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A Reforma adiada: e agora?

Agora que a Reforma foi adiada, como é que  nós como ficamos? O que vai resultar desse adiamento? Olhe, prezado leitor, há muitos desfechos possíveis. O adiamento, a meu ver, elimina desde já a hipótese de ficar assim como está; haverá alterações de rumo.

Como vimos nas colunas anteriores, a presidente Dilma tinha toda a razão em sustar esta Reforma, adiando a sua definitiva entrada em vigor. Para que o futuro não repita esse erro (não é para isso que serve a História?), tratamos de apontar, pela ordem, os responsáveis, a fim de que o País saiba a quem culpar por este equívoco descomunal: a Comissão Elaboradora, que deu à luz a Reforma, mesmo consciente de que ela não faria o que prometia; o governo Lula, que tratou levianamente uma decisão desse porte em nome de um discutível ganho político; a comissão chapa-branca do MEC, que dissem amém ao projeto, apesar de estar ciente de seus defeitos; a Universidade, que se calou covardemente, traindo a confiança que nela deposita a sociedade que a sustenta; a ABL, que veio jogar gasolina na fogueira, ao lançar unilateralmente o seu Vocabulário Ortográfico e — o que é pior! — introduzir, por conta própria, algumas interpretações desastradas que fogem ao texto original.

Como em qualquer grande desastre, dói muito ficar sabendo — depois que ocorreu — que  houve várias oportunidades de evitá-lo. Bastaria que uma dessas instituições tivesse acenado com uma lanterna vermelha ou acionado os freios da locomotiva, e todos desceriam do comboio para avaliar o tamanho do abismo. No entanto, levados pelos mais diferentes interesses, todos acabaram se omitindo, num silêncio cúmplice que dava a todos nós, os passageiros, a impressão de que tudo corria muito bem sobre os trilhos.

A imprensa também teve lá a sua parcela de culpa, ao aderir cegamente, desde o primeiro minuto, ao novo sistema. Tomando-o como um fato consumado, passou a preocupar-se apenas em explicar o “como usar”; foram publicadas dezenas de matérias que enumeravam “o que muda”, mas nenhuma discutia a conveniência ou a exeqüibilidade da mudança. Foi como se a imprensa, ao ver tantas cabeças coroadas do mundo acadêmico endossarem o Acordo, tivesse considerado desnecessário examinar criticamente o projeto, não concedendo a ele nem um décimo da energia e do entusiasmo investigativo que os jornalistas costumam dedicar, por exemplo, ao corte de árvores em nossas ruas ou aos engarrafamentos de verão na BR-101.

Para piorar, outro fator veio contribuir para anestesiar a opinião pública: o belíssimo papel para presente em que a Reforma veio embrulhada. Afinal, quem não gostaria de unificar a grafia entre os países lusófonos e fortalecer o Português como língua internacional? Diante disso, falar contra a Reforma parecia, ipso facto, opor-se a essas coisas boas e desejáveis, em nome das quais a sociedade assinou ingenuamente esse contrato de compra em que o vendedor, de antemão, sabia que não poderia entregar o produto combinado. O inacreditável é que agora, mesmo depois de tudo o que se sabe, a ABL, em nota recente, continua a usar essas promessas vãs como argumento para lamentar o adiamento decretado pela presidente!

Mas e nós, como ficamos? O que vai resultar desse adiamento? Olhe, prezado leitor, há muitos desfechos possíveis. O adiamento, a meu ver, elimina desde já a hipótese de ficar assim como está; haverá alterações de rumo. Poderíamos (1) simplesmente anular tudo e voltar ao sistema anterior — isso já foi feito em 1945, quando o Brasil desconsiderou o acordo assinado com Portugal e preferiu ficar com o modelo de 1943; (2) revisar e corrigir o texto atual, aproveitando o que vale a pena e descartando os absurdos; (3) eliminar todos os acentos gráficos do idioma — medida que aproximaria extraordinariamente a grafia dos dois países; uma ou duas gerações sofreriam as dores do parto, mas as outras cresceriam risonhas e saudáveis…

Deve haver muitas outras saídas, mas, seja qual for a adotada, fomos empurrados para um brete do qual certamente não sairemos sem grandes prejuízos. O mal está feito; o problema agora é minimizar as conseqüências. Até 2016, vamos viver num limbo ortográfico, com os dois sistemas — o novo e o antigo — convivendo lado a lado, mas ambos inexoravelmente prejudicados: o novo, porque não nos convenceu; o antigo, porque adquiriu um inegável ar de provisório. Espero, ao menos, que todo esse sacrifício nos torne muito mais atentos e vigilantes a qualquer iniciativa “brilhante” que venha propor a troca do modelo ortográfico ou a adoção de novo modelo de tomada elétrica.

