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rápida e silenciosamente

Leia e veja por que -MENTE não pode ser classificado como um sufixo comum.

Uma leitora de Porto Alegre (muito jovem, a julgar por seu estilo pitoresco e pela forma com que assinou a mensagem — “Gauchinha”) escreve para pedir mais detalhes sobre uma construção que, segundo suas próprias palavras, acaba de descobrir: “Eu nunca tinha reparado nisso, mas num romance que estou lendo chamou minha atenção a hora em que o vampiro mais sábio fala calma, pausada esolenemente. Comentei com minha mãe, que lembrou que a gente usa todo dia a expressão pura e simplesmente, que deve ser mais ou menos a mesma coisa. Isso é obrigatório? Quando usamos uma carreirinha de advérbios de modo, só o último pode ganhar o sufixo mente?”.

Não, prezada Gauchinha, obrigatório não é — mas é recomendável. Como acontece com a maior parte dos sufixos de nosso idioma, mente é tônico, e sua reiteração cria um efeito desagradável para o ouvido; costumamos, por isso, deixar o sufixo para o último advérbio da “carreirinha”, como dizes. Nos bons escritores podes encontrar centenas de exemplos semelhantes — “sacudiram tão feliz e animosamente o jugo” (Vieira); “elegante e simplesmente cortada” (Garrett); “poderia amar-te tranqüila e livremente” (Bernardo Guimarães); “Olhou fria e longamente para a inglesa”; “Estavam mudados física e moralmente” (Machado); “Achava aquilo, como ele dissera, pura e simplesmente insensato” (Eça de Queirós). Em determinados momentos, no entanto — e aqui se percebe a fineza do ouvido do escritor, que busca obter um efeito especial  —, o sufixo aparece em ambos os advérbios: “sem dizer uma palavra, sem fazer um só gesto, lentamente e silenciosamente se retirou para dentro de casa” (Garrett); “Depois, ainda falou gravemente e longamente sobre a promessa que fizera” (Machado); “A vogal, símbolo gráfico da interjeição primitiva, nascida espontaneamente e instintivamente do sentimento” (Raul Pompéia); “Sobre a calva tinha duas repas de cabelo, laboriosamente e singularmente arranjadas” (Eça de Queirós).

Ora, como pode acontecer algo tão esquisito? Como podemos desconjuntar assim uma palavra, separar seus elementos constitutivos e usar apenas um deles no lugar do todo? É evidente que são poucas — ao menos em nossa língua — as ocorrências dessa curiosa operação que alguns lingüistas chamam de “fatoração”. É bem conhecida, por exemplo, a autonomia de que desfrutam certos prefixos: em vez de “macroeconômico e microeconômico”, podemos falar em micro e macroeconômico — da mesma forma que pré e pós-fixado, intra e extramuros, hipo e hipercalórico, bi e trifásico, pró e antiaborto. O número de casos, contudo, é bastante limitado.

O mesmo não acontece com mente, que é plenamente “fatorável”, como percebeu nossa Gauchinha. Este elemento, tradicionalmente considerado um sufixo, é, na verdade, o nosso conhecido substantivo mente, que se combina com adjetivos para formar legítimos vocábulos compostos (suave+mente, clara+mente, feliz+mente). Nos manuscritos medievais portugueses, muitos copistas ainda deixavam um espaço em branco entre os dois elementos, escrevendo calma mente, serena mente, etc.; poderia ser assim até hoje, pois, como explica Mattoso Câmara, foi por mera convenção da língua escrita que passamos a grafar os dois vocábulos como um só. O processo é tão regular que os dicionários dele se aproveitam para economizar espaço; ao registrar suave e triste, por exemplo, sabem que não é necessário registrar suavemente ou tristemente.

Pois é exatamente essa condição de vocábulo composto que permite a coordenação de dois ou mais adjetivos: em silenciosa, furtiva e rapidamente, o substantivo mente só precisa aparecer no final da seqüência. Pelo mesmo motivo, também, silencioso, furtivo e rápido estão na sua forma feminina, cumprindo o ritual obrigatório da concordância dos adjetivos com o substantivo que acompanham (é bom lembrar que os adjetivos que participam dessas construções devem manter, quando estão sozinhos, sua grafia costumeira, com acento e tudo: cômoda e confortavelmente, rápida e silenciosamente).

