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Acentuação Como se escreve

acento de nêutron

Júlio M., de Caxias do Sul, tem uma dúvida sobre acentuação: “Gostaria de saber se prótons, nêutrons e elétrons levam acento. A regra diz que as paroxítonas terminadas em N são acentuadas, no entanto, não fala se seguidas ou não de S. O plural de hífen não é acentuado. Qual a regra? Será estrangeirismo?”

Prezado Júlio: desculpa, mas não há tal “regra”. Como deves saber, as paroxítonas, para fins de acentuação, são divididas em dois grupos: (1) as que, por existirem em grande número, não levam acento (as terminadas em A(s), E(s), O(s), EM e ENS); (2) as demais, que são acentuadas. É simples assim.

Hífen tem acento porque o N não está entre os finais mais comuns; já hifens faz parte de um grande grupo, juntamente com itens, polens, homens, jovens, nuvens, etc., e vai ficar, por isso mesmo, sem acento. Agora, nêutron, nêutrons, cátion, cátions, ânion, ânions — todos estão fora do grupo livre de acento. Abraço. Prof. Moreno

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Acentuação Como se escreve

item, itens

Prof. Moreno, gostaria que o senhor me elucidasse sobre o uso do acento nas palavras item (ou ítem) e subitem (ou seria sub-item?) e os seus plurais. Obrigado.

Jansen W. — Santos (SP)

Meu caro Jansen: em todos os meus anos de magistério, sempre me fascinou a verdadeira compulsão que as pessoas têm de acentuar item, ou itens, ou ambos. Eu não hesitaria em eleger essas duas formas como o melhor exemplo para provar que há uma falha na maneira como o sistema de acentuação, criado em 1943 e mantido pelo atual Acordo, vem sendo transmitido a todos nós, os brasileiros que sabem escrever. As gramáticas e os livros didáticos geralmente apresentam os acentos numa seqüência de regras aparentemente casuísticas, impedindo que os alunos (e muitos professores) percebam a límpida economia do sistema.

Consulta qualquer um dos bons livros didáticos que temos no mercado: vais aprender que as oxítonas terminadas em A, E, O (com ou sem S final), EM e ENS devem ser marcadas com acento gráfico, enquanto as paroxítonas acentuadas são as terminadas em PS, Ã, ÃO, R, X, L, etc. — uma lista de finais exóticos e pouco comuns. Ora, falar sobre quais as oxítonas e quais as paroxítonas SÃO acentuadas é deixar de perceber o caráter binário, complementar do sistema. O fundamental é sabermos que as palavras paroxítonas mais comuns, mais numerosas (e que, portanto, não devem ser acentuadas) são as terminadas exatamente em A, E, O, EM e ENS. A partir daí, podemos estabelecer o seguinte quadro:

O quadro pode ser lido da seguinte maneira: as palavras mais freqüentes de nosso idioma, que são as paroxítonas terminadas em A, E, O (seguidas ou não de “s“), EM e ENS não levam acento; o resto (uma miuçalha variada) leva. Conseqüentemente, o sistema fez valer o inverso para as oxítonas: as que têm esses finais vão ser acentuadas, enquanto o resto fica sem acento. É por isso que casa, mestre, coroa, homem ficam sem acento, enquanto táxi, flúor, nível, látex são acentuadas. E assim por diante (há uma pequena bateria de regras adicionais que vão, posteriormente, aplicar-se a alguns problemas específicos de ditongos e de hiatos — mas isso foge ao problema específico que estou tentando esclarecer neste artigo).

Seguindo essa linha de raciocínio, percebes que homem não é acentuado porque pertence a um grupo muito expressivo de vocábulos em nossa língua: as paroxítonas terminadas em EM. Elas formam um grupo de vários milhares de palavras, do qual fazem parte (1) os substantivos terminados em -agem (selvagem, homenagem); (2) as terceiras pessoas do plural de vários de nossos tempos (fazem, estudem, fiquem, voltarem); (3) um grande número de substantivos e adjetivos com M final (homem, jovem, nuvem, virgem); etc. Ora, se uma pessoa (e quantas existem!) sente-se tentada a colocar um acento em item, só posso concluir que ela não percebeu ainda como funciona o sistema. Na verdade, ela está sonhando com uma regra que deixe sem acento homem, trazem, nuvem e virgem, mas que acentue — o que seria, agora sim, uma odiosa exceção! — o vocábulo item. Felizmente isso não é possível em nosso sistema de acentuação! Se uma palavra leva acento, todas as similares também levam (o inverso também é verdadeiro). Portanto, item e subitem não têm acento, assim como itens e subitens. Não têm e nunca tiveram; se escrevêssemos *ítem, *ítens, como muita gente gostaria, teríamos de escrever também *hômem, *hômens (o asterisco indica uma forma errada). Abraço. Prof. Moreno

