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Formação de palavras Lições de gramática

absenteísmo

Caro Professor Moreno: estou em fase de redação de minha dissertação de mestrado, cujo tema é “Afastamentos do trabalho na Enfermagem: estudo exploratório sobre esta ocorrência em um hospital de ensino”. Gostaria de orientação quanto à adequação das palavras afastamento ou absenteísmo para caracterizar a ausência do funcionário no trabalho por motivo de licença-saúde. Ressalto ainda que me refiro apenas a ausências justificadas por atestado médico. Desde já agradeço sua atenção.

 Denise B. — São José do Rio Preto (SP)

Minha cara Denise: acho que deves evitar o vocábulo absenteísmo no teu trabalho. Os vocábulos em –ismo, outrora, eram usados exclusivamente para designar doutrinas, movimentos artísticos, estilos literários: naturalismo, positivismo, classicismo, surrealismo, etc. Modernamente, contudo, este sufixo também passou a intervir na criação de vocábulos onde se percebe uma nítida intenção de criticar o exagero, o excesso. É o caso de consumismo, grevismo, assembleísmo, denuncismo, etc. Em absenteísmo, como em consumismo, o sufixo –ismo indica a exagerada repetição ou intensificação de uma prática. Consumista é quem consome sem critérios; absenteísta é quem vive faltando a seu emprego ou a suas aulas. Acho que deverias empregar afastamento — ainda mais considerando que se trata de licença-saúde. Abraço. Prof. Moreno

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Através dos dicionários Etimologia e curiosidades

aidético

Caro Cláudio Moreno: entre nós que trabalhamos com doenças infecciosas — eu sou médico infectologista — a palavra aidético tem uma conotação pejorativa. É como se nós nos referíssemos a um paciente com câncer como canceroso. Para mim, ainda mais, não havia sequer razão para a sua existência, já que a raiz aids não daria aidético, no máximo um aidesético. Para minha surpresa o Aurélio pôs no dicionário o termo sem nenhum alerta sobre seu uso perigoso. E eis que o Houaiss vem e faz o mesmo. Esses nossos dicionaristas não estariam aceitando termos acriticamente? O que o senhor acha disso? Estão autorizando a nós, médicos, usarmos o termo de forma vernacular em nossos artigos científicos? Abraços.

Helio B.

Meu caro Hélio: a língua corrente usa as palavras independentemente das considerações éticas que um médico possa levantar. Essa distância entre o uso especializado e o uso comum é observável em qualquer área do conhecimento; enquanto o vocabulário jurídico distingue entre roubar e furtar, a diferença inexiste para o cidadão que teve seu carro levado por ladrões. Para este mesmo cidadão, o vocábulo aidético designa simplesmente os indivíduos contaminados pelo vírus da Aids; ele não percebe aí a carga pejorativa que um médico vê e procura evitar. É como louco ou maluco, vocábulos que um falante comum utiliza, sem malícia, para designar quem sofre das faculdades mentais, mas que deixam toda a comunidade de psiquiatras e psicólogos com os cabelos (e as barbas) em pé.

Aidético é o adjetivo que nasceu de Aids, e ninguém mais poderá matá-lo, mesmo que fosse malformado — no que, aliás, também tenho as minhas dúvidas. Por que deveria ser *aidesético? Não temos nenhum vocábulo com essa terminação “-esético”; além disso, vejo que lues deu luético e herpes deu herpético, com a desconsideração da sibilante final, como ocorre com aidético

Agora, o fato de todos os bons dicionários registrarem o termo não significa sinal verde para usá-lo em trabalhos científicos; lembra-te, por exemplo, de que todos os palavrões estão dicionarizados, mas isso não nos autoriza a empregá-los num artigo ou numa tese. Dicionário apenas registra e informa; a nós cabe decidir o que é correto ou adequado para as situações concretas, de acordo com nossa formação e nossa sensibilidade. Como muito bem observaste, médicos que se referem a seus pacientes como “cancerosos” ou “sifilíticos” parecem não ter a humanidade e a compreensão indispensáveis para um profissional dessa área. Abraço. Prof. Moreno

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Etimologia e curiosidades Origem das palavras