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Finalizando, aproveito para comunicar aos amigos que agora em MAIO inicio novas turmas de Português para Concursos, bem como um curso de quatro encontros sobre as mudanças que o Acordo Ortográfico introduziu na nossa maneira de escrever. Para mais detalhes, basta visitar o saite www.casadeideias.com ou ligar para 51-30187740.


Depois do Acordo:

  • tranqüila> tranquila
  • Pompéia> Pompeia
  • lingüistas> linguistas
  • seqüência> sequência
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acriano

O Doutor esclarece: embora ainda seja polêmica a forma correta de grafar certos TOPÔNIMOS, a grafia dos adjetivos gentílicos sempre seguirá, rigorosamente, a norma ortográfica em vigor.

 

1 – Quem mexe em casa de abelha deixa o enxame assanhado, ensinavam os antigos. Não deu outra: na coluna anterior, falamos sobre a forma correta de grafar o nome de Santana do Livramento; foi o que bastou para que um leitor do Acre, atualmente em férias em Porto Alegre, pedisse minha opinião sobre a melhor maneira de escrever o gentílico correspondente àquele estado: acreano ou acriano? Ora, a experiência me ensinou que um dos assuntos mais delicados para quem escreve sobre questões de linguagem é, acreditem, a grafia dos nomes próprios, seja de pessoas, seja de lugares; qualquer discussão neste campo deve ser conduzida com muito tato, já que o nome, muitas vezes, é uma parte extremamente sensível do indivíduo ou da comunidade. Com nomes de gente — os antropônimos é muito fácil evitar animosidades: embora exista uma forma correta de grafá-los, nosso sistema admite, muito sabiamente, o direito de cada um portar seu nome da maneira como recebeu no cartório ou no registro da igreja. Em outras palavras, o nome genérico deve seguir a norma ortográfica; o nome individual, no entanto, é livre para seguir a tradição da família, a fantasia dos pais ou os princípios da numerologia. Quando minha filha escreve para dar notícias e comenta que na sua sala de aula existem um Tomás e uma Teresa, vai usar a forma genérica sem precisar perguntar se o garoto assina Thomaz, Tomaz ou Thomás, e a garota, Thereza, Tereza ou Theresa. Desta forma, todos ficam em paz.

Os nomes geográficos, contudo, seguem necessariamente uma lógica diferente. Por sua própria natureza pública, não podem ter esse caráter subjetivo dos nomes pessoais e precisam se adequar à norma ortográfica que estiver em vigência. Como vimos, o Acordo de 1943 alterou a grafia de centenas de nomes tradicionais: Triumpho passou a Triunfo, Trammandahy a Tramandaí, Manáos a Manaus, Iguassu a Iguaçu, e assim por diante. Joia, no Rio Grande do Sul, tinha acento até entrar em vigor o atual Acordo, que suprimiu o acento dos ditongos abertos nos vocábulos paroxítonos. É assim que funciona, e o registro de fundação do município, diferentemente do registro das pessoas físicas, não dá aos munícipes o direito de manter para sempre a grafia original. Se, no futuro, nova reforma vier a ocorrer, esses nomes sofrerão todas as modificações necessárias para se adequar à nova lei. É claro que as gerações contemporâneas às mudanças sofrem um verdadeiro choque estético diante do que lhes parece uma mutilação (é o que sinto, por exemplo, cada vez que tenho de escrever Troia em vez de Tróia) mas isso passa, assim como nós também, que estamos apenas de passagem por este mundo risonho.

Nem todos, no entanto, aceitam pacificamente essas alterações; indignados, rebelam-se, escrevem a seus parlamentares, fazem abaixo-assinados e promovem jantares de protesto no salão paroquial. Um observador estrangeiro diria que insurgir-se contra uma regra ortográfica é coisa de maluco mas nós, brasileiros, conhecendo muito bem a espantosa elasticidade das leis, sabemos que nem sempre as coisas são como deveriam ser. Pois não existe um exemplo clássico no Acordo de 1943? Como todos sabem, a partir daquela data o H foi eliminado do interior de todos os vocábulos de nosso idioma, sendo mantido apenas nos dígrafos CH, LH e NH. Com essa determinação, nihilismo passou a niilismo, exhausto passou a exausto, rehaver a reaver. No entanto, num exemplo típico do nosso tradicional “carteiraço”, o relator cedeu diante da pressão de seus conterrâneos e inseriu uma clausulazinha salvadora que estabelecia que os “topônimos de tradição secular” ficariam a salvo do novo regulamento; o exemplo que dá, “casualmente”, é o nome de seu estado: a Bahia.

