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Crase Lições de gramática

crase em àquele

Prof. Moreno: embora não se use o acento grave, indicador da crase, antes de palavra masculina, o uso de àquele (contração da preposição A com o pronome demonstrativo aquele) — “Diga àquele rapaz que não faça tanto barulho” — seria exceção à regra geral? Não o sendo, qual a explicação? Grata.

Silvia

Minha cara Sílvia: não há nada de especial quanto ao acento de àquele; acontece que foste mais uma vítima do mau ensino de Português. NÃO EXISTEM CASOS NEGATIVOS DE CRASE. Isto é, não existem regras sobre o não-uso do acento grave. A crase ocorre quando dois As se encontram, e pronto. Em 90% das vezes, trata-se do encontro [preposição A + artigo A]. Ora, como este precioso artiguinho feminino só pode aparecer antes de substantivos femininos, é uma conseqüência lógica (não uma proibição!) que isso não ocorra antes de substantivos masculinos.

No entanto, nos outros 10%, a crase ocorre quando a preposição A (esta não pode faltar nunca a este baile) se encontra com o A inicial dos pronomes demonstrativos AQUELE (e suas flexões AQUELA, AQUELES, AQUELAS) e AQUILO. “Não me refiro a este aluno, mas sim àquele“; “Quanto àquilo, posso assegurar-te …” — e assim por diante. Nada de mais.

Ocorre que há dezenas de péssimos manuais, usados por professores de formação apressada, que tratam a crase como se fosse um sistema de regras determinadas por alguém — como se fosse uma lei, com artigos e parágrafos e incisos e casos especiais. Por causa disso, muitos se revoltam contra a crase, julgando-a uma imposição arbitrária; não poucos leitores já me escreveram perguntando quando é que vão “revogá-la“! Para piorar o quadro, esses manuais vivem chamando a atenção de seus desafortunados leitores (ou alunos) para os casos em que “a crase é proibida” [sic]! Não estranho, portanto, que fiques cismada com o acento de àquele. O próprio Millôr — para mim, um dos escritores brasileiros mais conscientes da linguagem que utiliza — andou escrevendo a respeito, apontando àquele como um exemplo da fragilidade das regras de crase. Mestre Millôr errou de alvo: este é, na verdade, um excelente exemplo de uma regra mal formulada por esses gramatiquinhos que disseminam por aí sua deficiente compreensão dos fenômenos da língua. Agora tenho certeza de que vais ficar em paz com o acento de àquele. Abraço. Prof. Moreno

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crase precisa de artigo!

Da mesma forma que a ocorrência da crase é muito mais limitada do que parece, as dúvidas sobre ela também giram sobre os mesmos pontos de sempre. Quatro leitores apresentam suas dúvidas sobre o emprego do acento de crase; à primeira vista, podem parecer quatro perguntas diferentes, mas veremos que todas tratam da presença do artigo feminino.

(1) Oi, Prof. Moreno: qual é a forma correta? “A revista foi feita À muitas mãos” ou “A revista foi feita A muitas mãos” (sem crase)? Ou seja, utilizo crase antes de muitas ou não? Desde já, fico muito agradecida. Geda L.

Prezada Geda: é evidente que nesta frase não está presente um dos ingredientes indispensáveis para a crase, que é o artigo feminino. Se ele estivesse na frase, terias um AS antes de muitas. O A que temos aí é simplesmente uma preposição e, ipso facto, NÃO pode receber acento de crase. Abraço. Prof. Moreno

(2) Caro prof. Moreno, tenho uma dúvida que pode parecer banal, mas não consigo sanar: em “embalagem A vácuo” e “empacotado A vácuo”, ponho ou não ponho acento de crase? Não se trata de uma maneira de embalar ou empacotar? Muito obrigada. Telma F.