Subindo e descendo

Há palavras que estão coloridas por um forte matiz elogioso, enquanto outras são usadas principalmente para criticar. Comparando comerciante e traficante, somos obrigados a admitir que ambos exercem a mesma atividade — levar os produtos ao mercado e trocá-los por dinheiro —, mas o primeiro termo não tem a fortíssima conotação pejorativa do segundo. Em outras palavras, os dois vocábulos ocupam posições muito diferentes na escala valorativa, onde traficante é decididamente um vocábulo “do mal”.  Ocorre aqui, no entanto, a mesma mobilidade que encontramos na pirâmide social (ou no câmbio): essas posições não são fixas, e o que ontem estava em alta, hoje pode estar em baixa acelerada. Veremos abaixo exemplos conhecidos de palavras que subiram e palavras que desceram nessa escala de valores.

carroça — (desceu) — Vem do Italiano carrozza, através do Francês carrosse. Na origem, designava uma espécie de carruagem de quatro rodas, usada no transporte de passageiros; era um símbolo de luxo e de riqueza. No séc. XVII, o Padre Vieira ainda podia escrever que “o rei e a rainha passeiam juntos na mesma carroça“. A partir do século seguinte, no entanto, já começa a prevalecer o significado, que perdura até hoje, de “veículo reforçado para transporte de carga”. Como metáfora, o termo é muito usado para falar pejorativamente de automóveis: “a indústria automobilística brasileira fabricava verdadeiras carroças”.

charme — (subiu) — Vem do Francês, que foi buscá-lo no Latim carmen (“canto, poema”); designava, na linguagem jurídica e religiosa, uma fórmula em versos com supostos efeitos mágicos. Com o tempo, seu significado passou a abranger também os poderes sobrenaturais de um mago, bem como qualquer objeto que tivesse propriedades de trazer a sorte ou afastar o Mal (no Inglês, um dos sentidos de charm é “amuleto, talismã”). Afastando-se do mundo do oculto, o vocábulo passou a designar aquele fascínio que certas pessoas naturalmente exercem sobre os outros, tornando-se uma qualidade extremamente valorizada, pois o mundo passou a ser dividido entre os que têm e os que não tem charme.

colosso — (subiu) — Vem do grego kolossos, estatuetas usadas em rituais religiosos para representar pessoas ausentes, correspondendo aproximadamente aos bonequinhos do vodu. Eram feitos de todos os tamanhos e materiais, mas o termo passou a designar uma estátua gigantesca a partir da fama do Colosso de Rodes, uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo — uma imagem de Apolo de mais de 30m que dominava o porto de Rodes, no Mediterrâneo. Embora colosso, juntamente com o seu derivado colossal, ainda seja usado com o sentido de “muito grande” (fortuna colossal, obra colossal), o termo vem sofrendo uma evolução cada vez mais favorável e já figura na lista dos elogios modernos: um colosso de livro, uma idéia colossal.

famigerado — (desceu) — Vem do Latim famigeratus (“famoso, célebre, renomado”). Na origem, embora se referisse tanto à boa quanto à má fama, tinha uma conotação predominantemente positiva. Com o tempo, entretanto, passou a ser aplicado apenas com a intenção de criticar: “Os argentinos insistem em comparar Pelé ao famigerado Maradona”. Essa alteração de significado é o tema do genial conto Famigerado, de Guimarães Rosa, em que um médico de férias no sertão, para salvar a própria pele, convence um perigoso jagunço, a quem ele havia chamado de famigerado, de que o termo tem um sentido positivo e elogioso.

formidável — (subiu) — Vem do Latim formidabilis (“temível, assustador”). O dicionário de Bluteau (1712) diz que formidável é uma “coisa que se deve temer muito”; o dicionário de Morais, um século depois (1813), ainda concorda: formidável é o “que causa medo, temível”. Aos poucos, porém, o significado passou a “grande, imponente”, e daí a “espantoso, admirável”, já com a coloração elogiosa que o vocábulo ostenta atualmente. Uma frase como “O senhor tem uma filha formidável”, que hoje é recebida com sorrisos, causaria uma reação bem diferente no século dos Descobrimentos.