Abria-se, desta forma, uma exceção que até hoje permite que certos municípios mantenham acesa a discussão sobre a grafia de seu nome, alegando enquadrar-se também nesse vaguíssimo critério de “tradição secular”. Embora a idéia me pareça absurda, reconheço que, diante do precedente, eles têm todo o direito de espernear. Não é disso, porém, que estamos tratando aqui, e sim dos vocábulos derivados dos topônimos, especialmente da classe dos adjetivos gentílicos. Estes seguem, na sua formação e na sua grafia, os mecanismos gerais do idioma; são palavras comuns, civis, que vão ser tratadas como todas as suas iguais. Bahia é um vocábulo de exceção, mas como define expressamente o Acordo os seus derivados não têm o mesmo privilégio e não podem ostentar aquele H aristocrático: baiano, baianidade, coco-da-baía, laranja-baía. (continua)

[Publicado no jornal Zero Hora – Coluna O PRAZER DAS PALAVRAS – 10/09/2010]

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2 – Além de receber merecidas críticas da maior parte dos especialistas, o novo Vocabulário Ortográfico (o famigerado VOLP), que veio à luz em 2009, provocou também a indignação de todos  os brasileiros que moram no Acre ao registrar apenas o gentílico acriano. A Assembléia e a Academia de Letras daquele estado se uniram à frente de um movimento cívico que reivindica o direito de usar a grafia acreano, alegando ser esta a forma que sempre se usou desde o início do século 20, quando se consolidou, de uma vez por todas, a identidade regional. Segundo os líderes deste curioso movimento, “um gentílico não se muda por força de Acordo, Decreto ou Lei”, e a legitimidade da forma acreano pode ser atestada em dezenas de “registros em cartório, documentos oficiais, livros, artigos científicos, contos populares, folclore, com uso consagrado por mais de um século de lutas e conquistas heroicas”.

A um amigo que pediu minha opinião sobre o debate, só pude responder que o primeiro dos argumentos acima está errado e que o segundo nada tem a ver com a questão. Primeiro, uma reforma ortográfica modifica, sim, a grafia dos adjetivos gentílicos, como pode modificar a grafia dos verbos, dos substantivos ou de qualquer outra classe gramatical. Segundo, o critério de antiguidade e tradição não pode ser alegado neste caso, pois ele só é levado em consideração quando se discute a manutenção da grafia antiga do topônimo (como o exemplo de Bahia, que examinamos na coluna anterior), e não do adjetivo derivado dele (que é baiano, e não *bahiano). É decisão antiga que as palavras derivadas desses nomes de lugar sigam eles a regra ou gozem de alguma “licença” para manter a grafia tradicionai sejam construídas pelos mecanismos comuns que atuam em nosso idioma.

Ora, a representação gráfica dos adjetivos formados com o sufixo “-ano” ou suas variantes sempre nos causou uma certa dor de cabeça. Basta examinar uma lista de palavras com este sufixo para perceber o quanto o quadro parece confuso: ao lado de formas simples em “-ano” (curitibano), encontramos vocábulos em “-eano” (coreano) e em “-iano” (açoriano). Em benefício dos leitores que não são iniciados nos arcanos da Lingüística, vou passar ao largo das questões teóricas de Morfologia e de Fonologia envolvidas nessas derivações e tratar de estabelecer uma distinção prática para o emprego de “-iano” e “-eano”, seguindo o padrão definido (e mantido) desde 1943.

Comparando-se a desproporcional ocorrência das duas formas, podemos dizer numa linguagem amigável, de sala de visita que “-iano” seria a forma normal, e “-eano”, a forma excepcional. O princípio é muito simples: usamos sempre “-iano”, a não ser nos raros casos em que temos de usar “-eano”. E que casos são esses? Somente aqueles em que o radical do vocábulo primitivo apresenta um “E” final (friso: falamos aqui do radical, não da vogal temática): Taubaté, taubateano; Galileu, galileano. Uma pesquisa nos dicionários de sempre colheu, além desses dois, uma lista assaz reduzida de exemplos: bruneano (Brunei), coreano (Coréia), daomeano (Daomé), gouveano (Gouveia), guaxupeano (Guaxupé), guineano (Guiné), lineano (Lineu), mallarmeano (Mallarmé), montevideano (Montevidéu), nazareano (Nazaré), poconeano (Poconé) pompeano (Pompeia), tieteano (Tietê), traqueano (traqueia), varzeano (várzea) e vaqueano (este, por empréstimo do Espanhol). Todos os demais vão apresentar a forma “-iano”, que se acrescenta ao radical depois da queda da vogal temática “E”: açoriano (Açores), iraquiano (Iraque), bocagiano (Bocage), baudelairiano (Baudelaire), borgiano (Borges), goethiano (Goethe), nietzschiano (Nietzsche), sartriano (Sartre), shakespeariano (Shakespeare), booliano (Boole). O teatro de Nelson Rodrigues é rodriguiano; a lírica de Chico Buarque é buarquiana; o estilo de Euclides da Cunha é euclidiano; quem nasce no Acre, portanto, é acriano.