P.S.: outra história é o hífen que deveria existir em subitem, mas que não é autorizado pelas escassas e confusas regras que regulam o uso do misterioso “tracinho”. Estamos condenados a escrever subordem, subitem, subestação e subeditor, embora digamos /subiordem/, /subiitem/, /subiestação/ e /subieditor/. Qualquer dia desses eu perco a paciência e vou começar a escrever “sub-item”, “sub-ordem”, “sub-editor”. Com certeza vou levar chumbo de todo o lado, mas vou morrer feliz e aliviado!

Depois  do Acordo:

seqüência > sequência

freqüente > frequente

conseqüentemente > consequentemente

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Fonologia Lições de gramática

paroxítona ou proparoxítona?

Prof. Moreno: numa prova de 5ª série, pediram a meu filho que escolhesse, num texto dado, uma proparoxítona; ele escolheu miséria. A questão seguinte pedia uma palavra que tivesse hiato; ele respondeu também miséria, coerentemente. A professora, porém, considerou incorretas ambas as respostas, dizendo que miséria é uma paroxítona e que nela não há hiato, mas ditongo. Nas gramáticas que consultei, os autores consideram as duas classificações como corretas. Peço sua opinião e reitero não haver intenção de confrontar a posição da escola. Simplesmente desejo saber qual das opções — ou se ambas — está dentro das regras gramaticais.

Gilson A. — Lavras (MG)

Meu caro Gilson: a professora tem razão. Miséria é uma paroxítona terminada em ditongo crescente. Exatamente por isso (devido à elasticidade dos ditongos crescentes na pronúncia), a sílaba final pode — repito: pode —, numa pronúncia escandida, ser dividida em duas (/mi-sé-ri-a/), o que transforma palavras desse tipo, NA FALA, em proparoxítonas. Alguns autores, inclusive, para assinalar o fato, dizem que as paroxítonas terminadas em ditongo crescente podem ser chamadas de proparoxítonas eventuais, relativas ou acidentais — mas elas continuam a ser paroxítonas, e foi a isso que a professora se ateve.

Quanto ao hiato, ele inexiste aqui. Compara secretária e secretaria . Na primeira (que é análoga a miséria), o I é átono; temos, portanto, um ditongo (semivogal + vogal); na segunda, o I é tônico; temos, portanto, um hiato (vogal + vogal). Mesmo que eu leve toda a discussão para o plano da fala, não cabe falar em hiato no caso de miséria.

Para teu consolo, Gilson, informo-te que a maioria dos autores de livros escolares ainda não entendeu bem este item. Não estou brincando: as noções de fonologia que nossas gramáticas escolares trazem estão completamente defasadas. Para que entendas a dimensão do problema, digo-te que elas tratam noções com sílaba, acento tônico, hiato, ditongo, etc., a partir de teorias pré-1950, o que é tão anacrônico quanto um manual médico que abordasse o câncer, a sífilis ou a asma com princípios médicos e biológicos anteriores à 2ª Grande Guerra. Acredita, não estou exagerando.

Além disso, devemos levar em consideração que o ensino de Português, na escola, é (e deve ser) centrado no domínio da linguagem escrita, sem entrar nessa comparação (que estou fazendo agora) entre o plano ortográfico e o plano fonológico. Se subíssemos ao andar de cima, na pós-graduação, aí então ias ver o que é bom: lá, nas altitudes geladas, há autores que até negam a mera existência de ditongo crescente em Português — mas isso é outra história. Abraço. Prof. Moreno

P.S.: recomendo-te também a leitura do que escrevi em ditongo ou hiato?