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lava-a-jato

Na coluna anterior, mencionei en passant a operação Lava-a-Jato — escrita assim mesmo, com tudo aquilo a que tem direito — o hifenzinho e a preposição A. Sempre atenta, a nossa Maria Rita Horn, anjo da guarda da redação, achou prudente me avisar que a imprensa, embora divirja aqui e ali quanto ao emprego do hífen, vem adotando unanimemente a forma sem a preposição. Como é um texto que leva a minha assinatura, deixamos assim como estava, mas prometi explicar os motivos da minha opção por uma grafia que comete a imprudência de contrariar os hábitos de nossa mídia.

Aliás, começo com uma ressalva: não tenho pretensões a ditar moda para a imprensa. Muitas vezes as escolhas linguísticas que os jornalistas fazem serão diferentes das minhas, e vice-versa — até porque, para eles, a linguagem é um instrumento, enquanto, para mim, ela é o próprio assunto. Como em lava-a-jato o “A” átono da preposição desaparece obrigatoriamente na pronúncia (um pequeno exercício de imaginação: se o verbo estivesse, por exemplo, na primeira pessoa, a preposição seria perfeitamente audível: lavo a jato), o vocábulo foi “reformado” na escrita para uma forma mais simples: lava-jato (falarei sobre o hífen daqui a pouco). Pronto! Essa lipoaspiração deixou tudo mais prático, mais leve, mais rápido; até concordo com isso, mas não posso deixar de apontar, caros leitores, que foi uma alteração bizarra, que desconsidera alguns princípios importantes da morfologia de nosso idioma.

O nome, segundo a própria Polícia Federal, surgiu da união do objetivo principal da operação (investigar a lavagem de dinheiro e desvio de verbas públicas) com o primeiro alvo investigado, uma casa de câmbio suspeita que pertencia ao proprietário do Posto da Torre. Lavagem de dinheiro, lavagem de carros — lava-a-jato (friso que esse oportuníssimo batismo nada teve a ver com Breaking Bad, a série de TV cujo protagonista abre uma lavagem de carros para justificar o dinheiro movimentado com a droga; a operação começou em 2004, a série é de 2008).

Se desconstruirmos (ô, verbozinho mequetrefe!) uma série de vocábulos como lava louça, lava carros, lava roupa, lava pratos, lava pés, vamos encontrar uma das estruturas mais frequentes na formação de nossos compostos: um verbo acompanhado de seu objeto direto (como em guarda roupa, tira teima, porta bandeira, etc.). Neste caso, o verbo lavar é seguido pelo nome daquilo que vai ser lavado. Já em lava a frio, lava a quente, lava a seco, lava a mão, o verbo é seguido por um adjunto adverbialcomo é que se lava. É evidente que lava a jato − lavagem usando o jato com alta pressão de água − pertence ao segundo tipo.

Os leitores atentos terão percebido que não empreguei hífen algum no parágrafo anterior; eu pretendo, desta forma, ressaltar o papel importantíssimo que este sinal tem na distinção (nem sempre possível) entre o que é uma locução (um arranjo casual de vocábulos independentes) de um substantivo composto. Grosso modo, podemos afirmar que sempre teremos hífen quando ocorrer a substantivação. “O bebê aumentava de peso dia a dia“; “o filme mostra o dia-a-dia de uma aldeia gaulesa”. “Aquele posto lava carros; ele adquiriu um potente lava-carros“. “Explicou o projeto passo a passo“; “o jornal traz um passo-a-passo para renovar o passaporte”.

Chegamos assim ao meu ponto: “como ele limpa a garagem? Ele lava a jato” (frase aliás ambígua, porque tanto pode se referir ao modo de lavar quanto à rapidez com que ele lava) é diferente de “vou usar meu lava-a-jato para tirar o limo do telhado” ou “vou passar no lava-a-jato para pegar meu carro”. Aí está: lava-a-jato. Os que quiserem me acompanhar, mas hesitam em usar o hífen por causa da confusa interpretação de um artigo do Acordo Ortográfico, que levou muita gente boa a eliminá-lo dos compostos com preposição, sigam ao menos o exemplo do Aulete, um excelente dicionário on-line, que registra lava a jato. Os que quiserem…

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Pré-datado?

 

Como já disse outras vezes, só dois tipos de pessoa não se importam com a ortografia. Há as alminhas rebeldes que pregam a liberdade absoluta no uso das letras e dos acentos por acreditar que uma regra — qualquer espécie de regra — é apenas outra forma de discriminação social que as elites inventaram para perpetuar sua supremacia; para um desses revolucionários de formigueiro, é claro, escrever como lhe der na veneta torna-se um verdadeiro ato de autoafirmação política. 

Na outra ponta do espectro, encastelados no topo da montanha, vivem aristocratas como o Cardeal Richelieu, que tachava de plebeia qualquer preocupação com a grafia das palavras. Se ele vivesse entre nós, olharia para o hífen ou para o cê-cedilha com a mesma desconfiança com que a grã-fina olha para o indefectível pratinho de maionese no batizado do filho da empregada. Nós outros, contudo, que não pertencemos a nenhum desses dois grupos, achamos importante seguir, o mais fielmente possível, o modelo vigente, pois só assim fica assegurada a fluidez da leitura. Cada vez que me desvio da norma, quem sai perdendo sou eu, pois levo meu leitor a desviar sua atenção do texto para fixá-la na grafia da palavra. 

Por esse motivo, entendo perfeitamente o desabafo do leitor Silvio C., de Campinas, que, como todos nós, vive aos tombos com o misterioso hífen: “Caríssimo professor, o emprego do hífen com o prefixo pre está me tirando o sono. Escrevo pré-escolar e pré-nupcial, mas predeterminado e preestabelecer? É isso? Mas não há critério? O Acordo esqueceu de fazer uma regra para isso?”.