É verdade que o próprio dicionário da Academia de 1943 registrou acreano, numa evidente contradição com os princípios que defendia. Celso Luft chamava isso de “erro ginasiano” de seus elaboradores; Aurélio, mais diplomático, dizia que era uma variante “menos boa”. Na edição de 1981, o VOLP registrava acreano, mas já indicava sua preferência por acriano; o VOLP atual, no entanto, só registra esta última, coerentemente, introduzindo a correção que deveria ter sido feita há mais de cinquenta anos. Eu fico com esta, já que defendo, por princípio, tudo que colabore na  padronização da grafia. Conheço muito bem a relutância que todos nós temos em abandonar nossos hábitos de escrita, mas gostaria de lembrar a meus amigos acrianos que, orgulhos regionais à parte, seu movimento de resistência vai servir apenas para perturbar o nosso sistema ortográfico, que deveria ser homogêneo em todo o território nacional.

[Publicado no jornal Zero Hora – Coluna O PRAZER DAS PALAVRAS – 24/09/2010]

Após o Acordo:

  • idéia>ideia
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  • Lingüística>Linguística
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o gentílico BRASILEIRO

Prezado Doutor: por que o adjetivo relativo ao Brasil é brasileiro, se este sufixo não é usado em nenhum outro caso para derivados de nomes geográficos?

Paula Velarco – Buenos Aires (Argentina)

Tens razão em estranhar, Paula, mas verás que há uma boa explicação para isso. Nosso idioma dispõe de vários sufixos para obter o mesmo resultado. Por exemplo, na formação de substantivos abstratos de ação (aqueles que derivam de verbos), o Português, entre outros, pode usar -MENTO (tratamento, abalroamento), -DURA (andadura, varredura), -ÇÃO (descrição, provocação) ou -AGEM (passagem, regulagem). Não existe um padrão que determine qual desses sufixos vamos usar; a seleção se dá, caso a caso, por critérios que ainda não foram bem estudados. O mesmo vai ocorrer com os adjetivos gentílicos. Nossos sufixos mais produtivos para esse fim são -ANO, -ENSE e -ÊS, mas também temos adjetivos em -INO, -ISTA, -ÃO, -ITA e -ENHO, entre outros:

ENSE: amazonense, catarinense, maranhense, rio-grandense (é o mais usado nos gentílicos brasileiros).

-ÊS:  português, chinês, neo-zelandês, calabrês, holandês.

ANO: americano, italiano, californiano, baiano, boliviano.

INO: belo-horizontino, bragantino, argelino, marroquino, londrino, florentino.

ÃO: alemão, lapão, afegão, catalão, coimbrão, gascão, parmesão (de Parma).

ITA: israelita, iemenita, moscovita, vietnamita

ENHO: costa-riquenho, hondurenho, porto-riquenho (de topônimos do Espanhol).

ISTA: santista, paulista, campista (raro).

O sufixo -EIRO, por sua vez, é muito usado para indicar profissão ou atividade: jornaleiro, sapateiro, cabeleireiro, ferreiro. É por isso que os nascidos no Brasil são brasileiros (e não brasilianos ou brasilenses): essa era a denominação dos que trabalhavam, nos primeiros dias do Descobrimento, na extração do pau-brasil, e passou a designar todos os que nasciam aqui nesta terra. Da mesma forma, chamamos de mineiros os que nascem no estado de Minas Gerais, palavra que já existia como profissão. Como podes ver, gentílicos com a terminação -EIRO são muito raros e não devem chegar a meia dezena. Não me admira que tu, falante nativa de outro idioma, tivesses percebido a estranheza dessa formação. Abraço. Prof. Moreno

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Como se escreve Emprego das letras

-eano ou –iano?

