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judiar

O verbo JUDIAR, hoje empregado sem qualquer conotação preconceituosa, esconde um antigo e surpreendente significado,  raramente registrado nos dicionários e, por isso mesmo, desconhecido da maioria dos falam ou escrevem sobre o uso deste vocábulo.

A primeira consulta vem de um gaúcho que mora no Rio de Janeiro, ex-aluno e admirador, como eu, do professor Celso Luft (o que, nesta coluna, já dá direito de puxar um banco e ir sentando). Ele é gentil, mas seu raciocínio é tortuoso: “Gostaria de saber se a expressão baixo calão, usada pelos dicionários para classificar os palavrões, não poderia ser substituída por baixo escalão. Acontece que no dicionário do prof. Luft consta que um dos significados de escalão é “nível”; logo, baixo escalão teria o sentido de “baixo nível”, exatamente o conceito que se aplica aos palavrões ― o senhor não concorda?”.

Sinto muito, prezado amigo, mas não posso concordar; calão nada tem a ver com escalão. Escalão provém do Latim scala, “escala, escada”, que produz também escalar; é por isso que falamos, numa estrutura hierarquizada, em cargos ou postos que vão do baixo ao alto escalão. Calão, por sua vez, vem de caló, como os ciganos chamavam a si próprios e ao seu próprio idioma. Pela desconfiança histórica que os povos europeus votavam (ou votam) aos ciganos, o termo passou a designar “língua vulgar, grosseira, de pessoas de baixa extração”. Como estás a ver, entre calão e escalão há uma mera semelhança casual, a mesma que existe entre adulto e adúltero ou banha e banho, vocábulos que nada têm a ver um com o outro.

A segunda consulta vem de São Paulo, capital, assinada por Gabriel, um jovem que precisa de algo mais substancioso que uma simples aula de Português. Escreve ele: “Prezado prof. Moreno, tenho apenas catorze anos mas acompanho sua coluna pela internet. Gosto muito do bom humor e da franqueza com que o senhor trata as pessoas e por isso me animei a lhe fazer uma pergunta. Ontem eu li num site que o holocausto da Alemanha nazista não passa de uma invenção (que eles chamam de “holoconto“) e que a palavra judiar vem das maldades que os judeus costumavam cometer contra os cristãos. Essa explicação está correta? É impressão minha ou o site é meio racista?”.

Meu caro Gabriel, não fosse pela tenra idade eu não desculparia tuas dúvidas. “Meio” racista? Para começar, ele faz, a meu ver, duas coisas imperdoáveis: primeiro, nega o horror absoluto que foi holocausto; segundo, e talvez pior ainda, procura fazer humor com algo que jamais será engraçado (convenhamos, “holoconto” é uma blague de insuperável mau gosto). Já que freqüentas a internet, procura e acharás dezenas de depoimentos e documentários que vão ter dar uma visão aproximada dessa inexplicável explosão da maldade humana. Como diz Giorgio Agamben no início de seu livro sobre Auschwitz (a tradução é minha), “No campo de concentração, uma das principais razões para sobreviver é a idéia de um dia poder testemunhar sobre o que aconteceu” ― exatamente para neutralizar esses fanáticos do lado negro da Força que vivem tentando, dos modos mais delirantes, apagar de nossa memória o que nunca deverá ser esquecido.

É também um equívoco a explicação que eles dão para judiar. É importante lembrar que as judiarias (ou judarias, como eram mais conhecidas) eram os bairros judeus do Portugal antigo, similares às mourarias, onde se concentravam os muçulmanos. Nas Ordenações Afonsinas, que datam mais ou menos do descobrimento do Brasil, lê-se, no título 86: “De como os judeus hão de viver em judarias apartadamente”. Nas cidades maiores de Portugal, onde esse confinamento era imposto com rigor, era proibido ao judeu, sob graves penas, “andar fora da judaria depois de tanger a Ave Maria”, como nos explica o dicionário de Bluteau.

O verbo judiar, ao que parece, era usado justamente para descrever as incursões que os cristãos faziam nessas judarias para infernizar a vida de seus moradores ― daí o valor que este termo tem até hoje de “maltratar, tratar com escárnio”. “Vamos judiar!”, portanto, seria um sinônimo para “Vamos mexer com os judeus”. Contudo, contaminada por uma longa tradição de preconceito racial e religioso, a cultura popular (e, portanto, nossa língua) preferiu ver o judeu como o sujeito deste verbo (aquele que judia), quando, na verdade, ele era apenas o seu objeto direto (a vítima, ou seja, aquele que é judiado). O único dicionário que registrou esse ponto de vista foi o Aurélio ― mas apenas até sua segunda edição, a que eu uso, apelidada por mim de Aurélio-vivo (acredite, prezado leitor, esta é a mais confiável de todas, pois as edições seguintes, feitas depois da morte do mestre, continuam descendo vertiginosamente ladeira abaixo). Ali, o verbete judiar abre com uma definição que inexplicavelmente foi retirada das edições posteriores: “tratar como antigamen­te se tratavam os judeus: escarnecer,maltratar”.