prestígio — (subiu) — Em Latim, praestigium significava “charlatanismo, impostura”; a forma feminina praestigiae designava as ilusões enganosas produzidas pelos truques dos mágicos e dos trapaceiros. Os romanos chamavam de praestigiosus (“prestigioso”) o enganador, o embusteiro. No Português, o dicionário de Morais (1813) ainda define prestígio como “ilusões, imaginações, fantasias”. Com o tempo, contudo, aconteceu a mesma evolução positiva de charme, passando a significar o poder e a influência que certas pessoas ou entidades conquistaram, por causa de suas qualidades invejáveis.

libertino — (desceu) — Em Roma, o termo libertinus (“liberto”) designava apenas o escravo que tinha conquistado a liberdade. No entanto, o sentido moderno começa a se configurar quando Calvino, em 1545, escreve contra a seita dos Libertinos, um movimento considerado herético porque abolia a noção de pecado, defendia a extinção da propriedade e pregava a liberdade sexual. No século XVII, o termo se amplia para incluir o indivíduo que se recusa a aceitar as limitações que a religião impõe ao seu pensamento ou à sua conduta. No entanto, como este pensamento livre implica uma maior liberdade de costumes, os autores moralistas deram ao termo a conotação pejorativa que tem hoje, de “devasso, dissoluto”.

tratante — (desceu) — Vem do Latim tractantis (“aquele que trata, que contrata”). No Português, tratante começou com o significado de “mercador; aquele que compra mercadorias para revendê-las”, como até hoje tem no espanhol: tratante de carvão, tratante de vinhos, tratante de ovelhas. No entanto, o termo degenerou como insulto, já aparecendo no dicionário de Morais (1813) para designar “aquele que faz negócio com ardis e tretas”. Machado de Assis, que produziu sua obra na segunda metade do século XIX, só usa tratante como forma de insulto.

 

Depois do Acordo: idéia> ideia

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Destaquinho Etimologia e curiosidades Origem das palavras

gringo

Caro Professor Moreno, eu gostaria de saber a verdadeira, se possível for, origem da palavra gringo. Um abraco de Miami Beach”. Hugo Caproni — EUA

Meu caro Hugo: posso perceber, pela escolha cuidadosa das tuas palavras (“se possível for”), que já andas meio escaldado com as fantasiosas teorias a respeito da origem desta palavra. Como já escrevi alhures, a Etimologia é um ramo onde a imaginação muito facilmente substitui a pesquisa e o estudo, produzindo — o que é o mais perigoso — hipóteses que são muito mais atraentes que a feia, mas necessária, realidade. Na internet, até por causa do esmagador predomínio de páginas escritas em Inglês, são incontáveis as páginas que trazem essas etimologias de almanaque, tolinhas e divertidas, que se alastram mais rapidamente que o vírus da moda. Gringo está presente em quase todas elas.

Como os mexicanos costumam (ou costumavam) chamar os norte-americanos de gringos, nada mais natural, para os ingênuos etimólogos amadores daquele país, que imaginar que a palavra tivesse sido criada especialmente para eles. Para uns, delirantes, as tropas estado-unidenses que entraram na guerra méxico-americana, na primeira metade do séc. XIX, usariam uniformes predominantemente verdes (green, em Inglês), o que propiciou aos mexicanos enfurecidos a oportunidade de gritar “Green, go!” (/grin go/), algo assim como um improvável “Vão [embora], Verdes” — felizmente substituído, no séc. XX, pelo tradicional “yankees, go home“.

Outros preferiram seguir uma vereda musical, mas não menos delirante: segundo esta versão, os soldados de Tio Sam, prenunciando assim o famoso Coro do Exército Vermelho, da extinta URSS, costumavam cantar em uníssono, à volta das fogueiras do acampamento, uma canção muito em voga na época, cujo refrão era “Green grow the lilacs“; ora, nada mais natural que os nativos passassem a usar a designação pejorativa de “green grow” (/gringro/) para aqueles surrealistas soldados cantores. Daí para /gringo/ era um pequeno passo…

O que esses lingüistas de meia-tigela não fizeram foi dar uma olhadinha num bom “amansa-burro” em Espanhol. O Dicionário da Real Academia Espanhola (o vetusto DRAE) ensina que o termo gringo está documentado desde 1787, meio século, portanto, antes das hostilidades entre o México e os EUA. Gringo seria uma corruptela de griego (“grego”), usada para designar qualquer língua exótica e difícil de entender. Com o tempo — que é o pai dos significados —, passou a indicar também o falante dessas línguas incompreensíveis. Segundo o DRAE, em Málaga o termo designava qualquer estrangeiro que tivesse dificuldade com a língua espanhola, enquanto em Madri era usado especificamente para os irlandeses.