A foto, tirada num desfile beneficente, mostrava uma tradicional apresentadora de TV usando apenas roupas íntimas; comentando seu corpo bem cuidado, a legenda dizia: “A poderosa balzaqueana deixou muita jovenzinha morrendo de inveja”. Ou seria balzaquiana

O sufixo -ano, com sua variante –iano, tinha um significado básico de “proveniência, origem”: doces serranos, autores italianos, monges tibetanos. Com o tempo, passou a indicar também a proveniência de uma idéia, a partir do nome de um autor ou de um movimento intelectual: sonetos camonianos, ideal republicano, igreja anglicana. Sua definição semântica, como vemos, é muito simples; o problema é sua representação gráfica. É aí que as pessoas encontram problemas — e com toda a razão. Basta examinarmos uma lista de palavras com este sufixo para perceber o quanto o quadro parece confuso: ao lado de formas simples em –ano (tebano, curitibano), encontramos vocábulos em –eano ( coreano, montevideano) e em –iano (machadiano, açoriano). Um ator especializado em peças de Shakespeare é shakespeareano ou shakespeariano? Aquela apresentadora de TV é uma charmosa balzaqueana ou balzaquiana ? Quem nasce no Acre é acreano ou acriano? Em benefício da grande maioria de nossos leitores, que não são especializados em Lingüística, vou passar ao largo das questões teóricas de Morfologia e de Fonologia envolvidas nessas derivações, e tratar de estabelecer uma distinção prática para o emprego das duas formas.

Quando o certo é –EANO — Comparando-se a desproporcional ocorrência das duas formas, fica muito mais fácil para nosso leitor tomar –iano como a forma normal e –eano como a forma excepcional. Colocando de maneira simples: use sempre –iano, a não ser nos poucos casos em que vai ter de usar –eano. E que casos são esses? Somente aqueles em que o radical do vocábulo primitivo tiver um E final (não a vogal temática): Taubaté+ano = taubateano, Galileu+ano = galileano. Uma pesquisa nos dicionários nos forneceu, além desses dois exemplos, uma lista assaz reduzida: bruneano (Brunei), coreano (Coréia), corneano (córnea), daomeano (Daomé), gouveano (Gouveia), guaxupeano (Guaxupé), guineano (Guiné), lineano (Lineu), mallarmeano (Mallarmé), montevideano (Montevidéu), nazareano (Nazaré), pompeano (Pompéia), tieteano (Tietê), traqueano (traquéia), varzeano (várzea) e vaqueano (empréstimo do Espanhol). 

Quando o certo é –IANO — Todos os demais vão apresentar a forma –iano, que se acrescenta diretamente ao radical ou depois da queda da vogal temática: bachiano (Bach), balzaquiano (Balzac), bilaquiano (Bilac), bocagiano (Bocage), borgiano (Borges), drummondiano (Drummond), freudiano (Freud), machadiano (Machado), mozartiano (Mozart), poundiano (Pound), rosiano (Rosa), sartriano (Sartre), shakespeariano (Shakespeare), veneziano (Veneza), entre muitos outros. Costuma-se ver lógica booleana (de Boole), mas os especialistas (o próprio Aurélio, entre outros) não a consideram correta, preferindo booliana. Ah, em tempo: a personagem da foto era uma charmosa balzaquiana.

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Lições de gramática Semântica

coletivos

Professor Moreno, tenho curiosidade em saber o coletivo de leões (o animal, rei da floresta). Pesquisei algumas gramáticas e não encontrei o coletivo específico para eles. Vi que matilha pode ser usado para animais ferozes e cambada para gatos (já que o leão é um felino), mas não sei se são os indicados para leões. Sou professora de inglês e esta questão surgiu de uma aluna minha, que recebeu um e-mail fazendo referência aos leões como um grupo. Se puderes me ajudar, agradeço.

Tânia Gonçales

Minha cara Tânia: os coletivos específicos são tão poucos que há muito se deixou de levar tão a sério o estudo desta espécie de substantivo. As cabras têm um coletivo determinado (fato), e assim também os camelos (cáfila); os porcos não deixam por menos (vara), e os peixes vivem em cardumes. E a tartaruga? A cotia? O jacaré? O tatu? A lesma? O tamanduá? O bicho-preguiça? O canguru? Esses não têm coletivos específicos, principalmente por não terem o costume de aparecer em grandes grupos. Se fizermos questão de empregar um coletivo para estes animais, devemos usar os chamados coletivos genéricos (que, na verdade, terminam sendo usados para tudo, até mesmo para o porco, o camelo e a cabra, que tinham os seus coletivos específicos): bando, grupo, manada, rebanho, etc. É o caso dos teus leões; basta escolher um desses genéricos, que não esteja diretamente relacionado com alguma espécie (cardume de leão não dá, nem vara; cáfila muito menos, é óbvio). 