Não, prezado leitor, existe uma regra, sim — na verdade, uma velha regra que está em vigência desde 1943, que o atual Acordo apenas confirmou. Trocando em miúdos, ela reza que o prefixo tônico pré- (bem como seus irmãos pós- e pró-) será sempre seguido de hífen: pré-fabricado, pré-pago, pré-pizza. Esta regra obedece ao princípio básico de que prefixos com sinal diacrítico (acento ou til) são morfológica e fonologicamente independente, devendo, por isso, vir separados do vocábulo que os segue. 

Mas… (ouço, ao longe, o Diabo esfregando as mãos…), pelas mesmíssimas razões, a mesma regra determina que as versões átonas desses mesmos prefixos (pre-, pos- e pro-) não serão seguidos desse sinal: predispor, predestinado, preconcebido. É uma regra bem clara, mas, como você mesmo constatou, não serve para coisa alguma. Afinal, quem determinou que em preconcebido o E é fechado e átono, e não aberto e tônico (préconcebido)? Isso, meu caro, é o 5º mistério de Fátima. Há discussões similares sobre o cheque predatado ou pré-datado, sobre prejulgar ou pré-julgar, sobre preaquecer ou pré-aquecer o forno antes de assar o bolo. Esta hesitação natural sobre a tonicidade do prefixo é histórica e jamais vai ser resolvida; nunca teremos certeza sobre a sua pronúncia e, ipso facto, de sua grafia. O máximo que podemos fazer, nesses casos, é ver o que o Aurélio, o Houaiss ou o Aulete andam fazendo, para então decidir se vamos ou não concordar com a opinião deles.

   

 

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o “não” como prefixo

Professor, não tenho certeza sobre como devo grafar “anti-inflamatórios não-esteróides (é uma classe de medicamento). As gramáticas que consultei não falam sobre o emprego daquele hífen depois do não, mas sei que é assim, hifenizado, que o vocábulo aparece em muitos livros e manuais médicos. Afinal, qual é o correto? Em que casos podemos usar o hífen depois da palavra não?

Áurea A. – São Paulo (SP)

 

Prezada Áurea: para desmentir aqueles que vivem resmungando que nosso idioma só piora com o passar do tempo, este não com valor de prefixo, estrela recém-chegada no firmamento da língua, constitui um notável (e moderníssimo) mecanismo para a formação de antônimos. Você quer saber quando ele vem seguido de hífen? Pois sou obrigado, por desencargo de consciência, a registrar que há uma certa controvérsia sobre este ponto, principalmente depois das trapalhadas da última edição do VOLP (mais sobre isso depois). Por isso, como você terá de escolher um dos lados desta disputa, faço questão de lhe fornecer os subsídios que julgo necessários para uma decisão consciente. Em primeiro lugar, reproduzo, abaixo, o que consta sobre o tema no livro Português para Convencer, escrito por Túlio Martins e por este seu criado:

 

“Historicamente, o Português sempre formou palavras negativas usando os prefixos i(n)– e des: ilegal, improdutivo, intempestivo; desleal, desarmônico, descabido. Desde o século passado, no entanto, teve início a prática (também presente em outras línguas, como o Inglês, o Francês e o Espanhol) de usar o não como um prefixo negativo universal, que se acrescenta a um vocábulo já existente (geralmente adjetivo ou substantivo abstrato) para formar um antônimo perfeito.

“O uso do não como prefixo foi uma das grandes novidades com que a língua nos brindou no fim do século XX, permitindo que tudo possa ser dividido em duas categorias complementares, X e não-X — o que constitui uma ferramenta muito útil no discurso argumentativo. Com esse providencialíssimo não, podemos criar divisões binárias de praticamente tudo o que quisermos: os votantes e os não-votantes, os alfabetizados e os não-alfabetizados, os hispânicos e os não-hispânicos, os marxistas e os não-marxistas. Ele até nos permite falar no não-eu ou no não-ser, vocábulos que seriam impensáveis com nossos prefixos negativos clássicos, o ine o des. (…)

“Em muitos vocábulos esse prefixo vai concorrer com os tradicionais prefixos negativos, e geralmente com vantagem. É o que está acontecendo entre duas formações relativamente recentes, inocorrência e não-ocorrência. Ambos são amplamente usados em textos jurídicos, com uma leve preferência, por enquanto, pela primeira forma, que é tradicional. No entanto, não temos dúvida de que a segunda vai prevalecer em poucos anos; o não prefixal permite uma decodificação muito mais rápida do significado do vocábulo por parte do leitor, o que é sempre uma grande vantagem na disputa entre duas formas linguísticas concorrentes.”

[MORENO & MARTINS. Português para Convencer. São Paulo, Ática, 2006. p. 169]

 

Como você pode ver, não se trata de uma simples moda, mas sim de um processo que veio para ficar, superior em muito às outras formas de antonímia porque preserva integralmente o vocábulo original que está sendo antagonizado. Este recurso permite uma simetria perfeita entre afirmativa e negativa, o que nem sempre se consegue através de construções tradicionais.

Qual é a natureza deste processo? Não importa. Sejam formadas por derivação prefixal ou por composição (para muitos, aliás, dois nomes para um mesmo fenômeno), as novas palavras ficam melhor com hífen. Alguns gramáticos mais antigos negavam-se a usá-lo, mas a prática já o consagrou, especialmente porque ele serve para assinalar que o não, aqui, não é um advérbio de negação, mas sim um elemento da composição do vocábulo. Os bons dicionários o usam; o Houaiss, embora declare textualmente que considera este hífen mais adequado em substantivos (não-violência, não-proliferação, não-alinhamento), não deixa de registrar também adjetivos hifenizados, “especialmente no caso de tecnônimos, pois o uso assim os havia consagrado no jargão técnico ou tecnológico escrito”. Apuradas as urnas, constata-se que há uma inegável tendência a empregar o hífen, mesmo que persistam divergências quanto a alguns punhados de palavras.