Essa explicação, além de estar registrada em documentos literários, apresenta uma lógica mais aceitável. Afinal, a utilização do Grego como uma metáfora para o estranho e o incompreensível vem de muito longe: a expressão graecum est, non legitur, ou graeca, non leguntur (algo assim como “é grego; não pode ser lido”), era usada pelos eruditos da Idade Média como anotação às passagens escritas em Grego que encontravam nos textos latinos, já que, como é sabido, o Grego praticamente não era lido, nem conhecido pelos autores da Igreja medieval. Assim mesmo, eu a aceito cum granum salis (“Com uma pedrinha de sal”, o que significa, em vernáculo, “com um pé atrás”), porque ainda não vejo muito bem como, fonologicamente, /griego/ possa ter se transformado em /gringo/. De /griego/ para /grigo/ não é difícil, porque o mesmo parece ter acontecido em /priessa/:/prisa/ (“pressa”); resta explicar como surgiu aquela nasalização do /i/, o que, espero, alguém há de fazer (se é que já não fez).

O significado de gringo tem variado de lugar para lugar; o excelente Houaiss registra que, no Brasil, o termo se aplica a “indivíduo estrangeiro, especialmente quando louro ou ruivo, diferente do padrão mais encontradiço no país”, ou, com conotação mais pejorativa, a qualquer indivíduo estrangeiro, especialmente quando não fala o Português. Carlos Teschauer, no Novo Dicionário Nacional, define gringo como o estrangeiro em geral, menos o português e o hispano-americano. No Rio Grande do Sul, cuja linguagem conheço muito bem, é usado especialmente para os italianos e seus descendentes, e imagino que, em outras regiões, possa referir-se a outras etnias. Se essa não é a “verdadeira origem” do vocábulo, como querias, meu caro Hugo, é ao menos a mais provável até hoje. Abraço. Prof. Moreno

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Origem das palavras

fulano

Que palavras temos à nossa disposição quando queremos fazer uma referência vaga ou genérica a alguém, ou falar de uma pessoa cujo nome desconhecemos? Este recurso existe em todas as línguas. No Inglês, usa-se uma forma proveniente da tradição da linguagem legal, que imortalizou um hipotético John Doe (feminino, Jane Doe) que representaria um queixoso mantido no anonimato; no mesmo espírito, o réu desconhecido era chamado de Richard Roe. Os fãs do cinema americano devem saber que o título original da comédia Adorável Vagabundo (1941, com Gary Cooper e Barbara Stanwyck), um dos grandes sucessos de Frank Capra, é Meet John Doe. O Francês usa un tel, une telle: “Nós a vimos abraçada a un tel”; “Imaginemos que Monsieur Un Tel, comerciante de vinhos em Bordéus, resolva fazer negócios com os importadores americanos”. O Latim tem o seu quidam (diga /cuí-dam/, isto é, como a forma verbal cuidam, só que com a tônica no I), vocábulo que é aproveitado em todas as línguas ocidentais, inclusive a nossa: “Não se pode sair do hotel sem ser abordado por um quidam na primeira esquina”. Aurélio e Antenor Nascentes recomendam aqui a grafia qüidam (com um trema, que, aqui, realmente vai fazer falta quando adotarmos integralmente o Acordo Ortográfico). 

No Português, as três formas mais usadas para essa designação incerta são nossos habituais Fulano, Beltrano e Sicrano. Fulano vem do árabe fulân (“tal”). Corominas nos diz que no Espanhol do séc. XIII fulano era ainda empregado como adjetivo (fulano lugar, fulana ilha), passando depois à função que tem hoje. Pela evolução normal do Português, fulano deu fuão, mas nossa preferência se fixou na forma primitiva, talvez por influência castelhana. Beltrano, nos ensina Luft, veio do nome próprio Beltrão (Esp. Beltrán; Fr. Bertrand), nome tornado extremamente popular na Península Ibérica pelo ciclo carolíngio das novelas de cavalaria. A terminação em –ano veio, certamente, por analogia com fulano. Para fechar a série, apareceu um sicrano, forma de origem misteriosa, a julgar pelos palpites totalmente inseguros dos etimologistas. 

