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Destaque Fonologia Lições de gramática - Respostas rápidas

Rubrica

Muita gente prefere RÚBRICA à forma RUBRICA, mais aconselhável. Como vamos ver, há uma razão para isso. 

Escrevo esta coluna em Delfos, diante de uma janela que se abre para as impressionantes escarpas que abrigam o oráculo mais famoso do Mundo Antigo. Acabamos de deixar o Peloponeso, por onde viajamos cinco dias visitando aquelas cidades que vão figurar para sempre entre os lugares imortais de nossa imaginação ― Micenas, Corinto, Epidauro, Esparta e Olímpia. Nossa guia, a preciosa Konstantina, uma jovem grega que tem nome de rainha, modos de princesa e um Português que daria inveja a muita gente que conheço, faz um simpático esforço para entender os nomes gregos que pronunciamos à brasileira, tirando a sílaba tônica do lugar a que ela está habituada. Corinto, Epidauro e Olímpia são, para ela, /côrinto/, /epídauros/ e /olimpía/. Dizemos Aristóteles, Cleópatra e Tucídides; ela diz /aristotéles/, /cleopátra/ e /tucidídes/. Não há nada a estranhar: a prosódia do Português ― a colocação da sílaba tônica do vocábulo ― raramente vai coincidir com a prosódia do Grego, mas isso não vai atrapalhar nosso périplo pela Grécia: afinal, como dizia Fred Astaire na música dos irmãos Gershwin, para quem quer viver em harmonia não faz a menor diferença chamar a batata de /poteito/ ou de /potato/, e o tomate de /tomeito/ ou de /tomato/ (ouça aqui).

Ora, já que veio à baila o assunto da prosódia, selecionei, entre as perguntas que estão na lista de espera, uma que trata exatamente sobre este tema ― pergunta, aliás, muito original, como verão em seguida meus leitores. Sem dar o nome, alguém que usa o e-mail “professora.capixaba” escreve: “Até as pedras de Ouro Preto sabem que a palavra rubrica é paroxítona; ela não tem acento, rima com fabrica, do verbo fabricar, e pronunciá-la como /rúbrica/ é um erro clássico de prosódia. Até aqui estamos de acordo, e não canso de mostrar a meus alunos a pronúncia recomendada. O que eu gostaria de saber é por que quase todas as pessoas que conheço são naturalmente atraídas para esta malfadada /rúbrica/? Ela parece que tem um mel que a forma correta, rubrica, decididamente não tem. Isso se explica, professor, ou é modinha assim de gente de pouca instrução?”.

Cara professora, um fato linguístico de tal amplitude não pode ser casual. Se passamos a vida inteira a lembrar nossos alunos de que devemos dizer rubrica é porque deve estar agindo aí uma força que os arrasta no sentido contrário. Simples modinhas não atravessam várias gerações, como é o presente caso. A meu ver, neste verdadeiro cabo-de-guerra entre as duas formas atuam dois fatores que favorecem a opção por /rúbrica/. Primeiro, o grande prestígio que as proparoxítonas têm junto a alma popular, que costuma associá-las, não sem razão, à erudição e à tecnologia; é exatamente por isso que tantas vezes ouvimos, da boca de pessoas que querem falar bonito, estrovengas como /pégada/, /púdico/ ou /filântropo/.

O segundo fator, porém, é mil vezes mais forte que o primeiro. Nossa língua tem alguns processos derivacionais tão corriqueiros que conseguem atuar sobre o falante sem que ele perceba. No caso de rubrica, trata-se da oposição de dois termos ― de um lado, um verbo na 3ª pessoa do singular; do outro, um nome (substantivo ou adjetivo) ―, ambos criados a partir da mesma base, mas com sílabas tônicas diferentes. Alguém musica um poema, mas toca uma música; fabrica automóveis, mas trabalha numa fábrica; autentica um documento, mas tem uma atitude autêntica ― em suma, formam-se pares em que o verbo é paroxítono e o nome é proparoxítono: medica e médica; clinica e clínica; critica e crítica; pacifica e pacífica; pratica e prática; etc. Ora, segundo este modelo, é gigantesca a pressão estrutural para que o par de rubrica (o verbo) venha a ser o substantivo /rúbrica/. Eu não gosto, e muitos outros não gostarão, mas quando isso acontecer ― e assim prediz o oráculo da língua ―, o sistema terá dado mais um passo na sua inexorável regularização.

 

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Acentuação Destaque

xiita ou xiíta

As regras de acentuação do Português são aplicadas em níveis diferentes. É por isso que XIITA não é acentuado como SAÍDA ou JESUÍTA, e DESTRÓIER mantém o acento que JIBOIA e PARANOIA perderam com o Acordo.

