nativos que têm o mesmo sufixo, sem que puristas xenófobos corram atrás deles com o dedo acusador.

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freqüenta > frequenta

estréia > estreia

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Destaque Flexão nominal Questões do momento

o pen drive

A musse ou O musse? A fondue ou O fondue? A pen drive ou O pen drive? Veja as escolhas do Professor nessas questões de gênero. 

A coluna de hoje vai para a jovem gauchinha que nos mandou sua pergunta diretamente de Milwaukee, nos EUA. Ela ainda não completou seus dez aninhos, mas pertence a uma geração que, ao contrário de muitos dos que lêem esta coluna, considera o computador tão corriqueiro quanto era, na minha infância, o bom rádio de válvulas. Nossa pequena correspondente se mostra completamente à vontade na internet, tem seu próprio endereço eletrônico e está acostumada a folhear a ZH pelo ClicRBS (que inveja, hein, professor Leite?). Acontece que, lá no frio e distante Wisconsin onde ela está, ninguém da família conseguiu esclarecer sua dúvida a respeito do gênero desse útil dispositivo — se eu escrevesse em Inglês, usaria o termo gadget; na minha vida civil, diria simplesmente trequinho… —, essa memória de bolso que atende pelo nome de pen drive. Aconselhada pela mãe, que já foi minha aluna, a filha veio perguntar: “Minha madrinha vai me dar um presente. Eu quero UM pen drive da Barbie, mas o pai acha que se fala UMA pen drive. Qual delas o senhor prefere?”. Em três linhas, respondi que continuasse a usar o masculino — como, aliás, já estava usando —, e pedi que não se acanhasse em me consultar quando tivesse qualquer outra dúvida. O que segue, abaixo, é uma explicação mais detalhada do meu ponto de vista.

Este não é o primeiro, nem será o último caso em que nossos falantes vão ter dúvida quanto ao gênero de palavras importadas.  A hesitação é praticamente inevitável, já que nada pode nos dizer, de antemão, se o vocábulo vai ser masculino ou feminino quando chegar aqui. É claro que isso não ocorre naqueles vocábulos que se referem a seres sexuados, como bode e cabra, lobo e loba, galo e galinha, em que a Natureza já se encarregou de desmanchar qualquer indefinição; nos demais substantivos, no entanto, a atribuição de um gênero ou outro obedece a princípios nem sempre muito claros, geralmente ligados ao perfil fonológico da palavra (entre os países, por exemplo, só os terminados em -A átono são considerados femininos, com exceção do Quênia e do Cambodja; as árvores frutíferas têm o mesmo gênero que a fruta que produzem, com exceção da figueira; e assim por diante).

Ao ingressar em nosso idioma, portanto, qualquer vocábulo importado deverá ser classificado mentalmente pelo falante num dos dois gêneros que o Português reconhece, sem garantia alguma de que vá coincidir com o gênero que tinha no idioma de origem. Há casos clássicos de palavras que mudaram de gênero na travessia do Atlântico: robe e brioche, que são femininos no Francês, entraram aqui como masculinos; como já mencionei em outro artigo, la cocarde virou O cocar, la purée virou O purê (ou, na linguagem das crianças, o pirê) e  la enveloppe virou O envelope. Esses são casos decididos, mas existem os que ainda estão sub judice, aguardando o julgamento silencioso do uso. O primeiro deles é fondue; no Francês e no Italiano, é vocábulo feminino (la fondue e la fonduta, respectivamente), mas aqui, embora ambos os gêneros sejam aceitos por dicionários modernos como o Houaiss e o Aulete, o masculino vai liderando na razão de dez por um (para não deixar dúvida)!

Croquete é outro caso que, mesmo havendo alguma divergência nos dicionários, já está decidido, a meu ver. No séc. XIX, quando o vocábulo fazia sua estreia na nossa língua, Machado ainda fala em “UMA croquette“, à francesa, mas logo o uso privilegiou amplamente o masculino, chegando hoje à razão esmagadora de trinta por um (para isso também serve o Google) — o que torna incompreensível, para mim, a teimosia solitária do Houaiss em registrá-lo exclusivamente como substantivo feminino (posso imaginar a turma do velho Pasquim falando, fesceninamente, em “agasalhar UMA croquete“!). Um pouco mais indefinido é o caso de musse; os dicionários recomendam o feminino, com o que concordo (a musse, uma musse), mas vejo que um grupo crescente de falantes emprega o masculino; enquanto o tempo não dá sua sentença final, teremos de aceitar ambas as formas.