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O livro do MEC (conclusão)

 

Do ponto de vista científico, desconhecer o Português padrão não representa deficit algum; do ponto de vista social, no entanto, esse desconhecimento é uma verdadeira SENTENÇA CONDENATÓRIA.

 

1 — O conhecimento da NGB é indispensável — Terminei a coluna anterior declarando, taxativamente, que a condição mínima para um aluno estudar de forma sistemática o Português é o domínio de uma metalinguagem comum, consolidada, usada por todos os professores e por todos os livros que tratam do idioma. É por isso, aliás, que todos os países do mundo exigem que o aluno saia da escola dominando algum tipo de nomenclatura obrigatória. O Brasil tem a NGB, Portugal tem a NGP — modelos certamente discutíveis do ponto de vista da Lingüística, mas que, com algumas pequenas correções, são satisfatórios para a prática do ensino, baseados no mesmo fundo comum greco-romano adotado pela gramática escolar de todas as línguas do Ocidente (Portugal viveu há pouco uma frustrada tentativa de mudança, quando uma comissão de lingüistas fez aprovar uma terminologia gramatical “inovadora”, que, para alívio de todos, foi jogada no lixo ao cabo de quatro anos desastrosos).

2 — O professor de Português não é feio como pintam — Os defensores desse novo ensino light e descafeinado do Português têm um saco de pancadas preferido: o professor retrógrado e prescritivista, que tratava o idioma como coisa estática e imutável, inelástica, redutível a uma “pilha de regras” caprichosas, às quais todos os usuários deveriam se submeter. Este ogro autoritário não admitia contestação, e ai de quem se insurgisse contra algum dos princípios que defendia, pois logo tratava de acalmá-lo usando os escritores clássicos (nem sempre os melhores) como um verdadeiro porrete: e toma Filinto Elísio, e dê-lhe Castilho, e toma Coelho Neto.

Ora, como diria um personagem do Eça, não me venham com lérias! Este personagem há muito desapareceu de nossa escola, junto com o guarda-pó e a palmatória; é apenas um bicho-papão inventado para assustar as crianças do curso de Letras e promover a posição “libertária” defendida por esses novos adeptos de Rousseau. É — vou escrever bem devagar — apenas uma caricatura grosseira, uma verdadeira injustiça para os tantos bons e verdadeiros professores que honram nossa profissão. O professor de Português procura incutir em seus alunos o interesse pela palavra, pelo texto, pelo livro e pelo dicionário, explicita a estrutura de nossa língua, destaca as diferenças entre a escrita e a fala, discute criticamente as regras “consagradas”, aponta as várias alternativas existentes para cada situação — e também recorre aos clássicos, mas com o intuito de mostrar a riqueza do idioma e pôr no seu devido lugar aqueles tiranozinhos que passam a vida a condenar construções como “risco de vida”, “faz com que” ou “a grande maioria”.

3 — A escola tem a obrigação de ensinar uma língua padrão — O repúdio àquele ensino dogmático do passado não pode servir de pretexto para banir da Escola toda e qualquer atitude prescritivista, nem altera a verdade absoluta de que todo estudante precisa dominar a língua standard para usá-la nos contextos e nas situações em que ela for mais adequada e recomendável. Aqui existe um mal-entendido tragicômico: quando os lingüistas dizem (às vezes, chegam a gritar!) que uma variedade do idioma é tão boa quanto as outras, o público simplesmente os ignora. Sei que, aos olhos de um cientista, esta indiferença do leigo para com a espantosa complexidade de qualquer variedade lingüística deve parecer irracional, mas ele precisa entender que do ponto de vista social não há irracionalidade alguma em privilegiar uma variedade sobre as outras. Aos olhos de um cientista, isso é uma manifestação do que ele chama de preconceito lingüístico; aos olhos de qualquer brasileiro, o preconceito lingüístico — assim como dezenas de outros preconceitos, aliás — existe, existiu e existirá, mesmo se “um mundo melhor for possível”. É exatamente por isso que ele procura dominar um sistema que o livre de julgamento negativo por parte dos outros; a existência de uma norma padrão que possa orientá-lo faz com que ele se sinta mais seguro e confiante de que suas escolhas serão aceitas dentro do consenso lingüístico da comunidade em que vive.