A regra que determina que o I tônico nos hiatos receba o acento agudo, como ocorre em saída ou ruído, não deveria ser aplicada para se acentuar o vocábulo xiita?

Luiz Fernando R. – Petrópolis (RJ)

RESPOSTA — Meu caro Luiz Fernando: realmente, o segundo I de xiita parece atender às três condições necessárias para que nele se aplique a regra do hiato: (1) é tônico, (2) vem depois de uma vogal e (3) está sozinho na sílaba. Acontece que esta regra — sem dúvida, uma das mais importantes de nosso sistema ortográfico, antes e depois do Acordo — não se aplica SE AS DUAS VOGAIS FOREM IDÊNTICAS. Nunca se deu muita atenção a esta ressalva porque as palavras envolvidas são raras e de uso pouco frequente, como vadiice, mandriice, paracuuba ou sucuuba. Na última década, no entanto, o vocábulo xiita — não no seu sentido original, para designar uma das correntes mais importantes do Islamismo, mas no sentido alternativo de “radical, ortodoxo” — passou a ser amplamente empregado no Brasil, o que torna bem oportuna a tua pergunta.

 P.S.: “E seriíssimo, como ficaria? Não temos aqui vogais idênticas?” —  pergunta Plínio N., membro do grupo Sua Língua, do Facebook.

RESPOSTA: seriíssimo, como toda proparoxítona, leva acento obrigatório; por isso mesmo, não vai ser examinada pela regra do I e do U, que ficam num nível inferior. Existe, no nosso sistema de acentuação, uma hierarquia de regras que pouca gente conhece. Funciona assim: no primeiro nível, opera a regra das proparoxítonas; toda palavra que se enquadrar nela será acentuada, e estamos conversados. As que escapam à primeira vão ser examinadas pela regra seguinte, das oxítonas e paroxítonas; novamente, as palavras atingidas por ela receberão acento, e estamos conversados. Finalmente, os vocábulos que não forem acentuados por estas duas regras passam pela terceira e última etapa, que reúne (1) a regra dos ditongos abertos em oxítonas (fiéis, dói) e (2) a famosa regra do I e do U em hiato. Exemplificando: bau e bauru são ignoradas pela primeira (não são proparoxítonas) e pela segunda regra (oxítonas terminadas em U não levam acento), mas na terceira etapa baú ganha acento, da mesma forma que saúde ou gaúcho.

Foi aqui que a ABL lamentavalmente derrapou: como o atual Acordo reformou a regra dos ditongos abertos (ficam acentuados só os oxítonos; os demais perdem o acento: heróico e paranóia tornam-se heroico e paranoia, por ex.), a primeira edição do VOLP eliminou erradamente o acento de destróier, sem se dar conta (mais tarde voltaram atrás) de que este vocábulo já tinha sido acentuado no segundo nível (é uma paroxítona terminada em R, como dólar  e éter).

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Como se escreve Destaque Formação de palavras Outros sinais

irmãmente

Uma leitora não encontra o advérbio IRMÃMENTE no dicionário e quer saber se mesmo assim pode utilizá-lo. O Doutor explica que sim e tece algumas considerações sobre o uso do til.

 

A leitora Ana Beatriz escreve de São Paulo com uma dúvida surpreendente: ela quer saber se a frase “vamos dividir a despesa como irmãos” pode ser reescrita como “vamos dividir a despesa irmãmente“. E acrescenta: “Eu achava que era possível, mas pesquisei nos dicionários que utilizo normalmente e não encontrei esta palavra. Gostaria de saber se ela existe e, em caso positivo, se está correto grafá-la com til”. Digo que é uma dúvida surpreendente porque cresci usando este vocábulo e nunca tinha me passado pela cabeça, até agora, verificá-lo no amansa-burro. Pois fui bater o olho no Houaiss e no Aurélio (nessa ordem, e na proporção de cinco para um, os autores que mais consulto) e não achei nem sombra dele (para fazer justiça, devo registrar que ele está muito bem explicado no Caldas Aulete digital, sem dúvida o melhor dicionário gratuito da internet brasileira).