Sempre coerente na sua onipotência, contudo, a comissão de Lexicologia da ABL, encarregada de elaborar o novo VOLP, foi muito além das chinelas — isto é, foi muito além do texto do Acordo Ortográfico e anunciou, em uma Nota Explicativa, que tinha decidido excluir o hífen dos casos em que a palavra não funciona como prefixo, mencionando, como exemplos, não-agressão e não-fumante, grafados por ela como não agressão e não fumante. No entanto, logo depois, no parágrafo seguinte da mesma Nota — talvez prevendo a inevitável reação contra esta decisão unilateral —, a douta comissão dá uma contemporizada tipicamente brasileira: “Está claro que, para atender a especiais situações de expressividade estilística com a utilização de recursos ortográficos, se pode recorrer ao emprego do hífen nestes e em todos os outros casos que o uso permitir”. Que tal? Firmes como uma rocha…

Eu escreveria, sem a menor hesitação, “anti-inflamatórios não-esteróides“, seguindo o consenso da maioria culta; respeito a decisão dos que preferem não fazê-lo, mas não me venham alegar uma pretensa “grafia oficial” a seu favor, pois aquela Nota Explicativa é apenas a opinião isolada de alguns acadêmicos e não integra o Acordo que o Brasil assinou com os demais países lusófonos. Agora cabe a você, Áurea, escolher o caminho que lhe aprouver. Abraço. Prof. Moreno.

 

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anti-EUA

Jamais devemos esquecer que as normas ortográficas foram (e ainda são) feitas por homens, mortais como nós, com momentos de brilhantismo e outros de absoluta estupidez. Nosso sistema ortográfico até que  é muito razoável, se levarmos em conta o que significa regulamentar a grafia de uma gigantesca quantidade de fatos de linguagem; o que não podemos exigir dele é que seja perfeito e que dê conta de todas as situações possíveis que o uso nos faz descobrir, como aconteceu no caso do hífen.

O emprego deste infeliz “tracinho”, de utilidade discutível, foi definido pelos elaboradores do Acordo de 1943 e aperfeiçoado pelo Acordo de 1990. É bem assim que funciona no Brasil: decide-se num gabinete qual a melhor grafia para as palavras, publica-se no Diário Oficial da União (não estou brincando!), dá-se um prazo para sua utilização compulsória, emitem-se pareceres, baixam-se portarias, etcétera e tal; isso é suficiente para despertar no brasileiro comum aquele respeito pela leizinha, aquele amor ao carimbo, aquele prazer bem ibérico pelo regulamentozinho chinfrim de cartório. E ai de quem lhe diga que a regra pode estar equivocada, ou incompleta, ou incongruente: vai olhá-lo como a um sacrílego que tentasse emendar os Dez Mandamentos. Felizmente esta coluna é lida por pessoas que têm miolo e que já devem ter percebido que a regra do hífen não é uma lei interna do idioma, mas uma simples disposição concebida por pessoas que talvez não tenham imaginado todas as suas conseqüências, como veremos.

Pelas novas regras, este prefixo deve ser hifenizado antes de H e de I, o que nos leva a escrever anti-Holanda, anti-Israel, como anti-hemorrágico e anti-islâmico. Até aqui, tudo bem. E o resto? Vamos deixar de escrever anti-Cuba, anti-Afeganistão, anti-Rússia e anti-França, para escrever anticuba, antiafeganistão, antirrússia (credo!) e antifrança? Em vez de anti-EUA, como escrevo, vou escrever antieua? Quem sabe antissarkozy (tipo antissemita, antissísmico), em vez de anti-Sarkozy? Enlouqueceram?

É evidente que todos sentimos o hífen aqui como indispensável; na verdade, este prefixo, cada vez mais em moda (tem gente que consegue ser anti-tudo!), sugere que se é “contra tudo aquilo que estiver do lado direito do hífen”. Um crítico que não gosta do Cinema Novo é anti-Cinema Novo, e não anticinema novo, como gostariam os idiotas da objetividade (o prefixo estaria se opondo a “cinema”). Há os anti-Lula, os anti-Fernando Henrique, os anti-privatização da Petrobrás, os anti-Sarney, os anti-stalinistas

Este é um belo exemplo de como os fatos concretos atropelam as leis feitas pelo homem; lá pelos anos 40, ninguém poderia prever a intensidade e a variedade do emprego de anti no início do século 21  — e a regra não estava preparada para isso. O novo Acordo (1990) já deveria ter tomado consciência dessa nova realidade; deveria, mas não tomou.  Isso tudo sem falar em outro uso moderno para anti-, mais profundo, em que ele exprime uma posição de “negação” conceptual do que vem depois. O anti futebol (ou seria antifutebol, ou anti-futebol?) não é contra o futebol, assim como o anti cinema não é contra o cinema, mas um tipo de  futebol ou cinema (ambos muito chatos) que se opõe a tudo aquilo que tradicionalmente se conhece por cinema ou futebol. E aí? Esse anti está contido naquela regrinha, é um novo prefixo ou é um daqueles elementos que se independentizou, como súper ou máxi? Esta é uma questão que só o uso poderá decidir.

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Não compre o novo VOLP (final)

Como adiantei na coluna anterior, o gigantesco equívoco do novo VOLP reside na maneira como seus autores interpretaram as regras do hífen do Acordo Ortográfico. Não esperávamos que eles solucionassem definitivamente as dificuldades que cercam este danado sinalzinho porque sabemos que é tarefa impossível; não importa quantas reformas venham a ocorrer nos próximos mil anos: sempre vai haver indecisão quanto ao hífen porque ele se apoia no terreno eternamente movediço que marca o limite entre a Morfologia e a Sintaxe, o limite entre o vocábulo e a locução. Explico melhor.

Desde o momento em que aprendemos a ler, sabemos reconhecer os vocábulos de uma linha escrita a partir de um simples critério visual: basta contar os  segmentos que estão separados por espaços em branco. Este critério, essencialmente prático, foi consagrado por muitos séculos de tradição gramatical, desde que se compuseram os primeiros dicionários. No caso de um vocábulo composto — produto da união de dois vocábulos já existentes no idioma —, cabe ao hífen assinalar o fato de que aquelas duas entidades, normalmente separadas, estão ali como partes constitutivas de um todo. É por isso que o hífen também se chama de traço-de-união; sua presença confirma nossa definição inicial de vocábulo como uma inscrição em cujos lados — tanto o esquerdo quanto o direito — existe uma interrupção do texto escrito.

