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Acordo ortográfico Casos Decididos

grafia do nome “Júlia”

Prof. Moreno, numa resposta anterior, o senhor afirmou que devemos escrever Júlia com acento. Porém, gostaria de saber se, com a aprovação das novas regras ortográficas, este nome continua a ser acentuado. Muito obrigada! Karla D. — Brasília

Prezada Karla, as novas regras não alteraram a acentuação das paroxítonas terminadas em ditongo crescente, como Mário, água, história, Júlia, etc. Como bem sabes, tanto a regra de 1943 quanto a atual consideram necessário marcar essas palavras com acento por causa da instabilidade intrínseca dos ditongos crescentes: numa pronúncia silabada, eles facilmente podem se desfazer, o que resulta no incremento de uma sílaba após a tônica. Júlia, por exemplo, tem duas sílabas na escrita (Jú-lia) e duas na fala (/jú-lia/), mas nada impede que, numa pronúncia escandida, ela passe a ter três (/jú-li-a/) — o que a tornaria, neste momento, uma proparoxítona. Para distinguir estas palavras das verdadeiras proparoxítonas, os gramáticos costumam chamá-las de proparoxítonas eventuais, relativas ou aparentes (podes ler mais sobre isso em paroxítona ou proparoxítona?). Este acento continua. Abraço. Prof. Moreno

Veja a regra aqui

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Acentuação Como se escreve

acento de nêutron

Júlio M., de Caxias do Sul, tem uma dúvida sobre acentuação: “Gostaria de saber se prótons, nêutrons e elétrons levam acento. A regra diz que as paroxítonas terminadas em N são acentuadas, no entanto, não fala se seguidas ou não de S. O plural de hífen não é acentuado. Qual a regra? Será estrangeirismo?”

Prezado Júlio: desculpa, mas não há tal “regra”. Como deves saber, as paroxítonas, para fins de acentuação, são divididas em dois grupos: (1) as que, por existirem em grande número, não levam acento (as terminadas em A(s), E(s), O(s), EM e ENS); (2) as demais, que são acentuadas. É simples assim.

Hífen tem acento porque o N não está entre os finais mais comuns; já hifens faz parte de um grande grupo, juntamente com itens, polens, homens, jovens, nuvens, etc., e vai ficar, por isso mesmo, sem acento. Agora, nêutron, nêutrons, cátion, cátions, ânion, ânions — todos estão fora do grupo livre de acento. Abraço. Prof. Moreno

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Acentuação Como se escreve

quê?

Caro professor: na frase “Tudo o que você põe na sua casa, menos o cansaço”, este que deve ser acentuado? Sei que, no final da frase, ele tem acento (“Não sei bem por quê“), mas nesse caso fiquei em dúvida… Muito obrigada! Sua aluna virtual. Sandra Ambrosio

Minha cara Sandra: este “que” não tem acento. Sabes que esta partícula — seja ela pronome, seja conjunção — é apenas um monossílabo átono, assim como se, lhe, me, etc., escapando, portanto, à regra de acentuação. Para que ela receba o circunflexo, é indispensável que ela se torne tônica, passando então a fazer parte daquele grupo integrado também por lê, você, dê, vê, entre outros.

Essa mudança na tonicidade vai ocorrer em duas situações: em primeiro lugar, quando o “que” se encontra no final da frase (refiro-me à FALA, não à escrita) :

— Obrigado! Não há de quê.

— Não há de quê, amigo.

— Você está falando do quê?

— Quero pagar, mas não tenho com quê.

Em segundo lugar, quando o “que” se tornar um substantivo (admitindo, nesse caso, o plural). Isso acontece quando ele passa a ser o núcleo de um sintagma, precedido daqueles vocábulos que habitualmente acompanham os substantivos: artigos, pron. possessivos, pron. indefinidos adjetivos, pron. demonstrativos adjetivos:

— Ela tinha UM quê de fascinante.