É por isso também que as tentativas de tranquilizá-lo, de convencê-lo de que o Português que ele usa é tão bom quanto o das “elites” são encaradas como pura conversa para boi dormir. Do ponto de vista científico, desconhecer o Português padrão não representa deficit algum; do ponto de vista social, no entanto, esse desconhecimento é uma verdadeira sentença condenatória. O cidadão procura limites bem claros, que ele possa enxergar para não transgredir — preocupação, aliás, compartilhada por todos nós, do aluno do EJA aos pós-graduandos em Lingüística. Ele quer, ora bolas, dominar um modelo que o deixe seguro ao redigir seu convite de casamento, ao registrar o nome do filho, ao rabiscar um cartaz para seu carrinho de cachorro-quente, ao fazer um concurso público ou ao escrever a conclusão de sua tese de doutorado. No meio acadêmico, já ouvi quem criticasse — e com que direito, meu deus? — o pragmatismo, o imediatismo (juro que foram palavras textuais) “dessa gente que só quer aprender o idioma para melhorar na vida e conseguir um emprego melhor”…

4 — O que há de errado com o livro do MEC? — O livro do MEC não passa de um manual insosso, banal, assistemático, ruim como muitos, sem nada que o faça se destacar entre dezenas de outras obras da mesma laia. O volume que examinei reúne, no mesmo capítulo, generalidades sobre os pronomes pessoais, o ponto, a concordância e a acentuação — uma sopa rala e confusa, servida morna para o pobre aluno do EJA. Na verdade, nem mereceria ser discutido, não fosse ter atraído sobre si a luz dos holofotes. Não que nele se ensine a falar errado; o criticado *nós pega peixe figura ali apenas como exemplo de uma das variantes populares. O livro adverte, inclusive, que escrever é diferente de falar e que essa não seria a forma recomendada pela norma culta. O que provocou a reação negativa, no entanto, foi ver como o ensino da língua aparece ali subjugado ao discurso ideológico desta Lingüística pós-moderna: a norma culta é vista como a língua da classe dominante, todas as variantes são consideradas eficientes como meio de comunicação, quem critica a variante popular é tachado de preconceituoso — ou seja, a questão da língua padrão é abordada numa perspectiva completamente inadequada para aquilo que a Escola se propõe a fazer. Os autores esqueceram a porta da cozinha aberta e subitamente o público se deu conta de como está sendo feita a comida que a Escola serve à nossa juventude — daí a gritaria.

Pela primeira vez veio a público aquela briga surda que se trava há mais de vinte anos entre os verdadeiros professores de Português de um lado e os lingüistas/pedagogos do outro. Nosso mestre Luft escreveu Língua e Liberdade para se contrapor aos seus adversários da vida inteira, os gramáticos puristas, normativos ferrenhos, geralmente adeptos da perniciosa “análise lógica”; se agora estivesse entre nós, certamente estaria ocupado em fazer a Lingüística recuar para o seu campo legítimo de atuação, que é a pesquisa, e não o ensino da língua materna, onde ela desempenha apenas o papel de disciplina auxiliar.

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O livro do MEC (3)

O linguista dedica-se a observar e analisar os fatos da linguagem para melhor entendê-la; o seu compromisso é com a CIÊNCIA. Pois nós, professores de Português, não somos nem pretendemos ser cientistas.Longe disso; o compromisso que temos é com a CULTURA.

 

Gostaria de lembrar meu prezado leitor de que procurei, nas colunas anteriores, descrever, de forma simples mas honesta, a diferença essencial que existe entre a função do lingüista, de um lado, e a do professor de Português, do outro. O lingüista trabalha para expandir os limites da teoria, dedicando-se a observar e analisar os fatos da linguagem para melhor entendê-la; o seu compromisso é com a ciência. Pois nós, professores de Português, não somos, nem pretendemos ser cientistas. Longe disso; o compromisso que temos é com a cultura. Nossa função (eu preferiria o termo missão, mas já o empregaram tantas vezes como pretexto para explorar nossa classe que, vamos convir, ele ficou imprestável) — nossa função, repito, é ensinar o aluno a se apropriar do magnífico idioma que herdamos e usá-lo para seu crescimento pessoal e profissional. Nós somos os encarregados de fazer esse patrimônio comum passar de uma geração para a outra; assim fizeram um dia comigo e com você, caro leitor; assim espero que meus alunos venham a fazê-lo com meus netos e bisnetos.

É por causa disso que o professor de Português, ao contrário do lingüista, jamais poderá abandonar esta perspectiva cultural e histórica. A língua em que escrevo esta coluna de hoje vem sendo usada há quase mil anos, e isso faz muita diferença. É uma belíssima construção de quase um milhão de palavras, com raízes nas duas grandes línguas do passado, o Latim e o Grego; foi usada por reis e camponeses, por santos e bandidos, por vítimas e carrascos da Inquisição; atravessou desertos e oceanos, passou por épocas e lugares distantes e se enraizou em vários pontos do planeta. Esta é a idéia que precisamos transmitir aos alunos: é a língua portuguesa que nos faz ocidentais e que nos torna herdeiros da Grécia e de Roma, do Velho e do Novo Testamento, da cristandade, da matemática decimal, do calendário gregoriano e da Revolução Francesa.

Em toda a parte — na ortografia, na formação de palavras, na estrutura do nome ou do verbo, no emprego dos pronomes, na conjugação verbal, na sintaxe da frase — em toda a parte, repito, nossa língua carrega marcas deste passado e desta riqueza, e um bom professor de Português  deve estar preparado para ensinar o aluno a reconhecê-las e a entender sua motivação. Há quase dez anos mantenho no ar o saite www.sualingua.com.br, e aprendi, com os milhares de consultas feitas pelos leitores, a identificar dezenas de áreas em que só a orientação segura de um professor pode desmanchar os “coágulos” que atrapalham a compreensão do usuário interessado e sua adesão ao que chamamos de norma culta.