O curioso é que o vocábulo já aparece em textos portugueses do séc. 16, no tempo em que os brasileiros ainda andavam nus e assavam o vizinho para o almoço. Tudo indica que continuou a ser usado sem interrupção, pois vem registrado no avô e no bisavô de nossos dicionários: “irmãmente — com amor de irmãos”, define Bluteau (1712); “a modo de irmãos, em boa paz e harmonia”, define Morais (1813). Além disso, os bons escritores decididamente o aprovaram, porque não faltam exemplos de seu emprego. No Brasil, basta ouvir Machado de Assis: “dividimos muita vez esse pão da alegria e da miséria, irmãmente, como bons irmãos que éramos”; “homem e macaco sentam-se em face um do outro na sala de jantar e comem irmãmente as duas refeições”; “posto que Bernardo Guimarães fosse mais velho que nós, partíamos irmãmente o pão da intimidade”. Em Portugal, escolho Camilo: “Depois, esgotado irmãmente o cálice, morrerem ambos”; “dois comendadores gordos, que devoravam  irmãmente um pastelão de ostras”. Só com esses dois curingas eu poderia dar o jogo por encerrado, mas, se quiserem, há ainda Eça de Queirós, Euclides da Cunha e até o modernosíssimo Guimarães Rosa (“o Fafafa, que estimava irmãmente os cavalos, deles tudo entendia, mestre em doma e em criação”).

A esta altura, acredito que nem o mais empedernido descrente terá a coragem de negar que o vocábulo existe e que é moeda boa, de livre circulação. A leitora, porém, tem todo o direito de ficar intrigada com a sua ausência nos dicionários usuais.  Sabemos que, por economia, os dicionaristas normalmente não incluem os advérbios em -mente porque seu processo de criação (basta acrescentar –mente a qualquer adjetivo) é totalmente automático e conhecido pelos falantes: quando Antônio Houaiss registrou suave, sabia que não precisava registrar suavemente. Existem, no entanto, certos casos — e irmãmente me parece ser um deles — que devem ser incluídos no dicionário porque adquiriram alguma nuança nova de significado, desvinculada de sua origem. O usuário precisa ser avisado de que diametralmente, além de indicar o sentido do diâmetro (transversal), significa também “diretamente, inteiramente”, como podemos ver na expressão “diametralmente oposto”. É indispensável, também, que se registre que redondamente significa “completamente” (“Estávamos redondamente enganados”) e nada tem a ver com a forma geométrica. Pelo mesmo motivo, acho que deveria constar que irmãmente, além de significar “fraternalmente, harmonicamente”, adquire um sentido de exatidão e simetria quando é usado com o verbo dividir; dividir irmãmente uma despesa significa dividi-la em partes rigorosamente iguais.

A dúvida sobre a grafia é compreensível, já que nenhum advérbio em –mente conserva o acento do vocábulo de origem (rápida, rapidamente; , somente; espontânea, espontaneamente). O motivo é simples: quase todos os sufixos de nosso idioma são tônicos e, portanto, assumem a sílaba tônica de qualquer vocábulo novo que vierem a formar. Dessa forma, todos os advérbios formados com –mente são paroxítonos (a sílaba tônica é “men”) e, ipso facto, não se enquadram em regra alguma de acentuação — nem antes, nem depois do famigerado Acordo. Isso, contudo, não interfere na presença do til, que é apenas um sinal indicador da nasalidade da vogal e não pode ser confundido com os acentos gráficos, o que fica bem claro em exemplos como órfã, em que o til convive com o acento, ou alemãozão, em que o vocábulo recebe dois tis. Irmãmente vai ostentar obrigatoriamente aquele til, assim como fazem cristãmente, vãmente, temporãmente e louçãmente — ou, com outros sufixos, em manhãzinha, irmãzinha, lãzudo, pãozinho, pãozão, avelãzeira.

Depois do Acordo: nenhuma palavra deste texto sofre alteração na sua grafia.


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Destaque Fonologia Lições de gramática

bauru tem hiato ou ditongo?

Começou assim:

Prezado professor: bauru é uma oxítona terminada em “u”, e por isso não leva acento. No entanto, em dicionários atuais, há autores que separam a palavra assim: ba-u-ru, como se tivesse um hiato… Qual o correto?

Magda S.

 

Resposta do Sua Língua:

Minha cara Magda, não conheço nenhum dicionário que se atreva a encontrar um hiato em bauru. Para que o “u” ficasse em sílaba separada, ele precisaria ser tônico; ora, a sílaba tônica é a última, como sabes. A pronúncia não é /ba-ú-ru/, mas /bau-rú/. Abraço. Prof. Moreno

2ª mensagem:

Professor, muito obrigada pela resposta! Mas, como o senhor pode constatar abaixo, a ABL me disse que a palavra bauru possui hiato… Por isso estou lhe enviando novamente a pergunta, pois aprendi que esta palavra tem é ditongo – exatamente como o senhor me respondeu. Em um concurso público, como a classificaria?

Magda S.

Resposta da ABL:

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ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

ABL RESPONDE

Pergunta: “A palavra bauru tem ditongo ou hiato? Certa feita, vi em um dicionário esta palavra dividida assim: ba-u-ru. Por quê? Muito agradecida desde já, Magda.”

Resposta: O correto é ba-u-ru –  hiato.