— Esta cidadezinha tem lá OS SEUS quês.

No entanto, em frases como “tudo o que você fez”, “não sei o que queres”, este O não é um artigo, mas um pronome demonstrativo substantivo (equivalente a aquilo: tudo aquilo que você fez), que não vai alterar a tonicidade do “que”.

Um antigo gramático sugeria a seguinte maneira prática de distinguir o que tônico do átono: quando ele é átono, o falante pode pronunciá-lo como /kê/ ou /ki/ (com preferência esmagadora pela segunda forma); quando ele é tônico, só pode pronunciá-lo como /kê/. Seguindo esse útil critério, o fato de podermos dizer “tudo o /ki/ você fez” reforça o que já sabíamos: esse “que” é átono.

Detalhe: quando o vocábulo estiver substantivado em metalinguagem — isto é, quando estivermos falando dele, como ocorreu várias vezes nas linhas acima —, não devemos acentuá-lo, mas grifá-lo ou colocá-lo entre aspas, como fiz. Abraço. Prof. Moreno

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Acentuação Como se escreve Questões do momento

hifens — sem acento!

Professor Moreno: hoje, um aluno me questionou o porquê das palavras hífen, sêmen, pólen levarem o acento gráfico no singular e não tê-lo grafado quando plural. Fiquei mudo, porque eu não sabia responder. Não me parece correto a grafia de polens, semens e hifens sem acento, uma vez que todos aqueles casos de paroxítonos que terminam em ditongos ou nas letras L, I, N, U, R, X, Ã, ÃO não dispensam o emprego deste acento quando no plural. Entendo que homens, jovens e itens não levam acento porque suas formas de singular são grafadas sem este, mas como explicar o caso das paroxítonas terminadas em N? Seria o caso de dizer que esta é apenas uma exceção ao que se estabelece para os demais casos? Gostaria de saber como explicar mais esta exceção à regra, pelo que lhe serei bastante grato. Professor — Porto Velho (RO)

Meu prezado Professor: nosso sistema de acentuação gráfica não tem exceções, eu te asseguro (os acentos de pôr, pôde, têm e vêm não contam, porque são casos especialmente definidos). Todas as palavras que preencherem determinados critérios serão acentuadas — sem choro, nem vela. No entanto, por causa de todos esses maus exemplos de que nosso país está cheio — em que alguns poderosos ou “espertos” conseguem facilmente burlar a lei —, nossos alunos têm uma grande dificuldade em imaginar uma regra que se aplique democraticamente a todos os indivíduos semelhantes, sem haver algum “jeitinho” ou algum privilégio. Para eles, se existe uma lei ortográfica, forçosamente deve haver uma série de exceções… Ledo engano!

É importante mostrar para eles que nosso léxico se compõe de uma grande maioria de palavras sem acento, ao lado de uma minoria que vai ganhar acento gráfico. Qual foi o critério utilizado para fazer essa divisão? Muito simples: a Comissão de 1943 deixou inacentuados os vocábulos de perfil mais comum — no caso, os paroxítonos terminados em A(s), E (s), O(s), EM e ENS. Inversamente, todos os que tiverem outros finais (I, UM, Ã, L, R, PS, etc.) ficarão com acento. É por isso que escrevemos tolo, cera, coroa, totem, vezes, doce, gelo, deve, (sem acento), mas hífen, ônix, flúor, ímã, órgão, ravióli, álbum (com acento). Esta distribuição de acento nos paroxítonos vai determinar o acento dos oxítonos, classe muito menos importante:

Nota que, aplicando-se o quadro acima, homem, jovem, selvagem e item ficam no grupo dos não-acentuados, enquanto pólen, hífen, hímen ficam com acento. Ora, acontece que o plural de todos eles tem exatamente o mesmo final –ens; por isso, homens, jovens, selvagens, itens, polens, hifens, himens não terão acento (sem interessar, nesse caso, qual era a forma singular). Exceção seria — aí sim, meu caro Professor! — se a regra acentuasse hífens, pólens e hímens, mas não homens, jovens ou itens; isso seria um verdadeiro pesadelo, porque obrigaria o usuário a saber quais vocábulos pertencem a cada grupo. Trocando em miúdos: a norma estabelece que todos os paroxítonos terminados em –ens NÃO terão acento, e pronto!