Outra leitora, a Nanci, escreveu perguntando o coletivo de rato: “Seria ninhada (por causa da criação), ou bando, ou nenhum deles?”. Ninhada serve tanto para os ratinhos quando para os filhotes de qualquer ave ou mamífero (de pinto, de cachorro, de gato, de leitão, etc.) nascidos de uma só vez; com certeza nossa leitora teve a atenção atraída pela expressão ninho de rato, usada para cabelo emaranhado, cama com as cobertas desfeitas ou gaveta desorganizada. O equívoco é normal; nossa memória vocabular vive nos pregando peças desse tipo. Como no caso dos teus leões, voltamos, assim, aos coletivos genéricos. Como grupo e manada (é ruim!) de ratos não dá, usamos bando, ou coisa semelhante. Estes coletivos estão ficando tão polivalentes que encontrei uma definição de cambada que poderia figurar naquela famosa enciclopédia chinesa citada por J. L. Borges: “cambada de caranguejos, chaves reunidas, gente ordinária, malfeitores, objetos enfiados em cordão, peixes, vadios e vagabundos”.

Não podemos esquecer que o Português usa, para expressar a idéia coletiva, sufixos extremamente produtivos, o que, aliás, explica por que temos tão poucos coletivos específicos: –ada, -eiro, -ria, -edo: boiada, formigueiro, cavalaria, pulguedo, etc. Para rato, o Aurélio XXI registra ratada e rataria. Para leão, certamente o Português poderá produzir algo como leãozada ou leonada, se for necessário — o que nunca é impossível: no momento em que se começou a chamar de perua aquele tipo de mulher espalhafatosa e cheia de jóias, ao lado de bando de peruas, passei a ouvir também formações derivadas como “Naquele bar tem uma peruada (ou peruagem, ou peruama) infernal”. Insondáveis são os caminhos de um idioma. Abraço. Moreno

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Formação de palavras Lições de gramática

assessoramento

Caro professor, adorei sua página. Por favor, gostaria de um esclarecimento sobre uma palavra que alguém que eu conheço insiste em usar: assessoramento. Essa palavra existe em Português?  Não seria melhor usar assessoria? Essa pessoa, por exemplo, usa “assessoramento técnico e comercial em transporte vertical”. Isso é correto?

Marilena R. — Campinas

Cara Marilena: quanto ao assessoramento, o nosso idioma usa vários recursos para formar substantivos abstratos de ação a partir de um verbo: (1) tira a terminação verbal e acrescenta simplesmente uma vogal: roubar/roubo; trocar/troca; desgastar/desgaste; (2) acrescenta um dos sufixos especializados para este fim: -mento, em congelar/congelamento; -ção, em explorar/exploração; –dura, em benzer/benzedura; -ia, em correr/correria.

O que ninguém jamais conseguirá explicar são os vínculos ocultos entre esses elementos todos, que nos fazem preferir degelo para degelar, mas congelamento para congelar. Por que não se formou degelamento? Seria perfeitamente possível; parece apenas que a forma degelo ganhou nossa preferência. Lembro que, em Portugal, congelar forma congelação, que é uma das possibilidades oferecidas pela Língua Portuguesa. 

Aqui no Brasil é comum encontrarmos duas ou mais formas ainda disputando seu espaço; é o caso bem conhecido de monitoração e monitoramento, ambas bem formadas, que ficarão coexistindo até que uma delas vá ficando esmaecida. No meu dialeto pessoal, assessoramento e assessoria estão em pé de igualdade; nenhuma das duas tem minha preferência. Agora, como tu mesma notaste, ao teu colega soa melhor assessoramento, enquanto preferes assessoria. Esse estado de indefinição pode durar décadas. Lembro apenas que o sufixo -mento dá mais idéia de ação do que o sufixo –ia, o que me faz preferi-lo sempre que vou transformar a base verbal em substantivo: durante o assessoramento, o assessoramento de gastos, etc. Abraço. Moreno

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Formação de palavras Lições de gramática

absenteísmo

Caro Professor Moreno: estou em fase de redação de minha dissertação de mestrado, cujo tema é “Afastamentos do trabalho na Enfermagem: estudo exploratório sobre esta ocorrência em um hospital de ensino”. Gostaria de orientação quanto à adequação das palavras afastamento ou absenteísmo para caracterizar a ausência do funcionário no trabalho por motivo de licença-saúde. Ressalto ainda que me refiro apenas a ausências justificadas por atestado médico. Desde já agradeço sua atenção.