NOTA: aproveito para informar aos amigos que inicio, em março, novas turmas do meu curso de Português na Casa de Ideias, no Shopping Total. Mais detalhes no telefone [51]30187740 ou pelo e-mail contato@casadeideias.com.

Depois do Acordo:

exeqüibilidade>exequibilidade
conseqüências>consequências

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A Reforma adiada (3)

A Reforma foi um desastre que resultou de uma trágica sequência de erros e omissões; veja aqui a parcela de responsabilidade que coube à Academia Brasileira de Letras e às editoras brasileiras.

 

Diante do bem-vindo adiamento da entrada em vigor da Reforma Ortográfica, esta é a terceira coluna que dedico a nomear, para que todos guardem, os responsáveis por termos embarcado nesse inconcebível festival de leviandades que tanto prejuízo trouxe e que tanto mais ainda há de trazer ao sofrido povo brasileiro. Na galeria dos culpados, como vimos, o primeiro lugar cabe à Comissão que redigiu o Acordo, que deveria ter encerrado os trabalhos no momento em que se deu conta de que a unificação ortográfica, razão de ser da reforma, era impossível. Em segundo lugar vem o governo Lula, que, obcecado por interesses geopolíticos e diplomáticos discutíveis, jogou o país de ponta-cabeça numa aventura cujas conseqüências tinha a obrigação de prever, mas não previu. Em terceiro lugar vêm o MEC e a Universidade, que calaram por conivência, ou conveniência, deixando de esclarecer, como era o seu dever, o que precisava ser esclarecido. A esses devemos acrescentar, como veremos, a Academia Brasileira de Letras, as editoras e a própria imprensa brasileira.

A Academia — A ABL também não pode se orgulhar da participação que teve neste episódio, pois terminou agravando os danos que o Acordo, por si só, traria ao Brasil. Seus defensores alegam que esta entidade, cuja ação é limitada a nosso país, não tem competência legal para se opor a um tratado assinado por vários Estados soberanos — o que é verdade —, mas, pelo mesmo raciocínio, ela também não tem competência para mudar o que tinha sido decidido, coisa que ela fez sem remorso ou hesitação, para espanto e escândalo de nossos parceiros portugueses. Seu maior erro foi editar o seu próprio Vocabulário Ortográfico, fazendo de conta que não tinha lido, no texto do Acordo, a disposição expressa de que os países signatários deveriam trabalhar na elaboração de um “vocabulário ortográfico comum”. O pior é que, ao ser questionada por essa evidente traição ao espírito que presidiu a Reforma, a respeitável ABL saiu-se com uma resposta de “malandro eshhhhhperto”, algo como “ué, nós já fizemos o nosso; eles que façam lá o seu” — o que soou, aos ouvidos de nossos parceiros, como uma sentença de morte à tão decantada “unificação”. Pronto: com essa atitude de “Mateus, primeiro os meus”, lá se ia água abaixo a concórdia aparente que tinha unido, até ali, os membros da comunidade lusófona, que agora ameaçam seriamente deitar às urtigas tudo o que foi combinado.

As editoras — Desde o início, os editores brasileiros acolheram a ideia de uma nova ortografia como um maná caído do céu, pois julgavam que ela lhes traria uma grande expansão do mercado livreiro (tanto interna quanto externamente), além de facilitar o preparo e o aproveitamento de seus originais. Tinham toda a razão quanto ao mercado interno, pois imediatamente foi necessário fazer vultosas tiragens para suprir as bibliotecas escolares de todo o país, que tiveram de adaptar seu acervo ao novo sistema ortográfico, disputando as impressionantes verbas do Programa Nacional do Livro Didático, talvez o maior do mundo, no seu gênero. Quem apostou nesta ficha se deu bem.

A perspectiva de ampliar o mercado externo, contudo, murchou como balão furado assim que ficou claro que a Reforma tinha muito pouco de unificadora, sepultando para sempre a ideia fantástica (e ingênua), alimentada no início, de que a ortografia unificada viria permitir que um original, com o mesmo trabalho de editoração, fosse consumível em qualquer um dos países signatários do Acordo. Na medida em que estaria livre de marcas ortográficas locais, o mesmo texto poderia circular por todo o mundo lusófono com a mesma facilidade que uma chave mestra abre todas as portas do hotel; um livro composto e impresso no Brasil poderia, desta forma, ser exportado sem a necessidade de ser reeditado com as adaptações necessárias para adequá-lo ao mercado lusitano, e vice-versa.