Minha cara Telma: para que haja acento de crase, é necessário que a preposição A se encontre com o artigo feminino A: “entregue isso A (preposição) + A (artigo) diretora” = À diretora. Logo, é impossível encontrar esse segundo A (o artigo feminino) antes de um vocábulo masculino como vácuo. É por isso, Telma, que se diz que não ocorre acento de crase antes de masculinos: é pela absoluta falta do segundo elemento necessário, o artigo. Embalagem a vácuo, motor a diesel, navio a vapor, preencha a lápis — todos sem acento, porque todos são masculinos. Abraço. Prof. Moreno

(3) Prezado Moreno, em “atendimento especial A clientes”, o A leva acento de crase? Por favor, responda esta, porque a briga aqui interna é grande. Grato. Klein  

Meu caro Klein: para que haja acento de crase, é necessário que a preposição A se encontre com o artigo feminino A. Supondo que vocês só tivessem mulheres como clientes (um Centro de Ginecologia, por exemplo — o que não me parece ser o caso de vocês…—, o anúncio poderia prometer “Atendimento ÀS clientes”. Nota que a presença do S final revela claramente que o artigo feminino está ali, junto com a preposição. No caso de “Atendimento A clientes”, no entanto, esse A é indiscutivelmente uma preposição isolada; NÃO há hipótese, portanto, de receber o acento de crase. Abraço. Prof. Moreno

(4) Caro professor Cláudio Moreno, uma dúvida gerou muita confusão entre meus colegas de trabalho: “Folheado À ouro” ou “Folheado A ouro”? Alguns argumentaram que, devido a palavra “ouro” ser masculina, a crase não se aplica; outros argumentaram que ela se aplica, pois a palavra feminina está implícita. Você pode pode nos ajudar com essa dúvida? Muito obrigado. Toni L.

Prezado Toni: aqui não há como tentar enxergar uma palavra feminina elíptica (subentendida) antes de ouro. Portanto, não há artigo feminino e, conseqüentemente, não pode haver acento de crase. E mais: mesmo que fosse “folheado a prata“, também não haveria o acento, porque aqui, em ambos os casos (ouro ou prata), não está sendo empregado o artigo definido; o A é apenas a preposição. Abraço. Prof. Moreno

Depois  do Acordo: conseqüentemente > consequentemente

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crase antes de Terra

Professor, gostaria de dizer, primeiramente, que o admiro muito. Sempre leio seus textos e comentários em torno das questões da linguagem. Em relação à minha dúvida, gostaria que esclarecesse o emprego da crase diante da palavra terra, sobretudo nesta oração: “Os marcianos voltaram a Terra“. Afinal, usaremos o acento diante do substantivo próprio Terra, referindo-nos ao planeta em que  vivemos?

Petrúcio Jr.

Meu caro Júnior: acho que conheço a origem remota dessa tua dúvida. No (mau) ensino tradicional da crase, relacionavam-se os casos em que “a crase era proibida” [sic!] — e entre eles figurava a palavra terra, quando usada por oposição a bordo: “Os marinheiros foram a terra“. Ora, professor de Português que se preze já abandonou, há muito tempo, essa forma jurássica e equivocada de explicar o A acentuado. Como este acento só poderá ocorrer quando houver a crase (fusão) da preposição com o artigo, não é necessário ficar enumerando as dezenas de casos em que tal encontro não acontece, como se fossem regras específicas. Um professor que ensina a seus alunos que “não existe crase antes de verbo” está transmitindo a seus infelizes alunos a idéia errônea e nefasta de que possa existir uma lista de palavras favoráveis e outra de palavras desfavoráveis à crase. O que ele deve fazer é, a partir do princípio geral (não há crase sem o artigo feminino), mostrar ao aluno que ele sequer deveria se preocupar em acentuar um A que esteja antes de um verbo, ou antes de um pronome indefinido, ou antes de uma palavra masculina, etc. — casos esses em que é impensável a presença do artigo.