É claro que, exatamente por indicar que o nome verdadeiro não é digno de ser guardado ou mencionado, todas essas denominações carregam, em grau menor ou maior, um toque depreciativo. Morais, em seu dicionário (1813), já apontava essa conotação, considerando o uso de fulano uma verdadeira descortesia. Irremediavelmente pejorativas são as variantes da linguagem coloquial fulano-dos-anzóis, fulano-dos-anzóis-carapuça, fulano-dos-grudes. Nossa língua criou formas mais depreciativas ainda, como joão ninguém, zé ninguém, zé dos anzóis, zé da véstia. Antenor Nascentes (Tesouro da Fraseologia Brasileira) fala de um Fidélis Teles de Meireles Queles. Luís Câmara Cascudo (Locuções Tradicionais no Brasil) registra ainda Beldroega e Mequetrefe. João Ribeiro (Frases Feitas) menciona um vulgaríssimo Fulustreco de Abreu. A grande quantidade de opções parece indicar a importância que nossa cultura dá ao nome (e à sua desqualificação). Com certeza deve haver muitas outras formas para essa mesma função; numa rápida pesquisa no Aurélio, por exemplo, encontrei ainda patrasana (talvez vindo do Italiano partigiano) e passanito. Quem souber de outros, que mande para esta página.

 

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Etimologia e curiosidades Origem das palavras

via de regra

Caro Professor Cláudio: primeiramente meus parabéns, congratulations, voilá, aleluia! O seu site é magnífico! Por favor, gostaria de ouvir o que o senhor tem a dizer sobre a expressão via de regra. Um colega meu, atualmente em trabalhos finais de doutorado, escreveu: “Via de regra, o executivo profissional trabalha com visão de mais longo prazo…” A expressão é estranha para mim. REGRA TEM VIA? Agradeço antecipadamente sua valiosa cooperação. Você merece o prêmio de iBEST One, two and three. Saudações. 

Juraci P. 

Minha cara Juraci, muito obrigado pelos elogios e pelo entusiamo demonstrado para com o sítio Sua Língua; a gente faz o que pode e o que sabe. Quanto à tua via de regra, é parte da expressão “por via de regra”, já dicionarizada pelo Aurélio, que ameaça substituir o nosso mais conhecido em regra (“em geral”, “normalmente”). Eu não gosto da expressão; não vejo nela nenhum ganho real sobre as que já existem no idioma. Além disso, para muitos leitores ela traz uma inevitável evocação pejorativa. Como és adulta, posso referir um exemplo pouco elegante: não lembro se foi o Nélson Rodrigues ou o Millôr (sei apenas que foi uma dessas cabeças privilegiadas), mas um deles conta o combate furioso e sistemático contra a expressão “via de regra” feito por um importante editor do jornalismo carioca dos bons tempos. Quando alguém ousava empregar esta expressão no texto de alguma matéria, ele ficava apoplético e saía gritando, no meio da redação: “Eu já disse mil vezes que a via de regra é a vagina !!!” (não preciso dizer que não era bem esse o termo com que o desbocado jornalista finalizava sua frase). Por tudo isso, faz com “via de regra” o mesmo que eu: não a uses. Segue a tua intuição inicial, que te fez achar esquisita a expressão, e manda-a às urtigas. Abraço. Prof. Moreno 

P.S.: Recebi, pela volta do correio, uma colaboração oportuníssima de meu amigo Sérgio Mansur, de Belo Horizonte, leitor fiel e crítico incansável, que vem mais uma vez enriquecer o material desta página com suas observações onde jamais faltará uma ponta de ironia. Desta vez, ele nos faz o favor de identificar o jornalista que vetava o via de regra e acrescenta, com a sutileza necessária, outros detalhes picantes: 

“Ora, Moreno, a história do iracundo jornalista corre por aí há anos. Era o Carlos Lacerda. Lenda ou não, contam que ele chamava o foca, logo no primeiro dia de trabalho na Tribuna da Imprensa, e dizia: “Meu filho, neste jornal, é proibido escrever duas expressões: “via de regra” e “por outro lado“. O foca perguntava por quê, e o Lacerda dizia com todas as letras: “via de regra é… [caixinha] e por outro lado é no… [símbolo químico do cobre]”.