O irônico é que essa avaliação errônea foi compartilhada  pelos editores daqui e de além-mar, mas com sentimentos opostos: os nossos a se felicitarem pela perspectiva de abocanhar uma nova fatia do mercado (os 40 milhões de leitores que seguem a norma portuguesa); os deles (falo de Portugal), a lamentarem o golpe dado pelo Brasil, que, com seu parque industrial mais moderno e pujante, passaria a ameaçar diretamente a indústria lusitana do livro e sua participação no mercado africano. Ora, como se viu, nada disso aconteceu, pelo simples fato da Reforma — volto a reiterar — não ter unificado coisíssima nenhuma. Parece que nossas editoras não consultaram especialistas (ou não quiseram acreditar nos especialistas que consultaram, o que dá na mesma); se o tivessem feito, teriam se dado conta, desde o início, de que o Acordo era um tigre de papel e de que a Reforma precisava ser implantada com mais estudo e cautela.

(continua)

Depois do Acordo: conseqüências>consequências


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A Reforma adiada (2)

Um dia alguém vai ter de explicar por que os linguistas e professores que integraram a Comissão de Língua Portuguesa do MEC não denunciaram as incongruências do Acordo, que saltam aos olhos a quem lê o texto com o mínimo de atenção.

 

Na coluna anterior, que comemorou o adiamento da obrigatoriedade das novas regras para 2016, começamos a apontar ─ para que meus leitores saibam e não esqueçam ─ os responsáveis, tanto externos quanto internos, por este imbróglio em que agora nos vemos metidos. Acho importante nomeá-los porque, acuados pelo decreto da presidente Dilma, esses mesmos responsáveis começam a se defender acusando os críticos da Reforma de “mal-intencionados ou desinformados”. Eu, que não sou nem um nem outro, resolvi então expô-los à luz do sol, esperando, como na história do Drácula, que os humanos sobrevivam e os vampiros virem pó.

A Comissão ─ Como responsáveis externos, vão para o quadro da infâmia, como vimos, os membros da Comissão que redigiu e aprovou o Acordo, por sua espantosa desonestidade intelectual: ao aceitarem, como fizeram, centenas de grafias divergentes, eles deveriam, se tivessem o mínimo espírito cívico, declarado o encerramento dos trabalhos, admitindo publicamente que o projeto era inexeqüível. Contudo, por vaidade, por interesse político ou por ambos, preferiram prosseguir mesmo assim em direção ao abismo, condenando todos os países lusófonos a esta Reforma tão singular que, como não unifica o que propunha unificar, não diz a que veio ao mundo.

O Governo ─ Os responsáveis internos são muitos. O primeiro ─ e, por isso, o maior de todos ─  foi o governo Lula, pela pressa e pela forma irresponsável com que sancionou o projeto e passou às etapas seguintes de sua implementação. Por que o Brasil não seguiu Portugal, Angola e Moçambique (para citar nossos parceiros mais importantes nesta empreitada), que decidiram esperar até 2016 para concretizar a Reforma? Suspeito que por trás desse açodamento estivesse a intenção de pôr mais uma moeda no cofrinho do “protagonismo político-diplomático brasileiro”;  o Itamarati (sem o ípsilon, revisor; chega dessa frescura! Queremos o mesmo tratamento que têm Itaqui, Ivoti e Panambi, para citar apenas alguns) ─ o Itamarati, repito, deve ter recomendado ao presidente que não esperasse o tiro de partida e desembestasse pista afora, assumindo, “na manha”, a liderança entre os países lusófonos… É por isso que o adiamento decretado pela presidente Dilma está incomodando tanta gente: além de ser uma vitória do bom senso, vem derrubar mais um falso brilhante da coroa com que seu antecessor se pavoneava.

O MEC e a Universidade ─  É absolutamente inadmissível que os sonhos pessoais de um político sejam postos acima das sérias conseqüências culturais e pedagógicas da implantação de uma Reforma desse tipo, mas os defensores do ex-presidente agora alegam que ele foi mal aconselhado pelo MEC ─ o que é inegável. Não sei o que Lula teria feito se o grupo designado para examinar o impacto da Reforma ─ a Comissão de Língua Portuguesa, a tal COLIP ─ tivesse recomendado menos pressa com o andor, mas o fato é que ela não o fez. Inexplicavelmente, os lingüistas e professores de língua portuguesa que integravam a comissão não denunciaram (com raras e corajosas exceções) as incongruências do Acordo, que saltam aos olhos a quem lê o texto com o mínimo de atenção, nem sugeriram cautela na implantação de uma Reforma que, como já se via, servia apenas para introduzir algumas mudanças quase cosméticas no sistema vigente.