 Denise B. — São José do Rio Preto (SP)

Minha cara Denise: acho que deves evitar o vocábulo absenteísmo no teu trabalho. Os vocábulos em –ismo, outrora, eram usados exclusivamente para designar doutrinas, movimentos artísticos, estilos literários: naturalismo, positivismo, classicismo, surrealismo, etc. Modernamente, contudo, este sufixo também passou a intervir na criação de vocábulos onde se percebe uma nítida intenção de criticar o exagero, o excesso. É o caso de consumismo, grevismo, assembleísmo, denuncismo, etc. Em absenteísmo, como em consumismo, o sufixo –ismo indica a exagerada repetição ou intensificação de uma prática. Consumista é quem consome sem critérios; absenteísta é quem vive faltando a seu emprego ou a suas aulas. Acho que deverias empregar afastamento — ainda mais considerando que se trata de licença-saúde. Abraço. Prof. Moreno

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Formação de palavras Lições de gramática

nomes comerciais em X

Caríssimo prof. Moreno, sou um grande admirador de sua coluna, que tenho como a melhor do gênero no País. Lendo uma de suas respostas à dúvida sobre a acentuação de inox, não pude deixar de notar sua analogia com outros termos terminados em X, tais como Durex, entre outros. Ora, essa terminação, apesar de bastante antiga (como atesta o exemplo), tem a conotação de moderno e contemporâneo e vem sendo ainda bastante utilizada para dar nome a produtos que se querem associados a tecnologia, principalmente, como é o caso de Vaspex, Sedex e tantos outros que são criados diariamente (até mesmo o popularíssimo Marmitex). Minha pergunta é: de onde vem essa terminação? Quais foram seus precursores? 

Wolney U. — Goiânia

Meu caro Wolney: a operação de batizar um produto industrial envolve muito mais que uma simples designação: é importante também que esse nome sugira qualidades desejáveis como modernidade, eficiência e respeitabilidade. Essa força evocativa das palavras fica naquele rincão misterioso que o lingüista Roman Jakobson denominava de “função poética” da linguagem. Digo misterioso porque simplesmente ninguém explica por que uma determinada combinação de sons traz mais prestígio do que outras; o certo é que isso acontece, e os publicitários e homens de criação precisam ter sempre o ouvido muito atento.

Há fortes indícios de que o uso das terminações em X para marcas e produtos tenha vindo do Inglês. A presença, em muitos nomes compostos, de radicais como flex, mix, max, fix, lux, vox, mais o uso difundido do sufixo high-tech (já que estou falando do Inglês …) –ex, que sugere a idéia de excelência, parecem ter carregado todos os nomes terminados em X com essa aura especial, reforçada por marcas de grande renome e qualidade, como Rolex, Xerox, Pentax, Victorinox, Linux, Rolleiflex. Na irrefreável globalização mercantil, muitos desses produtos entraram no Brasil, misturando seus nomes ao de produtos genuinamente nacionais, batizados também nesse novo estilo. Hoje, sem uma pesquisa cuidadosa nas juntas comerciais e nos registros de marcas, é praticamente impossível distinguir, a olho nu, quem é daqui e quem é de fora entre os seguintes nomes: Ajax, Chamex, Colorex, Concremix, Durex, Errorex, Eucatex, Iodex, Marinex, Mentex, Panex, Paviflex, Repelex, Varilux, Zetaflex. O inconfundível toque brasileiro: o prof. Antônio José Sandmann, em seu Competência Lexical, menciona uma pequena firma de reparos domésticos de instalações elétricas e hidráulicas, no litoral do Paraná, que ostenta o vistoso e significativo nome de Prajax. Abraço. Prof. Moreno

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Etimologia e curiosidades Origem das palavras

Antigos diminutivos

Nosso idioma usa as terminações –inho ou –zinho para formar seus diminutivos, enquanto o latim, nossa língua mãe, usava o sufixo –ulus, que chegou até nós em muitos vocábulos de uso científico. Falamos em pelezinha e película, em globinho e glóbulo, em rodinha e rótula, em corpinho e corpúsculo. Em cada par, qual é a diferença? Ambos os vocábulo são diminutivos, mas o primeiro é de emprego corrente, enquanto o segundo é mais erudito. O coelho da Páscoa traz ovinhos; no entanto, quando falamos da reprodução humana, só aceitamos a forma óvulo. Nossa garganta tem uma úvula, mas não uma uvinha, e os frutos não têm pezinhos, mas pedúnculos. Os falantes reconhecem a maioria desses diminutivos latinos, mas alguns certamente vão ser surpresa para meus leitores. 