Academia Brasileira de Letras – Todos os direitos reservados

Conclusão:

Prezada Magda, alguém enlouqueceu na nossa vetusta Academia! Talvez tenha havido uma confusão com baú – aqui sim, hiato. Em bauru, a primeira sílaba é /bau/, um legítimo ditongo decrescente. Isso vale em qualquer concurso do território nacional, porque assim está em todas as gramáticas e dicionários que conheço. Deves desconsiderar essa resposta da ABL, dada sabe-se lá por quem. Não é a primeira vez que leitores, como tu, reclamam de respostas um tanto “peculiares” dadas por esse serviço de tira-dúvidas. Chego a pensar que haja um hacker infiltrado, interceptando as mensagens dos consulentes e respondendo  tudo à moda galega. Abraço. Prof. Moreno

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Acentuação Como se escreve Destaque Formação de palavras

sequência de advérbios em -mente

Professor Moreno, sempre tive dúvida em relação à acentuação dos advérbios de modo usados em conjunto. Explico melhor: rapidamente não leva acento, certo? Entretanto, se eu disser “Ele se afastou rapida e silenciosamente“, devo acentuar rápida? Ou considerá-lo como uma espécie de abreviação do advérbio e deixá-lo sem acentuação?

H. Shimura, 17 anos — Guarulhos (SP)

Meu caro Shimura, essa propriedade que os advérbios de modo têm de “fatoração” revelam a sua verdadeira natureza de vocábulos compostos: todos eles são formados da combinação de um adjetivo com o “sufixo” mente (o qual, na verdade, é o nosso velho substantivo mente, o mesmo que aparece em “o poder da mente”, “mente sã em corpo são”).  É por isso que ocorre aquela concordância obrigatória do adjetivo primitivo com o substantivo feminino: duro, dura+mente; pesado, pesada+mente; etc.

Quando, portanto, enumeramos uma série de advérbios desse tipo, acrescentamos  “mente” (que, repito, é historicamente um substantivo) apenas ao último adjetivo da série: “rápida, instantânea e silenciosamente” — o que deixa os dois primeiros intactos, sujeitos às regras de acentuação habituais. Abraço. Prof. Moreno

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Acentuação Como se escreve Destaque

Mário Quintana – com acento

Foi só entrarmos no ano do centenário do Quintana e comecei a receber consultas sobre a maneira mais adequada de grafar seu prenome: devemos escrever Mario, como ele sempre assinou, ou Mário, acentuado, como manda a regra? Eu não hesito em escolher a segunda hipótese: é Mário, rimando fônica e graficamente com o inseparável armário. Sei que muitos defendem exatamente o oposto, baseados principalmente na idéia, ainda muito difundida, de que o nome próprio não está submetido às mesmas regras de uma palavra comum, mas obedece a simples preferências individuais. Na sua grafia, como no jogo do bicho, valeria o que está escrito — seja no registro do cartório, na certidão de batismo ou na própria assinatura do indivíduo. Desculpem, mas nas linhas que seguem eu vou explicar que não é bem assim que a coisa funciona.

Em primeiro lugar, lembro que a norma ortográfica estabelecida pelos sucessivos Acordos Ortográficos sempre valeram para todos os vocábulos de nosso idioma, sejam próprios ou comuns. Os meus leitores mais experientes (leia-se “mais velhos do que eu”) devem lembrar a alteração que houve na grafia de muitos topônimos tradicionais: Triumpho virou Triunfo; Trammandahy virou Tramandaí; a nossa Porto Alegre, coitada, virou Pôrto Alegre, até que, em 1971, com a queda do acento circunflexo diferencial, voltou a ser a Porto Alegre de hoje — e não teve coré-coré. Pois fiquem sabendo que o mesmo aconteceu com os antropônimos: passamos a escrever Inácio, Luís, Teresa, Juçara, Paraguaçu, Manuel, Cláudio e Susana. E os que não foram assim registrados? O que aconteceu com o Ignacio, o Luiz, a Tereza, a Jussara, o Manoel, o Claudio e a Suzana? Por que não tiveram de mudar o seu nome, assim como ocorreu com os nomes geográficos?