A não ser por alinhamento ideológico com o governo que terminou, fica difícil entender o silêncio conivente desses e da quase totalidade dos demais doutores de nossas universidades, os quais, por sua formação e por sua capacitação intelectual, devem ter enxergado, muito antes que os simples habitantes da planície, o esvaziamento do princípio justificador da Reforma e não deram o sinal de alerta. Afinal, a norma ortográfica já estava há muito consolidada; o dispêndio colossal de recursos para implantar um novo modelo (pobre Angola! … pobre Moçambique!) só seria justificado se houvesse um ganho significativo com a mudança ─ o que, todos estamos vendo, simplesmente não vai ocorrer. Os problemas do Acordo e do VOLP, tão evidentes, contrastavam de tal maneira com o silêncio dos acadêmicos que recordei várias vezes, nesta coluna, a trágica figura de Cassandra, a filha de Príamo, o último rei de Tróia, condenada a viver uma situação absurda, mas semelhante à nossa: ela via claramente o que estava prestes a acontecer, mas ninguém parecia ouvir os seus avisos (confira AQUI as honestas advertências que esta coluna vem fazendo desde 2007).

(continua aqui)

Depois do Acordo:

  • inexeqüível > inexequível
  • conseqüências > consequências
  • lingüistas > linguistas
  • Tróia > Troia
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ARTIGOS SOBRE REFORMA ORTOGRÁFICA

São muitos os artigos do Sua Língua que falam do Acordo Ortográfico. Reúno, abaixo, em ordem de publicação, os dez textos em que analiso mais de perto as causas, as consequências e os prejuízos desta periclitante Reforma:

01 ─ Deixem a nossa ortografia em paz!

02 ─ Esqueçam essa reforma!

03 ─ O pesadelo de Cassandra

04 ─ O pesadelo de Cassandra continua

05 ─ O que muda na ortografia?

06 ─ Mudanças na ortografia

07 ─ Não compre o novo VOLP! (1)

08 ─ Não compre o novo VOLP! (2)

09 ─ Não compre o novo VOLP! (3)

10 ─ Não compre o novo VOLP (4)

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Arquivem esta reforma! E já! [7° de 10]

[publicado em out. 2008] — [7° de 10]

Esta anunciada reforma é ineficaz, amadora e espantosamente prejudicial ao nosso sistema de ensino. Se o Brasil ainda guardar uma pequena reserva de sensatez, vai esquecer esta proposta para sempre e sepultá-la no cemitério das idéias malucas, de onde ela nunca deveria ter saído. Em primeiro lugar, é ineficaz porque não conseguiria alcançar o que pomposamente anuncia — unificar a grafia em todos os países que compartilham nosso idioma. O sistema ortográfico brasileiro e o português são muito parecidos; como dois navios paralelos, singram o oceano sempre na mesma direção, a vinte metros um do outro. A atual reforma conseguiria aproximá-los para dezessete metros — isto é, iria diminuir três metros da distância, a qual, no entanto, continuaria a existir. É muito custo e muito trabalho para muito pouco proveito. Daqui a uns trinta anos, tudo ia começar de novo.

Em segundo lugar, é amadora porque pouco ou quase nada simplifica o trabalho de aprender e de ensinar a ortografia; elimina algumas regrinhas secundárias, embaralha ainda mais (se é que isso é possível!) o emprego do hífen e, ironia suprema, quer suprimir o acento de pára (verbo), usado para distingui-lo da preposição para — logo um dos raríssimos acentos diferenciais que teria toda a justificativa para continuar existindo.

Em terceiro lugar, causaria um dano incalculável ao sistema de ensino. Hoje convivem brasileiros que foram alfabetizados (1) pelo modelo anterior a 1943, (2) pelo modelo definido pelo Acordo de 1943, (3) pelo modelo modificado pelo Acordo de 1971; já vivemos um quadro suficientemente complicado e não precisamos acrescentar mais uma camada nesse pandemônio. Ortografia precisa de tempo para sedimentação — e isso se conta em séculos, não em décadas. Uma nova reforma aumentaria ainda mais a insegurança que todo brasileiro tem na hora de escrever — insegurança essa, como podemos ver, absolutamente justificada. Parem de brincar com o que não entendem; deixem nossa ortografia em paz!

Depois do Acordo: idéia > ideia