Além disso, ao examinarmos um vocábulo quanto à acentuação, NÃO podemos levar em consideração as diferentes formas de seu paradigma (singular, plural, masculino, feminino). Quando dizemos que aos oxítonos terminadas em ES levam acento, não estamos nos referindo, necessariamente, ao plural de vocábulos terminados em E: japonês, português, três são bons exemplos. Escrevemos juíza, juízes e juízas com acento, mas não juiz, porque o masculino não se enquadra na regra do hiato; da mesma forma, a acentuação não precisa saber que raízes é o plural de raiz. Cada forma é examinada isoladamente; se ela satisfizer o perfil normal, fica sem acento.

Para acostumar meus alunos a esse tipo de raciocínio, sempre usei o exemplo dos verbos: saí, saíste, SAIU, saímos, saístes, saíram— a 3ª do singular fica fora da regra do hiato, mas isso não é nenhum escândalo. Pode ter certeza de que, mostrando a lógica do sistema de acentuação, o aluno vai ficar muito mais seguro na hora de acentuar — podendo, inclusive, estabelecer analogias com as palavras que ele conhece (se homem não tem acento, item e modem também não têm — e assim por diante). A Comissão de 1943 trabalhava sob o espírito democrático dos países que se aliaram contra o Eixo, na 2ª Guerra; certamente por causa disso consagraram, como princípio básico de nossa acentuação, “o que vale para um, vale para todos”. Abraço. Prof. Moreno

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Acentuação Como se escreve

câmpus

Prezado Prof. Moreno: no Manual de Redação e Estilo, editado pelo O Estado de S.Paulo, temos o câmpus, os câmpus. Mas é habitual nas Universidades, como esta (Universidade Estácio de Sá), se ver, ler e ouvir o campus, os campi. Qual o correto, professor? Desde já meus mais sinceros agradecimentos por sua gentileza.

Prof. Marcos Fernando Evangelista

Meu caro Marcos: essa é uma daquelas palavras mutantes, que se encontra numa espécie de limbo entre o Latim e o Português. Alguns a usam no Latim, dando-lhe a grafia e a flexão latina: o campus, os campi ; outros já a tornaram nossa, grafando-a como outros vocábulos latinos similares (ônus, ângelus, íctus, múnus, tônus, etc. — já dentro de nosso sistema flexional e ortográfico). Eu sempre aconselho o uso da forma evoluída câmpus, já que a outra pressupõe conhecimento do Latim (que a maioria de nosso público acadêmico infelizmente não tem) e acarreta complicações desnecessárias na forma de escrevê-la (como não é Português, deve vir sempre em itálico ou sublinhada). O Inglês, muito menos flexível que nossa língua, vive às turras com esses plurais latinos — datum, data; memorandum, memoranda; erratum, errata; agendum, agenda; etc. Nós, que usamos o Português, filha direta do Latim, temos a tendência de deixar a palavra entrar no nosso sistema flexional, já que ela é mesmo de casa: o memorando, os memorandos; a errata, as erratas. Queres saber mais? Acho que deveríamos estender isso a córpus, com todas as pompas: o córpus, os córpus (deixando o uso latino o corpus, os corpora). Abraço. Prof. Moreno

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Acentuação Como se escreve

coco

Professor Moreno, desde que aprendi a escrever me ensinaram que deveria escrever côco com acento circunflexo no primeiro O, para diferenciar de cocô. Porém, tem gente que diz que eu estou errada ao acentuar essa palavra, dizendo que já não se usa mais. Eles estão tentando derrubar algo que já virou uma convicção que trago desde o Ensino Fundamental! Afinal, como é que se escreve o fruto do coqueiro? Elisa M. F.