O espaço separa, o hífen une. Se leio mesa redonda, o espaço me avisa de que estou falando de uma determinada mesa, de forma redonda (nem quadrada, nem retangular). Se leio mesa-redonda, porém, o hífen me informa de que se trata de um composto, um substantivo que designa “discussão ou conferência em que todos aqueles que dela participam estão em pé de igualdade”. No primeiro caso, dois vocábulos formam um sintagma (ou locução); estamos no terreno da Sintaxe; no segundo, os vocábulos se uniram para formar um novo vocábulo (estamos no terreno da Morfologia).

Pois este é o fator que complica o uso do hífen: quando é que um sintagma passa a ser um substantivo composto? Em que momento saímos da Sintaxe (vários vocábulos) e entramos na Morfologia (um só vocábulo)? Por que papel crepom e papel celofane são vistos como locuções, enquanto papel-bíblia e papel-carbono são compostos? Por que muitos gramáticos escrevem ponto e vírgula como três vocábulos separados, ao contrário do preferível ponto-e-vírgula, como uma unidade? Há vários “palpites” sobre como se poderia fazer esta diferenciação, mas acho que nunca chegaremos a uma resposta definitiva — não por deficiência das teorias ou incompetência de nossos estudiosos, mas exatamente pela natureza difusa do problema. Não se poderia exigir do VOLP, portanto, que fizesse o que ninguém fez (ou fará).

O pecado mortal da comissão da ABL foi a interpretação desastrada da regra que dispõe que o hífen deve ser usado “nas palavras compostas por justaposição que não contêm formas de ligação”. Imagino que esta espantosa imprecisão terminológica (o que é “justaposição”, aqui? E o que seriam essas “formas de ligação”?) tenha colaborado para o equívoco, mas nossa Academia deveria ter sido mais prudente e solicitado a ajuda dos “universitários” (dos professores, é claro).  O Acordo parece estar fazendo apenas uma referência capenga a um princípio que sempre foi observado: não há hífen quando existe um fonema de ligação, como em natimorto, setissílabo, alvinegro (comparem com rubro-negro), avifauna, clarividente, etc. Nossa comissão, todavia, numa visão muito particular, entendeu por “forma de ligação” qualquer preposição ou  conjunção que estivesse entre os elementos do vocábulo composto e retirou, à moda galega, o hífen de pé-de-moleque, fora-da-lei, diz-que-diz e dezenas de outros. Embriagados de tanta audácia, nossos heróis não pararam aí e estenderam a regra para qualquer composto com mais de dois elementos — inclusive as frases substantivadas (tomara-que-caia, deus-nos-acuda, etc.). Estava instituído o caos: usamos hífen nos compostos de dois vocábulos para distingui-los das locuções (cachorro-quente não é um “cachorro quente”; meio-dia (12h) não é “meio dia”) — mas isso deixa de ser necessário nos compostos maiores? E pé-de-pato e “pé de pato”? E faz-de-conta e “faz de conta”? Numa “Nota Explicativa” constrangedora, a comissão alega que o contexto suprirá a ausência do hífen, o que pode ser verdade em algumas frases, mas em outras não, numa casuística que é  o contrário do que se espera da ortografia. O pior, porém, foi a criação de um absurdo lexicográfico que vai entrar para a História: o substantivo que contém espaços em branco! Os futuros brasileirinhos vão aprender que maria vai com as outras — assim, com minúscula no nome próprio, com verbo conjugado, etc. — é um substantivo? Mas é de amargar!  A ABL deve admitir seu equívoco e voltar atrás, antes que se perca o pouco prestígio que ainda lhe resta.

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Bom dia, bom-dia

Caro Professor, em uma mensagem eletrônica ou em uma carta, o cumprimento “bom diapode ser escrito sem hífen? Lucia — Curitiba

Em qualquer circunstância, Lucia — carta, bilhete, e-mail, etc. —  a saudação vai ser escrita sem hífen: “Bom dia!”. Quando for um substantivo, no entanto, deve ser hifenizado: “Deu um bom-dia sem graça e foi sentar em seu lugar”. Neste caso, tem até plural: “Já estava cansada daqueles bons-dias cheios de segundas intenções”. Pois nada disso muda, com o Acordo; as novas regras de hífen dizem respeito a formação com prefixos — o que não é o caso. Abraço.  Prof. Moreno

Mas caro Professor, de acordo com o VOLP, saudação protocolar é vocábulo grafado com hífen. O Houaiss ratifica tal ponto de vista. Assim, ao iniciar o dia, o bom-dia é um cumprimento, pois não? O Acordo de 1990 não aborda a questão. E aí?

Lucia — Curitiba

Minha cara Lúcia, nota que o Houaiss registra apenas o substantivo masculino (com hífen, aliás, como já te disse na mensagem anterior). Deves perceber que isso nada tem a ver com “Bom dia!”, aquele segmento de frase que dizemos quando encontramos alguém, ou dele nos despedimos. É uma locução, o que significa que já pertence ao mundo da sintaxe — e isso a deixa fora do âmbito do hífen, que fica restrito ao interior de um vocábulo composto. “Bom dia!” é da mesma tribo de “Boas festas!”, “Bons ventos!”, “Bom Carnaval!”, “Boa viagem”,”Bom almoço!”, “Boa hora” (que se diz para as gestantes), e assim por diante. Um exemplo que deixa bem clara esta diferença é “boa tarde”. Compara a concordância de gênero em “Tenha uma boa tarde” (locução) com “Deixo aos ouvintes o meu boa-tarde” (substantivo composto). Abraço. Prof. Moreno

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Não compre o novo VOLP! 3ª parte

[publicado em 19/06/2009]

Neste artigo, como nos dois primeiros, o tema não é o novo Acordo, do qual sou crítico declarado e inimigo irredutível, mas o Vocabulário Ortográfico que nossa Academia deu à luz, em parto desastrado e prematuro. Isso significa que não vou avaliar aqui as mudanças propostas pela última Reforma, sobre (e contra) as quais já escrevi tantas vezes, mas sim apontar ao meu prezado leitor o equívoco que a comissão brasileira cometeu ao tentar interpretá-las, comprometendo irremediavelmente esta quinta edição do VOLP e condenando-a ao depósito de papel velho. É o que pretendo demonstrar.