A resposta é óbvia: porque nome de pessoa não é algo que possa ser alterado assim, à moda galega. Meu nome faz parte de mim, e é natural que eu seja muito sensível quanto à sua realidade física, seja no som, seja na grafia. Espero que os outros o pronunciem como sempre fizeram meus parentes e amigos; quando alguém muda sua pronúncia, trocando o timbre de uma vogal ou alterando a posição da sílaba tônica, sinto-me no direito de corrigi-lo, mostrando-lhe como devo ser tratado. Na escrita, o conjunto de sinais usados para escrever meu nome torna-se uma espécie de grafismo com o qual me identifico e no qual eu me reconheço; desrespeitá-lo representa, no fundo, desrespeitar minha própria pessoa. Não é por acaso que todo cidadão tem, assegurado por lei, o direito de portar o seu nome na grafia em que foi registrado, se quiser. Quem é Ignacio Baptista de Assumpção pode continuar a sê-lo (apesar da inevitável trabalheira que vai ter para explicar, nos infinitos guichês e repartições desta vida, que não se chama Inácio Batista de Assunção). Os Thiagos têm todo o direito a conservar o “th” do seu nomee não faz diferença se nasceram antes da vigência do Acordo de 1943, ou se nasceram na semana passada e foram assim batizados porque este era o nome do avô, ou simplesmente porque os pais acharam que, com esse agazinho, o nome ficava com mais estilo. O direito é o mesmo.

Tudo isso perde o sentido, no entanto, quando um autor deixa este mundo ingrato e passa a integrar a reduzida galeria dos personagens imortais de nossa história cultural. Em pouquíssimo tempo a manutenção da grafia original de seu nome passa a ser impossível e contraproducente, pois as gerações que se sucedem, no seu infindável cortejo, não têm como guardar na memória esses usos peculiares de letras e de acentos, resquícios de antigos sistemas ortográficos que desapareceram. Aqui deverá prevalecer sempre a forma atual: Luís de Camões (e não *Luiz); Eça de Queirós (e não *Queiroz); Casimiro de Abreu (e não *Casemiro); Rui Barbosa (e não *Ruy); Euclides da Cunha (e não *Euclydes). Mário Quintana tinha o prenome inacentuado porque esse era o uso de seu tempo; hoje, contudo (na verdade, desde o Acordo de 1943), ganhou o seu acentinho agudo. As pessoas mais próximas de Quintana certamente vão estranhar a nova forma; talvez até se recusem a empregá-la, pois vão senti-la como um traço falso na lembrança que conservam do poeta. É uma reação compreensível e deve ser respeitada — mas o sistema lingüístico, na sua pressão inexorável pela padronização, já encerrou a questão há muito tempo. Hoje não importa mais saber de que maneira Mário de Sá Carneiro, Mário Palmério, Mário de Andrade ou Mário Quintana assinavam seus nomes, porque agora todos eles são Mários.

 

Depois do Acordo:

idéia > ideia

lingüístico > linguístico

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Acordo ortográfico Artigos

Mudanças na ortografia [6° de 10]

A base de nossa ortografia atual é o Acordo de 1943, implantado por Getúlio Vargas como parte de seu plano de modernizar o país. Antes dele, o brasileiro podia escolher entre diversas maneiras de representar por escrito as palavras do idioma, numa verdadeira babel ortográfica. Hoje é difícil imaginar como seria viver assim, com diferentes sistemas convivendo anarquicamente nas páginas dos jornais, nos livros, nos dicionários e, o que era pior, nos bancos escolares. Foi o Acordo de 1943 que trouxe ao país a unidade que hoje conhecemos, criando um modelo estável que sofreu, em 1971, apenas um pequeno retoque (friso que foi a única modificação ocorrida de 1943 até hoje):

(1) foi suprimido o raríssimo trema que indicava hiato (escrevendo gaüchismo, assinalaríamos que a pronúncia desejada era /ga-u-chis-mo/ e não /gau-chis-mo/, além de evitar que algum leitor tomasse o vocábulo como um derivado de gauche —”esquerda”, em Francês — e lesse /gochismo/;

(2) foi suprimido o acento subtônico dos derivados em –mente e em –zinho (escrevia-se gêniozinho, sòmente, cafèzinho, espontâneamente);

(3) foi suprimido o acento circunflexo diferencial dos pares com E ou O aberto e fechado (gêlo:gelo, almôço:almoço; tôda:toda; mêdo:medo).

Sucinto como deve ser, o texto desta minirreforma gastou apenas um parágrafo para definir os três acentos que deviam ser suprimidos do sistema de 1943 — e pronto.  Em vez de seguir a mesma prática de indicar apenas as supressões, o Acordo assinado este ano é um amontoado de regras desordenadas, mal concebidas e redigidas de maneira pedestre. Os participantes desta amaldiçoada comissão dedicaram-se à tarefa completamente redundante de dizer, de novo, tudo o que 1943 já tinha conseguido dizer de forma mais clara e organizada. A conseqüência é a falsa aparência de complexidade que o texto assume para o leitor não-especializado, que não percebe, por trás desse palavreado cheio de farofa, que a montanha está parindo um esquálido ratinho. Pois esta é a razão de ser da coluna de hoje: definir, com clareza, o que mudará — para o Brasil, para nós, para mim e para você, meu caro leitor — o que mudará, repito, se a comunidade aceitar este novo modelo e consagrá-lo pelo uso.