É imprescindível, por exemplo, que o aluno seja informado de que o vós também pode ser usado para designar a segunda pessoa do singular — ou ele vai ficar intrigado com muitos diálogos da obra de Alencar ou, mais simples ainda, não vai entender por que na Ave-Maria, que constitui claramente um discurso dirigido a uma só pessoa, a mãe de Jesus, consta “bendita sois vós entre as mulheres”. Da mesma forma, é indispensável um passeio histórico pelo absolutismo português para que o artigo definido el, que era de uso exclusivo do rei, não seja visto como uma aberração morfológica — assim como uma análise do estranho comportamento dos substantivos terminados em –ão, que têm apenas um singular para três plurais diferentes (mãos, leões, alemães), mostrará que a língua caminha, lenta mas inexoravelmente, para um plural genérico em –ões — o que, além de simplificar o modelo, explica por que uma palavra como corrimão já admite, além do esperado corrimãos (como mão, mãos), o cada vez mais comum corrimões.

O que vou dizer pode parecer uma verdadeira platitude, mas meu inocente leitor ficaria espantado se soubesse quanta gente procura negar o inegável: só poderemos manter esse diálogo com o aluno se ele dominar um vocabulário gramatical básico que nos permita falar com ele sobre a linguagem. Como podemos explicar a pontuação se ele não estiver familiarizado com os termos da sintaxe? Como fazê-lo perceber a racionalidade que está por trás de nossa acentuação gráfica se não pudermos recorrer a conceitos como sílaba tônica, ditongo, hiato ou semivogal? Isso leva a outra daquelas tarefas que precisamos realizar a qualquer custo: deixar o aluno familiarizado com uma terminologia lingüística que tenha livre curso em todas as escolas e em todos os livros didáticos do país. Ela já existe; embora esteja envelhecida e necessite de remendos, a NGB — a Nomenclatura Gramatical Brasileira — continua sendo uma presença indispensável nas aulas de Português. Por mais críticas que possamos fazer a ela (e não são poucas), ela é tão importante para o ensino do idioma que eu não hesitaria em chamar de irresponsável o professor que sonegá-la de seus alunos. (continua)

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O livro do MEC (2)

A Escola precisa falar claramente com a Linguística: “Fico-lhe muito grata por sua importante contribuição, amiga, mas vamos esclarecer uma coisa: o meu compromisso é com a Cultura”.

Encerrei a coluna anterior declarando que a reação contra o livro do MEC não era um repúdio ao saber dos lingüistas, mas sim um recado que eles insistem em não ouvir: não é isso o que esperamos da Escola. Como era de imaginar, minha frase provocou o aplauso de muitos leitores, a vaia de outros tantos e a indignação declarada de alguns, que se disseram revoltados com a insinuação feita por mim, nas entrelinhas, de que os lingüistas não sabiam exatamente como deve ser o ensino da língua. Insinuação? Mas eu nada insinuei, caro leitor, pois esse não é o meu feitio; na verdade, eu disse isso — e com todas as letras, a começar pela epígrafe: eles continuam sem entender (ou admitir) o tratamento que a Escola, por sua própria finalidade e natureza, deve dar ao idioma. Acho oportuno, portanto, traçar desde já uma linha separando esses dois campos de atividade, pois o ensino da Língua Portuguesa, embora às vezes caminhe junto com a Lingüística, tem objetivos e interesses completamente diversos.

A Lingüística é uma ciência que procurar entender, em toda a sua infinita variação, o fenômeno da linguagem; seu horizonte abrange a totalidade do planeta, pois cada língua, cada dialeto traz sua contribuição para a compreensão desta que é a mais complexa atividade humana. Para o lingüista, portanto, afirmar que uma língua é mais fácil ou mais completa do que outra é tão absurdo quanto, para um biólogo, afirmar que o leão é mais bem construído que a girafa ou que o ronco do bugio é mais eficiente do que o grasnar do pato. Ele não avalia, não critica, não faz juízo de valor — ele descreve, compara, analisa e tenta entender. Para ele, como para o biólogo, não há certo, nem errado — há o natural, o orgânico, o espontâneo.

A Escola, bem ao contrário, é uma instituição criada e mantida pela sociedade para  assegurar, de uma geração para outra, a transmissão de uma memória cultural comum, sem a qual, como o homem percebeu há milênios, não há comunidade ou civilização que sobreviva. Em qualquer regime, portanto — seja ele democrático ou não —, ela vai ser obrigada a proceder a uma seleção dos conhecimentos e dos valores que os seus alunos deverão compartilhar; cabe a ela, em nome da sociedade que representa, determinar o que é pertinente (e o que não é) em História, em Matemática, em Química,  em Literatura e, muito especialmente, em Língua Portuguesa, sem dúvida uma das disciplinas em que mais se faz sentir esse incontornável caráter político da instituição.