Quando o Diário Oficial da União publicou o texto do Acordo, percebeu-se que ele continha várias regras conflitantes ou redigidas de maneira confusa. E olhe, caro leitor, que não se trata da opinião pessoal de um adversário birrento como eu; esta foi a mesma impressão que tiveram todos os que se dispuseram a enfrentar aquele estilo pedestre, fossem eles do contra, fossem a favor. Todos nós — os bons e os maus, os crédulos e os descrentes — recolhemos as armas e ficamos na expectativa do vocabulário que a ABL deveria editar. Os acordistas tranquilizavam os aflitos (e a si mesmos) anunciando que todas as dúvidas e perplexidades que porventura restassem deixariam de existir no momento em que ele fosse publicado; os não-acordistas (com hífen, porque é assim que devem escrever aqueles que conhecem o idioma) esperavam, céticos, o parto da montanha, curiosos apenas em saber em que medida o VOLP reduziria o dano anunciado.

Diante desta disputa, um daqueles camponeses proverbiais, montado em seu burrico, teria sentenciado, abanando a cabeça: “De mau ovo, mau corvo”. E dito e feito: o VOLP veio decepcionar todo o mundo, pois a nossa comissão, em vez de trazer o bálsamo prometido, só veio aumentar a ardência da ferida, extrapolando sua competência ao tomar decisões que iam além e mesmo contra o que estava disposto. O caso de co-herdeiro foi típico. Em todo o Acordo perpassa a ideia de preservar sempre o H inicial do segundo elemento dos compostos (anti-higiênico, super-homem, neo-helênico, geo-história), o que representa um bem-vindo aperfeiçoamento do sistema de 1943, que não usaria hífen nos dois últimos exemplos acima. Nossa ortografia sempre manteve o H inicial de hora, hábito ou histérico — da mesma maneira que o Francês, o Inglês ou o Espanhol — para deixar visível o DNA desses vocábulos, inserindo-os na tradição greco-romana do Ocidente. Fiel a este espírito, a Reforma determinou que ele também seja conservado no interior dos vocábulos compostos, o que é decididamente um progresso; nossa ABL entendeu tão bem o princípio que o estendeu a um prefixo importante como sub-, transformando os antigos (e absurdos) subumano, subepático e subabitação, por exemplo, nos simpáticos sub-humano, sub-hepático e sub-habitação, com uma construção muito mais transparente para o usuário. Ora, depois de acertar tão bem no prego, essa mesma comissão, por razões insondáveis, resolveu dar uma martelada na tábua e transformou co-herdeiro (que continuamos a escrever assim, seja pelo modelo tradicional, seja pelo princípio atual) num esquisitíssimo *coerdeiro (está assim no VOLP), que desfigura totalmente o segundo elemento. Não importa se foi um cochilo ou se foi uma decisão deliberada, mas é um erro que precisa ser corrigido; escrito assim, o vocábulo contraria o princípio geral e, o que é mais espantoso, vai expressamente contra o texto do Acordo, que usa este vocábulo como exemplo, grafando-o, como era de esperar,  com hífen e com H.

Não é por um detalhe como esse, no entanto, que vamos condenar esta quinta edição. É natural que numa lista de centenas de milhares de itens existam dezenas de pequenos equívocos a corrigir (ainda mais se considerarmos a pressa com que foi feita e a duvidosa qualificação da equipe que a elaborou). Sempre foi assim, com as edições anteriores; mesmo o venerável e consistente vocabulário de 1943, enquanto vigeu, teve várias imperfeições e incoerências apontadas pelos especialistas. O que inutiliza o presente vocabulário, no entanto, é um equívoco teórico de base, que levou a comissão a grafar erradamente várias centenas de vocábulos, escrevendo sem hífen, por princípio, todos os compostos de mais de dois elementos. Num absurdo linguístico, como vou demonstrar na próxima coluna, defendem a retirada do hífen em vocábulos como fora-da-lei, pé-de-moleque, tomara-que-caia, dois-de-paus! É de estarrecer! Assim como está, o VOLP, como se diz, é “impróprio para o consumo”, tão funesto quanto o medicamento vencido ou a merenda estragada; espero sinceramente que já não esteja em curso alguma gigantesca operação para fornecê-lo a todas as escolas “desse” país. A ver.

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Mudanças na ortografia [6° de 10]

A base de nossa ortografia atual é o Acordo de 1943, implantado por Getúlio Vargas como parte de seu plano de modernizar o país. Antes dele, o brasileiro podia escolher entre diversas maneiras de representar por escrito as palavras do idioma, numa verdadeira babel ortográfica. Hoje é difícil imaginar como seria viver assim, com diferentes sistemas convivendo anarquicamente nas páginas dos jornais, nos livros, nos dicionários e, o que era pior, nos bancos escolares. Foi o Acordo de 1943 que trouxe ao país a unidade que hoje conhecemos, criando um modelo estável que sofreu, em 1971, apenas um pequeno retoque (friso que foi a única modificação ocorrida de 1943 até hoje):

(1) foi suprimido o raríssimo trema que indicava hiato (escrevendo gaüchismo, assinalaríamos que a pronúncia desejada era /ga-u-chis-mo/ e não /gau-chis-mo/, além de evitar que algum leitor tomasse o vocábulo como um derivado de gauche —”esquerda”, em Francês — e lesse /gochismo/;

(2) foi suprimido o acento subtônico dos derivados em –mente e em –zinho (escrevia-se gêniozinho, sòmente, cafèzinho, espontâneamente);

(3) foi suprimido o acento circunflexo diferencial dos pares com E ou O aberto e fechado (gêlo:gelo, almôço:almoço; tôda:toda; mêdo:medo).