Para nós, brasileiros, é importante esclarecer que este Acordo só inova, com relação ao modelo de 1943, na acentuação e no emprego do hífen; o emprego das letras fica exatamente como sempre foi. Na acentuação, ocorre a supressão de algumas regras hoje vigentes — e só; no uso do hífen, a comissão propõe mudanças cujas conseqüências ela própria desconhece. Faço questão de assinalar que este artigo seria totalmente diferente se fosse destinado ao leitores portugueses, pois as mudanças que eles vão ter de engolir são de outra ordem e calibre.

Mudanças na acentuação — As regras que vão ser alteradas são poucas e de escassa importância:

1 — Hoje se acentuam os hiatos tônicos ÊE, ÔO: vôo, abençôo, relêem, dêem, etc. O Acordo suprime esta regra: voo, abençoo, releem, deem.

2 — Hoje se acentuam os ditongos abertos éi, éu, ói, onde quer que eles estejam: jibóia, heróico, paranóia, geléia, idéia; réu, herói, dói, réis. O Acordo só mantém esse acento nas oxítonas: réu, herói, dói, réis, troféu, mas jiboia, heroico, paranoia, geleia, ideia, assembleia, apoiam, etc.

3 — Tendo em vista que a letra U — quando colocada entre Q e E, Q e I, G e E, G e I — pode ter três valores diferentes, utilizamos hoje um sistema tripartite que indica claramente quando ela é muda, tônica ou átona: (1) se é muda, fica sem marca (quilo, guerra); (2) se é tônica, leva acento (argúi, argúem); (3) se é átona, leva trema (pingüim, agüenta). O Acordo pretende eliminar esta regra inteirinha, escrevendo tudo sem acento ou trema: quilo, guerra, argui, arguem, pinguim, aguenta. O leitor certamente entenderá que estamos falando de grafia; a pronúncia das palavras não muda, nem pode mudar. Por isso, mesmo que um dia se escreva linguiça (assim, sem trema), o U continuará a ser pronunciado obrigatoriamente.

4 — Hoje se acentuam o I e o U tônicos quando vierem depois de vogal ou ditongo e estiverem sozinhos ou formando sílaba com S: juízes, gaúcho, saíste, reúno, feiúra, baiúca. O Acordo apenas suprime o acento quando a vogal vier depois de ditongo decrescente: continuamos a escrever juízes, gaúcho, saíste e reúno, mas passamos a escrever feiura, baiuca, gaiuta, bocaiuva, reiuno.

5 — Caem os acentos diferenciais de pélo(s), péla(s), côa(s), pólo(s), pêra e (não consigo entender por quê!) o de pára. Continua o de pôr e pôde, e torna-se facultativo o de fôrma, antiga reivindicação de mestre Aurélio Buarque de Holanda. 

Mudanças no hífen com prefixos — Aqui as mudanças propostas atingem um número muito maior de palavras e parecem obedecer a um princípio mais racional. Os futuros desdobramentos que essas regras terão, contudo, não podem ser avaliados enquanto a Academia não editar o novo Vocabulário Ortográfico. As alterações mais importantes são as seguintes:

1 — Usaremos hífen quando o prefixo terminar por vogal idêntica à que inicia o segundo elemento: anti-inflamatório, micro-onda, micro-organismo, neo-ortodoxo. Se as vogais forem diferentes, contudo, não há hífen: antiestático, microindústria, neoexpressionismo, infraestrutura, autoestrada.

2 — Usaremos hífen sempre que o segundo elemento começar por H: geo-história, mini-hospital, sub-habitação, co-herdeiro.

3 — Não há hífen quando o prefixo terminar em vogal e o segundo elemento iniciar por R ou S; como sempre fizemos em casos semelhantes, o R ou o S serão duplicados: contrarregra, autosserviço, contrassenha, neorrealismo, ultrassom, antissemita.

Em princípio, caro leitor, é isso aí. A partir de 2009, os documentos oficiais vão ter de se submeter bovinamente ao novo estilo; nós, os outros, ainda teremos ainda três anos de carência, durante os quais — como ardentemente espero — a sociedade civil do Brasil e de Portugal vai acabar rejeitando essas alterações insensatas. Os editores ingênuos, que hoje ainda alimentam a fantasia de que a unificação trará a abertura de novos mercados, virão juntar-se a este coro de descontentes no momento em que perceberem que um original brasileiro, para ser publicado em Portugal ou na África, continuará a exigir uma trabalhosa adaptação ortográfica, já que Acordo, ao admitir demagogicamente dezenas de regras “facultativas”, não unifica coisíssima nenhuma. Vocês vão ver.