A Escola sabe — graças ao trabalho dos lingüistas, aliás — que em nosso território convive uma grande diversidade de “dialetos”, de formas de dizer e de falar, característicos de determinadas regiões, faixas etárias, classes sociais ou profissões — e, exatamente por isso, julga necessário difundir e consolidar uma língua culta padrão (standard, em Inglês), comum a todos, a qual, sem pretender anular ou substituir as demais variedades, sirva de fator de coesão do tecido social e cultural do país. Este padrão, predominantemente escrito, vai inevitavelmente privilegiar, entre as variedades atualmente praticadas no país, aquela que, por reduzir ao máximo as diferenças e idiossincrasias, mais se aproxima de uma espécie de Português consensual; criticá-lo por ser a variedade usada pela “classe dominante”, como fazem alguns lingüistas de esquerda, é tomar a causa pelo efeito: ele não é o melhor porque foi adotado pelas “elites”, mas, ao contrário, foi adotado pelas “elites” porque é um instrumento admirável, que vem sendo polido e aperfeiçoado ao longo de séculos, adquirindo, descontadas pequenas diferenças, uma estabilidade impressionante.

Aqui a sociedade faz, porque precisa fazer, algo que a Lingüística jamais faria: determinar que uma das opções é preferível às outras (dizer que a estrutura de um cavalo é melhor que a de um cabrito não tem o menor sentido para um cientista que estuda os seres vivos, mas tem todo o sentido do mundo para quem precisa usar o animal como montaria). É uma escolha essencialmente cultural, e a tarefa de difundi-la universalmente é entregue à Escola. É uma tarefa de Hércules, e é para isso — e só para isso — que nós, os professores de Português, existimos. Podemos transmitir em aula uma visão crítica deste padrão e da nomenclatura que teremos de usar para falar sobre ele (mais sobre isso depois), mas simplesmente não temos o direito de não ensiná-lo a nossos alunos. Os que aprendem a usar a língua escrita culta (que, como veremos, não está engessada por um conjunto imutável de princípios retrógrados, como apregoa solertemente a contrapropaganda) têm a liberdade de optar por ela sempre que quiserem expressar-se de conformidade com os parâmetros de aprovação social ou atingir o maior número possível de leitores, estejam eles a 4 mil quilômetro ou a 300 anos de distância. Os que não aprendem não têm opção alguma, a não ser carregar o pesado fardo da exclusão social a que foram condenados em nome de duvidosos “princípios científicos”. (Continua)

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Sobre o livro do MEC (1)

Quem reagiu contra a publicação do MEC não estava repudiando os princípios da ciência da Linguística, mas sim enviando um claríssimo recado que os linguistas insistem em não ouvir: não é isso o que esperamos da escola.

 

O artigo que publiquei na semana passada — “Que língua a escola deve ensinar?” —  expõe, de maneira sincera, o que deveria ser, para mim, o ensino do idioma; agora, como conseqüência lógica, preciso dizer a meus leitores o que penso sobre esta polêmica que vem dividindo o país. Desde a primeira hora, sem hesitar, fiz questão de deixar bem claro que considerava equivocado este material, lamentando que o MEC o tivesse aprovado para ser distribuído no atacado para os alunos do EJA. No entanto, como a urgência daqueles dias era derrotar a famigerada lei dos estrangeirismos (oportunamente vetada pelo governador), dediquei a ela nossa última coluna e coloquei o livro do MEC na lista de espera.

Ora, antes que o demo esfregasse um olho, o milharal pegou fogo e o assunto levantou uma fumaceira como há muito não se via; desde que eu me conheço por gente nunca tinha visto um livro didático de língua portuguesa levantar tamanha discussão neste país. Intelectuais, professores, lingüistas, alunos de Letras, imortais da ABL, jornalistas, curiosos, ONGs de toda espécie e loucos de todo gênero se engalfinharam numa verdadeira batalha campal, passando a se alvejar mutuamente com artigos, colunas, a-pedidos, declarações, desmentidos e cartas circulares pela internet, uns a defender, outros a atacar a iniciativa do Ministério.

Não foi um debate elegante, muito menos esclarecedor. Tanto um lado quanto o outro — uns por desconhecimento, outros por estratégia — se apegaram a detalhes secundários do problema. Em questão de horas as possíveis linhas de discussão tinham se reduzido praticamente a uma só: condenar ou justificar concordâncias do tipo *”os livro” ou *”nós pega os peixe”, apresentados pela autora como exemplo de construções legítimas dentro da variante popular de nossa língua. Lá em cima, os lingüistas, acuados mas organizados, concentraram seus esforços em informar ao povo da planície que há quase um século a Ciência aceita como fato indiscutível a existência de variedades dentro de um mesmo idioma — aproveitando, en passant, para criticar a mentalidade tacanha daqueles que ainda dividem o mundo da linguagem em “certo” e “errado”. Em outras palavras, escolheram o ponto mais favorável para defender a muralha, pois é muito improvável, se não impossível, que alguém ainda tenha topete e argumento para afirmar que a linguagem que emprego neste momento seja idêntica à variedade usada por meu bisavô, por um cortador de cana do Nordeste ou por uma adolescente da Barra da Tijuca.