O pen drive é mais um tipo de drive, entre os muitos que um computador envolve. No Inglês, que é o idioma falado pela Informática, existem também os flash drives, os usb drives, os hard drives, os external drives, e por aí vai a valsa. O pen drive recebeu este nome por ter a forma (aproximada) de uma caneta. Como acontece no Inglês, o modificador vem ANTES do núcleo, mas nosso bom povo brasileiro, não sabendo disso, inverteu o processo e pensa que se trata de uma caneta (pen), da qual o drive seria apenas uma especificação: assim como temos caneta-tinteiro, teríamos uma caneta [que é drive] — quando, na verdade, temos um drive [que é caneta]. Daí o masculino.

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Pindorama é feminino?

Olá, Prof. Moreno! No texto sobre Colocação do Pronome o senhor utilizou a palavra Pindorama como substantivo feminino. Procurei no Houaiss e em outros dicionários, também no VOLP, e todos registram o vocábulo como masculino. O interessante é que esse vocábulo também foi usado, certa vez, no feminino pela professora Dad Squarisi, na coluna que ela escreve semanalmente no jornal Diário do Sul. Então só posso concluir que deve haver um motivo ou uma situação especial em que a palavra é usada no feminino. O senhor poderia me ajudar?

Marcelo M. –  São Paulo (SP)

Meu caro Marcelo: confesso que nunca tinha visto Pindorama como masculino. Foi tua mensagem que me alertou para o fato de que o Houaiss e o Aurélio registram esse gênero para o vocábulo – o que, para mim, é absoluta novidade. Para mim, sempre foi “Pindorama, a terra das palmeiras”; eles, ao que parece, pressupõem “país” (aliás, Houaiss registra, espertamente, “país ou região das palmeiras”, mas cita, no próprio verbete, o dicionário de Teodoro Sampaio, que fala em “região ou país das palmeiras”).

O que está em jogo aqui, Marcelo, é saber qual o vocábulo que está elíptico: é “terra”, “região”, “país”? Dependendo do que for, assim será feita a concordância. Existe um Clube Pindorama? Vamos falar “no [clube] Pindorama”. Existe uma cidade Pindorama? Vamos falar “em Pindorama”, pois as cidades não são antecedidas de artigo definido. Existe uma loja de brinquedos Pindorama? Vamos falar “na [loja] Pindorama”. E assim por diante. Como nunca imaginei Pindorama como um país, mas como “terra” (como, aliás, é o seu aposto: “a terra das palmeiras”) sempre usei o feminino. Eu e a maioria, aliás; se pesquisares no Google “NO pindorama”, “NA Pindorama”, “DO Pindorama”, “DA Pindorama”, “NESTE Pindorama”, “NESTA Pindorama”, etc.,  vais perceber que, embora sejam usados ambos os gêneros, a preferência nacional é marcadamente pelo feminino.

Como respeito os dois lexicógrafos cuja obra mencionaste (nota que deixei o VOLP de fora, deliberadamente, porque este não vale um níquel), vou ter de aceitar, também, que se use o masculino, se admitirmos que está subentendido o vocábulo “país” (no Google, há 5.000 ocorrências de “Pindorama, terra das palmeiras” contra 800 de “país das palmeiras”, mas tudo bem; 800 já é um número razoável).

O pior é que, mesmo admitindo que eles enxerguem um “país” onde a maioria enxerga uma “terra”, mesmo assim, atribuir-lhe o gênero masculino continua sendo uma excentricidade morfológica . Já escrevi sobre o gênero dos países: são femininos todos aqueles cujo nome termina em -A, e masculinos todos os outros, mais os que terminam em -A tônico (Canadá, Panamá). Só fogem a essa regra o Quênia e o Cambodja; ao que parece,  Houaiss e Aurélio querem incluir, neste número, a nossa querida Pindorama.

Abraço. Prof. Moreno

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sexismo na linguagem

Uma leitora ficou inconformada com a manchete que encontrou em um grande jornal paulista: “Fulana de Tal foi o quinto juiz suspenso este mês pela Comissão de Arbitragem”. Segundo ela, o jornal demonstrou uma indisfarçável atitude machista ao empregar juiz em vez do consagrado feminino juíza. “O senhor não concorda que a gramática do Português tem um viés claramente sexista? Na escola eu nunca me conformei com a regra que nos obriga a dizer que “o menino, sua mãe, sua tia e suas três irmãs foram convidados para o jantar” — em que um simples vocábulo masculino tem muito mais força gramatical que todos os vocábulos femininos reunidos! Qual o problema de usar convidadas? Por acaso o menino, com isso, sofreria algum tipo de humilhação? E alguém se preocupa com a humilhação das mulheres, neste caso? Em pleno séc. XXI, não deveríamos eliminar de nosso idioma esses resquícios patriarcais, contribuindo assim para derrotar a ideologia de desvalorização da mulher?”.