Isso nos traz de volta à tua pergunta: podemos acentuar o A antes de terra? A resposta é simples: desde que a preposição encontre um artigo feminino antes desta palavra. No exemplo acima, dos marinheiros, o vocábulo é usado com um sentido indefinido, que não admite o artigo (“O navio está em terra”, “O grito veio de terra”). Observa, no entanto, a sequência: a espaçonave deixou a Terra, a espaçonave saiu da Terra, a espaçonave caiu na Terra, a espaçonave voltou à Terra. Como podes ver, sempre usamos o artigo definido com o nome de nosso planeta. Isso  também ocorre quando empregamos terra para indicar o lugar que se opõe ao céu, no sentido místico ou mitológico: “Zeus saiu da vastidão azul do céu e voltou mais uma vez à terra“; “Cristo veio à terra para salvar os homens”. Abraço. Prof. Moreno

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arroz-de-leite, arroz-com-leite

Ele: “Professor Moreno, gostaria de saber se é correto o nome do doce arroz-de-leite , sinônimo de arroz-doce. Minha mulher insiste que está errado. Está grafia consta no Aurélio, enquanto a que ela diz ser a correta, arroz-com-leite, não consta. Por favor, esclareça-nos. Muito obrigado.” [Ernesto – Porto Alegre]

Ela: “Caro professor Moreno, há um debate entre mim e meu marido a respeito do nosso famoso doce regional, o arroz-doce, que já está virando polêmica familiar. Eu sou do interior e ele de Porto Alegre. Quando começamos a namorar, achavam estranho, na casa dele, eu falar arroz-com-leite, pois todos falavam arroz-de-leite. Desde então o debate vem crescendo e está se tornando cada vez mais acirrado. Eu argumento que de leite não se faz arroz. Pode-se fazer um doce de leite, uma rapadura de leite, mas nunca arroz. Eles argumentam que é o nome do doce e que, por isso, pode. Tive a idéia de entrar em contato quando li sua explicação sobre déjà vu — o que não é torna-se aceito e tido como verdadeiro e correto. Será que teremos também o *cunós ou *cunóis tido como correto algum dia? Um abraço.” 

Marta — Porto Alegre

Meus caros Ernesto e Marta: façam as pazes, porque os dois têm razão. O tradicional doce português, o arroz-doce, pode ser chamado tanto de arroz-de-leite quanto de arroz-com-leite. Não tentem encontrar uma ordem onde ela inexiste: infelizmente o uso da preposição na denominação dos pratos de nossa cozinha não segue a estrutura-padrão de nossos sintagmas. Entendo a posição da Marta: o arroz-doce é feito “com” leite, e não “de” leite. No entanto, uma pesquisa detalhada em livros de culinária consagrados me fez suspeitar que não é tão simples assim. Encontrei feijão de azeite, feijão de alho, cocada de ovos, arroz de polvo, arroz de marisco, arroz de frango, arroz de alho, arroz de coco (Luís Câmara Cascudo), arroz de pequi, arroz de leite (Gilberto Freyre) — em todos eles, aposto que a Marta substituiria o “de” pelo “com”.

Em alguns cardápios, inclusive, vi distinguirem arroz-com-leite, prato salgado em que o arroz é cozido no leite e não na água, do arroz-de-leite, incluído entre as sobremesas. Em outros, no entanto, o próprio arroz-de-leite aparece como salgado; um típico restaurante do Rio Grande do Norte oferece à gula dos fregueses vários pratos da cozinha regional do Seridó, entre eles carne-de-sol com arroz-de-leite, rabada de boi, guiné torrado, buchada, entre outros. Deu para perceber? Neste caso, não existe um padrão sedimentado quanto ao emprego do “com” ou do “de”.

Agora, Marta, senti uma ponta de ironia quando perguntas se um dia teremos como correto o famigerado *cunós ou, pior ainda, o *cunóis — assim como se eu tivesse insinuado que o errado passará a ser certo, já que a maioria fala assim. Nada disso; o caso do arroz-de-leite é bem diferente. Não estamos falando em substituir uma forma do Português culto (conosco) por uma do Português falado substandard (*cunóis) — a distância é grande demais para ser transposta—, e sim usar uma preposição em vez de outra (fato comum e freqüente em nosso idioma). Querem um conselho? Depois de ler este artigo, comemorem em torno de um belo prato de arroz-de-leite (ou com leite) morninho, com uma canelinha por cima, o fato de ambos terem razão. E voltem sempre! Um abraço para os dois. Prof. Moreno 

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freqüente > frequente