Depois do Acordo: conseqüência > consequência

[artigo publicado em 25/10/2008. O lançamento do VOLP pela Academia Brasileira de Letras, em março de 2009, não altera em nada o teor do que aqui foi escrito]

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Esqueçam essa reforma! [2° de 10]

Na coluna anterior, já qualifiquei de apressada e desnecessária essa reforma que, se for aprovada, vai fazer com que os brasileiros (mais) e os portugueses (menos) mudem sua maneira de escrever. Antes de prosseguir, contudo, acho melhor mostrar aos meus leitores as modificações anunciadas.

Primeiro, ela propõe que nosso alfabeto passe a incluir também as letras k, w e y. Isso muda alguma coisa? Não, porque seu uso obedecerá às mesmas regras de hoje: só nos símbolos científicos internacionais e nos vocábulos derivados de nomes próprios (shakespeariano, darwinista, keynesiano, etc.). A novidade é que, fazendo parte do alfabeto oficial, a escola deverá ensinar às crianças o lugar que essas três letras ocupam na ordem alfabética.

Outra área em que haverá inovação é a das chamadas consoantes mudas. Quanto a elas, nada vai se alterar para os brasileiros. Elas permanecem nas palavras em que sempre foram pronunciadas, como em compacto, ficção, convicto, adepto, apto, eucalipto, núpcias, etc.; são consideradas facultativas nos vocábulos em que há divergência entre as normas cultas dos dois países (aspecto ou aspeto, dicção ou dição, facto ou fato, sector ou setor, ceptro ou cetro, corrupto ou corruto, recepção ou receção, amígdala ou amídala, amnistia ou anistia, sumptuoso ou suntuoso), aliás, como sempre aconteceu, numa convivência para lá de pacífica; finalmente, desaparecem nas palavras em que são mudas — o que significa que Portugal e os países africanos vão ter de eliminá-las de palavras como acção, afectivo, acto, director, exacto, adoptar, baptizar; no Brasil, elas não são usadas desde 1943.

Na acentuação é que o ônus da mudança é mais pesado para o Brasil, pois deixaremos de aplicar algumas regras que Portugal já não adota há muito:

(1) seriam eliminados os acentos que marcam o ditongo aberto em palavras como jóia, heróico, idéia, assembléia;

(2) desapareceriam o trema e o acento agudo no U, depois de G e de Q, em palavras como sagüi, lingüiça, seqüestro, argúem, averigúem;

(3) seria eliminado o acento circunflexo dos hiatos ÊE, ÔO (vêem, vôo, enjôo, relêem).

Continuam facultativos, como sempre, (1) o acento da 1ª pessoa do plural do pretérito perfeito (na pronúncia lusa, amámos e levámos, para distinguir de amamos e levamos, do presente do indicativo); (2) o acento agudo ou circunflexo sobre o E ou o O, nas palavras em que há divergência quanto ao timbre: acadêmico, académico; Antônio, António; Amazônia, Amazónia; fenômeno, fenómeno; gênio, génio; fênix, fénix; ônix, ónix; fêmur, fémur; sêmen, sémen; tênis, ténis; Vênus, Vénus; bônus, bónus; bebê, bebé; caratê, caraté; guichê, guiché; e muitas mais.

A meta obsessiva é diminuir ao máximo as diferenças entre Portugal e Brasil, cobrando de cada país sua taxa de sacrifício. Considerando a unificação gráfica do Português como um valor supremo — o que é perfeitamente discutível, se considerarmos o preço que se vai pagar por isso —, a reforma não hesita em limar aqui, aparar ali, lixar acolá, numa sucessão de “retoques” que parecem feitos por quem não é do ramo. Isso fica muito claro nas mudanças na acentuação, insignificantes para trazer uma verdadeira melhora no sistema, mas amplas o suficiente para perturbar a vida de todos nós.

Na verdade, deveríamos ou deixar tudo como está, ou eliminar o acento de uma vez por todas. Na primeira hipótese (a mais econômica), daremos ao sistema atual o tempo indispensável para sua maturação; o trabalho que começou em 1971 deve prosseguir por mais cem anos, no mínimo, quando então ele estará consolidado, infiltrado até mesmo no movimento da mão que traça as palavras, perfeitamente assimilado por brasileiros que já terão nascido dentro dele, sem ter conhecido o sistema de 1943 ou anteriores. A segunda hipótese é muito mais radical e trabalhosa, pois exigiria um grande esforço de todos os já alfabetizados, obrigando-os a evitar, no texto escrito, as armadilhas de interpretação que hoje o acento se encarrega de desfazer — mas projetaria um futuro muito mais simples para os netos de nossos netos, pois teriam muito maior facilidade em dominar o sistema ortográfico. Não duvido que custo fabuloso dessa mudança fosse compensado, a médio prazo, pela maior eficiência dos programas de alfabetização.