Sucinto como deve ser, o texto desta minirreforma gastou apenas um parágrafo para definir os três acentos que deviam ser suprimidos do sistema de 1943 — e pronto.  Em vez de seguir a mesma prática de indicar apenas as supressões, o Acordo assinado este ano é um amontoado de regras desordenadas, mal concebidas e redigidas de maneira pedestre. Os participantes desta amaldiçoada comissão dedicaram-se à tarefa completamente redundante de dizer, de novo, tudo o que 1943 já tinha conseguido dizer de forma mais clara e organizada. A conseqüência é a falsa aparência de complexidade que o texto assume para o leitor não-especializado, que não percebe, por trás desse palavreado cheio de farofa, que a montanha está parindo um esquálido ratinho. Pois esta é a razão de ser da coluna de hoje: definir, com clareza, o que mudará — para o Brasil, para nós, para mim e para você, meu caro leitor — o que mudará, repito, se a comunidade aceitar este novo modelo e consagrá-lo pelo uso.

Para nós, brasileiros, é importante esclarecer que este Acordo só inova, com relação ao modelo de 1943, na acentuação e no emprego do hífen; o emprego das letras fica exatamente como sempre foi. Na acentuação, ocorre a supressão de algumas regras hoje vigentes — e só; no uso do hífen, a comissão propõe mudanças cujas conseqüências ela própria desconhece. Faço questão de assinalar que este artigo seria totalmente diferente se fosse destinado ao leitores portugueses, pois as mudanças que eles vão ter de engolir são de outra ordem e calibre.

Mudanças na acentuação — As regras que vão ser alteradas são poucas e de escassa importância:

1 — Hoje se acentuam os hiatos tônicos ÊE, ÔO: vôo, abençôo, relêem, dêem, etc. O Acordo suprime esta regra: voo, abençoo, releem, deem.

2 — Hoje se acentuam os ditongos abertos éi, éu, ói, onde quer que eles estejam: jibóia, heróico, paranóia, geléia, idéia; réu, herói, dói, réis. O Acordo só mantém esse acento nas oxítonas: réu, herói, dói, réis, troféu, mas jiboia, heroico, paranoia, geleia, ideia, assembleia, apoiam, etc.

3 — Tendo em vista que a letra U — quando colocada entre Q e E, Q e I, G e E, G e I — pode ter três valores diferentes, utilizamos hoje um sistema tripartite que indica claramente quando ela é muda, tônica ou átona: (1) se é muda, fica sem marca (quilo, guerra); (2) se é tônica, leva acento (argúi, argúem); (3) se é átona, leva trema (pingüim, agüenta). O Acordo pretende eliminar esta regra inteirinha, escrevendo tudo sem acento ou trema: quilo, guerra, argui, arguem, pinguim, aguenta. O leitor certamente entenderá que estamos falando de grafia; a pronúncia das palavras não muda, nem pode mudar. Por isso, mesmo que um dia se escreva linguiça (assim, sem trema), o U continuará a ser pronunciado obrigatoriamente.

4 — Hoje se acentuam o I e o U tônicos quando vierem depois de vogal ou ditongo e estiverem sozinhos ou formando sílaba com S: juízes, gaúcho, saíste, reúno, feiúra, baiúca. O Acordo apenas suprime o acento quando a vogal vier depois de ditongo decrescente: continuamos a escrever juízes, gaúcho, saíste e reúno, mas passamos a escrever feiura, baiuca, gaiuta, bocaiuva, reiuno.

5 — Caem os acentos diferenciais de pélo(s), péla(s), côa(s), pólo(s), pêra e (não consigo entender por quê!) o de pára. Continua o de pôr e pôde, e torna-se facultativo o de fôrma, antiga reivindicação de mestre Aurélio Buarque de Holanda. 

Mudanças no hífen com prefixos — Aqui as mudanças propostas atingem um número muito maior de palavras e parecem obedecer a um princípio mais racional. Os futuros desdobramentos que essas regras terão, contudo, não podem ser avaliados enquanto a Academia não editar o novo Vocabulário Ortográfico. As alterações mais importantes são as seguintes:

1 — Usaremos hífen quando o prefixo terminar por vogal idêntica à que inicia o segundo elemento: anti-inflamatório, micro-onda, micro-organismo, neo-ortodoxo. Se as vogais forem diferentes, contudo, não há hífen: antiestático, microindústria, neoexpressionismo, infraestrutura, autoestrada.

2 — Usaremos hífen sempre que o segundo elemento começar por H: geo-história, mini-hospital, sub-habitação, co-herdeiro.

3 — Não há hífen quando o prefixo terminar em vogal e o segundo elemento iniciar por R ou S; como sempre fizemos em casos semelhantes, o R ou o S serão duplicados: contrarregra, autosserviço, contrassenha, neorrealismo, ultrassom, antissemita.

Em princípio, caro leitor, é isso aí. A partir de 2009, os documentos oficiais vão ter de se submeter bovinamente ao novo estilo; nós, os outros, ainda teremos ainda três anos de carência, durante os quais — como ardentemente espero — a sociedade civil do Brasil e de Portugal vai acabar rejeitando essas alterações insensatas. Os editores ingênuos, que hoje ainda alimentam a fantasia de que a unificação trará a abertura de novos mercados, virão juntar-se a este coro de descontentes no momento em que perceberem que um original brasileiro, para ser publicado em Portugal ou na África, continuará a exigir uma trabalhosa adaptação ortográfica, já que Acordo, ao admitir demagogicamente dezenas de regras “facultativas”, não unifica coisíssima nenhuma. Vocês vão ver.