Minha cara Elisa: a maneira como escrevemos as palavras do Português foi fixada no Acordo Ortográfico de 1943, com as alterações introduzidas por este Novo Acordo de 2009. O texto destes acordos é a base daquele sistema que o brasileiro médio chama respeitosamente de “ortografia oficial”, atribuindo-lhe uma infalibilidade maior do que a do Papa. Os estudiosos sabem que ele não é tão oficial nem tão infalível assim; prefiro, contudo, discutir isso noutra ocasião, que não sou homem de mexer em abelheiro e sair correndo.

Quando o Acordo de 1943 entrou em vigor, muitos dos brasileiros que já tinham sido alfabetizados ficaram com uma sensação natural de insegurança, uma vez que perceberam que o sistema que tinham estudado na escola havia sido substituído por outro. Quem escrevia theatro, commercio e pharmacia, por exemplo, teve de aprender as novas formas teatro, comércio e farmácia. Se as pessoas têm dificuldade em assimilar uma nova moeda (cruzeiros, cruzados, reais, etc.), podes imaginar o quanto mais vão ter, tratando-se de algo muito mais complexo, como é um sistema ortográfico…

Pois bem, o Acordo de 1943 instituiu o equivocado acento diferencial para desmanchar aqueles pares de vocábulos homógrafos (que se escrevem da mesma forma) cuja diferença, na pronúncia, repousa na oposição [E/O fechado x E/O aberto]. A partir daquele ano, desapareceu essa homografia, porque passou a escrever-se gêlo, almôço, pôrto, sêde, diferentemente de gelo, almoço, porto e sede. Aqui entra o côco, acentuado para distinguir de coco (do verbo cocar; nunca usei, mas existe). Isso nada tem a ver com o acento de cocô (oxítona terminada em O, como vovô); aliás, se não existisse o vocábulo cocô (os nenês portugueses dizem cocó…), assim mesmo o Acordo de 1943 manteria o acento de côco, indicando que o O aqui é fechado.

Acontece que o acento diferencial, na prática, revelou-se inútil e extremamente perturbador do sistema ortográfico — a tal ponto que a única alteração introduzida, de 1943 até 2009 (friso: foi a única vez que se alterou a regra ortográfica desde 1943, embora muitos de meus leitores jurariam que houve inúmeras mudanças, deste então!) — repito, a única alteração foi feita em 1971, eliminando-se esse malfadado acentinho, voltando os vocábulos a ser homógrafos: “eu estou com SEDE” e “leve isso à SEDE do sindicato”; “está faltando GELO” e “eu GELO a cerveja com o extintor” (é técnica de emergência…); “na hora do ALMOÇO” e “eu ALMOÇO sempre com meus filhos” (pelos exemplos que dou, podes ver que o contexto normalmente se encarrega de esclarecer qual dos dois vocábulos está sendo empregado). Foi aqui que o coco perdeu o acento.

Ora, embora mínima, a Reforma de 1971 era também uma mudança, e ocasionou os problemas já conhecidos: quem já tinha introjetado o sistema de 1943 passou a sentir-se inseguro, não sabendo exatamente até que ponto ele tinha sido modificado. Imagina como se sente um bravo brasileiro de 72 anos (nascido em 1930, portanto): aprendeu a escrever lá por 1940; em 1943, tudo mudou; vamos supor que, com esforço e persistência, ele tenha conseguido atualizar-se, só para ver, estarrecido, nova mudança em 1971! Vou dar uma de Sherlock Holmes: se tua professorinha ensinava côco com acento, deduzo que entraste na escola depois de 1943 e que a deixaste antes da reforma de 1971 (sem ter sido apresentada ao novo coco desacentuado). Não estou certo?