Aqui embaixo, no entanto, o restante da população brasileira (uns 90%, eu diria), com forcados e tochas acesas, fazendo ouvidos moucos às explicações dos especialistas, tratou de investir, com toda a fúria, contra o castelo do MEC, bradando contra o desperdício de dinheiro público e contra a ineficiência do ensino de Português. Uma onda avassaladora de revolta tomou conta das redes sociais na internet, onde não faltaram os trogloditas de sempre, que aproveitaram o tumulto para pregar a volta da gramática autoritária, com suas regras artificiais e imutáveis. O significativo é que este movimento espontâneo, incontrolável, não é, como quiseram alguns fiéis remanescentes da antiga igreja marxista, um movimento comandado pela elite, inconformada com a ascensão econômica e política das classes menos favorecidas. Tivessem eles o hábito de ouvir o povo que pretendem defender, fizessem eles uma enquete entre os próprios estudantes a que o manual se destina, e veriam — posso imaginar sua supresa! — que essa concessão que o livro faz às variantes populares, que esse tratamento simpático e acolhedor dispensado, por exemplo, ao *”nós pega peixe”, vai contra tudo o que os alunos do EJA esperam da escola que freqüentam com tanto sacrifício (e esses eu conheço muito bem; lecionei, por anos a fio, nas turmas da noite do Supletivo).

Examinando objetivamente o que aconteceu nesses últimos dias, somos obrigados a admitir que os dois grupos têm lá suas razões, e que sua divergência irredutível nasce das concepções de linguagem praticamente opostas que cada um deles alimenta. A Lingüística, ciência moderna, estuda a língua como um organismo multifacetado, em constante mutação, impossível de ser aprisionado em preceitos que regulem o seu emprego; o usuário comum, por sua vez, quer estudar a língua como um sistema padronizado de regras aceitas pelo consenso das pessoas cultas. O grande contingente que reagiu contra a publicação do MEC não estava, a meu ver, repudiando o saber dos cientistas, mas sim, como veremos na próxima coluna, enviando um claríssimo recado que os lingüistas insistem em não ouvir: não é isso o que esperamos da escola. (continua)

 

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Sim, professores devem corrigir!

Uma jovem professora, bastante cautelosa, envia uma pergunta que soa muito mais como um pedido de socorro: “Não sei se o senhor vai achar minha dúvida um tanto infantil, mas gostaria que opinasse sobre algo que aconteceu com uma colega na escola em que leciono: uma aluninha de 2ª série escreveu em sua prova “ bom”, e ela corrigiu para “está bom”. O pai da criança não gostou da correção e disse que a professora estava errada ao se comportar assim; e o senhor, o que pensa sobre isso? Ela poderia ter corrigido a redação da criança, ou não?”.

Minha prezada colega, não sei muito bem em que termos foi feita a correção, mas, em princípio, a professora estava com toda a razão ao fazê-la. A criança vai para a escola para aprender a língua culta padrão, principalmente a escrita. Falar, ela já fala, e muito bem; na escola, vai aprender que existe uma modalidade especial de Português, que servirá para que ela ingresse no mundo escrito e dele participe para sempre, ao longo de sua vida como cidadã.

Acontece que no início da década de 70, bem no espírito libertário daqueles anos, apareceram alguns românticos extraviados que se puseram a defender a valorização e a consagração das “formas genuínas de falar”, das “manifestações espontâneas da linguagem do povo”. Pois esse até hoje é um dos maiores cânceres que ameaçam o ensino de nosso idioma: confundir a valorização científica de todas as variedades de uma língua (o que é uma coisa boa e desejável para o lingüista, para o antropólogo ou o sociólogo) com o papel que o professor, especialmente o de Língua Portuguesa, deve desempenhar. Nossa função é pegar os brasileirinhos pela mão e conduzi-los nesse mundo totalmente especializado da palavra escrita, mostrando-lhes como ele funciona, quais as suas regras, quais os seus recursos e suas limitações, como ele se compara com o mundo mais familiar da palavra falada. Mesmo quanto à fala, é obrigação do bom mestre fazer a criança entender que existem níveis socialmente caracterizados, ensinando-lhe, inclusive, o que ela ainda não souber, e procurando, acima de tudo, encantá-la e surpreendê-la com as possibilidades do idioma, ao abrir-lhe os olhos (e ouvidos!) para a maneira criativa e enriquecedora com que os grandes escritores souberam utilizá-lo.

É para isso — e só para isso — que nós, os professores de Português, servimos; se não o fizermos, a pretexto de qualquer mistificação pedagógica ou antropológica, estaremos roubando de nossos alunos o mais importante ingrediente de uma digna cidadania, abandonando-os à própria sorte, condenados que estão por sua língua hesitante, com a qual não conseguem expressar as nuanças de sua revolta, nem entender muito bem a sutileza dos estatutos e das leis que os aprisionam.