Depois do Acordo: conseqüência > consequência

[artigo publicado em 25/10/2008. O lançamento do VOLP pela Academia Brasileira de Letras, em março de 2009, não altera em nada o teor do que aqui foi escrito]

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O que muda na ortografia? [5° de 10]

Depois de demonstrar, com uma mancheia de exemplos, que a tão propalada unificação da grafia é um mero delírio de amadores, que vai terminar como a famosa Batalha de Itararé — “a que não houve” —, vamos ao que interessa: o que vai mudar em nossa ortografia, se o Acordo entrar em vigor? Para mim, para meu leitor, para nós, os aflitos, que mudanças a reforma trará? Pouca coisa, eu diria — mas o suficiente para perturbar a quem está quieto em seu cantinho e para inutilizar todas as bibliotecas escolares de que dispomos. O fato do texto — nota para os zoilos de plantão: não acredito que alguém aí fora ainda pense que é de bom-tom escrever “o fato de o texto“! Cruz, credo! Gramática neles! — o fato do texto do Acordo, repito, ser extenso deve-se mais à prolixidade e ao estilo pedestre de quem o redigiu do que propriamente ao número de mudanças introduzidas. A nós, brasileiros, caberiam as seguintes novidades:

(1) o desaparecimento do trema e do acento agudo no U, nos ambientes “G_E”, “G_I”, “Q_E” e “Q_I”; hoje escrevemos pingüim, argúi, averigúem, seqüestro, que passariam a pinguim, argui, averiguem, sequestro, como em Portugal.

(2) O desaparecimento do circunflexo nos hiatos EE e OO; zôo, vôo, abençôo, lêem passariam a zoo, voo, abençoo, leem, como em Portugal.

(3) O desaparecimento, nas paroxítonas, do acento nos ditongos abertos EI e OI. Heróico, lambisgóia, diarréia, geléia passariam a heroico, lambisgoia, diarreia, geleia — mas continuaríamos a acentuar as oxítonas: céu, réu, dói, herói, papéis — tudo exatamente como é lá na pátria do mestre Álvaro Siza (o qual, como era de esperar de sumidade tamanha, também gostaria de mandar às urtigas este Acordo chinfrim).

(4) O desaparecimento do acento no U tônico, depois de ditongo: em vez de baiúca, gaiúta e bocaiúva, passaríamos a escrever baiuca, gaiuta e bocaiuva — como é na terra de Camões e do bacalhau à Gomes de Sá.

(5) A eliminação dos acentos diferenciais de pélo, pélas, péla (v. pelar); pêlo(s); pólo(s), que passariam a pelo, pelas, pela; pelo(s); polo(s). Aqui, absurdamente, o acento de pára (v. parar), sempre útil, também seria condenado.

Além disso, haverá também movimentações no misterioso pântano do hífen; várias das regras atuais, incompreensíveis e contraditórias, serão substituídas por outras tantas, da mesma laia. Neste passo, o Acordo acrescenta esta obra-prima de imprecisão: “Certos compostos, em relação aos quais se perdeu, em certa medida, a noção de composição”, grafam-se sem hífen, entre eles mandachuva, paraquedas, paraquedista, etc. — deixando-nos a matutar sobre quem serão as certas pessoas que vão determinar os certos casos em que se perdeu, em certa medida, a noção de composição… Esse nó Górdio só vai ser cortado quando — e se — for publicado um Vocabulário Ortográfico oficial (só o Português tem essa aberração jurídico-lingüística…), que aponte para o brasileiro comum o que é pão e o que é queijo.

Enquanto isso, lá do outro lado do Atlântico, os nossos irmãos portugueses estarão enfrentando as suas mudanças — sim, mudanças que valem só para eles, mas que para nós não trazem novidade alguma. Por exemplo, eles vão deixar de escrever aquelas consoantes que escrevem, mas não pronunciam: Egipto, acção, afectivo, colecção, exacto, adoptar passarão a ser escritos de acordo com a pronúncia culta do Português Europeu: Egito, ação, afetivo, coleção, exato e adotar. Herva e húmido passarão a erva e úmido (como já é aqui). E assim por diante.

Como o leitor deverá ter percebido, o Acordo realmente trabalha em nome de uma aproximação recíproca: as concessões que o Brasil e Portugal farão, embora sejam diversas de um país para o outro, tendem a eliminar as diferenças entre os dois sistemas, diferenças, aliás, que têm raízes históricas: Portugal adota o modelo de 1945, que foi formalmente assinado e ratificado pelo Brasil, mas rejeitado pelos brasileiros, que voltaram ao Acordo de 1943, ainda vigente por estas bandas. Na óptica dos burocratas que defendem a Reforma, será dado mais um passo (um pequeno passo que leva a uma longa marcha, diria o presidente Mao…) para a unificação, mas é muito pouco — e muito caro. A montanha vai parir um mísero ratinho, num parto caríssimo que vai sobrecarregar, em nome de uma utopia irresponsável, o nosso raquítico sistema educacional e acarretar uma renovação obrigatória de todas as bibliotecas escolares. Nos governos corruptos do passado, poderíamos até supor que os verdadeiros beneficiados com a reforma fossem as grandes editoras, de olho nessas reedições milionárias, e os funcionários do MEC encarregados das licitações. Felizmente tudo mudou, e o atual governo é austero e incorruptível como nunca Dantas, digo, dantes “nesse” país… 

Depois do Acordo: lingüística > linguística

[artigo publicado em 19/07/2008, muitos meses antes do lançamento do VOLP pela Academia Brasileira de Letras. Tudo o que foi escrito neste artigo continua valendo — inclusive as críticas]

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locução x vocábulo composto

locução x vocábulo composto

Caro Professor, há diferença entre locução substantiva e substantivo composto? Em caso afirmativo, poderia o Professor me esclarecer qual é essa diferença? Um grande abraço!