Para teu consolo, fica sabendo que não és a única a errar: milhares de pessoas, alfabetizadas antes de 1971, continuam a usar o circunflexo nesses vocábulos. Desafio alguém a encontrar um depósito de gelo sem acento, ou algum produto alimentício feito com coco sem acento — são verdadeiras raridades! Por essas e por outras, minha cara Elisa, é que sinto vontade de esganar qualquer um desses inconseqüentes que defendem a nova reforma ortográfica! Eles realmente não sabem o que fazem; só alguém completamente divorciado da realidade de nosso pobre país pode pensar em tamanha asneira! Abraço. Prof. Moreno

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Acentuação Como se escreve

acento em nomes próprios

“Olá!!! Me chamo Vanessa e sou do Rio de Janeiro. Gostaria de saber se os nomes próprios precisam realmente levar acento? Por exemplo, Claudio, pela regra de acentuação, deveria ser acentuado, mas em  alguns casos isso não acontece. Por quê? Aguardo ansiosa a resposta. Vanessa S.

Minha cara Vanessa: os nomes próprios estão sujeitos às mesmas regras de acentuação que os nomes comuns. Cláudio, Sérgio, Flávio, César, Aníbal, Félix, Dóris, Zilá, André — todos são acentuados. Ocorre que a lei permite ao cidadão portar (se ele quiser — e se ele agüentar!) o nome da maneira como foi registrado. Ora, como o Brasil só começou a ter uma Lei Ortográfica a partir de 1943, muitos Claudios, Sergios, etc., nascidos antes dessa data, escrevem lá à sua maneira — da mesma forma que também se vê a grafia Cezar, Luiz, Suzana, que hoje se escrevem com S. A alteração do nome para a forma correta pode ser requerida ao Judiciário, num processo relativamente simples. Esse recurso não me parece necessário se o problema for simplesmente o acento: quem foi registrado sem o acento devido, ou com um acento desnecessário, pode corrigir por conta própria a grafia de seu nome, que isso não é um detalhe que prejudique a sua identificação civil em documentos. Por exemplo, se meu pai e minha mãe não tivessem posto o acento no meu Cláudio, eu o poria por mim mesmo, e ninguém poderia alegar que “na certidão está sem acento”. O acento não é levado em conta na caracterização do nome do indivíduo; por isso, o melhor é sempre acentuar de acordo com a regra de acentuação que estiver vigorando, independente do registro civil.

Nota que isso também vale para o futuro: se um dia os acentos vierem a ser eliminados do nosso sistema ortográfico (a esperança é a última que morre!), nessa mesma data deixarei de usar o meu acento no A de Cláudio. Já vimos isso: quando foi adotado o sistema de 1943, o nome da cidade de Porto Alegre passou a ser grafado com o acento circunflexo diferencial: Pôrto Alegre. Em 1971, esse infeliz acento foi eliminado, e voltamos a escrever Porto Alegre. Vale o que estiver vigendo na hora em que vou escrever. Abraço. Prof. Moreno

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acento em verbo com pronome

Caro prof. Moreno: antes de mais nada, quero parabenizá-lo pelo trabalho desenvolvido e que tanto nos agrada. Minha questão é a seguinte: quando devo acentuar a última sílaba antes do hífen? Por exemplo: o que determina ser abraçá-la ou abraça-la, destruí-lo ou destrui-lo? Quais seriam as regras para construções desse tipo? Desde já agradeço a atenção dispensada. A resposta será de muita utilidade para mim.