O que não tem cabimento é continuar usando acentuação mas mudar algumas regras em nome de uma unificação que é utópica e impossível, pois, considerando o grande número de formas facultativas que foram mantidas, os livros do Brasil e de Portugal continuarão a ser diferentes. A unificação ortográfica, que era a razão de ser da reforma, cai como um castelo de cartas — sem falar nas incontornáveis diferenças lexicais entre um país que apregoa “berbequim para betão ao desbarato” de outro que anuncia “furadeira para concreto em oferta” — e estão falando da mesma coisa.

[publicado em 19/05/2007 – A Reforma, como sabem, entrou em vigor em 2009, e todos puderam ver que a alteração introduzida na ortografia foi pequena demais para simplificar nosso sistema, mas grande o suficiente para enriquecer as editoras]

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Acordo ortográfico Casos Decididos

Guaíra ou Guaira?

Professor Moreno, num manual de ortografia na internet vi que Guaíra, o nome da minha cidade, passará a ser escrito sem acento, pois a Reforma aboliu o acento do I e do U tônico depois de ditongo. Ele deu como exemplo feiura e bocaiuva, mas não me parece ser exatamente o mesmo caso. O senhor confirma?

Klésio W. — Guaíra (PR)

Meu caro Klésio, Guaíra vai continuar com seu tradicional acento. Quem redigiu aquele manual cometeu um pequeno equívoco ao interpretar a regra que retira o acento que colocávamos em bocaiuva e de baiuca. Não o culpo, pois o Acordo usa o conceito de ditongo de forma muito imprecisa; é necessário ler o texto todo, com muita atenção, para perceber que ele, quando fala de ditongo, está se referindo exclusivamente aos ditongos descrescentes — aqueles que apresentam a semivogal depois da vogal (ai, éi, ei, oi, ói, ui; au, éu, eu, iu, oi).

Aliás, é por isso que feiura e baiuca nunca deveriam ter ser incluídos na regra que acentua saúde, por exemplo. Nesta palavra, o U é tônico, vem depois de uma vogal (há um hiato, portanto) e está sozinho na sílaba. Em feiura, contudo, o U é tônico mas vem depois da semivogal I, o que impede que a regra se aplique. Assim, perderam também o acento boiuno, cauila, Sauipe, reiuno, guaraiuva, Ipuiuna, seiudo, entre outros. Como podes ver, o Acordo apenas providenciou para que um erro histórico fosse corrigido. Desses, só escapam os oxítonos: Piauí, teiú, tuiuiú.

Em casos como Guaíra ou suaíli, contudo, que são ditongos crescentes, o I tônico está contíguo a uma vogal, não a uma semivogal (GuA-Í-ra, suA-Í-li), e a regra encontra as condições necessárias para ser aplicada. Isso também vale para Guaíba, jatuaúba, biguaúna, tatuaíva e mais uma meia dúzia de vocábulos de origem indígena. Abraço. Prof. Moreno

Veja a regra aqui

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Acordo ortográfico Casos Decididos

o trema não vai fazer falta?

Caro Professor, sei que o acento gráfico é usado para indicar os casos em que a pronúncia do vocábulo vai contra o que seria sua pronúncia “natural”. Correto? Então, como vamos fazer com as palavras que tinham o trema para sinalizar que o U era pronunciado? Se seguirmos o padrão de palavras como preguiça ou enguiço, linguiça vai acabar sendo pronunciada da mesma maneira. É claro que falantes nativos sabem que o U de linguiça tem som, mas como ficam os aprendizes de Português como língua estrangeira?

Daniela Santos — Montevidéu, Uruguai

Minha cara Daniela, os falantes não-nativos vão ter de consultar o dicionário para saber se o U é ou não pronunciado (como fazemos com os vocábulos do Inglês, por exemplo); para os nativos, como percebeste, a ausência do trema não vai atrapalhar.

Na verdade, os acentos de uma língua sempre interessaram muito mais aos estrangeiros; a prática de usá-los sobre as vogais foi introduzida na Grécia por um bibliotecário de Alexandria, quando o Grego se tornou a língua da cultura de toda a bacia mediterrânea. Como grande parte dos novos leitores não conhecia a prosódia daquela língua, ele teve a idéia de assinalar a sílaba tônica por meio de pequenos sinais diacríticos, inventando, assim, a acentuação gráfica.

É exatamente por isso que sempre critiquei a atual Reforma Ortográfica por ter mexido apenas em alguns acentos; na minha óptica, ou deixávamos como estava, ou evoluíamos radicalmente, eliminando todos os acentos do idioma. O que fizeram foi desfigurar um sistema que estava funcionando, em nome de uma utópica (e impossível) unificação do Português. Abraço. Prof. Moreno

Depois do Acordo: idéia > ideia