Paulo Sérgio A. — Rio de Janeiro

Meu caro Paulo, este sempre foi (e sempre será) o grande problema do uso do hífen em nosso idioma: saber quando uma locução passa a ser um substantivo composto. Em que momento saímos da Sintaxe (vários vocábulos) e entramos na Morfologia (um só vocábulo)? Por que papel almaço e papel da Índia são locuções, e papel-bíblia é um substantivo composto? Por que alguns (Aurélio, por exemplo) consideram pôr-do-sol um substantivo, enquanto Houaiss classifica como uma simples locução (pôr do sol)? Apesar de existirem vários “palpites” sobre como se poderia fazer esta diferenciação, acho que nunca poderemos chegar a uma resposta definitiva — não por deficiência de nossas teorias ou incompetência de nossos estudiosos, mas exatamente pela natureza difusa do problema.

Embora não seja especificamente sobre este assunto, minha tese de doutorado trata desta progressiva lexicalização de estruturas sintáticas (em outras palavras, da passagem da Sintaxe para o Léxico), um processo usual no Português em que a frase ou locução X passa a ser o vocábulo composto Y). Examinando os dados, a conclusão obrigatória é que não existe um limite definido para essa passagem. Em vez de uma alteração definitiva, pontual, em que X se transforma em Y (assim como, num dado momento, a lagarta vira borboleta), o que temos é uma transformação tipo “O Médico e o Monstro”, em que o novo ser é, ao mesmo tempo, médico e monstro, se bem entendes a metáfora.

Nota que a presença do hífen, aqui, é o que serve para distinguir aquilo que consideramos locução daquilo que consideramos vocábulo. Há gramáticos que vêem em ponto e vírgula uma locução (daí não usarem o hífen); Aurélio e Houaiss, por sua vez, consideram-no um vocábulo e, ipso facto, escrevem ponto-e-vírgula (como podes ver, é uma repetição do pôr-do-sol/por do sol do primeiro parágrafo).

É exatamente por isso que ninguém entendeu essa orientação esdrúxula do VOLP de eliminar o hífen de vocábulos compostos que tenham preposição ou conjunção entre os elementos. Foi uma interpretação equivocada do texto do Acordo, e tenho certeza de que a ABL acabará voltando atrás, para não se cobrir de ridículo. Portugal entendeu corretamente o que foi disposto e manteve os hifens em vocábulos como pé-de-moleque, maria-vai-com-as-outras, mula-sem-cabeça, dia-a-dia, pé-de-cabra, etc. Abraço. Prof. Moreno

pão-de-ló e dia-a-dia

Caro professor, desculpe-me incomodá-lo mais uma vez, porém, uma dúvida veio à baila e gostaria, se possível, que o senhor me esclarecesse. Há alguns dias, ouvi num programa de rádio que o hífen havia sido abolido em todas as palavras compostas ligadas por preposição (ex.: fora-da-lei, à-toa, pão-de-ló, dia-a-dia, etc.). Pois bem, ontem mesmo, vi numa edição atualizada do Aurélio (apregoando estar de acordo com o Acordo Ortográfico) a palavra pão-de-ló com hífen (como sempre escrevemos). Bem, o que de fato é verdade? Grato mais uma vez.

Valdecir T. — São José dos Campos (SP)

Meu prezado Valdecir: tua pergunta toca no ponto mais controvertido do novo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, (o famoso VOLP), recentemente publicado por nossa Academia de Letras. Interpretando equivocadamente o texto do Acordo, a comissão brasileira decidiu, sem tir-te nem guar-te, eliminar o hífen de qualquer composto que tenha preposição ou conjunção unindo os seus elementos — exatamente como pão-de-ló ou dia-a-dia, como vocês perguntaram.

Ora, mesmo que aqui o texto do Acordo não tenha uma redação muito feliz (como todo o resto, aliás), fica bem claro, numa leitura mais cuidadosa, que o princípio geral é usar o hífen apenas nos vocábulos compostos, distinguindo-os das meras locuções. Afinal, essa sempre foi a utilidade deste sinal: distinguir uma mesa redonda (quadrada, oval, etc) de uma mesa-redonda (reunião para discutir um tema ou fazer uma deliberação), ou seja, distinguir uma locução formada por duas palavras independentes (mesa redonda) de um vocábulo composto (mesa-redonda).

Pois nossas sumidades resolveram manter este hífen apenas quando o vocábulo é composto de dois elementos (pombo-correio, couve-flor, água-furtada); quando tem mais de dois, a comissão, numa atitude inexplicável e completamente equivocada, decidiu suprimi-lo. Dessa forma, se fôssemos levar a sério esta sandice, substantivos compostos como pé-de-moleque, fora-da-lei, mula-sem-cabeça passariam a ser escritos pé de moleque, fora da lei, mula sem cabeça! Teríamos, pela primeira vez na História, substantivos com espaços em branco entre os seus elementos! Um vocábulo com espaços entre seus componentes? Isso não existe. A diferença entre vocábulo e locução deve ser assinalada por hífen, não importa o número de componentes que o composto venha a ter. Ele vive fora da lei: é uma locução formada de três vocábulos. O xerife prendeu os fora-da-lei: é um vocábulo composto.

Infelizmente, a nova edição do Vocabulário Ortográfico traz todos esses vocábulos sem o hífen, mas, curiosamente, classificados ora como substantivo, ora como adjetivo. Ao lado de maria vai com as outras, tiveram a coragem de registrar “s.f.“. Substantivo feminino? Mas isso é uma frase completa, com sujeito, verbo e tudo mais! Sem o hífen, fica completamente impreciso o limite entre a morfologia e a sintaxe.

Não preciso dizer que este escandaloso equívoco, que torna o VOLP totalmente imprestável, é a interpretação brasileira; os portugueses, com mais prudência, ainda não prepararam o seu VOLP, mas todos os especialistas que comentam o Acordo são unânimes em conservar o hífen de pé-de-moleque, pé-de-valsa, pão-de-ló, deus-nos-acuda, bumba-meu-boi e tantos outros. É assim que todos nós também devemos escrever. A Academia foi contra? Pior para ela, que vai se cobrir de vergonha por ter chancelado uma publicação tão irresponsável como esta. Abraço. Prof. Moreno

Veja a regra aqui

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