cálculo

Vem de calculus — literalmente, “pedrinha”. É o diminutivo de calx (“pedra calcária”), a mesma raiz de onde proveio o nosso cálcio. Como essas pedrinhas eram usadas para computar os pontos de vários tipos de jogos, o termo cálculo adquiriu o sentido atual de “medição, cômputo, avaliação”. Uma lembrança viva do significado primitivo pode ser encontrada no vocabulário médico, onde as pedras que se formam no corpo do homem ou dos animais ainda são chamadas de cálculos.

clavícula

De clavicula — literalmente, “chavezinha”, diminutivo de clavis, “chave”. São aqueles ossos achatados, com o desenho aproximado de um S, que ficam na parte frontal do ombro (as populares “saboneteiras”). Os anatomistas primitivos escolheram este nome porque o formato da nossa clavícula lembra a chave ou o ferrolho usado para trancar as janelas, nas casas romanas. É, portanto, um irmão distante do conclave, reunião de religiosos que é feita a portas fechadas.

escrúpulo

Mais uma pedrinha: no latim, scrupus era aquele tipo de pedra pontuda, cheia de arestas afiadas. Seu diminutivo, scrupulum, era a pedrinha incômoda, que todos nós conhecemos porque que entra em nosso sapato e fica torturando o pobre pé. Numa bela metáfora, o termo passou a expressar o freio moral que a consciência nos traz, ao nos fazer agir com cuidado e meticulosidade, obedecendo a princípios morais. Essa idéia da consciência como um estorvo parece também estar por trás da personagem do Grilo Falante, na história do Pinóquio.

célula

Do latim cellula, diminutivo de cella (“câmara, quarto”). A cela designava, nos mosteiros medievais, o quarto individual dos monges; hoje se refere também à pequena peça onde ficam os prisioneiros ou os internos dos estabelecimentos psiquiátricos. Célula (“quartinho”) foi adotado pela biologia para batizar as unidades básicas dos tecidos vivos. O termo também é usado, metaforicamente, para qualquer unidade fechada e autônoma, como é o caso das células dos partidos de esquerda ou das células fotoelétricas. 

vírgula

Literalmente, “varinha”. É o diminutivo de virga (“vara, bastão”). Os copistas medievais usavam esse nome para designar uma grande variedade de sinais de pontuação e de acentuação, traçados em diferentes alturas com relação à linha. O termo foi se especializando até chegar ao sentido que tem hoje. Embora no inglês a vírgula seja chamada de comma, o termo virgule é usado como sinônimo erudito do slash, a barra diagonal inclinada para a direita, tão utilizada na linguagem dos computadores.

furúnculo

É o diminutivo de fur (“ladrão”), o mesmo radical que nos deu furto e furtivo. Furunculus (literalmente, “ladrãozinho”) era o termo usado para designar o botão que nasce nas videiras, dos quais brotam ramos que acabam roubando a seiva necessária para o bom desenvolvimento dos ramos principais. O nome foi atribuído também à conhecida infecção da pele por causa de sua semelhança com aquele botão vegetal

pílula

De pilula, literalmente, “bolinha”. É o diminutivo de pila, nome dado a uma bola que os romanos usavam para jogar, do tamanho de uma bola de tênis. De pila também veio o nosso péla, sinônimo pouco usado para bola, mas muito conhecido por seu derivado pelada. No Latim Vulgar, outra forma do diminutivo (pilota) deu origem a pelota. Mesmo desconhecendo a etimologia de pílula, a juventude maluca dos anos 60 chamava de “bolinha” os comprimidos de anfetamina.

flâmula

Flammula (literalmente, “chaminha”) é o diminutivo de flamma (“chama”). Esta irmã de inflamável, flambar e flamante foi o nome dado àquelas bandeirolas estreitas e compridas, geralmente triangulares, usada nas lanças dos cavaleiros e nos mastros das embarcações. Quando tremulam ao vento, têm a aparência de uma pequena chama, o que explica o seu nome. No futebol, em jogos festivos, ainda é costume os dois times oponentes trocarem as respectivas flâmulas antes do apito inicial.

Depois do Acordo: idéia > ideia

péla > pela