Repito: não sei se a correção foi feita de modo condenável e inadequado para uma pequerrucha da 2ª série (com ironia, ou rispidez, ou severidade, ou grosseria); quanto a isso, portanto, não posso opinar. Contudo, era obrigação da professora mostrar a essa aluninha que, no texto de uma redação, não se usa o da fala, mas sim o está da escrita. O pai da pequena deverá ficar muito preocupado — aí sim! — no dia em que os professores deixarem de corrigir o que sua filha escreve. Olha, colega, quando penso em todos os mestres que tive, vejo que só tenho gratidão para com aqueles que se deram ao trabalho (e à incomodação, em certos casos) de me ensinar o que achavam que eu deveria saber; esses não renunciaram a seu papel, e ficaram para sempre na galeria de minha memória.

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Que língua a escola deve ensinar?

Os linguistas sabem que o Português é muito mais amplo do que a língua escrita culta que é ensinada na escola — mas a escola sabe, mais que os linguistas, que essa é a língua que ela deve ensinar.


Um grupo de estudantes de Letras veio me visitar: faziam um trabalho para a faculdade e queriam a minha opinião sobre o papel do professor de Português “neste novo milênio, frente às novas teorias lingüísticas e aos novos meios eletrônicos de comunicação”. Não pude deixar de sorrir diante de tanta novidade numa frase só; olhei-os com simpatia — todos vão ser meus colegas, em breve — e respondi que o nosso papel continua a ser o mesmo de sempre: transmitir ao aluno a língua da nossa cultura e ensiná-lo a se expressar em prosa articulada.

Talvez tenham ficado espantados com a resposta, mas eu não estranhei a pergunta deles. Sei que o avanço da Lingüística, com tudo o que nos trouxe de bom, provocou também essa curiosa insegurança da escola quanto aos objetivos do ensino do nosso idioma. No entanto, faço questão de repetir que esses objetivos não mudaram e não devem mudar, por mais que os argumentos em sentido contrário pareçam engenhosos. Um lingüista, por exemplo, convidava seus leitores a imaginar um documentário de TV em que o narrador informasse que a canção de acasalamento da baleia azul continha vários erros grosseiros, ou que os gritos dos chimpanzés da Malásia vinham degenerando progressivamente. Seria absurdo? Ora, se não podemos falar em erros da baleia azul, perguntava ele, triunfante, como podemos falar em erros na fala humana? Como pode a escola tentar impingir uma variedade do idioma, tachando as demais de inadequadas? — e por aí ia a valsa.

A este tipo de raciocínio engraçadinho, que obteve grande sucesso nos anos 70, contraponho uma verdade que todos nós conhecemos: os lingüistas sabem que nosso idioma é muito mais amplo do que a língua escrita culta que é ensinada na escola — mas a escola sabe, mais que os lingüistas, que essa é a língua que ela deve ensinar.

O que a escola faz, e tem a obrigação de fazer — porque só ela pode fazê-lo de maneira progressiva e sistemática — é ensinar o futuro cidadão a  se utilizar dessa forma  tão especial de língua que é a língua escrita culta, cujas potencialidades espantosas aparecem na obra de nossos grandes autores. Machado de Assis, Vieira, Eça de Queirós, Nelson Rodrigues, Gilberto Freyre, cada um à sua maneira, são ótimos exemplos. É nesta língua que se cria e organiza a maior parte de nosso pensamentos e sentimentos, seja escrevendo, seja falando (pode parecer paradoxal a inclusão da fala, mas não é; há muito se distingue a língua que o indivíduo fala antes do seu letramento e a língua que ele fala depois). Todas as demais variedades são respeitáveis como fenômeno cultural e antropológico, mas não é nelas que a escola deve concentrar seus esforços.

Nosso aluno espera que ensinemos a ele a usar essa língua que constitui a modalidade do Português que todas as pessoas articuladas aceitam como a mais efetiva para expressar seu pensamento. Dizendo de um jeito mais rude: se houvesse forma melhor, ela estaria sendo usada. Todas as sociedades reconhecem isso; o velho Bloomfield, um dos lingüistas “duros” do estruturalismo americano, ressaltou que a comunidade, em várias tribos de nativos por ele estudadas, sabia apontar muito bem aqueles que falavam melhor do que os outros. Na sua sabedoria, o público maciçamente tem repelido as tentativas desastradas de fazer a escola aceitar como válida toda e qualquer forma de expressão. Quem não lembra a triste moda dos anos pós-Woodstock, em que defendíamos com entusiasmo a valorização da linguagem do vileiro como algo digno de ser preservado? Hoje sabemos que nada mais era do que uma alegre fantasia da classe média acadêmica, que terminava cristalizando uma categoria de excluídos, contra a vontade de seus pobres falantes. “Não é para isso que a gente estuda”, dizem eles — e  chamá-los de conservadores é o mesmo que dizer, com arrogância, que nós é que sabemos o que é bom para a sua vida. Já vimos isso na política, em que alguns têm a petulância de dizer que o povo não soube escolher …