Minha cara leitora, não me leves a mal, mas vou discordar integralmente do que dizes com todo o respeito. Primeiro, nossa gramática não tem o “viés” (palavrinha da moda…) sexista que lhe atribuis; segundo, é impossível mudar essas regras; terceiro, mudanças introduzidas na linguagem não têm o poder de alterar a realidade objetiva; quarto e último, o jornal estava corretíssimo ao usar juiz, e não juíza. Vamos por partes. Em primeiro lugar, essa “supremacia” do masculino que nos leva a usar convidados, e não convidadas, na tua frase (e que faz o dicionário registrar os substantivos no masculino singular aluno, lobo, prefeito) essa supremacia, repito, é ilusão. Mattoso Câmara Jr. fez, nos anos 60, a descrição definitiva do sistema de gênero e número de nossos substantivos e adjetivos: o plural é marcado por S, enquanto o singular se assinala pela ausência desse S; a marca do feminino é o A, enquanto o masculino se assinala pela ausência desse A. Sabemos que aluna, mestra e professora são femininos porque ali está a marca; inversamente, sabemos que aluno, mestre e professor são masculinos porque ali não está a marca. Por isso, quando quisermos ser genéricos, podemos usar o singular, masculino (ou seja, o número e o gênero não-marcados): “O brasileiro trabalha mais do que o inglês” (entenda-se: “todos”) e por esse mesmo motivo o dicionário assim registra os substantivos. Paradoxalmente, o gênero que exclui é o feminino: se dissermos que o aumento vai ser estendido aos aposentados, homens e mulheres estão incluídos; se for, porém, estendido às aposentadas, os homens estão fora. Se o jornal escrevesse que “Fulana de Tal foi a quinta juíza afastada do cargo”, estaria afirmando que, além dela, quatro outras juízas tinham sido afastadas. Como esse não foi o caso – os quatro suspensos antes dela eram homens -, o jornal teve de usar juiz, que engloba o masculino e o feminino.

As mulheres não devem sentir-se humilhadas por isso; é assim que funciona o nosso idioma. Por que afirmo que essas regras não podem ser mudadas por uma decisão política ou ideológica? Porque, diferentemente das leis que regem um país, das regras do futebol, da convenção de nosso condomínio ou do nosso sistema de acentuação e de ortografia que são regras de superestrutura, criadas por nós e, ipso facto, modificáveis por nós , as regras morfológicas e sintáticas do Português estão no nível estrutural, muito mais profundo, evoluindo ao longo dos séculos num ritmo e numa direção sobre os quais não temos o menor controle.

Por fim, estimada leitora, aconselho-te a abandonar essa esperança de que seja possível mudar a realidade apenas pela introdução de alterações na linguagem.  Esta crença ingênua (e onipotente) esteve muito em voga nos anos 70, dando origem, inclusive, ao equivocado movimento do politicamente correto. Muitas feministas pós-Woodstock acreditavam que podiam resgatar (que verbozinho enjoativo!) a dignidade da mulher forçando na linguagem a visibilidade do gênero feminino. Se o vocábulo tinha dois gêneros, os dois deveriam aparecer na frase. Até bem pouco tempo, uma ONG brasileira fazia questão de escrever “os eleitores e as eleitoras votaram”, “os participantes e as participantes receberão”… Felizmente esta tendência está agonizante, e qualquer pessoa culta, quando escreve “Para o bem de seus filhos, os brasileiros deveriam escolher melhor os candidatos em que votam”, sabe que está dizendo “Para o bem de seus filhos (não importa o gênero), os brasileiros (não importa o gênero) deveriam escolher melhor os candidatos (não importa o gênero) em que votam”. Agora, imagina só se eu vou ter a coragem de escrever “Para o bem de seus filhos e de suas filhas, os brasileiros e as brasileiras deveriam escolher melhor os candidatos e as candidatas em que votam”. Que espanto sentiriam os meus leitores e as minhas leitoras!

