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inox

Prezado Prof. Moreno: recentemente descobri teu sítio na Internet, e como sou apaixonado por curiosidades lingüísticas, volta e meia dou uma olhada nele. No ponto xerox ou xérox, citas diversas palavras que entraram no Português, como durex, inox, etc. A mim me parece que a palavra inox nao é um estrangeirismo (o que talvez pudesse justificar uma possível confusão na sua pronúncia), mas sim uma corruptela de inoxidável, do Português mesmo. Provavelmente não venha do idioma inglês, pois aço inoxidável em Inglês é stainless steel. Tampouco é uma marca registrada, pois há inox da Acesita, Usiminas e assim por diante. Alguma idéia? Duas observações: (1) sou engenheiro metalúrgico, daí a curiosidade; (2) desculpa a falta de acentos circunflexos, cedilhas e tils (til tem plural?). Estou na Alemanha e o teclado que estou usando não possui a configuração para o Português… Grande abraco e parabéns pelo excelente trabalho.” 

Rodrigo Villanova

Meu caro Rodrigo: muito me alegra ter um leitor atento aí nessa lonjura; obrigado pelos cumprimentos. Quanto ao inox, uma pequenina retificação: eu não disse (ou escrevi) que é vocábulo estrangeiro, mas sim que é um “vocábulo que entrou no nosso idioma depois da Segunda Guerra”. Atualmente, em Lingüística, tentamos definir as leis do comportamento das palavras de uma língua e descrever os modelos que estão operantes. Antes da Grande Guerra, os vocábulos terminados em X que “entravam” no Português eram marcados com a tônica na penúltima. Certamente aqui está o meu erro de expressão: usei entrar com o sentido de “passar a fazer parte”, o que engloba os vocábulos formados internamente, importados de outras línguas ou simplesmente inventados — e não apenas os estrangeirismos (não gosto desta palavra xenófoba). 

Depois que Hitler deu seu último suspiro em algum bunker perdido aí por onde tu andas, parece que o paradigma começou a trocar: todos os novos vocábulos com esta terminação passaram a um modelo com a tônica final. Isso inclui importações (durex, pirex), reduções (inox, redox) e até mesmo marcas comerciais (que, como hoje sabemos, também são inventadas dentro do “molde” prosódico que está vigendo no momento em que são criadas): Gumex, Mentex, Jontex, Giroflex. É por isso que xerox (importada) entrou aqui já dentro desse novo esquema prosódico. Vou ter que refrasear aquele artigo, para ficar mais claro. Estás a ver que Drummond tem toda a razão: “lutar com as palavras é a luta mais vã”! Não tinha me ocorrido que eu estivesse escrevendo de uma forma a deixar espaço para duas leituras. Um abraço. Prof. Moreno

P.S.: na medida em que til é um vocábulo de nossa língua, tem, como seus demais colegas de idioma, o direito a um plural; por que não? Cantil, cantis; funil, funis; til, tis.

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xerox ou xérox?

Eu sempre disse /xeróx/ (com a tônica na última sílaba), mas aqui no Tribunal já me corrigiram várias vezes para /rox/. Afinal, qual é a forma correta? E na escrita, leva ou não leva acento?

Secretária — Londrina

É sempre mais complicado definir a forma correta de pronunciar uma palavra, Secretária. As pessoas sentem-se mais seguras no que se refere à escrita, porque esta, por sua própria função de registro, é mais estável — sem contar que existe, no Brasil, uma lei que (mal ou bem) ajuda a fixar uma grafia uniforme: afinal, sempre podemos consultar o vocabulário ortográfico (um dicionário em que as palavras não são definidas, mas simplesmente relacionadas, numa grande lista, com a forma que a Academia resolveu achar correta). No que se refere à pronúncia, contudo, o falante precisa basear-se no exemplo das pessoas cultas e na opinião dos gramáticos e dos dicionaristas (faço questão de frisar: a pronúncia que um dicionário indica para uma determinada palavra representa apenas a opinião de seu autor; é uma opinião especializada, mas é uma opinião).

Entretanto, se examinar com cuidado as palavras e as frases de uma língua, um especialista em Fonologia pode ir além da simples opinião e estabelecer alguns fatos concretos sobre a organização intrínseca dos sons que a compõem — e, o que me parece mais importante, identificar quais são as tendências que essa língua apresenta no momento. Por exemplo, no caso do xerox, posso apontar uma tendência mais ou menos nítida, a partir dos anos 50, para os vocábulos terminados em X (na fala, pronunciado como /cs/): até a primeira metade do século XX, eram unanimente paroxítonas, isto é, com a tônica na penúltima, e com um indisfarçável caráter erudito. No Aurélio, entre outros, encontrei tórax, bórax, clímax, córtex, látex, sílex, cóccix, fênix, ônix.

De 1950 para cá, todavia, o modelo parece ter-se deslocado nitidamente: as palavras novas que entraram no Português desde então foram recebendo a tônica na sílaba final: durex, inox, pirex, gumex, telex, jontex, relax, prafrentex, redox. Não importa que muitas ainda sejam, ou tenham sido, nomes comerciais: os falantes dão-lhes instintivamente o padrão que a língua está usando neste momento para palavras com este perfil. Não tenho a menor dúvida de que todas as próximas que virão (e as palavras não param nunca de ingressar no nosso léxico) seguirão este padrão.