Agora, por que a prosa? Porque escrever prosa nos torna homens mais exatos, como percebeu Francis Bacon. Escrever é disciplinar o pensamento; o domínio da prosa impõe rigorosa disciplina à nossa mente. Ao escrever, vamos deixando uma trilha do nosso pensamento, permitindo que voltemos sobre nossos próprios passos para encontrar o ponto em que nos desviamos da rota certa e onde nos enganamos. Além disso, precisamos seguir uma série de convenções que permitam que as outras mentes acompanhem o caminho descrito pelo nosso raciocínio. Não vou exagerar, mas acredito que o pensamento articulado é impossível para uma pessoa que não consiga construir um texto coerente e também articulado — e não tenho certeza do que aqui é causa, o que é efeito. Uma escola que não ensine o aluno a escrever com clareza e coerência está comprometendo algo muito mais profundo que aquilo que os antigos chamavam de uma “boa redação”.

Muitos alegam que essas regras são mantidas apenas porque é assim se afirma o poder da elite, dividindo a população entre os que conseguem e os que não conseguem entendê-las. Em parte, é verdade: quem as domina consegue expressar-se  melhor e argumentar melhor, o que resulta inevitavelmente em maior poder sobre os outros. Mas não são regras estabelecidas por capricho ou por acaso; nasceram da experiência acumulada em milhares de tentativas de expressar-se articuladamente no Português, ao longo dos últimos oito ou nove séculos, num esforço gigantesco que produziu esse magnífico instrumento de expressão e de argumentação. Se essa língua é usada para dominar e submeter, pode, com muito mais razão, ser usada para libertar. Em nome da igualdade social, essa é a missão da escola; agora, como fazer isso, em escala universal e democrática, é uma questão que deve ser resolvida estrutural e politicamente pelos governos e pela sociedade, não pelos professores de Português.

[Artigo publicado na revista Arquipélago, do IEL-RS, em 2005].

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erros em livro para crianças

Caro professor, coordeno uma editora de livros infantis aqui no Rio de Janeiro e recebi recentemente um manuscrito para publicação que está tirando meu sono. A história é criativa, mas o texto está recheado de erros do tipo *tu é, *com nós (dói no ouvido), *meus pé, entre muitos outros. Sugeri que os erros fossem corrigidos ou que pelo menos fossem discutidos em nota de pé de página. O autor, contudo, informou que atualmente as escolas compram livros escritos em linguagem coloquial para trabalhar com as crianças a partir dos erros encontrados (????!!!!)

Para tirar a limpo, visitei duas livrarias importantes do Rio (Argumento e Travessa), além da Livraria Cultura, em São Paulo. Informaram-me que não estão a par dessa novidade na linguagem literária para crianças e sugeriram que eu consultasse um profissional da área literária ou da educação. Tendo em vista sua reconhecida competência no campo das Letras, gostaria que o senhor desse seu parecer sobre esta delicada questão.

Maria U. — Rio de Janeiro

Prezada Maria, não embarques nesta canoa furada! Esses “erros” (coloco entre aspas porque alguns deles podem ser classificados como regionalismos) só se justificariam se aparecessem na fala de personagens caracterizados como “simples” ou “sem instrução”. Muitas histórias (e sketches de TV) exploram o recurso de usar um personagem que fala errado — mas isso fica muito bem ressaltado para o leitor/espectador, servindo, inclusive, para cenas de humor. Se escrevo um conto em que o personagem é o Jeca Tatu, não há nada contra colocar, nas suas falas, algumas características da linguagem caipira, desde fique bem claro, no texto ou na reação dos demais personagens, que aquelas não são formas usuais da linguagem. Isto é especialmente importante nos livros infantis, que têm, queiram os autores ou não, a função suplementar de apresentar ao jovem leitor as formas corretas de escrever.

Sei que ainda existem por aí lingüistas que defendem, irresponsável e demagogicamente, a idéia de que esta preocupação com a “linguagem correta” é preconceituosa e ultrapassada. O grande equívoco desta tribo (felizmente em extinção; gozou de imenso prestígio nos últimos trinta anos do séc. XX, mas vai pouco a pouco perdendo terreno) é aplicar um conceito que, embora válido para a pesquisa lingüística, tem tanto a ver com a educação das crianças quando Pilatos com o Credo. Não dês ouvidos a eles; corrige os erros, sim, ou, ao menos, discute-os em notas bem visíveis. Se não forem tomadas essas precauções, nenhum professor que se preze vai recomendar um texto desses para seus alunos. Da mesma forma, nenhum pai — especialmente os que não dominam a língua culta — vai tolerar que, dos milhares de livros que há no mercado, indiquem para seu filho uma obra desse tipo. O aluno não vai ao colégio para aprender o que ele já sabe, que é a fala quotidiana; ele vai à escola para aprender o que ele não sabe, que são os recursos e as convenções da língua escrita culta. Abraço. Prof. Moreno

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