[2ª parte]

Na coluna anterior, procurei demonstrar que não há nenhuma discriminação sexista nas regras de concordância nominal de nosso idioma, ao contrário do que apregoam certos grupos que lutam pelo reconhecimento dos direitos da mulher. Repito: uma expressão como meus amigos sempre terá dois valores um, mais restrito, que se refere apenas aos amigos homens; outro, mais genérico, que funciona como uma espécie de neutro, designando tanto os amigos masculinos quanto os femininos. Por que isso? Porque o masculino é o gênero não-marcado, inclusivo, enquanto o feminino é um gênero naturalmente excludente; ao falar de minhas amigas, falo das mulheres, e apenas delas. Não é, pois, uma mera atitude que possamos mudar de acordo com nossa vontade; trata-se, isso sim, da maneira como a língua se estruturou ao longo de sua formação, e não vai ser alterada pela decisão de um grupo, por mais numeroso que seja.

Ora, como isso contraria frontalmente algumas palavras de ordem que ainda são levadas a sério em nosso meio, diversos leitores escreveram para discordar do que afirmei. Dois deles tentaram ao menos entabular uma discussão teórica sobre o assunto, honestamente interessados em me convencer do seu ponto de vista; eu os respeito por isso, embora seus argumentos fossem mais emocionais e políticos do que lingüísticos. Os outros descambaram para o ataque pessoal, dizendo de mim o que Maomé não disse do toucinho machista, retrógrado e machista retrógrado foi o mínimo com que mimosearam este seu criado. A estes já vou avisando que aqui essa tática não pega; não tenho medo de rótulos, e não vou deixar que o conhecimento científico recue diante de patrulhadores que elevam o tom de voz para esconder a falta de estudo.

O principal defeito de seu raciocínio é confundir (1) a relação masculino-feminino do sistema morfológico do Português, que é imutável, com (2) a recusa que certos setores da sociedade ainda têm de usar os femininos de cargos e funções esta sim, uma atitude censurável e que pode (e deve) ser reformada em pouco tempo. No primeiro caso, o uso do masculino como forma abrangente é indispensável para o funcionamento de uma língua como a nossa, em que o artigo, o numeral, o pronome, o adjetivo e o particípio concordam em gênero com o substantivo que acompanham. Se a cada masculino acrescentássemos a forma feminina correspondente, deixaríamos de falar o Português e passaríamos a nos comunicar numa algaravia repleta de ecos intermináveis. Asseguro aos defensores da “inclusão lingüística” que uma frase do tipo “os dez cantores premiados serão reunidos no auditório, onde os admiradores poderão fotografá-los” fará muitíssimo menos dano que algo impronunciável como “os cantores premiados e as cantoras premiadas, num total de dez, serão reunidos e reunidas no auditório, onde os admiradores e as admiradoras poderão fotografar a eles e a elas“, frase tão repetitiva e prolixa que lá pela metade já esquecemos do que ela está falando.

Coisa bem diferente é a forte resistência que ainda existe em usar a flexão feminina naqueles cargos e postos que, durante séculos, foram ocupados exclusivamente por homens.  Quem acompanhou a ascensão política e profissional da mulher nos últimos trinta anos viu a lentidão com que a mídia foi adotando formas femininas que hoje se tornaram indispensáveis: primeira-ministra, senadora, governadora, deputada, prefeita, vereadora, juíza, promotora, entre tantas. O mecanismo da língua prevê esses femininos, mas seu emprego era praticamente nulo devido ao escasso número de mulheres que conseguiam vencer as limitações que lhes eram impostas. Aqui o problema é realmente de natureza ideológica e pode ser solucionado por uma mudança de atitude. O ingênuo e bondoso Exército da Salvação, por exemplo, há muito utiliza os femininos soldada, sargenta, capitã, coronela e generala, que as Forças Armadas ainda relutam em adotar por enquanto. O Francês, quanto a isso, é surpreendemente mais rígido, como denuncia Marianne Yaguello, e lá os movimentos feministas enfrentam um osso duro de roer: apesar de existir a flexão feminina, grande parte das profissões de prestígio ainda são utilizadas exclusivamente no masculino: “Mme. X est chirurgien” (“cirurgião”), “Il est amoureux de son chirurgien” (“ele está apaixonado por seu cirurgião” – mesmo que se trate de uma mulher!). Como se pode ver, é a língua que sofre a influência da evolução social (dentro, é claro, dos limites fixados por sua estrutura) e não o contrário, como querem. Ela não pode preceder e forçar a evolução das mentalidades.

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