Vivian de Castro

Minha cara Vívian: o hífen é considerado um sinal de limite vocabular; logo, qualquer vocábulo com hífen é formado de duas partes distintas: ANTES e DEPOIS desse sinal. Nos verbos com pronomes enclíticos, deves descartar o pronome e ficar apenas com o verbo — ele é o vocábulo que será levado em conta pelas regras de acentuação. Comprar, perder, repor, partir e construir são vocábulos que não recebem acento por não se enquadrarem na regra das oxítonas (terminam em R). Quando essas formas perdem o R devido ao acréscimo do pronome enclítico, no entanto, devem ser reexaminadas quanto à acentuação. Comprá-lo, perdê-lo, repô-lo e construí-lo ganham acento, enquanto parti-lo não (como vatapá, você, avô e açaí, de um lado, e saci, do outro). Abraço. Prof. Moreno

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Acentuação Como se escreve

o acento dos porquês

Para não tomar muito do seu tempo, vou direto ao assunto: se porque é oxítona terminada em E, não deveria ser acentuada graficamente? Ou seria ela uma paroxítona, mas esta é uma pronúncia pouco conhecida? Por que ela é acentuada somente quando for substantivo (“o porquê”) e não quando for uma simples conjunção, já que há outras conjunções devidamente acentuadas pela regra de acentuação, como, por exemplo, porém? Eis um caso que nem mesmo a Academia Brasileira de Letras consegue resolver. Curioso, não? Pois ela não entra nem mesmo nos casos de acentos diferenciais (porque (conjunção) x porquê (substantivo). Lia S. — Florianópolis

Prezada Lia, imagino que aquele teu comentário “Nem mesmo a Academia consegue resolver” seja brincadeirinha, não? A explicação é simplíssima: as regras de acentuação dizem respeito aos vocábulos oxítonos, paroxítonos e proparoxítonos — ou seja, os vocábulos tônicos do Português (aqueles que têm uma sílaba tônica). Em termos gerais, é simples assim: algumas dessas palavras recebem acento gráfico, outras não, de acordo com as regras estabelecidas pela Norma Ortográfica. Acontece que nossa língua tem alguns vocábulos que são ÁTONOS; são poucos, é verdade, mas existem: os artigos, os pronomes oblíquos átonos, a maior parte das preposições, grande parte das conjunções, etc. Podes encontrar a lista dessas palavrinhas nanicas em qualquer boa gramática (recomendo, como sempre, a do Bechara, que ainda é o nosso gramático de referência, apesar de suas trapalhadas no Novo Acordo). Essas palavrinhas que vivem no mundo dos átonos não são afetadas pelas regras de acentuação, que só podem, naturalmente, enxergar as palavras tônicas. Pois fica sabendo que o que e o porque vivem lá, nas alturas, longe da vida agitada das oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas — e por isso não têm acento, na sua essência.

Em certas situações fonológicas ou sintáticas especiais, no entanto, eles se transformam em vocábulos tônicos: (1) quando estão no final de um grupo entonacional ou (2) quando se tornam substantivos (e, ipso facto, tônicos). Neste momento, a regra de acentuação das oxítonas e dos monossílabos tônicos passa a enxergá-los, e eles recebem o acento cabível — Você vive de quê? Ele não veio, e eu não sei por quê. Ela tem um quê misterioso — e assim por diante.

Fora dessas situações, eles voltam a ser pacatos habitantes da nuvem em que moram os vocábulos átonos. Isso fica bem claro se comparararmos o exemplo “Ele não veio, e eu não sei por quê” com, digamos, “Ele não veio, e eu não sei por que fiquei aqui esperando”. Ao sair da posição extrema de um grupo entonacional, (os professores antigos diziam “no final da frase”, mas eu não gosto, porque o fenômeno também ocorre no meio da frase, antes de certas vírgulas, do dois-pontos e do ponto-e-vírgula), ele deixa de ser tônico e perde seu acento. Em suma: normalmente, esses dois vocábulos são átonos e, conseqüentemente, não têm acento; nos dois casos em que se tornam tônicos, são tratados como vocábulos comuns. Imagino que a ABL saiba disso — ou deveria, já que anda assumindo, nos últimos meses, ares de grande autoridade sobre nosso idioma. Abraço. Prof. Moreno

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Acentuação Como se escreve Emprego das letras

fluido ou fluído — como explicar?