Como é que eu arrisco a data dos anos 50? Bem, aqui temos apenas mais uma confirmação de que a verdadeira análise lingüística precisa levar em consideração o componente cultural e histórico da língua que está estudando. O pirex e o inox, por exemplo, apontam para o final da 2ª Guerra, como subprodutos do avanço tecnológico que o esforço bélico produziu. A eles eu acrescento um vocábulo que omiti nas relações acima: dúplex, o avô de nossas coberturas, em que um apartamento é ligado ao de cima por uma escada interna (naquela época, um dos símbolos de status da classe poderosa de Rio e São Paulo; alguns chegavam ao clímax ao adquirirem um tríplex). Ora, dúplex é uma palavra muito antiga, usada como sinônimo de dúplice (“convento dúplex – convento para frades e freiras”, ensina Antenor Nascentes), portadora daquela nítida aura de palavra erudita e alatinada. Ao passar a denominar esse tipo de apartamento (que assim se chama até hoje), o vocábulo entrou verdadeiramente na corrente sangüínea do Português e tomou a forma duPLEX. O Aurélio, com honestidade, registra, no verbete dúplex: “Pronuncia-se correntemente como oxítono”; o Houaiss, um tanto ambíguo, registra duplex como “forma não preferível e mais usada do que dúplex“…

O xerox é recente, como o telex, e não vejo por que não seria pronunciado dessa forma. O Aurélio registra as duas — xérox e xerox—, embora indique preferência pela primeira.. . Isso está coerente com a orientação deste dicionário, que é excelente em muitos aspectos, mas nitidamente atrasado em sua orientação fonológica.  O Houaiss, mais moderno, prefere xerox, indicando expressamente, entre parênteses, a pronúncia /ócs/.

Como vemos, a pronúncia xérox representaria uma volta ao molde que a própria língua já abandonou (que levaria a algo como *télex, *dúrex, *pírex). Por outro lado, entre as pessoas que dizem xérox, suspeito que algumas o façam numa tentativa equivocada de manter a pronúncia estrangeira, com todo aquele prestígio que o Inglês dá aos vocábulos tecnológicos; se for por isso, deram com os burros n’água, já que no Inglês a palavra soa /zirocs/, com a tônica no /zi/ e o “o” bem aberto, como vovó. Abraço. Prof. Moreno

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Formação de palavras Lições de gramática

nomes comerciais em X

Caríssimo prof. Moreno, sou um grande admirador de sua coluna, que tenho como a melhor do gênero no País. Lendo uma de suas respostas à dúvida sobre a acentuação de inox, não pude deixar de notar sua analogia com outros termos terminados em X, tais como Durex, entre outros. Ora, essa terminação, apesar de bastante antiga (como atesta o exemplo), tem a conotação de moderno e contemporâneo e vem sendo ainda bastante utilizada para dar nome a produtos que se querem associados a tecnologia, principalmente, como é o caso de Vaspex, Sedex e tantos outros que são criados diariamente (até mesmo o popularíssimo Marmitex). Minha pergunta é: de onde vem essa terminação? Quais foram seus precursores? 

Wolney U. — Goiânia

Meu caro Wolney: a operação de batizar um produto industrial envolve muito mais que uma simples designação: é importante também que esse nome sugira qualidades desejáveis como modernidade, eficiência e respeitabilidade. Essa força evocativa das palavras fica naquele rincão misterioso que o lingüista Roman Jakobson denominava de “função poética” da linguagem. Digo misterioso porque simplesmente ninguém explica por que uma determinada combinação de sons traz mais prestígio do que outras; o certo é que isso acontece, e os publicitários e homens de criação precisam ter sempre o ouvido muito atento.

Há fortes indícios de que o uso das terminações em X para marcas e produtos tenha vindo do Inglês. A presença, em muitos nomes compostos, de radicais como flex, mix, max, fix, lux, vox, mais o uso difundido do sufixo high-tech (já que estou falando do Inglês …) –ex, que sugere a idéia de excelência, parecem ter carregado todos os nomes terminados em X com essa aura especial, reforçada por marcas de grande renome e qualidade, como Rolex, Xerox, Pentax, Victorinox, Linux, Rolleiflex. Na irrefreável globalização mercantil, muitos desses produtos entraram no Brasil, misturando seus nomes ao de produtos genuinamente nacionais, batizados também nesse novo estilo. Hoje, sem uma pesquisa cuidadosa nas juntas comerciais e nos registros de marcas, é praticamente impossível distinguir, a olho nu, quem é daqui e quem é de fora entre os seguintes nomes: Ajax, Chamex, Colorex, Concremix, Durex, Errorex, Eucatex, Iodex, Marinex, Mentex, Panex, Paviflex, Repelex, Varilux, Zetaflex. O inconfundível toque brasileiro: o prof. Antônio José Sandmann, em seu Competência Lexical, menciona uma pequena firma de reparos domésticos de instalações elétricas e hidráulicas, no litoral do Paraná, que ostenta o vistoso e significativo nome de Prajax. Abraço. Prof. Moreno

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