Olá, tudo bem? Adorei sua página. Muito explicativa e didática. Aproveitando essa particularidade, tenho uma dúvida — não do que é certo ou errado, mas de como explicar uma coisa de forma que outras pessoas parem de cometer o mesmo erro. Sou professora de Materiais Dentários em uma Faculdade de Odontologia. Dentro de minha disciplina, trabalhamos muito com propriedades reológicas de Materiais, ou seja com sua viscosidade. E volta e meia, meus alunos, e até mesmo o meu assistente, insistem em dizer que o material é fluído e não o correto, que é fluido, com a tônica no I.  Já fiz de tudo, até parar a aula para explicar que é igual a gratuito, mas não tem jeito. Será que você poderia me ajudar a dar tal explicação de uma forma bem convincente? Assim, pelo menos, eles pensariam antes de dizer. Obrigada e parabéns pela página. Fernanda

Minha cara Fernanda, conheço muito bem a sensação: às vezes parece que nunca chegaremos a dissipar as névoas da ignorância. No entanto, como sabes muito bem, nós professores não desanimamos com pouca coisa; voltamos, e voltamos, e voltamos, até que apareça um caminho que nos leve à mente dos alunos (dito de maneira mais chã: acreditamos, no fundo, que água mole em pedra dura tanto bate até que fura). Por isso, o melhor que posso fazer é trazer-te alguns subsídios teóricos para apoiar a tua justa batalha. Eu já escrevi sobre fluido ou fluído (dá uma olhada), mas vou reforçar alguns pontos e acrescentar outros.

É necessário que teus alunos percebam que não estás insistindo em ninharias, mas que se trata de dois vocábulos diferentes, com prosódia (posição da sílaba tônica) e acentuação distintas. De um lado, temos o vocábulo nominal (pode ser tanto substantivo, como adjetivo) FLUIDO; a pronúncia é FLUI-do, com a primeira sílaba pronunciada como fui ou Rui. Como a vogal tônica é o U, é evidente que não cabe pôr um acento sobre o I. Este é o vocábulo que aparece em “mecânica dos fluidos“, “fluido de freio”, “substância fluida“, “a sala está com maus fluidos” (para quem acredita), ou, finalmente, no início do poema Antífona, de Cruz e Sousa:

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras

De luares, de neves, de neblinas!

Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas…

Incensos dos turíbulos das aras.

Sei que não é muito próprio para uma aula de Materiais Dentários, mas talvez até fosse estratégico mostrar a teus alunos como o terceiro verso ficaria destruído se o adjetivo fluidas fosse pronunciado como eles querem.

Do outro, temos o particípio do verbo fluir, FLUÍDO, à semelhança de caído, saído: “O filme era tão bom que eles não se deram conta que mais de duas horas haviam fluído“; “Havia um vazamento no tambor do freio, e todo o fluido havia fluído para o chão da garagem”. Acho importante ressaltar, na tua argumentação, que este vocábulo leva acento pela regra do hiato.

Acontece que há uma tendência popular a mudar a prosódia de termos como gratuito, circuito, fortuito. Em muitas rádios já se ouve entradas /gratu-í-tas/, /curto-circu-í-to/, com o I tônico — o que é um contra-senso, porque, se fosse tônico, deveria levar o mesmo acento de ruído e caído. Este é o processo que está agindo sobre o fluido, levando as pessoas descuidadas a pronunciá-lo da mesma forma que o particípio fluído. Isso ainda se aceita nos que não tiveram a sorte de ter estudo; agora, vamos combinar: alunos da Odonto, futuros profissionais, não têm desculpa! Eles têm a obrigação de zelar pelo apuro de sua linguagem tanto quanto pelo de seu avental ou seu jaleco — e não estou falando apenas de algum detalhe secundário que eu, reacionariamente, esteja tentando preservar, mas sim da diferença entre dois vocábulos distintos, o que não é pouca coisa. Espero que isso te ajude a domar as feras! Abraço. Prof. Moreno

Depois do Acordo: contra-senso > contrassenso